quinta-feira, 2 de julho de 2015

[1569] Memórias de Cristal (1)

UM RAIO DE SOL POENTE
Em memória da minha mãe

Adriano Miranda Lima
Naquele dia, já lá vão quase 12 anos, preparei-me para ir ler um pouco no Café Del Mar, como era hábito. A mãe acompanhou-me até ao portão de ferro do jardim. Fazia-o sempre que pressentia que eu ia sair ou eu lho anunciava. Percebia-se nesse gesto o selo inconfundível de um carinho maternal. Andava preocupada comigo, por razões da minha vida pessoal, mas nunca lhe cheguei a confessar que eu viajara para Cabo Verde mais pela vontade de estar algum tempo dilatado com ela do que por outras razões transitórias.

Segui o meu caminho, e a mãe debruçada sobre o portão de ferro a acompanhar os meus passos, ali permanecendo até que a curva da rua lhe cortou a linha de vista. Eu ia mergulhado no meu solilóquio e as pedras da calçada calavam a sua frustração por esquivar-me às irregularidades do seu desenho. Não se lhes ouvia senão o som cavo do meu pisar. São pedras ansiosas de sentir quem as calca, retentoras da respiração das almas transeuntes do sobe desce daquela rua íngreme. Se soubermos impregnar nelas o sentimento dos nossos passos, serão um infindável cardápio das nossas angústias, ilusões e alegrias. Mas hoje apetecia-me escrever, não com tinta sobre papel, ou giz sobre ardósia, mas simplesmente riscar o ar com gatafunhos anódinos e indecifráveis, na ânsia de alguém as decifrar com a tábua da sua verdade. Quem sabe até onde o vento leva o eco do nosso pensamento?

Pouco li no Café Del Mar porque a mãe não abandonava o epicentro do meu espírito - era eu agora a preocupar-me com ela. De manhã, ela tinha subido as escadas para o piso superior, com a ligeireza que os seus 81 anos ainda permitiam, para me dizer que eu tinha de tomar um bom “café da manhã” porque andava magrinho. Achava que eu não estava a alimentar-me convenientemente. Eu, acabado de me tornar sexagenário, era ainda o menino a merecer cuidados. A mãe carregou sempre com as nossas vidas, e nem a idade mais avançada lhe dava descanso. É como uma flor que não murcha por mais que o ar seque, por mais que o vento a sacuda, teimando em manter-se viçosa sobre a terra áspera.

Regressei a casa, seguindo agora contra o declive da estrada. As mesmas pedras da calçada ali estavam, expectantes de escutar o reverso da minha caminhada, de arquivar mais um testemunho de transeunte vergado sobre o seu silêncio. E pensei então em quantos inscrevem na solidez quente e inerte das pedras das calçadas as histórias das suas vidas. Sem saberem que elas são as suas mais fiéis confidentes. 

Soprava agora uma ligeira brisa proveniente dos lados da Lajinha. O Sol já estava a descair, talvez ansioso de sentir na água o refrigério do seu ardor voluptuoso.

Quando avistei a casa, a mãe já lá estava, no pequeno jardim da casa, como se não tivesse arredado pé do sítio onde a deixara duas horas antes. Foi o eco das pedras das calçadas lhe fez chegar os meus passos? Ou foi afagar-se com a frescura da tarde e aproveitou para aguardar pela minha chegada? Não sei responder. São coisas de mãe.

Ao aproximar-me, o que eu vi foi a imagem que para sempre guardarei da minha mãe aos seus 81 anos. Um raio de sol poente iluminava-lhe o rosto, em tons de luar de Agosto, fazendo-me lembrar o quadro de Renoir intitulado “Mulher com a Rosa”. Simultaneamente, uma leve brisa empurrava-lhe para trás os largos caracóis cinzentos. Nos lábios, o mesmo sorriso da mulher do quadro de Renoir. Suave e discreto, como o perfume que exalava do seu colo quando me embalava.

Tomar, 1 Julho de 2015
Adriano Miranda Lima

[1568] Poema de Valdemar Pereira

Moço, e quem lhe disse a minha identidade para me catalogar numa categoria de idade?

Valdemar Pereira



Por eu ser velhinha sei muita coisa certinha
que vem de tempos em que você nada tinha
e que ninguém determinou que podia nascer
e se seria gente perfeita para uns anos viver.


Andou olhando para meu cesto e a bengala
e eu nem sei se me tratou de velha estarola
pois (também vejo você) não lhe dou parola
já que não adivinho o que vai nessa sua tola.


Nos tempos que correm, condenam os velhos
ao abandono se não tiverem força nos joelhos.
E se isso é realmente destino de muita pessoa
só não é para os que pensam e não falam à toa.

[1567] Deputado português Ribeiro e Castro abandona Parlamento e Cabo Verde perde ali um grande amigo

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Foto Parlamento de Portugal

terça-feira, 30 de junho de 2015

[1566] Cova da Piedade (Almada) associa-se às festas do 40.º aniversário da independência de Cabo Verde, recebendo o bispo do Mindelo, D. Ildo Fortes

No Pd'B, os leitores é que ditam o andamento do blogue. Assim, só lançaremos novo post quando o actual tiver cinco comentários de cinco comentadores diferentes.


O Praia de Bote salta excepcionalmente o post anterior para dar esta notícia de última hora. Refira-se, mais uma vez, que nesse post ainda falta um comentário dos cinco necessários de comentadores diferentes - o que nos tem impedido de continuar (e continuará a impedir) a colocação de posts. Claro que a culpa é dos visitantes que não comentam (sobretudo os cabo-verdianos que todos os dias estão aqui, às dezenas, caladinhos). E comentar é absolutamente necessario para que um blogue viva. Procuraremos estar presentes na visita de D. Ildo Fortes à Cova da Piedade, para fazermos uma reportagem que no entanto só verá a luz do dia se os nossos preguiçosos visitantes se decidirem de uma vez por todas a "vir, ver e comentar". Repetimos, repetimos e repetimos: quem quer ter à sua disposição um bom e actualizado blogue, tem de colaborar com ele, comentando.
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quinta-feira, 25 de junho de 2015

[1565] Panu di tera, vendidos na Casa Serra, Oliveira e Cia., da Praia

No Pd'B, os leitores é que ditam o andamento do blogue. Assim, só lançaremos novo post quando o actual tiver cinco comentários de cinco comentadores diferentes. Neste momento, temos 5 comentários de 4 comentadores. 


Desta Casa Serra, Oliveira e Cia. nada sabemos, sequer a data da fotografia do postal ilustrado. Porém (no Pd'B há sempre um porém, não sabemos se já repararam...) temos documentação sobre a Casa Serra & Cia (de 1913) que deve ser continuação desta - a qual, por sua vez, já sucedera à casa José Coelho Serra & Cia.

A Casa Serra & Cia. fora fundada em 1862 e desenvolvia a sua actividade em São Vicente e em São Tiago, logo, no Mindelo e na Praia. Que vendiam eles, para além dos panu di tera que aqui vemos? 

Tinham comércio por conta própria de agências de navios, pois eram agentes da Empresa Nacional de Navegação  e da de Seguros Bonança (seguros terrestres), e da Companhia de Comércio e Indústria (seguros marítimos). Por grosso e a retalho, vendiam artigos de viagem, bilhetes postais ilustrados e variado sortimento de mercadorias nacionais e estrangeiras. E eram uns modernaços, com todas as condições para o business: execução rápida de qualquer encomenda, para o que tinham depósitos seus à beira-mar, ponte-cais e material de embarque só para o seu serviço.

Ah, e tinham agentes em Lisboa, pessoal de família, a Pedro Coelho Serra & Cia., na Rua da Madalena, 201, 1.º

[1564] Uns tempos maus...

Igreja de Ribeira Brava, São Nicolau
S. Nicolau
Crise alimentícia

Acentua-se dia a dia a crise alimentícia. O milho, principal alimeento do povo, já se vende a 500 réis o decalitro; o pior, porém, é que a maior parte do povo, por falta de recursos, o não pode comprar.

Para o facto chamamos a atenção do Govêrno Provincial.

Estávamos a 22 de Maio de 1913 e o texto vem na "Folha de S. Vicente", inserida em "O Futuro de Cabo Verde"...


[1563] Mota-Engil entrega primeira barragem da ilha de São Nicolau, Cabo Verde

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Este post não requer os 5 comentários habituais (facultativos, portanto)

[1562] Mindelo acolhe Conferência Nacional do Desporto

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Este post não requer os 5 comentários habituais (facultativos, portanto)

terça-feira, 23 de junho de 2015

[1561] Vive la France!!! Ou de quando a cidade da Praia foi "invadida" pelos "matelots et cadets" da Armada gaulesa... ainda por cima avec "leurs fusils"



Não conhecemos quase nada sobre esta viagem marítima com passagem por Cabo Verde que aqui trazemos hoje, realizada no início do século XX pelo cruzador francês e navio-escola "Duguay-Trouin" (ou viagens, as quais se sucediam todos os anos, como acontece ainda hoje em várias marinhas, incluindo a portuguesa com as de instrução dos cadetes do Navio-Escola "Sagres"), excepto as deduções que podem ser feitas pelas fotografias/postais ilustrados que dela/s encontrámos em várias buscas mais ou menos frutuosas.

Sabemos que a viagem a África  tinha no roteiro pelo menos Cabo Verde e em princípio o Senegal - de que também divulgamos chapas - e territórios a sul do Equador, de cuja passagem temos conhecimento por fotografias da habitual cerimónia que ainda hoje se faz com Neptuno, Rei dos Mares e paródia com fartura. Segundo o que podemos ler escrito a lápis no verso da imagem do Mindelo, uma das viagens de instrução em que o "Duguay-Trouin" escalou Cabo Verde teve lugar entre 1906 e 1907. Porém, uma das fotos da Praia tem a referência de 1902, pelo que estamos decerto a falar de viagens distintas. Refira-se que o cruzador serviu como navio-escola entre 1900 e 1912, depois de ter navegado sob o nome de "Tonquin", a partir de 1878. Ainda foi utilizado até 1937, como navio-depósito e navio-hospital.

Não conseguimos encontrar ainda relato escrito da passagem do vaso de guerra pelo Mindelo nem pela Praia, mas possuimos imagens fiáveis da sua escala na capital do arquipélago . A mais estranha é a do destacamento equipado que se desloca pela ilha como se fosse sua. Manobras conjuntas de Portugal e França? Treino gaulês à revelia das autoridades lusas, no entanto situação pouco provável? O governador, tanto podia ter sido Amâncio Cabral (1905-07) como Bernardo de Macedo (1907-09), o que não nos adianta grande coisa, por não serem personagens cuja obra conheçamos bem. Seja como for, não deixa de ser assaz estranho ver estes franciús armados até aos dentes passeando-se em terra portuguesa. Eis portanto o que sabemos da "invasão da Praia por tropas navais francesas"... Que nos poderão dizer os nossos leitores cabo-verdianos ou de outras nacionalidades, sobre o assunto? 

Tínhamos acabado de escrever o texto acima, quando demos com um precioso site VER AQUI que indica as campanhas do "Duguay-Trouin" com todo o pormenor e uma ou outra fotografia. De qualquer modo, o que dissemos, não ficou "queimado", pelo que se percebe. 

Num outro site que descobrimos em seguida, fala-se da campanha de 1909-10 VER AQUI e alude-se a Cabo Verde (ao contrário do primeiro). Neste segundo site, surge São Vicente, onde o navio chegou a 29 de Outubro de 1909, tendo levantado ferro a 2 de Novembro.

Assim, comecemos pela campanha de...  

1901-02
10  octobre 1901: avec entre autres l'éléve Henri Fournier (nous tenons à donner les noms des officiers qui devaient être attribués plus tard à des navires), quitte Brest pour les Canaries, les îles du Cap Vert, les Antilles, les Açores, la Nouvelle-Orléans, La Havane (où l'on dépose en passant l'ambassadeur, M. Cambon), Toulon, Naples, Venise, Pola, Fium, Le Pirée, Bizerte, Alger, Vigo, Bergen, Christiansand, Stockholm, Reval, Cronstadt, (où l'état-major et la promotion sont reçus par le Tsar), Helsindfors, Libau et Copenhague.
21 juillet 1902: retour à Brest et carénage.

1906-07
Embora se clique em 1906-07, o resultado da pesquisa acerta em 1907-08

1907-08
10 octobre 1907: avec entre autres Pierre Chailley, quitte Brest pour Madère, les îles du Cap Vert, les Antilles, Ténériffe, Cadix, Toulon, Ajaccio, Gênes, Naples, Messine, Venise, Fiume, Le Pirée, Smyrne, Samos, Beyrouth, Alexandrie, Bizerte, Alger, Lisbonne, Rochefort, Quiberon, Lorient, St Malo, Cherbourg, Le Havre, Amsterdam, Copenhague, Christiania, Bloody Bay, Oban, Belfast et Plymouth.
20 juillet 1908: retour à Brest et carénage.

1908-09
10 octobre 1908: quitte Brest pour Madère, les Canaries, les Antilles, La Praya, Dakar, Cadix, Barcelone, Toulon, Naples, Phalère, Alexandrie, Malte, Bizerte, Quiberon, Lorient, Dunkerque, Copenhague, Elseneur, Christiania, et de nouveau Quiberon.
22 juillet 1909: arrivée à Brest, et carénage.

1911-12
10 octobre 1911: avec entre autres Paul Teste, quitte Brest pour Madère, les îles du Cap Vert, les Antilles, Dakar, Gibraltar, Barcelone, Toulon, Ajaccio, Naples, Alexandrie, Beyrouth, Phalère, Ithéa, Venise, Syracuse, Bizerte, Alger, Cadix, La Rochelle, Quiberon, Lorient, Dunkerque, Christiania et Cherbourg.
17 juillet 1912: retour à Brest.

Só lançaremos novo post quando este tiver cinco comentários de cinco comentadores diferentes 

Fotografia da campanha africana do Duguay-Trouin" de 1906-07

À vista de Santiago
Oficiais franceses, em passeio na Praia (ou... "la Praya") 1902? 1906-07? Outra data? Um deles trepou à árvore e outro observa-o... talvez com medo que ele lhe caia em cima
Companhia de desembarque na Praia (ou... "la Praya"), comandada por oficiais com as mesmas fardas da imagem anterior - 1902? 1906-07? Outra data?

Campanha de 1905-06. O mercado de Dakar
Naturais de Dakar, à chegada ou partida do "Duguay-Trouin". "Lieutenant! Um sou!" pedem eles, ou seja, "Tenente, passe para cá uma moedinha!" Aqui, estamos também na campanha de 1905-06

sexta-feira, 19 de junho de 2015

[1560] Totói "Mãozinha", velha glória do Mindelense e do União de Tomar

Adriano Miranda Lima
De acordo com as regras do blogue, novo post só será lançado quando este e o anterior tiverem cinco comentários de cinco comentadores diferentes (ou mais...). Praia de Bote não voltará a colocar posts sem que isto aconteça. Já que este é um post de futebol, a bola está agora na mão (ou no pé) dos leitores.

Texto saído no número de Maio do jornal "Terra Nova" (Cabo Verde)

Na sua passada habitualmente calma e repousada, o Totói passa todos os dias à minha porta, em direcção ao seu Café preferido para um dedo de conversa com os amigos. Conterrâneos e amigos que somos, porque ambos nascidos em S. Vicente de Cabo Verde, só em Tomar viríamos, no entanto, a ter um conhecimento mais pessoalizado, talvez porque os seis anos de idade que me leva de avanço fossem inibitórios de um relacionamento mais próximo no nosso tempo de menino e moço. Além de concorrer também a circunstância de termos vivido em zonas diferentes da nossa cidade natal, ao contrário da quase vizinhança que partilhamos nesta bela urbe de Tomar.

António Eduardo Fortes, de seu nome de registo, nasceu em 23 de Novembro de 1938, na rua Sá da Bandeira da exótica e cosmopolita cidade do Mindelo. Desde criança, ficou conhecido como “Totói Mãozinha” por ter nascido com uma das mãos atrofiada, dado o hábito generalizado de quase toda a gente ser tratada em Cabo Verde por um “nickname” ou alcunha, obviamente que sem intenção maldosa. Tanto que por vezes não é fácil identificar alguém se apenas é tratado pelo nome de registo. E com jogadores de futebol então é que é muito raro algum ser conhecido pelo nome oficial.

Clube Sportivo Mindelense
O Totói mostrou desde cedo aptidão natural para a prática do futebol, assim como o seu irmão gémeo, João Eduardo Fortes (Djunga), infelizmente já falecido, o que os levaria muito jovens ainda para o futebol da então Metrópole.

Tanto ele como o irmão iniciaram a carreira futebolística no Mindelense, o clube de maior historial da ilha de S. Vicente, jogando duas épocas seguidas na equipa principal (o Djunga não completaria a segunda época), nas quais se sagraram campeões. Por essa altura, integraram a selecção de Cabo Verde num torneio realizado na Guiné e em que participaram também a Académica de Coimbra  e a selecção do Senegal. A Final foi disputada entre a Académica de Coimbra e a selecção de Cabo Verde, que o clube dos estudantes venceu por 4-2.

Sede do Clube Sportivo Mindelense. Foto Filipe Conceição e Silva
Durante o torneio, o treinador da Académica, reparando nas qualidades futebolísticas do Totói, perguntou-lhe se não gostaria de ir para Coimbra estudar e jogar no clube. Perante a possibilidade de ingressar num futebol mais evoluído e, incomparavelmente, com maiores perspectivas de realização desportiva, o Totói não escondeu o seu interesse. Porém, chegado a Portugal, aquele treinador falou do jovem jogador ao seu colega e amigo que treinava o Lusitano, e não tardou que um técnico adjunto do clube eborense e o Du Fialho (*) fossem a Cabo Verde para o convencer a dar o salto. 

Aceitou as condições oferecidas e em 1960 viajou para Portugal com destino àquele que era então um clube primodivisionário do futebol português.

Equipa do Lusitano. Totói é o segundo da fila da frente, a contar da direita
Lusitano de Évora
Jogando uma época no novo clube, foi, no entanto, pouco utilizado porque o titular da posição em que jogava era nem mais nem menos que o Zé Pedro, jogador internacional. No último jogo em que o Totói participou, defrontando o Braga, o técnico que ia treinar o Farense esteve a assistir ao desafio, e, mais tarde, na apresentação da equipa do Farense para a época que ia iniciar-se, falaria no jovem cabo-verdiano ao dirigente do clube.  Por sinal, o Djunga, seu irmão gémeo, já era nessa altura jogador do Farense, pelo que, cereja em cima do bolo, o Totói não hesitou em aceitar a oferta e transferir-se para o Algarve. Mas apenas esteve uma época no Farense, visto que o Peniche lhe iria fazer uma oferta mais vantajosa do ponto de vista financeiro, que aceitou, mudando novamente de clube em 1963.

Totói ao serviço do Farense, marcando um soberbo golo, em grande estilo
Ao serviço do Farense, contra o Benfica
Porém, no ano seguinte, o União de Tomar, sabendo das suas qualidades, fez-lhe uma proposta tentadora, ingressando então no clube tomarense em 1964, e com a circunstância de  ter sido o seu primeiro atleta profissional. Estando na III divisão, nesse mesmo ano o clube subiria à  II divisão e em 1968 ao mais alto escalão do futebol luso.

Totói no União de Tomar, campeão da III divisão
União de Tomar
O Totói estabilizaria a sua carreira futebolística no União de Tomar, onde jogou continuamente até 1975, tendo como companheiros de equipa, além do seu irmão Djunga, o Manuel José, padrinho do seu filho, e o Raul Águas, que viriam a seguir a carreira de treinador. A seguir, passou a adjunto do treinador, tendo estreado essa nova fase da sua carreira com o conhecido técnico Fernando Cabrita. Mais tarde, assumiria a responsabilidade daquele cargo por mais de uma vez, mas já numa fase descendente da trajectória do clube, o qual nunca mais viria a ter possibilidade de retornar ao mais alto escalão do futebol, vítima que foi da recessão económica sofrida pelo concelho de Tomar na sequência do 25 de Abril. O União de Tomar teve 6 presenças no Campeonato Nacional de Futebol da I Divisão (1968-69, 1969-70, 1971-72, 1972-73, 1974-75 e 1975-76), com a participação do Totói quer como jogador quer como técnico.

A equipa primodivisionária do União de Tomar. Totói é o 4.º da fila da frente, a contar da direita para. O irmão Djunga é o segundo a partir da esquerda, na mesma fila
O União de Tomar é o clube em que o Totói assentou definitivamente e terminou a sua carreira, e a cidade de Tomar a urbe que adoptou para viver, e onde se casou e constituiu família. Pai de um filho e duas filhas, e avô cinco de netos, sente-se plenamente identificado com a sua cidade adoptiva, que, em boa verdade, se rivaliza com a do seu nascimento no amor que dedica a ambas.

No desfiar das suas memórias futebolísticas, muito tem o Totói para contar, mas, para não alongar demasiado esta narrativa, eis apenas dois registos, cada um com o seu próprio significado, a saber. Em 30 de Março de 1969, disputava-se a 24.ª e antepenúltima jornada do campeonato da I Divisão e a luta pelo título de Campeão estava ao rubro, com o F. C. Porto na liderança, distanciado de um único ponto do Benfica (que contava, não obstante, com um jogo em atraso). Ao mesmo tempo que o Benfica tinha uma difícil deslocação a Coimbra, o F. C. Porto recebia, em pleno Estádio das Antas, o União de Tomar. Com o Porto a acusar certo nervosismo frente a um União de Tomar calmo e sereno por já nada ter a perder, o jogo chegaria ao intervalo com o marcador em branco. No segundo tempo, o Porto marca e o União de Tomar empata por Alberto, os da casa voltam a marcar e o jogo prossegue num grande frenesim, com o resultado incerto. A dado passo, o Totói entra impetuosamente na área do Porto e é rasteirado, e o árbitro marca a respectiva penalidade. O Leitão converte e empata o jogo. Numa arremetida furiosa, o Porto tenta virar o resultado e encontra no guarda-redes unionista Conhé um opositor seguro e tranquilo. E se o Porto perdeu mais do que uma oportunidade de voltar a facturar, contudo seria o União de Tomar a desperdiçar no último minuto a possibilidade de conquistar os 3 pontos quando 3 jogadores visitantes se isolaram frente ao guardião portista e o Leitão chutou fraco, no que foi quase um passe ao guarda-redes. O Porto perdeu a oportunidade de ser campeão, entregando o título ao Benfica.

Outro registo. Num jogo em Tomar, em que o União recebia o Benfica, o treinador chamou o jogador que ia marcar o Eusébio e deu-lhe instruções precisas a respeito do joelho de que o jogador adversário ainda não estava completamente recuperado de uma lesão. Para bom entendedor… Então, o Totói aproximou-se discretamente do seu colega e segredou-lhe: - Não faças isso ao Eusébio, que ele não tem culpa de ser melhor que nós. Ao que o seu colega ripostou dizendo-lhe para estar descansado que nunca tinha pensado em cumprir a recomendação do treinador. 

Em Julho de 1975, a convite do  Grémio Desportivo Amarante, de S. Vicente/Cabo Verde, foi constituída uma selecção com jogadores cabo-verdianos que actuavam em Portugal para participar num torneio no âmbito das festas da Independência de Cabo Verde. Essa selecção venceu as cinco partidas que disputou. O Totói e o Djunga integraram essa selecção, assim como o jogador do Benfica, Carlos Alhinho.

A selecção de jogadores cabo-verdianos a actuar em Portugal, que participou num torneio organizado durante as festas da independência da ex-colónia
Com o irmão Djunga, nos jogos das festas da independência nacional de Cabo Verde
Refira-se ainda que nesse mesmo ano o Totói seria convocado para a selecção de Cabo Verde, mas teve de declinar o convite por impossibilidade de conciliação com os seus compromissos profissionais e familiares.

Com o treinador Manul José, seu amigo íntimo, compadre e antigo companheiro de equipa no União de Tomar (botas de jogador, há muito arrumadas)
“Eusébio do União de Tomar” é como o consideram na cidade, significativo do reconhecimento do seu elevado contributo desportivo na fase ascensional e mais brilhante do historial do clube local. Mas as suas qualidades de homem sério e de boa conduta cívica e familiar são outro motivo de apreço geral, e provam-no a consideração e o carinho que lhe devota a cidade templária. Basta dizer que nas últimas eleições autárquicas foi o mandatário de uma força política que disputou o pleito, tendo assumido o seu papel com dignidade mas também com a discrição própria de quem procura ser amigo de todos, independentemente da cor política. A popularidade do Totói e o apreço em que é tido fizeram-no alvo de várias homenagens depois de pôr fim à sua carreira, em cerimónias participadas pelas forças vivas e pelo povo da cidade.

Mas as saudades do seu Mindelo invadem-no a toda a hora, difíceis de mitigar. As recordações da infância e da adolescência transportam-no amiúde para a sua rua Sá da Bandeira, onde partilhou diabruras sem fim com rapazes da vizinhança, como o Zizim Figueira, cronista de memórias comuns, já falecido. Os rumores do porto, a azáfama das ruas e os cheiros agridoces das lojinhas e tabernas dos lugares típicos fazem parte de uma memória sensível que resiste ao tempo. No Verão, quando as margens do rio Nabão, mais expostas à inclemência do sol, exalam odores vagamente evocativos de maresia, o seu espírito encontra similitudes com a Praia de Bote e outros lugares onde o mar da baía beija amorosamente a cidade do Mindelo. Se a nostalgia é na verdade uma constante da alma de todos os povos diasporenses, acontece que só o cabo-verdiano e o português têm em comum essa maneira muito peculiar de soletrar a palavra saudade.

Porém, elas, as saudades, só se aliviam verdadeiramente quando o coração se aconchega aos lugares amados. Foi com esse pensamento que o Totói viajou para S. Vicente em 1975 para estar presente na celebração da independência nacional e participar em alguns jogos de futebol. Em 2009, revisitaria de novo a sua ilha, dessa vez levando consigo toda a família, mulher, filhos, genros e netos. Calcule-se a emoção de um filho que regressa à terra natal levando todos os que lhe são mais queridos, imagine-se quão sublime é o reencontro entre o passado e o presente.

Com a família, em Tomar
Homem de carácter e imbuído de bons princípios, o Totói não ganhou mundos e fundos no futebol, nem pouco mais ou menos, pois os tempos eram bem outros, mas ao longo da vida soube amealhar a riqueza desse valioso capital que é o saber viver com dignidade.

 Bem-haja, amigo Totói! 

(*) Du Fialho (Alberto António Monteiro), futebolista cabo-verdiano, jogou no Benfica e terminou a carreira no Lusitano.

Tomar, 22 de Fevereiro de 2015

quarta-feira, 17 de junho de 2015

[1559] Ver São Vicente e o Mindelo, sem obstáculos de cércea duvidosa...

De acordo com as regras do blogue, novo post só será lançado quando este tiver cinco comentários de cinco comentadores diferentes (ou mais...)

De Judice Biker recebeu o nome e ela, a avenida (hoje, de 5 de Julho), aqui está fotografada, por encomenda da Casa do Leão. Vemos vários edifícios nossos conhecidos, começando pelo que vislumbramos em baixo à esquerda, a casa do senador Vera-Cruz, para além dos da Western Telegraph Company, o do templo adventista e os das residências do Dr. Aníbal e do Dr. Fonseca. Mas curioso, curioso mesmo, neste Mindelo ainda pouco conspurcado pela doença "pato-bravo-cimento-cinzentista", é ver-se a Torre de Belém (então ainda Capitania dos Portos) lá ao fundo. Uma foto feita hoje a partir deste mesmo ângulo, apanharia com um gigante azul hoteleiro e mais uns quantos obstáculos pela frente...



[1558] Djuta Ben-David regressara a Cabo Verde em Janeiro de 2014, 50 anos depois da partida (ver post anterior)

[1557] Na morte da cantora mindelense Djuta Ben-David

Ver AQUI, AQUI e AQUI

quinta-feira, 11 de junho de 2015

[1555] Divertidíssimo texto de Arsénio de Pina

Excepcionalmente e a pedido do nosso colaborador Arsénio de Pina, Praia de Bote publica este seu divertidíssimo texto escrito em 2013, mesmo sem o anterior post ter os cinco comentários regulamentares. Porém, Pd'B não publicará mais nada sem que o presente post cumpra a norma dos 5 e o anterior tenha mais três comentários (o nosso que lá está, obviamente, não conta).

Factos intrigantes ocorridos na fase de transição para a independência

Arsénio de Pina
De regresso a S. Vicente, após uma demorada permanência, embora intermitente, no exterior, acompanhei o presidente da Adeco, Eng. António Pedro Silva, em visita à Universidade do Mindelo, na apresentação, aos alunos do último ano de enfermagem, da Carta dos Direitos e Deveres dos Doentes. Esta Carta vinha sendo elaborada e aferida há mais de quatro anos por colaboradores e sócios da Adeco, nos quais me incluo, finalmente adoptada pelo Conselho Nacional da Saúde na sua reunião de 20 de Dezembro de 2011, sob proposta da actual Ministra da Saúde, Dra Cristina Fontes, que a abraçou valorizando a iniciativa e empenho da Adeco na sua elaboração, e interesse da mesma na melhoria do relacionamento entre os utentes dos Serviços de Saúde e os seus técnicos e pessoal administrativo.

Nessa apresentação da Carta, aproveitei a oportunidade para dar exemplos do mau uso desses direitos dos utentes da Saúde e do descuido e negligência no cumprimento dos deveres destes e dos trabalhadores da Saúde com duas estórias de factos ocorridos no período de transição para a independência, as quais revisito para os leitores do Expresso das Ilhas como remédio desopilante dada a componente hilariante desses exemplos, nesta época actual de crise política, económica, financeira e social da responsabilidade de banqueiros e poderosos do poder financeiro, que se riem agora do Estado, fazendo-lhe manguitos e arreganhando-lhe os dentes. Seria de se dizer bem feito!, se não fosse o povo a pagar as favas que eles comeram, porque quando o Estado podia e devia tê-los metido na ordem, na altura em que, de joelhos, pediam misericórdia ao Estado que antes exigiam mínimo, ou perfeitamente dispensável na regulamentação da economia de mercado, deu-lhes a mão cheia de dinheiro para não caírem em desgraça, adiando as vergastadas merecidas para mais tarde, que nunca apareceram.

Mas, vamos às estórias, que reconto por o humor ajudar a resistir à dor, à maldade e à estupidez. Não vou fazer ironia, porque esta despreza e condena, enquanto o humor pazigua e une.

O período que antecedeu a nossa independência nacional, chamado de governo de transição, com uma governação mista, foi dos mais turbulentos em Cabo Verde. Turbulência revolucionária legítima, gratificante para os que lutaram pela causa independentista veiculada pelo PAIGC e para os que aceitavam esses ideais, inexoravelmente em vias de concretização, não obstante a hesitação e desorientação de alguns que se enganaram na causa a defender nessa altura, e, não devemos negá-lo, também de turbulência aproveitada por malcriados, desaforados e oportunistas que assustaram muito boa gente pacata habituada à resignação do ámen. Nessa altura, encontrava-me em Lisboa, no fim da especialização em Pediatria, pelo que não posso testemunhar de visu tudo quanto se passou de bom e mau, mas, o que encontrei no regresso, em Fevereiro de 1976, permite-me aferir o que me contaram dessa época.

O Hospital de S. Vicente foi dos serviços que mais sofreram com essa turbulência, até porque as instalações eram antigas, com poucas ou nenhumas condições de trabalho, o pessoal médico e de enfermagem reduzidíssimo e as exigências dos utentes desaforadamente redobradas. Devassava-se o hospital como quem percorria quintal sem dono, turbas excitadas percorriam os corredores e serviços aos gritos de nôs terra ê pa nôs pove, dado que a administração se retraía confusa e amedrontada, e ninguém tinha coragem suficiente para enfrentar super-revolucionários de águas recentes que exigiam tudo, imediatamente, esquecendo-se da nossa pobreza franciscana. Os médicos e enfermeiros passaram a ser camaradas, e mesmo os mais reticentes dessa camaradagem novíssima engoliam-na sem pestanejar, nem com engasgues, preferível à alternativa de reacionário, catchor de dôs pê ou fascista. Houve, até, camaradas serventes que se sentiam equiparados a doutores, negando-se a lavar, limpar e arrumar as enfermarias e consultórios, esperando que fossem os enfermeiros e médicos e fazê-lo, já que todos eram iguais; para esses lunáticos, chegou o Dr. Pedro do Rosário que, ao chegar ao consultório – isso na Praia -, achou-o sujo e inoperacional, tendo o servente, perante o protesto do médico, perguntado ao médico “se o camarada Rosário não podia também limpar o consultório, na base da igualdade conquistada”. O Dr. Pedro do Rosário, que não é homem para meias medidas, não se atrapalhou: pegou no balde e na vassoura e pôs o consultório num brinco. A seguir, deu o estetoscópio e aparelho de tensão ao servente, dizendo-lhe, ao sair do consultório - para que os doentes, que estavam à espera da consulta médica, ouvissem - que o camarada fizesse a seguir a consulta. Os doentes, pasmados a princípio, caíram, em seguida, sobre o camarada servente, o qual, para se safar da sanha destes, teve de ir procurar o Dr. Pedro do Rosário, pedindo-lhe mil desculpas e reconhecendo o despropósito da sugestão; não foi fácil convencer o doutor a regressar ao consultório, com o camarada servente atrás, cabisbaixo e elucidado na prática.

Reza o livro de ocorrências do Banco de Urgência do Hospital Baptista de Sousa dessa época, estando de urgência o Dr. Teixeira de Sousa, coadjuvado pela enfermeira Luzia Rendal, que um desses revolucionários de meias-águas chegou ao Banco de Urgência, excitado, com uma filhinha pela mão com uma feridinha num dedo grande do pé, a exigir, aos gritos com o mesmo slogan de nôs terra ê pa nôs pove, actuação imediata do médico. A Enf. Luzia tinha mais do que competência para resolver essa feridinha de topada dada provavelmente nalgum panfleto reacionário, mas, dada a efervescência da época e a excitação do camarada, achou por bem mandar chamar o médico, que se encontrava ocupado noutro sector do hospital. Ia, entrementes, pacientemente, como mandam as normas, tentando acalmar o homem, já que este também protestava por achar o médico demorado. O Dr. Teixeira de Sousa lá chegou, praticamente sem demora, com ar cansado – o trabalho nessa época era duro, extenuante e permanente -, magro que nem um cação, as calças bailando-lhe sobre as pernas magras, dando a impressão de que qualquer rabanada de vento o deitaria ao chão; encaminhou-se para a saleta de consulta, sem nem olhar para a enfermeira Luzia, por o homem continuar com o seu estribilho revolucionário de nôs terra ê pa nôs pove.

A criança foi vista pelo clínico que entregou à enfermeira a receita, a fim de esta explicar ao pai como proceder para o tratamento. Talvez por o pai não ter gostado do soluto de permanganato de potássio prescrito para a desinfecção da ferida, ou tivesse acordado em dia aziago, mal ouviu a explicação da enfermeira, soltou o seu último grito revolucionário e aplicou duas valentes bolachadas na cara da enfermeira Luzia. Esta ficou, uns segundos, como que aparvalhada, espantada, para, logo em seguida, atirar todo o seu peso, que não era pequeno, e fúria sobre o homenzinho, tendo os dois ido parar ao chão, engalfinhados, com a enfermeira alapada ao sujeito a matraquear-lhe a cara com uma mão e a outra a segurar-lhe os cabelos.

As enfermeiras Joia e Dadinha e mais três serventes que estavam perto e acudiram à gritaria do homem não foram capazes de arrancar a Luzia do camarada revolucionário, este já com a cara num bife batido e a roupa em fanicos. Quis o bom Deus que estivesse nas redondezas o chefe dos Bombeiros Voluntários da Municipalidade, o prestimoso Ricardo Tristão, para ajudar a apartar os dois, só o tendo conseguido, na falta de agulheta com água, com o auxílio do extintor de incêndios do Banco de Urgência.

O homenzinho, quando se viu livre das garras da enfermeira, fugiu a sete pés. Obviamente, que se tinha enganado o pobre camarada, julgando que a enfermeira e o médico não eram do povo. Enfim, efeitos chamados colaterais de revoluções…

S. Vicente, Junho de 2013          

Visitas nas últimas 24 horas... (62 de Cabo Verde). Praia de Bote deve ser o blogue mundial que tem a proporção mais destrambelhada entre os muitos quem aqui vêm e os raros que cá colocam comentários, não há dúvida.   

             

quinta-feira, 4 de junho de 2015

[1554] Continuação da reprodução do artigo do "Diário Popular" de Lisboa

De acordo com as regras do blogue, novo post só será lançado quando este tiver cinco comentários de cinco comentadores diferentes (ou mais...))

Ver 1.ª parte AQUI; 2.ª parte AQUI; 3.ª parte AQUI

4 - Diário Popular, 17.05.1954 (há 60 anos)

(continuação) 
A ler demoradamente, saboreando estas afirmações tão actuais

Arborização e reparações em imóveis do património municipal

Entre outros factores que são de considerar para o ressurgimento da Província, parece fora de dúvida que a árvore, ou seja o problema da arborização e arbustização, ocupa, com o Porto Grande, o primeiro lugar, resultando daí que a edilidade não podia menosprezar tão momentoso e premente problema, pelo que deu grande incremento aos serviços respectivos, plantando milhares de exemplares, embora grande percentagem não vingue, o qu eleva a fazer, sem desânimo a sua substituição. Ao fundo do Largo Barreiros e dos terrenos murados da Rua Entre Clubes, umas sugestivas manchas de vegetação patenteiam-nos pequenas amostras do que se não perde nesta cruzada.

A propósito das grandes reparações nos Paços do Concelho, no prédio do Largo Owen Pinto, no mercado, no cemitério, no tribunal, etc., dizia-nos o vereador sr. Joaquim Novato Ramos:

Alguém disse, mui judiciosamente, que um dos nossos grandes males é não sabermos conservar aquilo que possuimos. Tendo presente a verdade da afirmação, o Município não tem descurado a conservação do seu património e, assim, durante este decénio, procedeu sempre às reparações e trabalhos que se mostraram necessários, sem deixar de se propor proceder às de maior vulto (como seja, o Aprisco Municipal), logo que as circunstâncias económicas o aconselharem.

Valorização da Biblioteca Municipal e estímulo da prática do Desporto

Teve sempre, o Município, a sua Biblioteca, acarinhada pelas diversas vereações. A Câmara da presidência do sr. Júlio Bento Oliveira, consagra especial carinho à Biblioteca, pelo que a tem dotado com muitas centenas de exemplares novos. Além disso, foram organizados o Arquivo e serviços em moldes modernos e tanto quanto possível perfeitos, sendo de referir a parte que em tal reorganização se fica devendo ao chefe da Secretaria, sr. Manuel Serra.

Compreendendo a função que no mundo moderno tem o desporto e manifestando plena consciência das vantagens da sua equilibrada prática, a Câmara tem dispensado a possível assistência aos clubes locais. Assim, levou a efeito a construção das bancadas do estádio municipal, a preparação da pista de jogo e o pórtico de entrada, trabalhos que ficaram valorizando o referido estádio, ao mesmo tempo que estimulam os desportistas de São Vicente.

Outro aspecto, de certo modo relacionado com a prática desportiva e que se deve mencionar é a criação da piscina de crianças da Matiota, bem como o alpendre dos infelizmente extintos "Falcões", instituição individualmente fundada, noutros tempos, pelo actual presidente do Município. [repare-se que esta última frase passou na censura, decerto devido ao facto de o censor desconhecer o que tinham sido os "Falcões/Sokols", substituídos em Cabo Verde com desvantagem pela Mocidade Portuguesa]

O inesquecível "tanquim" da Matiota - Foto (talvez) da colecção Djô Martins ou Djibla
(continua)

[1553] Entrou mais um "Chiquinho" (o 5.º) na biblioteca cabo-verdiana do Praia de Bote

Ele aí está, em edição portuguesa do Círculo de Leitores (Lisboa, Portugal), acabadinho de chegar à BCV do Praia de Bote. Junta-se aos seus quatro irmãos, de diferentes cores e feitios, mas todos da saborosíssima pena de Nhô Balta. Mais dia, menos dia, chegarão o 6.º e o 7.º que já estão debaixo de olho: a 2.ª edição (1961) e a edição de 1984. Quando esses radiosos dias tiverem lugar, daremos notícias. E já agora que falamos de "Chiquinho", veja ISTO.



"Sexa", o mesmo que "Sua Excelência" (o Governador)


[1552] Mais uma reportagem de Zeca Soares

Zeca Soares
É assim há já algum tempo. Todos os sábados de manhã, depois das 8 horas, centenas de crianças a partir dos seis, sete anos de idade, enchem alguns campos de relva sintética espalhadas pelos bairros da Ilha de São Vicente.

Neste caso, estamos perante actividades de algumas escolas de futebol juvenil, no campo de futebol da Bela Vista. Quem sabe se não se estará a ser trabalhada uma outra vertente futura para a emigração?

Foto Zeca Soares
Foto Zeca Soares
Foto Zeca Soares
Foto Zeca Soares

[1551] Dia 29 de Maio de 1934, grande dia de trabalho nos Correios de São Vicente

O/A sujeito/a enviava uma carta a 29 de Maio de 1934 por correio expresso (aéreo) para a Alemanha nazi (que oficialmente começara no ano anterior). O endereço era o de Herr Hans Scherwenke, em Seiffen. Por pesquisa que encetámos, percebemos que Scherwenke era um empenhado filatelista, o que pode indiciar que no envelope iam selos para troca. Quem se tramou, no meio disto tudo? O/a funcionário/a que teve de carimbar um ctchada de estampilhas...


[1550] Cabo Verde, etapa obrigatória da navegação transatlântica... em 1934. Nem mais!


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