quinta-feira, 3 de setembro de 2015

[1660] O "Desastre da Assistência" revisitado

Capa da 3.ª edição, de 2000
Por via de ter recebido através de Arsénio de Pina cópias de repoduções fotográficas existentes no livro que indicou como sendo intitulado "Cabo Verde" do meu saudoso professor de Antropologia Cultural António Carreira na Universidade Nova de Lisboa (ali docente em parceria com Mesquitela Lima), decidi ir buscar ao baú dos textos cabo-verdianos de lavra pessoal este que tem a ver com as imagens oferecidas pelo Pina. A ficha completa do book é "Cabo Verde - Formação e Extinção de uma Sociedade Escravocrata", Lisboa, Centro de Estudos da Guiné Portuguesa, 1.ª edição, 1972; 2ª edição, Lisboa/Praia, Instituto Cabo­Verdiano do Livro, 1983; 3ª edição, Praia, Instituto de Promoção Cultural, 2000. É precisamente esta 3.ª edição que possuo, oferecida pela minha amiga Encarnação Alves no dia em que parti da Praia, em 2002, de regresso a Portugal, depois de ter ali apresentado "Capitania". Curiosamente, das várias fotos remetidas pelo Arsénio (respigadas da 1.ª edição de 1972, suponho), só a de uma numerosa família de Assomada persiste nesta última. Enfim, mistérios editoriais... Aqui vai o texto e três das fotos para não atormentar mais os leitores, nestes tempos actuais já de si bem tormentosos...

O DESASTRE DA ASSISTÊNCIA 
Texto escrito na coluna "Cabverd di meu" (na antiga versão do jornal "Liberal"), em 21 de Setembro de 2006

A queda de um paredão no Bairro do Brasil, na rampa de acesso à Achada de Santo António, Praia, em 9 deste mês, devido a fortes chuvadas, felizmente não teve consequências humanas. Porém, o caso fez-me remontar ao domingo de 20 de Fevereiro de 1949, há cerca de 57 anos, àquele que porventura terá sido o cataclismo que mais vidas ceifou no arquipélago de Cabo Verde (abstraindo as muitas e mortíferas fomes): o chamado Desastre da Assistência. 232 mortos (quiçá mais) e 47 feridos foi o balanço da catástrofe, quase todos indigentes que iam receber a sua ração diária de comida à Assistência local.

Cadáveres retirados dos montões de pedras, aguardando sepultura
O facto ocorreu cerca do meio-dia. Debaixo do telheiro dos Serviços Cabo-Verdianos de Assistência reuniam-se milhares de pobres que diariamente ali se deslocavam para receber alimento. Essa distribuição, que fora feita durante muito tempo no recinto do quartel do Exército, passara entretanto a ser concretizada no barracão pertença da Repartição de Obras Públicas do ministério das Colónias, próximo da Delegação Marítima. A sopa fora servida e estava-se na altura do resto da entrega alimentar, o que deu oportunidade a que muitas das cerca de 2500 almas que ali iam todos os dias já não estivessem nas imediações. Tudo aconteceu de repente. A um grande ruído sucedeu-se o desabamento e consequente soterramento das vítimas. A muralha contígua, de sete metros de altura por 30 de comprimento, incipientemente construída com calhaus rolados apanhados na costa da ilha, ruíra sobre o telheiro. Na cidade pequena, a notícia do dramático evento correu depressa e logo depois centenas de populares auxiliados por soldados e pessoal dos serviços públicos procuraram prestar os primeiros socorros, removendo pedras e terra que haviam tombado sobre o telheiro. Todos os serviços de saúde foram activados e no Hospital começaram os preparativos para a recolha dos feridos.

Demos a voz ao «Diário Popular» (Lisboa) do dia seguinte que, em prosa emotiva de primeira página, faz o relato aproximado da tragédia: «Começou então, através das ruas da cidade, o trágico cortejo dos mortos e dos feridos, cujos corpos iam sendo retirados dos escombros. Uma vaga de choros e lamentos invadia toda a cidade. O trabalho de remoção das terras prosseguia lentamente e o número das vítimas ia subindo de modo assustador, verificando-se que na sua maioria eram crianças. Pouco depois o hospital estava repleto de feridos, muitos dos quais em estado grave. Cerca de 40 jaziam ali, contorcendo-se com dores. Ao mesmo tempo, na casa mortuária, os cadáveres iam-se acumulando em número impressionante E à hora a que telefonamos [as notícias nesta altura eram em grande parte enviadas para a redacção dos jornais por telefone] encontram-se ali 232. Mas parece não ser tudo, pois as terras desabadas ainda não foram completamente removidas e é de crer que ainda se encontram ali mais vítimas. No hospital, o trabalho foi verdadeiramente extenuante e registaram-se actos de grande abnegação por parte de todos os que ali acorreram a auxiliar médicos e enfermeiros.»

Cerimónia de enterramento de parte das vítimas
O governador, comandante João de Figueiredo (no cargo entre 1943 e 49, influiu na criação do Rádio Clube de Cabo Verde, em 1944), tomou as necessárias providências para obter soro e pensos, dada a escassez de reservas daqueles produtos no hospital e decidiu que as despesas com os funerais das vítimas decorreriam por conta do Governo de Cabo Verde. De igual modo enviou um telegrama para o ministério das Colónias, no qual comunicava as circunstâncias em que se havia dado o desastre. Digamos que era o mínimo que se podia fazer num tal caso. No dia seguinte, abriam-se no cemitério da Praia as valas para a deposição dos corpos recolhidos nos escombros. O comércio fechou as suas portas nessa segunda-feira de luto intenso e os sinos da igreja paroquial dobraram continuamente a finados. 

Recorramos ainda ao honesto discurso do DP, talvez não passado na censura ou mal observado por ela: «(…) telheiro onde os indigentes se reuniam. O número destes infelizes aumentara ultimamente, pois aos necessitados da cidade haviam-se juntado outros, vindos de diversos pontos da ilha, com a esperança de na capital obterem auxílio das entidades oficiais. E efectivamente, centenas de pobres e especialmente mulheres e crianças, ali recebiam diariamente a refeição.» Referimos a questão da provável distracção censória porque nos dias seguintes o assunto é esquecido neste jornal, o que indicia calamento forçado. Fome e mortes associadas eram coisas a resguardar…

Algumas das vítimas a serem colocadas na vala comum
Como sempre acontece, sobretudo para acalmar consciências, foi ordenado um inquérito ao desastre, cujo resultado desconhecemos. Mas inquéritos não ressuscitam vidas e as mais de duas centenas de mortos desse dia ficaram para sempre como marca negra na história de Cabo Verde. Digamos que estão para as ilhas como o terramoto de 1755 está para Portugal. Mas não caiamos no logro de dizer que a culpa da queda do muro foi do colonialismo, afirmação gratuita e inútil. Os muros caem quando são mal feitos, seja entre colonizados ou nas terras dos colonizadores. Por exemplo, ninguém em seu perfeito juízo poderá dizer que o paredão do bairro do Brasil caiu por culpa do colonialismo… Agora o que poderemos e deveremos questionar, como lição para futuro, isso sim, são as circunstâncias que reuniam diariamente para mendigar pão milhares de seres de uma ilha que vivera mais uma grande fome entre 1946 e 1948 (em 46 haviam perecido 30.000 naturais devido a esse flagelo). Se o Governo central e o local tivessem cumprido o seu dever de ajuda efectiva, por exemplo com criação de emprego (que não havia para aqueles párias da sociedade), o muro teria caído na mesma mas o número de mortos teria sido nulo ou bem menor. Na realidade, aquelas pobres pessoas não morreram apenas por causa do muro. Morreram também devido à miséria que desgraçadamente as fazia estar dia após dia junto a ele, estendendo a mão à caridade.  

[1659] Aprendam o que é a diversão, Congoleses

Foliões são-vicentinos "Vindos do Oriente" mostram o que é o Carnaval aos Congoleses, na cerimónia de abertura dos 11.ºs Jogos Africanos.
Ver AQUI
Foto Sapo

[1658] Imagens dos efeitos do Fred, o furacão suave...

Ver AQUI

[1657] Corsino Fortes condecorado pelo Brasil a título póstumo com Ordem do Cruzeiro do Sul

Ver AQUIAQUI e AQUI

quarta-feira, 2 de setembro de 2015

[1656] Sábado 12, na Associação dos Antigos Alunos do Ensino Secundário de Cabo Verde, em Carnide, Lisboa



[1655] Livro "Crónicas da Terra Longe", de Luiz Silva, prossegue o seu caminho, agora na Holanda



[1654] Fred, o furacão cheio de morabeza

Fred é de certeza um furacão cabo-verdiano. Passa pelas ilhas, apenas destrói algumas casas, rebenta um ou outro telhado (50 famílias desalojadas, a parte mais triste deste episódio furacónico) e um ou dois pontões marítimos mas não mata nem fere ninguém e ainda por cima empurra a desejada chuva para o arquipélago. Cheio de morabeza e talvez marido de azágua, é muito provavelmente um furacão cabo-verdiano que por aqui esteve em visita e agora migrou de novo... E, como diz o nosso amigo Zeca Soares, os mindelenses pirracente já comentam: "Ele passou ao largo e nem nos ligou..."

Veja AQUI e AQUI

terça-feira, 1 de setembro de 2015

[1653] "FRED" Astaire não encontrou Ginger Rogers e desandou (estamos a falar de furacões...)

Fred veio ao Mindelo à procura de Ginger no Eden Park ou no Park Miramar. Mas como ambos os cinemas estão mortos, o bailarino foi em busca do seu par noutras paragens...


domingo, 30 de agosto de 2015

[1648] Amanhã, mergulhe "No pó do arquivo", no "Liberal"





(...) Esta, também com grande simpatia, conduziu-me através de longo corredor orlado de gabinetes que davam para a baía até ao arquivo, onde assentei arraiais. É difícil descrever a impressão que o desorganizado local me causou. (...)

(amanhã, clique em LIBERAL)

sexta-feira, 28 de agosto de 2015

[1647] Sala de estudo na Praia de Bote

Aquele título seco e algo enigmático ali em cima, afinal diz tudo. Quem sabe, sabe. E quem quer contar algo sobre ele, que conte...

Foto de Nelson Fortes Lima
 
Antes em São Vicente, mesmo na morada (e, talvez ainda hoje em alguns locais da ilha) , hoje na Guiné-Conacri

quinta-feira, 27 de agosto de 2015

[1646] Jogo, joguinho, vândalo, vândalozinho... (ver post anterior)

O jogo e a vandalização do pedestal da estátua de Diogo Afonso (um entre muitos) datam do mesmo dia, 24 de Abril de 2014. A fotografia foi feita pelo meu amigo Nelson Fortes Lima em 22 de Janeiro de 2015.

Ou seja, em nove meses, não houve uma alma COM RESPONSABILIDADES que mandasse alguém pegar num balde, numa escova e num esfregão e limpar aquela porcaria. E, se calhar, a "vitoriosa" inscrição ainda lá está! Caso para dizer "se fosse eu, a coisa seria diferente". Só que infelizmente, não sou nem serei...


[1645] Benfica, 2 - Juventus, 1, com pintura e tudo...

Passou-se isto na Luz, nas meias-finais da UEFA Europe League, em 24 de Abril do ano passado. Garay abriu o marcador a favor dos "encarnados". Carlos Tévez empatou já no segundo tempo, mas coube a Lima apontar o tento da vitória. Sim, OK, mas que tem este suporte onde a coisa foi pintada a ver com isso? Sim, que tem? Talvez o benfiquista Adriano saiba...


[1644] Houve um tempo em que as pessoas escreviam cartas...

Esta é de Armando Napoleão Rodrigues Fernandes e enviada em 1921 nada mais nada menos que para Alepo, na Síria, cidade martirizada nos últimos tempos, por motivos que todos conhecemos. Quem seria este senhor Elias Hazzaz para quem o esforçado linguista escreveu? Não consegui sabê-lo. Mas sei que o bairro Saliba era de cristãos e de judeus (o nome Elias, não engana) e que na rua Salibé havia uma tipografia... Para quem desejar conhecer melhor Armando Napoleão, aqui ficam completos dados biográficos existentes no blogue de Barros Brito Ver AQUIQuanto à beleza do carimbo pessaol do remetente, em registo art nouveau, nem é preciso afirmá-lo. Vê-se!


terça-feira, 25 de agosto de 2015

[1643] No "Liberal", agora e em breve


No jornal digital "Liberal", sempre às segundas-feiras, leia textos curtos sobre Cabo Verde... ou esquecidos pedaços de história das ilhas, por vezes com uma pitada de humor. Clique AQUI

24.08.2015 - Joe e Adelina
(...) Tanto o Joe como a Adelina decerto se cruzaram comigo nas ruas da ilha, naquele ano de 1964, mas eu só havia de saber deles décadas depois, através deste postal que com grande probabilidade de acerto esconde uma das muitas histórias de ida de gente do arquipélago para os States. Talvez nos tenhamos visto nesta mesma rua de Lisboa que Joe escolheu para enviar em fotografia para Fairhaven. Artéria principal do Mindelo, nela se observa à esquerda a Casa do Leão, do inesquecível Sr. Celso (o postal era edição do seu estabelecimento), em frente o Palácio do Governo (após a independência rebaptizado como "do Povo" e agora entregue à guarda do Município são-vicentino) e à direita o plurim ou Mercado Municipal. (...) 

31.08.2015 - No pó do arquivo
(...) É difícil descrever a impressão que o desorganizado local me causou. Parecia que um vendaval por ali passara. Arquivos com gavetas escancaradas (alguns, tombados), cartas náuticas amarelecidas, listas da Armada, diários do Governo, números esparsos do Boletim Oficial de Cabo Verde, livros meio abertos por todo o lado, pelo chão à solta, empilhados aqui e ali, sobre a parte cimeira dos arquivos, num caos indescritível que me levou a pensar (e ainda hoje o creio) que tudo aquilo era "fotografia" deixada pela Marinha Portuguesa quando abandonou o local em 1975, após busca da documentação que mais interessava transportar para Portugal. E pó, muito pó, carradas dele, cobrindo tudo. Cheguei até a supor que após duas décadas e meia de esquecimento era eu a primeira pessoa a pisar o sítio. (...)

07.09.2015 - Escravos barulhentos, não pode ser...
(...) Por via de ampliar o acervo da minha biblioteca e arquivo cabo-verdianos, frequento há algum tempo um alfarrabista lisboeta que de quando em quando me encontra fabulosos petiscos ilhéus, seja em livro, seja em documentação de variado tipo: primeiras ou segundas edições de clássicos do arquipélago, velhos editais, cartas de governadores, cartões-de-visita, etc.. Entre esses materiais que pacientemente vou acumulando (pobre escritório, cada vez mais cheio!...), fui desencantar um edital de 1717 – época do Rei D. João V, ano da sua vitória em Matapan (ou Matapão) integrando uma armada internacional no Mediterrâneo que lutou a pedido do Papa Clemente XI contra os Otomanos e do início das obras do Palácio-Convento de Mafra – que fala sobre escravos cabo-verdianos demasiado barulhentos e de como eles deviam ser "domesticados". (...)

14.09.2015 - As três memórias mindelenses a Gago Coutinho e Sacadura Cabral
Por escrever

LinkWithin

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...