sábado, 9 de abril de 2011

[0061] A "cabo-verdianidade" e o cadinho do Mindelo (II) por Adriano Miranda Lima

A “CABO-VERDIANIDADE” E O CADINHO DO MINDELO (II)

Adriano Miranda Lima
Como se procurou demonstrar no texto anterior, é na cidade de Mindelo que tudo aconteceu com relevância histórica a partir dos meados do século XIX. É nela que o ethos cabo-verdiano atingiu no passado a sua eclosão como fenómeno antropo-cultural com a riqueza de cambiantes psicossomáticas que o passaram a marcar indelevelmente. É onde o acaso da História instalou, pois, o cadinho sociológico para a revelação definitiva dos seus traços mais típicos e mais divulgados. No entanto, essa identidade não se contém nos limites da ilha, e, numa transposição diacrónica, alcança uma dimensão transnacional, na medida em que segue a trajectória das migrações, crescendo de amplitude com novos e diferentes contributos, sem todavia alterar-se significativamente o essencial da sua fisionomia. Daqui se pode inferir que a “cabo-verdianidade” é um fenómeno identitário que deixou de se circunscrever a um determinado território específico, e seria um erro crasso tentar desconstruir o seu ethos mediante o regresso a símbolos e referências tradicionais de uma ancestralidade remota que foi derrogada pelo curso da História. O mesmo é dizer que ela se desterritorializa no momento em que se metamorfoseia numa realidade plural que advém de uma complexidade de experiências sociológicas materializadas no tempo e no espaço. Por isso é que o estudioso estrangeiro olha a identidade cabo-verdiana, com as suas virtudes mas também com os seus defeitos, não como algo propriamente enraizado num território que pré-existe, mas como uma singularidade humana que, por paradoxo, provém de uma natureza humana copiosamente marcada por influências culturais diversas.  

Torre de Belém, Mindelo (clique/imagem)
Mas um olhar sobre a actualidade mostra-nos evidências preocupantes de uma política de Estado que parece querer ignorar a cultura de matriz mindelense, pactuando com a não divulgação das suas manifestações na televisão oficial (Carnaval, Passagem do Ano, Festivais Musicais, etc.) e opondo-lhe obstinadamente iniciativas congéneres incentivadas na ilha capital muitas vezes com dinheiros públicos, não como expressão de uma salutar emulação entre ilhas de perfil e morfologia diferentes, para na diversidade se colher o enriquecimento colectivo, mas como forma de um qualquer revanchismo espúrio que não se aceita numa sociedade que se rege pelas regras da democracia e que, portanto, devia buscar na pluralidade e na diferença o reforço da coesão nacional.

A título de exemplo, fala-se nos engulhos que o Mindelact vem criando à política cultural etnocentrista do Estado, havendo rumores de ofertas tentadoras para convencer o João Branco a transferir para a Praia uma iniciativa que foi da sua lavra e livre vontade mas que só frutificou porque teve a adesão e o voluntarismo da sociedade do Mindelo. Acresce ainda o abandono e falta de apoio à salvaguarda e protecção do património histórico-cultural da ilha de S. Vicente e a exclusão das actividades sociais mindelenses de programas televisivos como o “Nha Terra Nha Cretcheu”. Uma medida convergente com todos esses propósitos é a pretensão da uniformização do crioulo, espartilhando-o com um alfabeto concebido à imagem da estrutura fonética do dialecto falado na ilha capital.

A cidade da Praia, ou seja, o Estado ali instalado em pose concentracionária, parece querer a todo o custo apagar a relevância cultural da ilha rival, como estratégia indirecta para impor uma política cultural de recuperação e sagração de uma das vertentes da nossa idiossincrasia, a mais remota, a mais ancestral. Esquece-se que a identidade cabo-verdiana está desterritorializada, em resultado de um processo complexo, dinâmico e sedimentado, que mediou entre a origem geográfica e a dispersão diaspórica, pelo que não será realizável intentar a sua descaracterização à escala transnacional.

Mentes esclarecidas deviam saber que quem atenta contra a dinâmica natural da História fica paredes-meias com o espectro do genocídio cultural.

Porto Grande (clique/imagem)
Infelizmente, forçoso é reconhecer que as responsabilidades pela inanição cívica na ilha de S. Vicente têm de ser assacadas em primeiro lugar à população da ilha, em geral, e às suas elites, em particular, antes de qualquer processo de culpabilização da política do Estado. De resto, a política tem na ilha os seus representantes mais directos, sendo que um governo central não pode senão agir e reagir em função dos sinais e impulsos que recebe da sociedade. Lembra-se que a culpa principal pela demolição da Casa onde viveu o Dr. Adriano Duarte Silva tem de ser assacada à edilidade de S. Vicente, que não parece compreender a importância do património histórico-cultural da ilha.

Vive-se em S. Vicente uma situação de pungente orfandade. Baltasar Lopes da Silva e os seus contemporâneos não deixaram sucessores à altura de pugnar pela conservação e defesa do legado cultural em que o povo de Cabo Verde tem a marca inconfundível da sua identidade. Mindelo parece ter-se tornado num deserto onde não viceja a flor de outrora. Os apelos de algumas vozes inconformadas têm caído em saco roto.

[0060] A "cabo-verdianidade" e o cadinho do Mindelo (I) por Adriano Miranda Lima

No que respeita a Cabo Verde, tanto os 10 grãozinhos de terra maiores como os mais pequenos (Djéu de Soncent incluído, pois claro) são terra nacional da morabeza. Todos eles são geografia crioula, todos eles são território da cachupa, todos eles são receptáculo do aromático grogue. Todos eles, enfim, merecem a mesma atenção das autoridades governativas. Cabo Verde é um todo e sem uma das suas partes constitutivas sairia inevitavelmente a perder.

Mas a verdade é que S. Vicente tem perdido grande parte da pujança cultural e económica que outrora detinha. Daí que, embora o PRAIA DE BOTE não seja muito pelos textos de grande dimensão em blogues, não foi capaz de recusar os dois importantíssimos trabalhos com que Adriano Miranda Lima nos presenteou. Escritos com a correcção, seriedade, lucidez e desassombro a que o coronel-poeta-comentarista nos habituou… e sobretudo livre de sectarismos doentios.

Porque Cabo Verde é só um, da Ponta do Sol de Santo Antão ao ponto mais a sul do Monte das Fontainhas na Brava, na Ponta Moreia.

Porque toda a cabeça tem de ter também tronco e membros…

Joaquim Saial


A “CABO-VERDIANIDADE” E O CADINHO DO MINDELO (I)

Adriano Miranda Lima
Ultimamente, intrigado com o vazio de intervenção cívica que se instalou silenciosamente na ilha onde nasci, S. Vicente, tenho pensado muito nesse grande intelectual e homem de cultura que foi Baltasar Lopes da Silva.

S. Vicente, em tempos idos, foi o baluarte ideológico da colónia, um verdadeiro alforge de cidadãos virtuosos, de homens de saber, de fecunda inteligência e grande disponibilidade cívica, profundamente devotados às causas de Cabo Verde. O túmulo funerário de Baltasar Lopes da Silva, que em boa hora o blogue “Praia de Bote” retratou nas suas páginas [ver entrada 0045], mais que um registo memorialístico estimula-me uma profunda reflexão sobre as razões da inanição cívica e do desnorte anímico que se apoderaram da ilha que foi a mais dinâmica culturalmente e a mais criativa de todas. Mas a memória de Baltasar Lopes traz com ela, também, a de tantos outros cidadãos de semelhante estirpe que viveram no Mindelo, como o Aurélio Gonçalves, o Manuel Lopes, o Adriano Duarte Silva, o Senador Vera Cruz, o Jorge Barbosa, o Júlio Oliveira, o João Cleofas Martins (Nhô Djunga), o Sérgio Frusoni e o Henrique Teixeira de Sousa. Nem todos nasceram em S. Vicente, é certo, mas na ilha viveram quase toda a vida e nela edificaram e amadureceram o seu pensamento intelectual e o puseram ao serviço da comunidade cabo-verdiana.

Aqueles ilustres cidadãos viveram o auge da sua existência numa época em que a ilha emergira, quase um século antes, como a mais importante e a mais emblemática de Cabo Verde, responsável por dois terços da sua produtividade económica. Mindelenses de alma e coração, a sua probidade cívica tornou-os importantes esteios da consciência crítica cabo-verdiana, na senda de ilustres conterrâneos de outras ilhas como Eugénio Tavares (Brava) e Pedro Cardoso (Fogo).

É em sua memória que aproveito a ocasião para ensaiar uma breve síntese sobre o ethos cabo-verdiano, ou “cabo-verdianidade”, tentando estabelecer um nexo de causalidade entre o circunstancialismo do nascimento do fenómeno identitário cabo-verdiano, o corolário da sua afirmação definitiva e a sociedade civil que floresceu na ilha de S. Vicente sem paralelo com outras realidades sociais no arquipélago.

Ora, em rigor, a “cabo-verdianidade” teve o seu berço ancestral na ilha de Santiago, a primeira a ser povoada, mas na nossa actual identidade não é possível encontrar um vínculo hereditário muito claro com os chamados “filhos da terra”, os primeiros a terem consciência de uma realidade própria a que corresponderia o emergir da “sociedade cabo-verdiana” a partir do século XVII. A não ser na aparência mais remota de algumas matrizes psicossomáticas, crê-se que não é possível colher vestígios da actual “cabo-verdianidade” em origens tão recuadas. Seguir-se-ia um longo período de inexpressividade cultural e infertilidade sociológica, até surgir na ilha de S. Vicente o momentum apropriado para a revelação da identidade definitiva do homem das ilhas. Polarizando uma forte energia vital à volta do seu grande porto de mar, S. Vicente torna-se a porta do arquipélago que se abre ao mundo, de saída e de entrada, ao mesmo tempo que desenvolve dinâmicas económicas, sociais e culturais sem precedentes em Cabo Verde. É nesse microcosmo que nasce um homem de outro perfil e mentalidade, pela percepção de uma vida diferente daquela que estava subordinada à fatalidade dos ciclos repetitivos de uma agricultura e pastorícia de sobrevivência estigmatizadas pela inclemência do meio natural. Assim, a cidade de Mindelo é o cadinho onde se opera a moldagem de um perfil humano novo no arquipélago, mas que deixa de ser exclusivo da urbe a partir do momento em que se propaga ao espaço arquipelar e acompanha ainda as migrações, que, por seu turno, vão completar o quadro de mundividências enriquecedor do seu ethos.

Antigo Liceu Gil Eanes (clique/imagem)
 O liceu que viria a ser inaugurado na ilha em 1917, na esteira do extinto Seminário de S. Nicolau, passa a funcionar como um farol para todo o arquipélago, irradiando para as outras ilhas a luz da escolarização e da consciencialização cívica. Se a construção da urbanidade resultou dos laços naturais que se criam no trabalho, na relação com o poder ou nas circunstâncias sociais mais triviais, a instrução de nível secundário era o condimento que faltava para a estampagem da cidadania. Em Mindelo nasce uma sociedade civil no sentido exacto da palavra, e a breve trecho nela vicejam com notável criatividade as actividades culturais, a música, os hábitos de lazer, as festividades sociais e o desporto, incorporando elementos de diferentes origens. No desporto, por exemplo, destaca-se a prática de modalidades elitistas como o cricket, o ténis, o golfe e outras que foram introduzidas pela comunidade britânica residente na ilha.

Toda esta influência se propaga para outras ilhas principalmente através do jovem de fora que frequenta o liceu e encontra em S. Vicente vivências típicas de uma sociedade mais evoluída do que as da sua origem, e que lhe burila o espírito, tornando-o mais aberto, mais desinibido e mais convivente, muito graças ao cosmopolitismo que a internacionalização do Porto Grande trouxera ao meio.

Foi a pensar nesse homem de perfil e alma multifacetados que o nosso conterrâneo Dr. Júlio Monteiro, que foi membro das primeiras delegações à ONU, descreveu assim a gente do Mindelo: “Formada pela miscigenação de sangues de estranhas e remotas origens, ela tem características próprias, entre as quais sobrelevam: a fidalga hospitalidade do povo, o amor ao trabalho, ao progresso, notável poder de assimilação, equilibrado sentimento artístico, respeito pelos deveres e direitos de cidadania, e, até, um fino humorismo para apreciar as coisas mais graves desta vida”.

E é já no contexto de uma realidade social efervescente na ilha que Baltasar Lopes e seus pares criam, em 1936, o movimento literário “Claridade”, que, como o nome sugere, foi um veio de luz que despontou de inteligências esclarecidas para iluminar a sociedade cabo-verdiana, numa altura em que a crise mundial de 1929 se repercute na ilha e em toda a colónia com uma gravidade calamitosa perante a qual o governo de Lisboa se mantinha indiferente e pouco solidário. O movimento torna-se doravante o centro de uma reflexão assumida sobre o destino do homem cabo-verdiano, pela primeira vez despertando a consciência de uma identidade nacional com inflexões políticas que, décadas volvidas, iriam ter continuidade no movimento libertário conducente à autonomia da colónia.

Mindelo e Porto Grande (clique/imagem)
 Deste modo, bem se vê que tudo o que de mais importante distingue a “cabo-verdianidade” está indelevelmente ligado ao Mindelo, quer nos aspectos mais exaltantes da mestiçagem cultural quer na formação de uma verdadeira sociedade civil. A ilha de S. Vicente é, pois, a mãe da “cabo-verdianidade” e a capital cultural de Cabo Verde, por muito que isso provoque alguns constrangimentos. (continua)

sexta-feira, 8 de abril de 2011

[0059] Cuidados com o sangue em Cabo Verde há 55 anos. Criação do Centro de Sangue de S. Vicente

O "Vera Cruz" (clique na imagem)
Apresentamos desta vez uma campanha em Cabo Verde, pelo sangue, com altas figuras do mundo da ciência portuguesa e francesa. E lembramos um Centro de Sangue em S. Vicente com "sede em edifício próprio". Oferece-se uma seringa, uma agulha e um pedaço de algodão embebido em grogue a quem acrescentar algo a este assunto - sobretudo a informação sobre onde ficou instalado o dito centro.

"Diário Popular", de 24.Maio.1956, p. 6 

MISSÃO CIENTÍFICA AO ULTRAMAR

Almerindo Lessa, in jornal "Tribuna", Macau
No «Vera Cruz», partiu esta tarde para Cabo Verde uma missão científica chefiada pelo sr. Dr. Almerindo Lessa, nosso prezado colaborador, director do Serviço de Sangue dos Hospitais e especialista do Hospital do Ultramar. Além daquele médico, a missão inclui os srs. dr. Jacques Ruffié, da Universidade de Toulouse, subdirector do Centro de Pesquisas Hematológicas do Sul de França; Mortó Dessai, assistente da Escola Médica de Goa, recentemente aprovado para bioquímico dos Hospitais Civis de Lisboa; e Olímpio Martins, médico do quadro ultramarino. Segue também o preparador sr. Luís Azevedo.

A missão vai proceder à instalação do Centro de Sangue de S. Vicente, que terá a sede em edifício próprio e para o qual aquela Província adquiriu na Metrópole, por intermédio da Delegação Comercial do Ultramar, importante mobiliário e material técnico. Ao mesmo tempo serão realizados estudos de Hematologia clínica e laboratorial e de Sero-antropologia em várias ilhas do arquipélago.


terça-feira, 5 de abril de 2011

[0058] Eu estava lá!... A visita de José de Azeredo Perdigão a Cabo Verde (e não apenas à Praia, como o cabeçalho do jornal dá a entender)

José de Azeredo Perdigão (clique na imagem)
O convite partiu de Leão do Sacramento Monteiro, oficial da Armada e governador de origem cabo-verdeana (mas nascido em Nelas, Viseu - 1920-2005)... de Cabo Verde (1962-1970). O convidado, José de Azeredo Perdigão, era figura das mais prestigiadas e respeitadas de Portugal, presidente do Conselho de Administração da lisboeta Fundação Calouste Gulbenkian. 

Nem a história de um nem a do outro são agora para aqui chamadas. Quem as quiser conhecer ou relembrar, encontrará basta informação na Internet.

O que interessa é a visitinha (27.Janeiro-2.Fevereiro.1965). Sim, a sessão a que aqui o escriba e o pai assistiram na sala do Liceu Gil Eanes onde o miúdo Djack tinha aulas de música com Nhô Reis, aquela grande, de rés-do-chão à esquerda do sino, quando no pátio para ele estávamos virados. 

Tenho uma vaga recordação de que o douto advogado e gestor cultural exortou a criançada a fazer como ele: trabalhar duramente, para poder chegar ao lugar que ele tinha atingido (ou semelhante). Do resto da conversa não ficou forte memória, mas desse conselho a lembrança é quase clara. Do programa fazia parte a inevitável almoçarada na Baía das Gatas. Uma cachupada? Quase certo...

A notícia é mais uma vez do "Diário de Notícias" de New Bedford, EUA, e datada de 26.Janeiro.1965. Quanto ao que se passou na Estrada de Corda, em Santo Antão, nem quero imaginar o que Azeredo Perdigão terá sentido. Talvez admiração pela mais que maravilhosa paisagem, talvez enjoo pelas voltas e reviravoltas, talvez medo daquele percurso infernal. Quem já a percorreu (como eu, duas  lonnnnnnnnngas vezes), entre Porto Novo e Ribeira Grande, sabe do que estou a falar...

"Diário de Notícias" de New Bedford, EUA, 26.Janeiro.1965 (clique na imagem)

domingo, 3 de abril de 2011

[0057] Maria Emília Miranda da Cunha... este nome não lhe diz nada? Pois então fique sabendo que era a mãe de Carmen Miranda e que teve muito a ver com Cabo Verde (e São Vicente), olá se teve...

Carmen Miranda
Estamos em 1948, ano em que Carmen Miranda brilha mais uma vez em "O Príncipe Encantado" ("A Date With Judy") filme no qual também participava, entre outros, a recentemente falecida Elizabeth Taylor. A sua carreira estava próxima do fim, pois restavam-lhe cerca de sete anos de vida e dois filmes: "Romance Carioca" ("Nancy Goes To Rio"), em 1950, e "Morrendo de Medo" ("Scared Stiff"), de 53.


Foto blogue Vento no Litoral
De 27 de Agosto de 1948 é esta notícia do "Diário de Notícias" de New Bedford, Massachusets, EUA. Não se refere à artista dos turbantes frutíferos (a quem chama "actriz brasileira"...), mas a sua mãe, Maria Emília Miranda da Cunha, interessada por Cabo Verde -  território que se encontrava "em situação aflitiva".

E fala-se do veleiro "Madalan" (construído em Itália em 1928 mas só registado no arquipélago em 1950? - que havia de dar moeda de 100$00 no Cabo Verde independente) e do "Cape Verdean Relief Fund". Mas o leitor que se entretenha que comentários aqui são desnecessários.

100$00 de Cabo Verde (clique na imagem) 
"Diário de Notícias" de New Bedford, EUA, 27.Agosto.1948 (clique na imagem)

[0056] A viagem do ministro do Ultramar, Adriano Moreira, a Cabo Verde em Agosto e Setembro de 1962. Uma reportagem completa do "Diário Popular".

Entre 13 de Agosto e  6 de Setembro de 1962, o então ministro do Ultramar, Adriano Moreira, fez uma longa visita ao arquipélago de Cabo Verde. Não comentamos as notícias que retirámos do vespertino "Diário Popular", excepto no caso da de 29 de Agosto em que o ministro se dirige com humildade à residência do poeta José Lopes, no Mindelo, (doente, este morreria dias após) para lhe entregar as insígnias da Ordem do Infante com que fora agraciado por Américo Tomás, Presidente da República. A foto que do acto reproduzimos é do "Diário de Lisboa" de 4.Setembro.1962.

Professor e intelectual de enorme prestígio, grande português e inegável amigo de África, Adriano Moreira, embora ministro do antigo regime, merece um lugar de destaque na nossa memória comum de portugueses e cabo-verdianos, pela sua seriedade e dedicação às coisas de África que abraçou com honesto sentido de dever, dentro das difíceis contingências da época.

Aqui vão, pois as notícias do "Diário Popular", transcritas na quase totalidade (duas das fotos são do "Diário de Lisboa"). As alusivas a S. Vicente e Santo Antão são destacadas a cor diferente (a visita a S. Vicente foi interrompida para um salto à ilha irmã, onde inaugurou o cais de Porto Novo, com regresso para mais uns dias ao Mindelo).

Adriano Moreira, em foto da época
13.AGOSTO.1962
Pág.1 – EM VISITA OFICIAL SEGUIU PARA CABO VERDE O MINISTRO DO ULTRAMAR

16.AGOSTO.1962
Pág. 8 – O MINISTRO DO ULTRAMAR EM CABO VERDE – Cidade da Praia, 16 – O ministro do Ultramar, prof. Adriano Moreira, que ontem chegou a esta cidade e se demorará vinte e três dias no arquipélago de Cabo Verde, partiu hoje para o concelho de Santa Catarina, onde visitou obras em curso e parou nas diversas freguesias do percurso. No regresso almoçou no Posto de Fomento Agro-Pecuário de S. Jorge dos Órgãos, que é uma das mais aprazíveis estâncias turísticas desta ilha. À noite, haverá jantar de gala, no Palácio do Governo, seguido de recepção.

Amanhã, o ministro dirige-se ao concelho do Tarrafal, dedicando parte do dia 18 a visitas a serviços oficiais da cidade da Praia. Ainda nesse dia, o prof. Adriano Moreira irá a bordo do navio-patrulha  «Vouga» para a ilha do Fogo, onde permanecerá durante dois dias, seguindo depois para a Brava, onde ficará também dois dias.

No dia 23, o ministro irá à ilha do Maio, e no dia 24 será homenageado nesta cidade com uma recepção.

Nos restantes dias da sua permanência em Cabo Verde, o titular da pasta do Ultramar visitará as ilhas da Boa-vista, do Sal, de S. Nicolau e de Santo Antão, inaugurando nesta última o novo cais acostável do Porto Novo.

17.AGOSTO.1962
Pág. 8 – VALE MAIS SER POBRE DO QUE SER ESCRAVO – Cidade da Praia, 17 – O ministro do Ultramar seguiu esta manhã, de avião, para a vila do Tarrafal, onde recebeu uma calorosa saudação por parte da população, reunida na sede do Município, para assistir à sessão solene realizada em honra do sr. prof. Adriano Moreira. Depois, o ministro visitou serviços públicos e organismos diversos, assim como obras em curso naquela vila, e tomou parte num almoço oferecido em sua honra. Cerca das 14 horas, regressou a esta cidade, de automóvel.

O prof. Adriano Moreira iniciou ontem o cumprimento do programa da sua visita oficial ao arquipélago indo ao concelho de Santa Catarina que é o segundo de Cabo Verde em população, pois tem cerca de vinte e cinco mil habitantes. Nos Paços do Concelho daquela localidade, foi saudado pelo presidente da edilidade, Nobre de Oliveira, e proferiu, em resposta, um discurso que foi calorosamente aplaudido.

«Possuímos – disse, então, o ministro – virtudes que se foram perdendo no Mundo e isso parece constituir motivo de escândalo. Povo modesto, temos tido a coragem de, além do mais, não considerarmos justo que se ataquem sem castigo os países indefesos e de discordar que se disponha da liberdade dos povos, sem cuidarem de saber se ferem ou não a História, mas pensando apenas nos respectivos e imediatos interesses. Mais vale ser pobre do que ser escravo: nós somos pobres, mas livres». – (ANI).

18.AGOSTO.1962
Pág. 16 – O MINISTRO DO ULTRAMAR VISITOU OBRAS EM CURSO NA CIDADE DA PRAIA – Cidade da Praia, 18 – Depois de ter visitado o concelho do Tarrafal, encontra-se de novo na cidade da Praia o sr. ministro do Ultramar, prof. Adriano Moreira, que hoje se desloca a diversos organismos oficiais e observará as principais obras em curso.

Aquele membro do Governo, que às 16 horas dará audiências no Palácio do Governo, parte à noite para a ilha do Fogo, que tem uma superfície de 476 quilómetros quadrados e cerca de 26 mil habitantes.

O prof. Adriano Moreira demorar-se-á dois dias naquela ilha, visitando os respectivos concelhos e tomando contacto com os seus problemas mais importantes. – (ANI).

19.AGOSTO.1962
Pág. 8 – DIPLOMAS LEGISLATIVOS DE IMPORTÂNCIA PARA CABO VERDE – Cidade da Praia, 19 – O ministro do Ultramar foi ontem alvo de grande manifestação popular, ao visitar inesperadamente o Clube Recreativo, onde se efectuava uma festa.

Depois, deslocou-se a várias obras, deu audiências e trabalhou na preparação de diplomas legislativos de importância para a vida da província. O ministro partiu, à noite, para a ilha do Fogo, a bordo do contratorpedeiro «Vouga».

20.AGOSTO.1962
Pág. 7 – A VISITA DO MINISTRO DO ULTRAMAR A CABO VERDE

21.AGOSTO.1962
Pág. 6 – O MINISTÉRIO DO ULTRAMAR CONCORREU COM DEZ MIL CONTOS PARA A CAIXA DE CRÉDITO AGRO-PECUÁRIO DE CABO VERDE – Cidade da Praia, 21 – Como já foi anunciado, o ministro do Ultramar, prof. Adriano Moreira, vai publicar no Boletim Oficial desta província o diploma legislativo relativo à criação de uma Caixa de Crédito Agro-Pecuária para a qual o ministério do Ultramar concorre com dez mil contos.

O diploma legislativo é constituído por trinta artigos que instituem a Caixa com autonomia administrativa e financeira, e personalidade jurídica. A sede da Caixa é na cidade da Praia, podendo ter delegações em outras sedes de concelho e, enquanto não o tiver, será representada pelos secretários de Fazenda. A Caixa realizará operações de crédito a médio e a longo prazo e, excepcionalmente, a curto prazo.

Os fundos da Caixa são constituídos por dez mil contos, agora concedidos, mais as verbas que venham a ser inscritas no orçamento da Província, assim como quaisquer aquisições a título gratuito. A Caixa pode emitir obrigações e aceitar depósitos, utilizar empréstimos dos bancos emissor da Província e do Fomento; realizar quaisquer outras operações de crédito. A Caixa é administrado por concelho constituído por um presidente e seis vogais, sendo o presidente designado pelo governador e um dos vogais representando as actividades económicas. A Caixa poderá emitir obrigações amortizáveis no prazo máximo de vinte anos. Os créditos serão sempre concedidos por forma a dar preferência aos pequenos agricultores ou criadores de gado. O governador regulamentará dentro de dias o funcionamento da Caixa. (L.)

O ministro do Ultramar visitou a ilha Brava


S. Filipe (ilha do Fogo), 21 – O ministro do Ultramar visitou hoje a mais pequena ilha do arquipélago de Cabo Verde : a Brava, que tem apenas sessenta e quatro quilómetros quadrados de superfície e cerca de oito mil e setecentos habitantes.

Cerca da meia-noite seguirá para a ilha do Maio. – (ANI).

23.AGOSTO.1962
Pág. 16 – A ILHA DO MAIO NO ARQUIPÉLAGO DE CABO VERDE É HOJE VISITADA PELO MINISTRO DO ULTRAMAR – Ilha do Maio, 23 – Prosseguindo na sua vista de trabalho ao arquipélago de Cabo Verde, o ministro do Ultramar é hoje aguardado na vila do Maio, após nove horas de viagem a bordo do contratorpedeiro «Vouga», desde a ilha Brava, que ontem percorreu.

Toda a população da Maio terá oportunidade de saudar o prof. Adriano Moreira, já que a ilha, embora não seja a mais pequena do arquipélago (tem a superfície de 269 quilómetros quadrados) é a que tem menos habitantes: cerca de 2700.

Após o desembarque, o titular da pasta do Ultramar, que vem acompanhado pelo governador de Cabo Verde, tenente-coronel Silvério Marques, e por técnicos de vários departamentos do Estado, que com ele vieram de Lisboa ou se lhe juntaram na capital do arquipélago, será recebido nos Paços do Concelho e, em seguida, cumprimentado pelas principais individualidades locais. O programa inclui várias visitas ainda antes do almoço, após o qual o ministro procederá a outras visitas e concederá audiências. Finalmente, a meio da tarde, o prof. Adriano Moreira embarca no contratorpedeiro «Vouga», dirigindo-se para a capital do arquipélago, a cidade da Praia, de onde saiu no sábado. – (ANI).

24.AGOSTO.1962
Pág. 7 – A VISITA DO MINISTRO DO ULTRAMAR A CABO VERDE – Cidade da Praia, 24 – O sr. ministro do Ultramar, prof. Adriano Moreira, assistiu hoje, na capital do arquipélago, a uma cerimónia de juramento de bandeira, no Estádio Municipal, e estará presente a uma recepção oferecida pelas autoridades económicas.

Da cidade da Praia, o ministro seguirá para as ilhas de Boavista, Sal, S. Nicolau, S. Vicente e Santo Antão, que percorrerá até ao dia 5 de Setembro, data em que regressa a Lisboa. – (ANI).

Um discurso do prof. Adriano Moreira

Ao visitar a ilha do Maio, antes de embarcar para a capital do arquipélago, o sr. ministro do Ultramar presidiu a uma sessão solene, no decorrer da qual, em resposta a uma saudação do administrador Celso Rodrigues, teve ocasião de pronunciar um discurso vibrante.

Disse aquele membro do Governo:
«É-nos necessário que todos saibam que a cada um está entregue uma tarefa fundamental: que todos saibam que nenhum pode ser desprezado de dar essa contribuição, e que todos saibam que, sendo modestos, nenhum tem o direito de ser humilde, porque todos devem estar a participar numa tarefa que é das mais transcendentes da História portuguesa. É-nos tão necessário ter chefes, homens de pensamento, sábios, como nos é necessário ter um povo modesto, mas não humilde, que mantenha intacta a força das almas e dos corações que estiveram na base da própria nacionalidade».

25.AGOSTO.1962
Pág. 16 – A VIAGEM DO MINISTRO DO ULTRAMAR A CABO VERDE – Cidade da Praia, 25 – O ministro do Ultramar, prof. Adriano Moreira, parte hoje, de avião, para a ilha da Boavista. A viagem demora uma hora.

Após o desembarque no aeródromo de Rabil, o prof. Adriano Moreira, que é acompanhado pelo governador de Cabo Verde, tenente-coronel Silvério Marques, efectuará várias visitas na povoação e depois estará presente numa sessão solene, que em sua honra se efectuará em Sal-Rei. Visitas nesta última vila precederão o almoço, após o qual regressa ao aeródromo de Rabil, para partir para a ilha do Sal, onde visitará instalações militares. Ainda na ilha do Sal, o ministro assistirá, à noite, a um serão de música regional e à disputa de uma taça que tem o seu nome, entre equipas militares e civis de voleibol. – (ANI).

26.AGOSTO.1962
Pág. 11 – O MINISTRO DO ULTRAMAR VISITOU ALGUMAS POVOAÇÕES DA ILHA DO SAL – Ilha do Sal, 26 – O ministro do Ultramar, prof. Dr. Adriano Moreira, que ontem chegou a esta ilha, acompanhado pelo governador da Província, tenente-coronel Silvério Marques e pela sua comitiva, partiu esta manhã para santa Maria, onde foi recebido, com uma sessão solene nos Paços do Concelho. Depois de uma visita a diversos organismos públicos e a obras em curso, o ministro deslocou-se às instalações salineiras da Pedra de Lume, onde teve ensejo de apreciar alguns problemas relacionados com a actividade local. Mais tarde, no aeroporto, foi-lhe oferecido um almoço.

O ministro, após o ágape, visitou a povoação de Palmeira e as instalações de uma companhia petrolífera. O prof. Adriano Moreira deve conceder, ao fim da tarde, algumas audiências. À noite, o titular da pasta do Ultramar é homenageado com um banquete, oferecido pela comissão municipal.

27.AGOSTO.1962

Pág. 1 e 16 – A ILHA DE S. NICOLAU FOI HOJE VISITADA PELO MINISTRO DO ULTRAMAR – S. Nicolau, 27 – O ministro do Ultramar, prof. Adriano Moreira, visitou hoje esta ilha, a antepenúltima que percorre, na sua digressão pelo arquipélago cabo-verdiano.

Após o desembarque, no aeroporto de S. Nicolau, o prof. Adriano Moreira, que da ilha do Sal era acompanhado pelo governador de cabo Verde, tenente-coronel Silvério Marques e por vários componentes da sua comitiva oficial, seguiu de automóvel para a Ribeira Brava, em cujos Paços do Concelho foi saudado durante uma se são solene.

Seguidamente, o ministro realizou várias visitas na vila, indo ainda ao Caleijão e os Posto Zootécnico, onde concedeu várias audiências.

Na parte da tarde, o ministro do Ultramar visitou, no interior da ilha de S. Nicolau, as povoações de Carvoeiro, Fajãs e Cachaço, jantando na povoação do Tarrafal, onde, às 22 horas (locais) embarcará no contratorpedeiro «Vouga», que dez horas depois chegará a S. Vicente. – (ANI).

Na pág. 5, outra notícia alusiva a Cabo Verde – REUNIÃO DE DIRIGENTES DA J.C. E DA J.C.F. DE ANGOLA, MOÇAMBIQUE E CABO VERDE – Enquadrados no «Grande Encontro de Juventude» que as Organizações Juvenis de Acção Católica projectam realizar no próximo ano, participaram em Luanda, os trabalhos da I Assembleia Interprovincial dos dirigentes da J.C. e da J.C.F. de Angola, Moçambique e Cabo Verde.

Participaram nesta assembleia dirigentes da Metrópole que se deslocaram propositadamente de Lisboa, bem como os ver. Assistentes dr. Narciso Rodrigues e Sebastião Lereno Dias.
Até amanhã serão debatidas as formas de aplicação dos métodos de apostolado em ordem ao momento actual, incidindo este estudo especialmente sobre a situação da juventude portuguesa e a transmissão da mensagem cristã.

A Assembleia de Dirigentes da Metrópole, onde estarão igualmente presentes dirigentes de Luanda, Nampula, Sá da Bandeira e Cabo Verde, iniciar-se-á em Fátima no dia 1 de Setembro, encerrando-se no dia 4 sob a presidência do Cardeal Patriarca.

28.AGOSTO.1962
Pág. 7 – A VISITA DO MINISTRO DO ULTRAMAR A CABO VERDE – S. Vicente (Cabo Verde), 28 – O ministro do Ultramar, prof. Adriano Moreira, é hoje aguardado nesta ilha, onde ficará dois dias, antes de seguir para Santo Antão, de onde novamente virá a S. Vicente, para outra permanência de mais dois dias.

Após o desembarque, o prof. Adriano Moreira desloca-se aos Paços do Concelho, para presidir a uma sessão solene e, mais tarde, visita o cais acostável, a sede da brigada de fiscalização e várias instalações industriais.

Por último, aquele membro do Governo assiste a uma recepção em sua honra, oferecida pelo Grémio Recreativo do Mindelo, e que será seguida por um espectáculo folclórico. – (ANI).

29.AGOSTO.1962
Pág. 8 – PROSSEGUE A VISITA DO MINISTRO DO ULTRAMAR A S. VICENTE DE CABO VERDE – S. Vicente, Cabo Verde, 29 – O ministro do Ultramar iniciou o programa do segundo dia da sua estada em S. Vicente visitando a povoação de Salamanca [sic - seria Salamansa] e a Baía das Gatas, acompanhado pelo governador de cabo Verde, tenente-coronel Silvério Marques, e por alguns componentes da sua comitiva. De tarde, realizará novas visitas: às instalações da Shell portuguesa, da Millers e dos estaleiros Navais e outros serviços do Estado. Por último, em S. Vicente, será homenageado com uma recepção que em sua honra oferece a Câmara Municipal.

A população da ilha – cerca de vinte e dois mil habitantes – teve conhecimento com agrado do anúncio, ontem feito pelo titular da pasta do Ultramar, de que vai ser criado em Cabo Verde o Instituto de Assistência Social. No discurso que proferiu, ao ser recebido nos Paços do Concelho, o ministro aludiu ainda a vários problemas das ilhas cabo-verdianas, designadamente a estrutura agrária e o aumento demográfico, declarando que antes de regressar a Lisboa terá oportunidade de se pronunciar publicamente sobre esses problemas e as suas possíveis soluções. – (ANI).

O poeta cabo-verdiano José Lopes recebeu as insígnias da Ordem do Infante

S. Vicente, 29 – O sr. ministro do Ultramar esteve hoje na residência do poeta José Lopes, a quem entregou a insígnia da Ordem do Infante com que foi agraciado pelo Chefe do Estado. – (L.).

Com José Lopes - Foto "Diário de Lisboa", 4.Setembro.1962 (clique na imagem)
O ministro foi autorizado a utilizar a sua competência legislativa

Um despacho da Presidência do Conselho, publicado no «Diário do Governo», torna público ter o Conselho de Ministros deliberado autorizar o titular da pasta do Ultramar a usar da sua competência legislativa durante a viagem às províncias de Cabo Verde e da Guiné.

30.AGOSTO.1962

Pág. 9 – CHEGOU À ILHA DE SANTO ANTÃO O MINISTRO DO ULTRAMAR – Vila Maria Pia (Santo Antão), 30 – O ministro do Ultramar, prof. Adriano Moreira, chegou a Santo Antão cerca das 8 horas locais, acompanhado pelo governador de Cabo Verde, tenente-coronel Silvério Marques, a bordo do contratorpedeiro «Vouga».

A ilha de Santo Antão, onde o titular da pasta do Ultramar estará três dias, regressando depois a S. Vicente, é a última do arquipélago de Cabo Verde que o prof. Adriano Moreira visita. Trata-se da segunda ilha do arquipélago quanto à superfície e à população, pois tem a área de 779 quilómetros quadrados e cerca de trinta e cinco mil habitantes.

O ministro do Ultramar desembarcou no porto da Vila Maria Pia, sede do concelho de Ribeira Grande, em cujo Município foi recebido oficialmente. Depois de várias visitas na localidade, assistiu a um almoço que lhe ofereceram os representantes das actividades económicas em Santa Bárbara, visitando seguidamente explorações agrícolas e obras de hidráulica que estão a ser levadas a cabo em várias ribeiras.
O programa oficial prevê, ainda, um jantar oferecido pela Câmara Municipal desta vila. – (ANI).

31.AGOSTO.1962

Pág. 8 – VISITOU O CONCELHO DE PAUL O MINISTRO DO ULTRAMAR – Vila Maria Pia (Santo Antão), 31 – O ministro do Ultramar, prof. Adriano Moreira, partiu hoje de manhã desta vila para o concelho de Paul, acompanhado pelo governador de Cabo Verde, tenente-coronel Silvério Marques, e por alguns componentes da sua comitiva.

Em Vila das Pombas, sede daquele município, o prof. Adriano Moreira foi recebido nos Paços do Concelho, onde se efectuou uma sessão solene. Depois de várias visitas naquela localidade, dirigiu-se para uma propriedade chamada «Passagem», onde almoçou. De volta à Vila das Pombas, o ministro concederá ali diversas audiências, regressando ao fim da tarde a Vila Maria Pia. – (ANI).


1.SETEMBRO.1962
Pág. 14 – A REGIÃO DE PORTO NOVO EM CABO VERDE FOI VISITADA PELO MINISTRO DO ULTRAMAR – Cabo Verde, Ponta do Sol, 1 – O ministro do Ultramar, acompanhado pelo governador de Cabo Verde, tenente-coronel Silvério Marques, e da comitiva, saiu de Vila Maria Pia, cerca das 8 horas, em visita à região de Porto Novo.

Apesar da hora matutina, muita gente estava no local de partida para saudar o prof. Dr. Adriano Moreira, que foi alvo de grandiosa manifestação de carinho por parte dos habitantes de Vila Maria Pia.

Durante o percurso imensa gente comprimia-se nos locais de passagem da caravana ministerial, para saudar aquele membro do Governo.

Parte do trajecto entre Vila Maria Pia e Porto Novo teve de ser efectuado a cavalo, em virtude de não estar ainda concluída a obra de construção da estrada que se desenrola através de altas montanhas e entre gigantescos precipícios, que liga aquelas duas localidades.

Durante a visita, o ministro do Ultramar foi-se inteirando do estado da obra e conversou com os trabalhadores encarregados da construção da magnífica via que passará a ligar dois pontos de grande interesse da ilha de santo Antão. – (L.).

2.SETEMBRO.1962
Pág. 11 – O MINISTRO DO ULTRAMAR INAUGUROU O CAIS ACOSTÁVEL DE PORTO NOVO – Mindelo (Cabo Verde), 2 – O ministro do Ultramar, prof. Adriano Moreira, partiu esta manhã para a ilha de santo Antão, no prosseguimento da sua viagem ao arquipélago de Cabo Verde. Inaugurou ali o cais acostável de Porto Novo e almoçou com a sua comitiva e entidades oficiais a bordo dos navios atracados ao cais. Cerca das 16 horas regressa a S. Vicente, onde às 22 horas, o Rádio Clube do Mindelo lhe oferece um sarau.

Novo diploma de Adriano Moreira

No Mindelo, o ministro do Ultramar assinou novo diploma legislativo que revê a divisão dos concelhos «podendo estes, transitoriamente e sob certas condições, serem substituídos por circunscrições administrativas». – (ANI).
Foto "Diário de Lisboa", 5.Setembro.1962 (clique na imagem)

4.SETEMBRO.1962
Pág. 8 – TERMINA HOJE A VISITA DO MINISTRO DO ULTRAMAR À ILHA DE S. VICENTE - Mindelo (S. Vicente), 4 – O prof. Adriano Moreira termina hoje a visita de cinco dias que efectuou à ilha de S. Vicente, de onde partirá amanhã para a capital do arquipélago.

O ministro do Ultramar ocupou a manhã com visitas a estabelecimentos militares, comando militar, quartel da segunda companhia de Caçadores e aquartelamento da companhia de Artilharia. À tarde, concederá audiências no Palácio do Governo, onde lhe é oferecido um jantar, seguido de recepção.

A população das ilhas cabo-verdianas tomou conhecimento com satisfação dos diplomas que o titular da pasta do Ultramar ontem promulgou, criando o ensino profissional agrícola, que compreende cursos elementares de aprendizagem, cursos de formação e cursos de aperfeiçoamento, e ainda unificando o comando da PSP e da Guarda Fiscal. – (ANI).

5.SETEMBRO.1962
Pág. 1 – TERMINA HOJE A VISITA OFICIAL DO MINISTRO DO ULTRAMAR A CABO VERDE – Mindelo (S. Vicente), 5 – O ministro do Ultramar, prof. Adriano Moreira, deixou hoje esta cidade dirigindo-se ao aeroporto de S. Pedro, onde embarcou às 8 horas (locais) para a cidade da Praia.

O titular da pasta do Ultramar, que é acompanhado pelo governador de Cabo Verde, tenente-coronel Silvério Marques, e por outras entidades da sua comitiva oficial, teve oportunidade de apreciar o vulcão da ilha do Fogo, que ainda há poucos anos esteve em erupção e que foi sobrevoado pelo aparelho em que viajava o ministro.

Da cidade da Praia, o prof. Adriano Moreira seguirá para a cidade da Ribeira Grande, a chamada cidade velha, que foi a primeira capital do arquipélago de Cabo Verde, presidindo ali a várias cerimónias que se desenrolarão na multissecular fortaleza real de S. Filipe.

Mais tarde o ministro assiste, na capital, a uma sessão do Conselho do Governo e inaugura uma exposição sobre obras públicas levadas a cabo no arquipélago. Por fim, janta no Palácio do Governo, terminando desta forma a visita oficial às ilhas de Cabo Verde que iniciou no dia 15 de Agosto.

Antes de deixar esta cidade, o prof. Adriano Moreira entregou, em nome do Chefe do Estado, condecorações a várias personalidades: a comenda da Ordem do Infante D. Henrique ao dr. Baltasar Lopes da Silva, e a Ordem da Instrução Pública aos professores primários D. Inácia Bettencourt, Alexandre Silva Tavares e Hugo Reis Borges, dirigindo nessa altura palavras de felicitações aos agraciados. – (ANI).

A chegada a Lisboa
O sr. prof. Adriano Moreira chega amanhã, dia 6, da parte da tarde, ao aeroporto da Portela de Sacavém.

6.SETEMBRO.1962
Pág. 1 – REGRESSA HOJE A LISBOA O MINISTRO DO ULTRAMAR

Adriano Moreira, foto recente da Agência Ecclesia (Igreja Católica Portuguesa)

sexta-feira, 1 de abril de 2011

[0055] Praia de Bote

Foto de Mic Dax, datada de 16.Novembro.2008. Pode ser vista, como milhares de outras, no excelente site Mindelo Infos.

Praia de Bote, foto Mic Dax (clique na imagem)

[0054] Novo Bispo do Mindelo, Dom Ildo Fortes - Ao pastor do rebanho sanvicentino, o "PRAIA DE BOTE" deseja as maiores venturas

Notícia RTC
Novo Bispo de Mindelo vai ser ordenado domingo em Portugal

A posse canónica de Dom Ildo Fortes, será no Mindelo, no dia nove de Abril, numa cerimónia religiosa na pró-catedral de Nossa Senhora da Luz.

O novo Bispo da Diocese do Mindelo, o padre Ildo Fortes, vai ser ordenado às 14h00 de domingo, 3 de abril, em Portugal pelo cardeal Dom José Policarpo. Fortes vai suceder no cargo, o Bispo Dom Arlindo Furtado.

A posse canónica de Dom Ildo Fortes, será no Mindelo, no dia nove de abril, numa cerimónia religiosa na pró-catedral de Nossa Senhora da Luz, presidida pelo representante do Papa, Dom Luís Mariano Monte Maior, núncio apostólico para Cabo Verde.
D. Ildo Fortes (foto RTC)
[...] O padre Lino Paulino salientou que este é um momento de graça, e uma grande festa de fé está a ser preparada para a recepção do novo bispo envolvendo as catorze paróquias da diocese e outras entidades.

Já o padre Adriano Cabral, além de salientar que as comissões criadas para a recepção do novo bispo, estão engajadas nos preparativos para a posse, disse esperar a vinda das autoridades máximas da igreja católica em Cabo Verde, do bispo da Guiné-Bissau e do vigário geral de Bafatá.

A chegada de D. Ildo está marcada para as 17h00 do dia nove, para às 17h30 fazer uma primeira comunicação na Praça D. Luiz. A cerimónia da posse canónica terá início às 18h30 na pró-Catedral de Nossa Senhora da Luz..

A primeira eucaristia presidida pelo novo bispo da diocese do Mindelo, terá lugar no dia 10 de Abril. Além dos presidentes das Câmaras Municipais de Barlavento, a cerimónia de posse canónica será assistida pelo presidente da Assembleia Nacional, Basílio Ramos, e pelo primeiro-ministro José Maria Neves.

fonte:  REDACÇÃO, com RCV (Carlos Lima)

[0053] Adriano Miranda Lima - Poemas da Praia de Bote - "Violão Enfeitiçado" (3)

Adriano Miranda Lima
Mais um belo poema do nosso colaborador Adriano Miranda Lima, inspirado na Praia de Bote. Nele, capta com toda a subtileza de quem o viveu, esse fascinante (poderá até dizer-se com toda a propriedade "mágico") local da ilha de São Vicente, repleto de memórias divertidas e plangentes.  

Segue o inevitável agradecimento, traduzido "naquel braça de ratchá osse" ao nosso amigo mindelense, gileanista, coronel e poeta (só bons cartões de apresentação).


VIOLÃO ENFEITIÇADO

Onde morava o ship chandler
Agora é o silêncio e o caruncho
Que saldam as contas derradeiras.
Mas quando a noite vai alta
O povo ouve música de violão
A tanger no sobrado abandonado,
Música que adormece os sentidos
E estonteia quem passa na rua.

Cava ainda mais fundo
O medo de quem a ouve
Quando o som da música
Se verte em toada fina e baixinha.

Estranha melodia que mais parece
Reflexo musicado
Duma súplica,
Dum lamento,
Dum gemido!

Será canto de saudade
De quem ao longe suspira?
Trova sentida
De quem do amor se desespera?
Ou morna de despedida
De quem na ausência se antevê?

Só um violão enfeitiçado
Ousa derramar tanta dor,
Tanto lamento…