quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016

[1879] Ainda o ramo de acácia: tem o Praia de Bote estado a formar maçons? Ou "maçong", como se diz na nôs terra?

É vencedor dos concursos do Pd'B? Veja AQUI e surpreenda-se.



[1878] Djéu em pormenor (ou quase)

Para quem quer conhecer o Djéu dos Passo antes de fazer as malas e arranjar a marmita com o farnel para uma semana de isolamento... mas com uma musiquinha a falar da rocha...

Lá d'riba
Lá d'bóxe
Beijo de longe
(Teófilo Chantre e Boy Gé Mendès - in "Café Atlântico", 1999, Cesária Évora)

Clique ao lado https://www.youtube.com/watch?v=9RocxBY0-3I

Dexam beijabe oh São Vicente
Ilha di vento, di nha cretcheu
Bó som di longe ta fazême sonhá
Ta navegá na bô doçura

Ilhéu dos passos
Guarda di bô baía
Ta protégé
Quem cum crê mas tcheu.

É bô amor, sonho d'um cretcheu
Qui t'animá ess' ilha Santa
Tem morabeza, Blue di manha
Tem sol na cada madrugada

Ilheu dos passos
Guarda di bo baía
Ta protégé
Quem cum crê mas tcheu.

E sô pa d'zeb
Que nha coração
Ta f'ca ma bô
Bô quê nha crêtcheu
Bô quê nha crêtcheu... (x 3)


[1877] Djéu é nôs terra também

Foi a 23 de Abril de 1980. Comemorava-se com selo, envelope de primeiro dia de circulação e carimbo (da Praia) o centenário da elevação do Mindelo a cidade (14.Abril.1879). Mas... com o djéu em primeiro plano, porque ele é nosso e ninguém no-lo tira.


[1876] Ainda o Carnaval do Mindelo... ou Cárnávau do Brásiu?

[1875] Mais Bau: "Raquel"

[1874] Depois do Carnaval, a música de Bau: "Verde"

[1873] Grupo de Monte Sossego - Carnaval de São Vicente, 2016, em fotos de Zeca Soares

Pormenor da foto anterior recortado pelo Pd'B, onde se vê boneco de Luís Morais a tocar clarinete





[1872] A última acácia da Ribeira de Julião

Eis a última acácia da Ribeira de Julião, antes e depois do 40.º concurso do Praia de Bote... Para os próximos concursos teremos de começar a desbastar as da Praça Nova, ou importar ramos de Santo Antão... Entretanto, os números já estão actualizados na lista de vencedores.

Antes do concurso
Depois do concurso

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016

[1871] Duas fotos do "Manelica", atracado ao cais acostável

Foto de autoria desconhecida
Foto de Eduardo Camilo

[1870] Resultados do concurso 40 do Praia de Bote

1 - Estas três pessoas, estão no Mindelo. Mas em que sítio desaparecido? 
A resposta totalmente certa seria "Estão no desaparecido coreto da Praça Estrela". Mas era suficiente dizer "Praça Estrela". Esta pergunta foi um bónus aos possíveis concorrentes, pois a imagem já tinha sido apresentada e comentada.
Vencedores:
Adriano, José, Ondina, Zito

2 - Quem é a figura que discursa à porta da Capitania, nesta foto do grande Djibla? Era de facto o Presidente da República portuguesa, Aníbal Cavaco Silva, em viagem que fez a Cabo Verde, em Julho de 2010. Outro bónus, também já aqui bastante ventilado.
Vencedores:
Adriano, José, Ondina, Zito

3 - Quais são os cinco nomes que a artéria que vai do Palácio do Povo à antiga Drogaria do Leão e ao antigo Banco Nacional Ultramarino já teve e tem? Responda assim (a ordem não interessa):
Terceira pergunta cujo conteúdo já tinha sido discutido no Pd'B. Ninguém, no entanto, falou nessa altura nem agora no primeiro nome da artéria (que agora descobrimos), Rua dos Navegadores.

a - Rua dos Navegadores
b - Rua Dom Carlos
c - Rua de Lisboa
d - Rua Roberto Duarte Silva
e - Rua dos Libertadores de África
Vencedores:
Não houve

4 - São conhecidos 9 escudos de armas de Portugal no Mindelo (pelo menos). Identifique os 5 ainda in situ; identifique os 2 que mudaram de sítio (um deles mudou de sítio mas aparentemente está perto do local inicial; o outro, está mais longe); e os 2 que estão camuflados. Responda assim:
Tema também já discutido no Pd'B

In situ:
a – Alfândega velha
b – Hospital
c – Câmara Municipal
d – Torre de Belém
e – Escola Técnica

Mudaram de sítio:
f – Um que existe no Liceu Gil Eanes, agora exposto no pátio e que era de lá ou de outro edifício
g – O do cruzeiro do morro junto ao Fortim e que agora está no pedestal da estátua a Diogo Afonso

Camuflados:
h – O do Palácio do Povo
i – O da escola da Praça Nova
Vencedores
Não houve

5 - Como se chamava este veleiro (foto de Eduardo Camilo)? Observe-o bem, porque poderá encontrar a chave para a resposta em Capitania. 

Era de facto o Manelica, com o bote pendurado de turcos na zona da popa e de que relatei um episódio em "Capitania"

Vencedores
Adriano, Ondina, Zito

Dada a confusão provocada pelos concorrentes, com múltiplas respostas (ao contrário do que foi pedido), só agora consegui fazer o cômputo geral, o que dá dois ramos para o José Lopes, e três respectivamente para o Adriano, a Ondina e o Zito. O Pd'B agradece a todos que participaram e só lamenta as falhas nas perguntas dos nomes da Rua de Lisboa e do brasão de Portugal - esta era bastante fácil, também, pois alguns deles já haviam sido ventilados no Pd'B. Surpresa para nós foi a Rua de Lisboa se ter chamado de início "dos Navegadores", coisa que só soubemos quando nos chegou às mãos o livro "Linhas Gerais da História do Desenvolvimento Urbano da Cidade do Mindelo".

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2016

[1869] Um conto são-vicentino de Carnaval, inédito de Adriano Miranda Lima

Com publicação inicialmente prometida para terça-feira gorda, este conto inédito de Adriano Miranda Lima acaba por ir hoje para o ar. Haverá assim mais tempo para leitura carnavalesca, em sintonia com o 40.º concurso do Praia de Bote, em vigor até dia 10, pelas 22h00.

Morna "Tanha", por Cesária Évora, neste link (clique abaixo))
https://youtu.be/MQoeQNTyBSU

TANHA E “INTINTAÇON” DE CARNAVAL
Fotos colecção Joaquim Saial (Carnaval do Mindelo, anos 60)

Adriano Miranda Lima
A Ribeira Bote era, ao tempo dos acontecimentos, na década de 1950, um dos bairros dos arredores do Mindelo mais dinâmicos e interventivos em iniciativas populares. É onde vive a nha Luzia com a sua filha Maria Antónia, mais conhecida por Tanha. Asseguram o seu sustento com a confecção de produtos de doçaria e pastelaria que são distribuídos por botequins e tabernas. Tempos houve em que a Luzia trabalhou como cozinheira em casa de uma família inglesa, mas logo que nasceu a filha teve de abdicar daquele ganha-pão para se governar por conta própria. Ninguém alguma vez soube quem é o pai da Tanha, já que, mulher orgulhosa e senhora do seu nariz, a Luzia nunca se julgou na obrigação de dar satisfação a quem quer que seja. Mas o tom mate da pele da rapariga, assim como os seus olhos claros e cabelos encaracolados de vagos reflexos dourados, tão distintos das características físicas da mãe, denunciavam claramente uma paternidade europeia. Não faltava então quem, associando os factos, murmurasse que Tanha era filha de inglês. E as más-línguas, sempre viperinas em destratar a vida alheia, especulavam que foi precisamente essa a razão por que a mãe foi despedida de onde trabalhava.

Foto colecção Joaquim Saial
Talvez pelas circunstâncias especiais da sua progenitura, a Luzia tratava a filha com desvelo, mas exagerando no esforço de, supostamente, a proteger dos males do mundo. Quem melhor do que uma mãe solteira para conhecer as armadilhas no caminho de uma rapariga nova, ainda mais em S. Vicente? Assim se explica que, aos 19 anos, não se conhecesse ainda à Tanha qualquer namorado, porque a mãe arranjava forma de dissuadir ou enxotar a mais leve abordagem. Pessoa de rudimentar instrução e algo introvertida, a Luzia possuía, contudo, uma apurada intuição, que funcionava como um radar à volta da filha. Muito suspicaz, nada lhe escapava e antecipava-se sempre aos problemas que lhe pudessem trazer arrelias no presente e no futuro. A Tanha vivia assim numa espécie de casulo, longe de ganhar asas e soltar-se para os devaneios próprios da sua idade.

Porém, e não obstante as obstruções mais ou menos dissimuladas, o vizinho Beto, rapaz dos seus 25 anos, ajudante de electricista na Central da cidade, estava porfiado em conquistar o coração da Tanha. Muito suspirava o rapaz quando pensava naquela “mnininha bnitinha” e de ar singelo. Ahhh, aqueles olhos grandes e meio esverdeados queimavam-lhe o coração como se duas brasas o trespassassem. Há alguns dias, resolvera bater à porta da nha Luzia para lhe declarar as suas boas intenções em relação à filha. Mas a progenitora voltou a mostrar as suas habituais reservas, dizendo-lhe que, sim senhor, não desgostava da sua pessoa, ele que até era rapaz bem-posto e com emprego certo, mas a filha era ainda muito nova… e devia aguardar mais um tempo, deixar que tudo ficasse mais amadurecido.  

O Beto é que não se conformava, ainda que não tivesse uma prova clara de que o seu amor era correspondido. Não perdia a oportunidade de se aproximar da Tanha sempre que a via deslocar-se sozinha à “morada”, e já longe das vistas da mãe. Mas, ou porque o feitio da rapariga não fosse para grandes expansões emotivas, ou porque ela acusasse os efeitos da excessiva tutela materna, a verdade é que o Beto ainda não lhe notara um sinal, pequeno que fosse, que o pudesse deixar com o coração aos pulos. Por isso, a certas horas, costumava pôr a tocar no seu gira-discos a morna Tanha, escancarando a janela para que o som, em espesso volume, varasse o ar e chegasse aos ouvidos da rapariga. Ou seja, achando que talvez fosse ele que não conseguia flamejar o coração da amada, servia-se da voz musicada de outrem para intermediar a mensagem do seu sentimento:

Bôs odjos de uva maduro
Dôs strela de ceu na bô rosto
Tanha de meu, nha Deusa, nha sonho
Dixam dormi um sono de amor

Nh'amor pa bô ó Tanha
Nem qui ondas de mar
Bêja areia
Bêja praia
Nh'amor pa bô ó Tanha
E amor de mas
Cretcheu de mar pa areia

O dia nasceu ventoso, agitando-se e enrodilhando-se em restolhadas de poeira e detritos que se espalhavam estrepitosamente por todo o lado. A Tanha saiu de casa para umas compras na “morada” encomendadas pela mãe, e sentiu logo a areia transportada pelo vento picotar-lhe as pernas. Arrependeu-se de não ter vestido ao menos uma saia travada para frustrar as inconveniências do vento. Quando passava junto ao portão dos Salesianos, ouviu alguém atrás de si: 

─Tanha, aonde vais com este tempo, menina?

─ Fazer umas compras, Beto, a mando da mamã.

─ Olha, já combinei com a Marília para falar com ela para te deixar entrar no nosso grupo de Carnaval, “Estrela do Oriente”. Como sabes, faço parte dele, mas receio que, se for eu a falar, a tua mãe ponha reticências.

─ Ah, pois…

─ E depois, sabes, a malta acha que és a pessoa indicada para ser a nossa rainha. É que temos de substituir a Guidinha… ela engravidou; pensávamos que ainda dava para disfarçar a barriga, mas parece que os meses de gravidez não tinham sido bem contados…

─ Bem, eu até que gostaria, mas a mamã tem de deixar, porque sabes como ela é...

─ Deixa lá, a Marília, que é tua prima, vai falar com ela logo à tarde. Os ensaios são no Djacô, à noite, todos os dias a seguir ao jantar. Aceitas? 

─ Mas não é só isso, menina ─ segredou-lhe baixinho ao pé do ouvido – é uma maneira de conversarmos um pouco sem o aperto da vigilância da tua mãe. Vais e vens com a Marília, e assim não deve haver problema com a nha Luzia.

Foto colecção Joaquim Saial
Depois de o Beto se despedir, ao passar ao lado da praça do Dr. Regala, a Tanha foi surpreendida por um pé-de-vento furioso e não evitou que a saia se lhe agitasse num brusco movimento ascendente deixando-lhe descobertas as coxas roliças. Ouviu-se então um longo e atrevido assobio vindo de um dos bancos da praça, onde estavam dois rapazes a conversar. ─ Malcriados de não sei que diga! ─ reagiu a rapariga, com a face ruborizada.

Mas o encontro entre os dois surtiu um efeito inesperado no ânimo da Tanha, e a expectativa de vir a ser rainha do grupo pareceu-lhe um oportuno estratagema para alterar a sua rotina, soltar as amarras com que o génio da mãe prendia às paredes da casa os impulsos naturais da sua juventude. Estava convencida de que a prima Marília, rapariga solteira e mais velha que ela alguns anos, haveria de saber dar o recado e demover qualquer resistência por parte da nha Luzia. A Marília era uma moça alegre e sempre bem-disposta, que alguns até consideravam “esporpozenta”, mas que tinha uma conversa capaz de quebrar o gelo ao mais sisudo. Foi com estes pensamentos que prosseguiu o resto do seu trajecto.

Ribeira Bote envolvia-se de corpo e alma nos preparativos para o Carnaval. O grupo “Estrela do Oriente” tinha o seu epicentro no bairro e era a menina dos olhos dos seus habitantes. Toda a gente contribuía com a sua quota-parte de esforço e boa vontade para o sucesso do grupo, que competia com os rivais, como “Estrela da Marinha”, “Vindos do Oriente” e outros, no desfile da Terça-Feira de Carnaval. Por essa altura, a faltarem três semanas para o Carnaval, irrompiam já, aos sábados, bailes e bailinhos, um pouco por todo o lado, como motor de arranque para a explosão da ansiada Terça-Feira. Era um consolo ouvir o som de cavaquinhos, violas, trompetes e clarinetes a escoar das salinhas de baile, fazendo tanger corpos enlaçados, estuantes de sensualidade. As “mascrinhas” isoladas ou em pequenos grupos apareciam e entretinham as pessoas com a espontaneidade das suas brincadeiras, diabruras e “mofinezas”, independentemente do sexo e da idade de quem se ocultava atrás dos disfarces. Para o desfile do grupo do bairro, as costureiras não tinham mãos a medir no esforço de aprontar tudo a tempo. A Tanha foi contagiada pelo convite do Beto e só esperava o consentimento da mãe. ─ Ela irá deixar? ─ perguntava com os seus botões.

Mas, para surpresa de todos, a nha Luzia autorizou, sem aparentar grande resistência. A Marília não teve muito trabalho em convencê-la. Pelo contrário, notou-lhe um lampejo de orgulho no olhar ao saber que a Tanha ia ser a rainha do grupo, distinção apetecível e só ao alcance das mais prendadas pela natureza. Também é possível que ela se tenha questionado sobre as reais vantagens do excesso de vigilância que exercia sobre a filha. Terá concluído que o que tiver de ser acontece? Que é inútil e contraproducente continuar a travar os seus anseios? No entanto, desconfiou que nessa proposta havia provavelmente a mãozinha do Beto, que já no ano passado fora o rei do grupo.

E é assim que a Tanha passou logo a ir aos ensaios na sala do Djacô, para onde se deslocava a seguir ao jantar. Mas, quando se pensava que nha Luzia julgaria suficiente a vigilância oferecida pela Marília, de repente ela decidiu não prescindir de acompanhar também a filha. Sentava-se numa cadeira da sala e ali permanecia até terminarem os trabalhos. Assim aconteceu durante os primeiros dias, até que se deu conta de que aquilo era esforço demasiado, e provavelmente inútil, para quem tinha compromissos com um negócio, como era o seu caso. Depois de um dia se ter visto a cabecear de sono sentada na cadeira, lá resolveu abdicar dos seus cuidados. Não tardou então que o Beto começasse a esperar a Tanha e a Marília perto das escadinhas do Hospital, no trajecto para a sala do Djacô. A rapariga integrou-se com facilidade nos trabalhos do grupo, até porque a sua tarefa estava facilitada, já que não precisava obedecer a qualquer coreografia, bastando-lhe tomar mais tarde o seu lugar no carro alegórico ao lado do rei, o Beto. De qualquer maneira, tinha de aprender o hino do grupo e cantá-lo, afinado, com todos os elementos. A marcha dançada seria do mesmo modo dispensável à rainha indigitada, mas ela gostava de se incorporar em todos os actos dos ensaios. Sem dúvida que a grande alteração na sua vida foi o estreitar da sua relação com o Beto, iniciando-se um namoro que já não podia ter retorno, marcando indelevelmente os seus dois destinos. 

Chegou a Terça-Feira ansiosamente esperada. “Mascrinhas”, “mandingas”, foliões de toda a espécie, pessoas envergando os mais diferentes e criativos trajes e enfeites, enchiam as ruas da “morada”, afluindo em grande parte dos arredores da cidade e inflamando as multidões que pejavam os passeios. Por coincidência, um grande navio de guerra inglês de passagem pelo Porto Grande despejara na cidade um enorme contingente de marinheiros, muitos dos quais não tardaram a escangalhar a compostura militar, contagiados pelo fervor festivo do povo mindelense, com o que certamente não contavam quando aportaram à ilha.

À hora certa, o grupo “Estrela do Oriente” saiu da Ribeira Bote, passou pela Fonte do Doutor a caminho da rua de Lisboa, para mais tarde ir postar-se na Praça Nova, onde seria eleito o grupo vencedor do desfile. Nha Luzia estava num dos passeios da rua de Lisboa à espera de ver a sua rainha entrar no coração da cidade, reinando por um dia. Avistou-a e acenou-a efusivamente. A Tanha, ao lado do seu rei, envergava uma indumentária de cor azul clara de inspiração oriental, feita de cetim, misto de caftan e abaya. Uma espécie de véu pendia-lhe da cabeça mas deixando o rosto descoberto, no esplendor dos seus olhos luminosos irradiando feitiço. Na cabeça uma coroa dourada. ─ Ah, como está bonita a minha filha! ─ não se conteve a nha Luzia ─ é a Tanha, é minha filha! ─ gritou ela, radiante, pulando, para os que estavam junto dela.

Não chegaria a apurar-se qual foi o grupo vencedor nesse ano, porque gerou-se uma confusão diabólica em que ninguém se entendia. Por fim, já se vitoriavam todos os grupos concorrentes pelo seu esforço e empenhamento, quando subitamente um dos marinheiros ingleses saiu do meio da multidão, subiu ao palco e, esbaforido, gritou a plenos pulmões:

─  Hold on, hold on! This isn't fair. You must elect a group. And there is only a winner: Estrela do Oriente!; and you must also choose a Carnaval queen. Today, the mindelense queen is Tanha! God save the queen Tanha! 

Toda a gente ficou de boca aberta, espantada, pois tal coisa nunca antes se vira no Carnaval da ilha. 

Seguiu-se o baile no Djacô, com participação de todos os elementos do grupo. A noite ia esgotar o resto das energias físicas, que não as mentais porque essas não têm prazo de duração; são um continuum que se resguarda em permanência no fundo da alma mindelense. Ainda se comentava o acto inusitado do folião do marinheiro inglês, quando o rei e a rainha do grupo deram início ao baile, a que se juntaram de imediato todos os companheiros, irmanados no mesmo desejo de levar ao rubro o ardor da festa. E ela se soltou com frenesim pela noite dentro, com o conjunto musical a não deixar os seus créditos por mãos alheias. Cavaquinhos, violas, violões, bateria, pandeiro, clarinetes e trompetes formavam um compósito de ritmos e harmonias que mexiam com os sentidos do mais comedido folião. Algumas mamãs e titias que, sentadas em bancos e mochos, assistiam ao baile, foram aos poucos regressando a casa, fatigadas pelo rebuliço do dia, e nha Luzia não foi excepção, instada por uma vizinha. A mamã vigilante não se fez rogada porque no dia seguinte tinha uma importante encomenda a satisfazer para o botequim de nha Luísa Manobra.

Foto colecção Joaquim Saial
A noite já ia avançando quando, a dado momento, o Beto e a Tanha dirigiram-se, sorrateiramente, para o exterior, como que à procura de refrigério para os seus sentidos em brasa. A coladeira “Intintaçom de Carnaval” havia sido o rastilho para a explosão que se deflagrou em silêncio no interior dos seus jovens corpos, com réplicas sucessivas em cada fibra, em cada nervo. Depois, a morna Tanha, pedida pelo Beto aos músicos, serviu como uma espécie de catalisador da sua paixão; a volúpia passou a oferecer-se em toada mais lenta mas não menos sentida; se antes fora como uma onda alterosa, oscilando entre a cava e a crista, agora tudo era mais repousado, mais interiorizado e mais uniforme na sua vibração. Os dois conversaram animadamente junto à porta da sala, sentindo uma atracção mútua que era já incontrolável e carregava-se de promessas de futuro.

Às tantas, o par desceu a rua em direcção ao largo do Castilho, abraçado e diluído na noite. Aproximaram-se de um canto escuso por entre os coqueiros e arbustos do espaço ajardinado daquele clube, e caíram impulsivamente nos braços um do outro: “… nh'amor pa bô ó Tanha, ê amor de mas, cretcheu de mar pa areia...” Soprava uma aragem fresca vinda dos lados da Bela Vista, entrando encanada pela Fontinha e indo de encontro à fiada de casas da Rua de Coco. O silêncio era apenas quebrado pelo esvoaçar leve e espaçado das copas dos coqueiros. Parecia o arfar da natureza quando o rei e a rainha da “Estrela do Oriente” entraram nos seus domínios privados.

Tomar, Carnaval de 2016
Adriano Miranda Lima

domingo, 7 de fevereiro de 2016

[1868] Surpresa do Pd'B para os seus amigos, em dia de 5.º aniversário: as músicas do Carnaval do Mindelo 2016

Ver/ouvir AQUI
Foto do Carnaval de 2010 - Supomos que de Djibla

[1867] 5, já cá cantam!!!

Terça-feira gorda, um grande conto 
de Adriano Miranda Lima: 
"Tanha e intintaçom de Carnaval"

https://youtu.be/emVW_vI6EPY
Clique no link aqui em cima e veja o nosso Carnaval de 2015

[1866] Grandioso concurso n.º 40 do Pd'B, comemorativo do 5.º aniversário

Hoje, dia de festa de 5.º aniversário do Pd'B, o concurso dará prémios a todos que acertarem em pelo menos uma resposta. 5 perguntas individuais, cada uma delas tendo como prémio um ramo de acácia. Pede-se aos concorrentes que, dentro do possível respondam de uma vez às 5, para não se gerar a maior confusão desde a entrada dos animais para a arca de Noé. E que LEIAM o que se pede, coisa que nem todos costumam fazer. Entendido? LER!!! Repito: LER! Vamos a isto! Ah!... Dadas as características do concurso, o mais complicado de sempre, as respostas poderão chegar até às 22h00 de dia 10. Três dias, portanto, para vasculhar livros, fazer telefonemas e enviar emails aos amigos e familiares nas ilhas e outras inquirições que cada um ache possíveis. Vale tudo, meus amigos, vale tudo!!!

1 - Estas três pessoas, estão no Mindelo. Mas em que sítio desaparecido? 


2 - Quem é a figura que discursa à porta da Capitania, nesta foto do grande Djibla?


3 - Quais são os cinco nomes que a artéria que vai do Palácio do Povo à antiga Drogaria do Leão e ao antigo Banco Nacional Ultramarino já teve e tem? Responda assim (a ordem não interessa):

a - Rua A
b - Rua Y
c - Rua W
d - Rua K
e - Rua Z

4 - São conhecidos 9 escudos de armas de Portugal no Mindelo (pelo menos). Identifique os 5 ainda in situ; identifique os 2 que mudaram de sítio (um deles mudou de sítio mas aparentemente está perto do local inicial; o outro, está mais longe); e os 2 que estão camuflados. Responda assim:

In situ:
a -
b -
c -
d -
e -
Mudaram de sítio:
f - 
g -
Camuflados:
h -
i -

5 - Como se chamava este veleiro (foto de Eduardo Camilo)? Observe-o bem, porque poderá encontrar a chave para a resposta em Capitania. 


sábado, 6 de fevereiro de 2016

[1865] O primeiro post do Pd'B, a 7 de Fevereiro de 2011

© Joaquim Saial
A água é gratuita, o peixe depois cozinhado será decerto delicioso (talvez um "arrozcatum") e a paisagem posiciona-se como uma das melhores do mundo. Ao longe, do outro lado da baía, definitivamente único, o Monte Cara, antes Monte Washington...

Curiosamente, com uma referência ao arrozcatum, nome o blogue companheiro que tem corrido a nosso lado com grande prestígio e empenho.

[1864] Topten de 5 anos de Praia de Bote por países

Sendo um topten de 5 anos, é claro que há muitos outros países que nos visitam para além da China com as suas inexplicáveis 1392 visitas. E se os três primeiros lugares são mais que lógicos, com sua multidão de cabo-verdianos em Portugal e States, já não se compreende que a Alemanha esteja em 4.º lugar (e não a Holanda, por exemplo) e que  Rússia se situe à frente da Holanda. Mas, enfim, é esta a verdade do Pd'B.


[1863] Amanhã, o Praia de Bote faz 5 anos, comemorados com o mais longo e complicado concurso de todos os tempos




sexta-feira, 5 de fevereiro de 2016

[1862] Ainda o VI Encontro de Escritores da Língua Portuguesa

[1861] Presidente Jorge Carlos Fonseca encerra VI Encontro de Escritores da Língua Portuguesa com chave de ouro

Ver AQUI

[1860] O "Clan Macnab", outro afundamento nas águas de Cabo Verde durante a II Guerra Mundial

Ocorrência 14 - O desastre do "Clan Macnab"

(ver treze anteriores ocorrências, em posts já lançados do Praia de Bote; clique na etiqueta Ocorrência, mesmo no final deste post)

Luís Filipe Morazzo
Como vimos na peça anterior, a captura da famosa máquina “Enigma” pelas forças aliadas foi de tal modo importante para o abreviar do desfecho da guerra que, segundo a opinião de alguns historiadores, este período poderá ter rondado seguramente os dois a três anos, poupando deste modo milhares de vidas aos militares e às populações civis que estariam envolvidas em ações de guerra nesse intervalo, mais os muitos milhões de dólares em material de guerra de todo o tipo que seria perdido, bem como as inúmeras cidades e vilas que seriam destruídas inapelavelmente.

No início da segunda guerra mundial, as mensagens eram todas transmitidas por rádio, sendo facilmente intercetadas pelos inimigos. No entanto, graças às codificações da famosa máquina Enigma, os textos coletados pelos aliados permaneceram por muito tempo completamente ilegíveis. A máquina era usada para criptografar todas as comunicações militares alemãs. Os aliados, e também os alemães, acreditavam que o código secreto da Enigma era indecifrável. Neste período os aliados perderam milhares de homens, a bordo das dezenas de navios que foram afundados inapelavelmente todos os meses, especialmente nos mares em redor das ilhas britânicas.

Como já vimos através de um sistema de rotores e fios cruzados, a Enigma produzia 17.576 alfabetos substitutos e mudava automaticamente o código a cada vez que uma tecla era pressionada. A façanha dos cientistas de Bletchley Park liderados pelo génio matemático Alan Turing, os homens que realmente decifraram o laborioso código usado pelos alemães nas suas máquinas de cifragem Enigma, tem gerado inúmeras lendas, mas a aura de sigilo que se criou em torno dela foi mantida muito depois do Dia da Vitória.

Surpreendentemente, apenas em 1975 aqueles que combateram e sobreviveram à guerra do lado aliado tomaram conhecimento deste grande feito da inteligência militar que salvou milhares de vidas. E ainda que a equipe de Bletchley Park mereça cada honraria que tem recebido desde então, houve outros cujas contribuições cruciais ainda não receberam o justo reconhecimento.

Para mascarar todo este enorme logro em que os serviços secretos alemães mergulharam em relação à máquina Enigma, não bastava, no entanto, decifrar todas as comunicações secretas do inimigo: a destruição de cada navio alemão do qual a posição fosse conhecida era precedida do envio de um avião de reconhecimento que sobrevoava o local de forma que parecesse acidental. Este fazia-se ver com nitidez, e o ataque podia então ser feito sem alertar o estado-maior inimigo de qualquer outra suspeita. Deste modo, o maior segredo deste conflito foi mantido inviolável até muito para lá do seu término.

Continuando a pesquisa cronológica dos navios naufragados nas águas de Cabo Verde, no período da Segunda Guerra Mundial, chegou a vez de abordarmos o caso do navio Clan Macnab. Este vapor britânico construído em Irvine (Inglaterra), em 1920, apresentava um deslocamento bruto da ordem das 6200 toneladas, afundou-se a cerca de 100 milhas a NE da ilha da Boavista, após ter sido abalroado pelo petroleiro norueguês Strix. Este navio fazia parte do já nosso conhecido comboio SL-68 formado em 12 Março 1941, na Serra Leoa, com destino a Liverpool. 

Na tarde de 17 Março de 41, quando cruzava as águas de Cabo Verde, o comboio começou a ser alvo de fortes ataques por parte dos submarinos U-105 e U-106, (como aliás já vimos em peças anteriores). Nesta situação, a ordem que o comodoro (capitão mais antigo embarcado no comboio) transmitia imediatamente aos restantes navios, era para aumentarem a velocidade, observarem rigorosamente o silêncio do rádio e começarem a navegar em zig-zag, a fim de se tornarem alvos mais difíceis para os torpedos dos submarinos. Todos os comboios usavam como recurso de defesa passiva a técnica do zig-zag, para isso tinham um navio guia. Era este quem determinava qual o movimento evasivo a ser usado em cada ocasião. O caos muitas vezes estava lançado, quando um dos navios do comboio não conseguia executar correctamente a manobra do navio guia. O risco de abalroamento era eminente, uma vez que a navegar em comboio, os navios navegavam muito próximos uns dos outros e de noite sempre com as luzes apagadas.

No dia 17 de Março de 41, pelas 11:10 p.m., foi exatamente isso que aconteceu ao petroleiro norueguês “Strix” que não conseguiu evitar o abalroamento com o malogrado Clan Macnab, que foi atingido violentamente no porão n.º 2, pelo lado de estibordo. Após o acidente o comodoro permitiu ao comandante do Clan Macnab tirar o rumo de imediato a S.Vicente (Cabo Verde), a fim de poder sofrer as reparações que tanto necessitava. Infelizmente devido à forte entrada de água a bordo, o Clan Macnab teve de ser abandonado no dia seguinte. Os 66 náufragos ocuparam duas das baleeiras de bordo, respetivamente 36 na n.º 4 e 30 na n.º 3. 

Ao apelo de socorro lançado pelo Clan Macnab, acorreu a corveta Crocus que conseguiu recuperar os 36 sobreviventes a bordo da baleeira 4, os outros 30 continuaram a singrar na direção das ilhas de Cabo Verde. Infelizmente 16 destes náufragos morreram pelo caminho, devido à exposição aos elementos, ferimentos, fome etc. Os restantes conseguiram arribar na costa sul da ilha de S. Nicolau, perto da povoação da Preguiça, em 22 de Março. Mais tarde os sobreviventes foram transportados para a Ribeira Brava, localidade situada mais a norte desta ilha, onde receberam tratamento, roupa e melhores alojamentos.

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