quinta-feira, 22 de fevereiro de 2018

[3561] Mais uma valiosa colaboração do Zeca Soares: chegada de pescado ao Plurim d'Pêxe

Aqui ficam as palavras que vieram a acompanhar estas deliciosas imagens, com um abraço para o nosso fotógrafo de serviço na ilha do Monte Cara:

Na Rua d'Praia da Praia d'Bote, não faltam histórias para contar que estão a perder-se no tempo, como por exemplo a vida destes homens do mar e dos seus colaboradores em terra.
Estes são da ilha vizinha de Santo Antão, mais precisamente da zona de Tarrafal de Monte Trigo. Dizem que se levantam de madrugada, andam cinco/seis horas até ao pesqueiro no Noroeste e às vezes até dormem por lá. Para não falar dos de Salamansa que vão para Santa Luzia nas mesmas condições.



[3560] Proposta irrecusável, feita aos colaboradores militantes do Pd'B

Pessoal, vamos tomar de arrendamento a ilha de Santa Luzia, para sede do Praia de Bote! Adriano, José, Valdemar, Carmo, Ondina, Zeca e... Djack, cada um entra com cerca de 15.000 réis e ficamos com a ilha por uma temporada, três ou mais anos!!! 

Quanto ao César Augusto Neves, posso dizer que nasceu em 6 de Janeiro de 1842, natural de Cavaleiros da Serra, Portugal (não consegui confirmar esta terra como sendo em Portugal, apesar da indicação recolhida; há Cavaleiros da Serra no Brasil),  e faleceu em São Nicolau em 1912, onde casou e teve descendência. Neves coloca e assina o anúncio, na qualidade de delegado de São Nicolau na ilha de Santa Luzia, numa espécie de sucessão do ainda hoje lembrado (e estimado) Dr. Júlio José Dias - o que vendeu ao Estado em 1866 a sua casa para nela se instalar o Seminário-Liceu de São Nicolau, facto que de certo modo inspirou o senador Vera-Cruz em São Vicente, décadas depois. A história é muito mais longa do que aqui se conta, mas fica um cheirinho para dar uma ideia de quem detinha Santa Luzia nestes anos. O anúncio é de Março de 1912 (embora datado de Fevereiro), pouco antes de César Augusto Neves falecer.

[3559] Com uma resposta destas, só pode ser um mnine de Soncente


[3558] Principalmente para o Adriano mas também para os outros visitantes, sobre um post recente, onde se fala da Manuela, filha do Manuel Manjua

Ver AQUI (ver comentário da visitante Joana Cardoso)

[3557] Vem aí o Pen Club de Cabo Verde

Ver AQUI

[3556] Cesária Évora - Salamansa

Obras do primeiro hotel de Salamansa arrancam este ano.
Ver AQUI

quarta-feira, 21 de fevereiro de 2018

[3555] Uma anedota acerca de um mucim de Santo Antão respigada da página de humorismo de um exemplar de "O Notícias de Cabo Verde" de 1933

[3554] Corram, corram, já, que vai esgotar!!!

Sugerimos a todos os nossos visitantes que arranquem 26 paus da carteira ou do porta-moedas, pois o disco decerto vai esgotar em pouco tempo e um petisco destes não se pode perder. É garantido, vai haver fila à porta do estabelecimento do António Miguel de Carvalho, ai vai sim senhor. É claro que terão de viajar na máquina do tempo, pois o anúncio é de meados de Julho de 1931... E quero ver tudo na Praça Estrela ou na Praça Serpa Pinto a dançar a polka "Cidade do Mindelo", nem mais!


[3553] Outro aspecto da cerimónia reportada no post anterior: governo de Cabo Verde condecora escritor Luís Romano e Marinha do Brasil

[3552] A entrega do acervo de Luís Romano a Cabo Verde

Aqui está a cerimónia da entrega do espólio de Luís Romano pelo Brasil a Cabo Verde e aqui está também a Dr.ª Simone Caputo Gomes, estudiosa do autor de "Famintos" e da literatura cabo-verdiana em geral. Ainda não calhou conhecemo-nos pessoalmente mas já trocámos muita correspondência e ela até já me ofereceu alguns livros seus e escreveu sobre o meu conto "Piduca, o galo barítono", recordado do galo de Manuel Lopes, ambos galináceos de São Vicente, embora o meu mais viajado que o dele, pois este só viajou de Santo Antão até São Vicente e o meu foi na barca "Sagres" a Portugal e depois voltou ao Porto Grande... galo viajado, ahahahaha

[3551] "Famintos", de Luís Romano, chega ao Pd'B

Ele aqui está, acabadinho de chegar ao Pd'B, em primeira edição portuguesa, de uma editora do MRPP (Publicações Nova Aurora, 1975)... Entretanto, soubemos de uma segunda, da editorial Ulmeiro (1983), que vamos tentar caçar - o que não parece difícil. 

Quanto ao presente exemplar, a história é esta: foi inicialmente vendido na Livraria Compasso, Rua Saraiva de Carvalho, 268-C, Lisboa, provavelmente por quem lhe inscreveu uma assinatura de posse  no frontispício (uma tal Maria Almira, se percebemos bem o autógrafo, datado do ano da publicação). Depois teve a sua vida, para nós desconhecida, até que aportou a um alfarrabista de Cascais onde aqui o Pd'B o foi desencalhar. Agora, é o inevitável: a leitura, fim para que o objecto foi criado.

Sobre "Famintos" e sobre Luís Romano, ver também AQUI.


[3550] Um muito interessante texto de Eurídice Monteiro no "Expresso das Ilhas", sobre o Carnaval mindelense, em particular sobre os "mandingas"

Ver AQUI

terça-feira, 20 de fevereiro de 2018

[3549] O veleiro "Primos". Ele, em fotografia, sua venda, feita a partir de Lisboa, com o pescador farense Manuel Manjua e a sua casa pelo meio

A investigação centra-se na descoberta pura e simples de factos isolados mas também (e aí está o maior gozo dela) na relação entre descobertas que possa produzir nova luz.

Pd'B apresenta hoje a ligação entre três imagens que só ontem foi concluída, ao fim de muitos e muitos anos de procura (melhor dizendo, décadas).

Mostremo-la, por passos:

1 - Ver AQUI uma foto de festa do 8.º aniversário da menina de bandolete (filha do então cabo-de-mar da Capitania dos Portos) que decorreu no terraço da casa da sua amiga Manuela Manjua (era o 2.º e último andar do prédio), algures na morada, onde se podem ver pelo menos três figuras nossas conhecidas. Por exemplo, o famoso Djack d'Cuptania (o sport lá atrás), a ainda mais famosa miss jovem de Cabo Verde de 1973, Manuela Manjua (a menina de tranças à sua frente) e a hoje famosíssima Tété Alhinho, cantora de créditos firmados, nacional e internacionalmente (em baixo, à esquerda). Passa-se a coisa exactamente em 13 de Janeiro de 1963. Os anos sucedem-se, a memória esbate-se em alguns aspectos e quando o Djack regressa a São Vicente em 1999 e quer ver essa casa onde entrou tantas vezes, não dá com ela. Isto é, já não se lembra se fica na Rua de São João, se na de Sá da Bandeira (hoje de Moçambique), da Luz, da Moeda ou na Suburbana, embora se recorde que na rua a casa ficava do lado esquerdo de quem entra nela, vindo da Praça Estrela. Como curiosidade, os japonas dos marus atuneiros alugaram o 1.º andar do prédio para arrumos de apetrechos de pesca e outros materiais, como bonés, chinelos de sola de madeira, oleados, etc. De modo que quando o Djack subia ou descia a escada, havia sempre pescadores a entrar e a sair, com tralha pesqueira às costas ou nas mãos. Daí que ainda tenha apanhado um boné com um desenho de roda de leme e uns chinelos que faziam toc-toc no empedrado do Mindelo e que eram resistentes que se farta..

2 - Um dia, muito anos mais tarde, alguém cedeu ao Djack várias fotos de veleiros cabo-verdianos, entre as quais vinha esta, onde se designava o barquinho como "Primos" (ver também AQUI e AQUI). Estranhou o rapaz vê-lo atracado ao cais acostável - que ele conheceu acabado de inaugurar - mas não reconhecer a embarcação. E logo considerou que o "Primos" chegara ao Porto Grande depois de ele, Djack, ter tido a sua hora di bai. Mas...

3 - Ontem, ontem mesmo, a relação foi enfim concretizada, com a descoberta do anúncio que aqui segue. É ele de 13 de Março de 1969, publicado em "O Arquipélago". E lá observamos não só o endereço de Manuel Manjua como a curiosidade de ter ele estado provavelmente na origem da venda do "Primos" a armador cabo-verdiano que desconhecemos (pode ser que um dia...). E o endereço de Manjua, pescador da Frigorífica (natural de Faro, Portugal), homem de grande sabedoria marítima e piscatória e que deu a Cabo Verde uma misse, vem não só com nome de rua como ainda por cima, número de porta... Assunto enfim resolvido, tudo arrumado! Tudo, tudo, não: o apelido do senhor era "Manjua" e não "Manjoa", seu gráfico destrambelhado!!!

E já agora, a lisboeta Rua Heliodoro Salgado (a da residência de João Inácio Grelha, homem com raízes algarvias) cruza com a Rua de Cabo Verde, no chamado Bairro das Colónias... Coincidências!...


segunda-feira, 19 de fevereiro de 2018

[3548] Ele também teve a sua "hora di bai". O sentido adeus às ilhas, do então brigadeiro Lopes dos Santos, amado governador de Cabo Verde

Pd'B reproduz aqui um texto de despedida, publicado em "O Arquipélago" de 7 de Fevereiro de 1974, da autoria do último governador de Cabo Verde (ainda houve outro, mas sem significado, devido às circunstâncias do 25 de Abril que o desalojaram do cargo ao fim de pouco tempo de vigência, fora os altos-comissários nomeados pelo governo da altura). Reproduzimos também parte de um das suas cartas (do nosso arquivo) a Silva Cunha, ministro do Ultramar, em que recomenda para o substituir um colega de elevada craveira, mais uma vez interessado em servir Cabo Verde. Não foi em vão e por acaso que quando voltou às ilhas em 1995, por altura do 20.º aniversário da independência de Cabo Verde, foi recebido com todas as honras pelas autoridades nacionais. Repare-se na subtileza daquela sua última frase: "como parcelas cada vez mais ciosas da sua autonomia".  Ele sabia, ele sabia... Ver também AQUI



[3547] Os 1000 livros da biblioteca de Luís Romano chegaram agora a Cabo Verde, provenientes do Brasil, e este chegará esta semana ao Pd'B, vindo directamente de um alfarrabista de Cascais

[3546] Mandingas de Ribeira Bote encerram (o mais genuíno) Carnaval de São Vicente

Ver estas imagens é uma alegria, mas ouvir aquel criol sabim de Soncente, ainda mais.

[3545] Carnaval de São Vicente: eles e elas vieram do Oriente e... ganharam!

[3544] Fotos do Carnaval 2018 do Mindelo

Para ver as 40 fotos, basta clicar em cada imagem.
Ver AQUI

domingo, 18 de fevereiro de 2018

[3543] O derradeiro recrutamento de soldados naturais de Cabo Verde para o Exército Português

Os rapazes tinham ido para a tropa em tempo português. Agora estava a chegar um tempo cabo-verdiano. Também eles se situavam num difícil dilema, encravados entre duas bandeiras. Que resposta terão dado a este comunicado, não o sabemos. Quantos terão escolhido a opção 1? Quantos terão acertado o diapasão pela 2? Também não. Enfim, ambas eram possíveis, ambas eram acertadas. Que tenham escolhido a melhor. Outros tempos...

sábado, 17 de fevereiro de 2018

[3542] O então 1.º tenente Daniel Duarte Silva e o "seu" quiosque da Praça Serpa Pinto/Nova/Amílcar Cabral

Foto Filipe Conceição Silva
Pd'B acaba de descobrir em que data o quiosque da Praça Serpa Pinto/Nova/Amílcar Cabral foi feito (não a da inauguração, mas muito aproximada) e sob que orientação municipal. Pd'B revolve cada pedra do Mindelo, mesmo de longe, até não sobrar nenhuma barata sob elas e vai dando notícia do que descobre. É só sabe!... Alguém quer dar o seu palpite? Mesmo sem apanhar nenhum ramo de acácia?

Segunda-feira, falaremos sobre o assunto. Para hoje e para amanhã, já ficaram dois posts exemplares. Sim, porque apesar de isto aqui ser uma mina, o mineiro também tem direito a repouso dominical...

Daniel Duarte Silva
O Pd'B decidiu interromper o seu descanso dominical na Baía das Gatas (onde daqui a nada comerá uma bela lagosta e um quilo de percebes cumpanhód cum vim bronc d'Fogo sabim) para vir dar contas sobre o semi-enigma proposto a propósito do quiosque da Praça Serpa Pinto/Nova/Amílcar Cabral. E a coisa é fácil (hum!, é , é, ahahaha...), pois basta pegar no sacho e sgrovetá na jornal de diazá para chegar ao que interessa. Aqui vai, então, com o então 1.º tenente Daniel Duarte Silva em final de comissão e a sua obra mindelense pelo meio, onde se inclui o quiosque. De 1931/32 (com 86 anos de vida e de bons serviços ao Mindelo, este quiosque merecia condecoração), sim senhor, como o Adriano conseguiu espiolhar rapidamente. Não esqueçamos que ele também é um bom sgrovête...

NOTA FINAL: Pd'B tem dedicado bastante espaço à figura do comandante Daniel Duarte Silva. Para ver tudo que aqui tem aparecido sobre ele, escreva na pesquisa do blogue "Daniel Duarte Silva". Ali mesmo em cima, à esquerda, imediatamente acima do cabeçalho do blogue.

Notícia de 3.10.1931

[3541] De como Nhô Ambróze ficou para a História "misturado" com Carmona e Salazar, sem que no seu nome se falasse...


A história, já quase toda a gente a sabe, mas recontamo-la agora em linhas mínimas, para os poucos que vêm ao Pd'B e nunca dela ouviram falar. 

Estamos em 7 de Junho de 1934, São Vicente (e Cabo Verde, em geral) está na penúria, grassa a fome e é ingentemente necessário comer. Revolta-se o povo miserável que ataca armazéns de víveres e nisto surge à cabeça dos acontecimentos um homem que se torna sua bandeira involuntária, o carpinteiro santantonense de nome Ambrósio Lopes e de nominha nhô Ambróze. No meio disto tudo, e porque era garantido que a continuar o motim urbano iniciado na Ribeira Bote haveria mortes com fartura, um grupo de cavalheiros (na boa acepção da palavra), entre os quais pontuavam Baltasar Lopes, Augusto Miranda e o médico Augusto Regala, conseguiu amainar os ânimos e a coisa saldou-se por apenas um morto, alguns feridos, alguns presos e Nhô Ambróze deportado para Angola. Digamos que em termos assaz incompletos, foi o que se passou. E concluamos o resumo, dizendo que apesar dos roubos de géneros, parte da classe comerciante de certo modo foi solidária com o que se passou, pois sabia das dificuldades por que a população passava.

É claro que o caso chegou a Lisboa. E  é claro que houve castigo. Isso também já o sabíamos, mas nunca tínhamos visto preto no branco os termos em que ele se processou. Até que após um enorme mas paciente sgrovete demos com a notinha... Trata-se do decreto 24592, de 23 de Outubro, publicado cerca de quatro meses e meio sobre o evento. Rápidos, os rapazes, o presidente Óscar, o também presidente mas do governo, António, e o ministro (na altura, das Colónias) Armindo...

Como sempre, "quem se lixou foi o mexilhão" - que se antes não tinha dinheiro para comprar alimentos, agora ainda menos. Quanto às companhias carvoeiras, essas safaram-se nas suas matérias-primas, mas de qualquer modo os filhos de Newcastle e Cardiff aboletados no Mindelo pagaram a partir daí o que compravam nas lojas e no plurim de virdura (alguns produtos, pelo menos, que passavam pela alfândega por não serem originários da ilha) também 10% mais caro... Utilizando outro conhecido ditado, "não há bela sem senão"...


[3540] Liceu oficial em São Vicente, desde 1917, sim, claro, mas... e o Colégio Esperança?

Vem o anúncio em "O Popular" de 5 de Outubro de 1914, quatro anos exactos sobre a implantação da República. O jornal, de São Vicente, com redacção e administração na Chã de Cemitério, n.º 3, tinha como director Mário Ferro, como administrador Augusto Miranda e como editor e proprietário C. Matos.

Augusto Manuel Miranda era em simultâneo administrador do Colégio Esperança - que não era uma esola qualquer, como se pode ver pelo que no anúncio se informa. E os Miranda, sempre na primera linha e o Pd'B sempre ta sgrovetá e a encontrar o que está gatchóde nas profundezas dos arquivos...

Quem diria, heim? O privado Colégio Esperança no Mindelo, em 1914, antes de 8 de Outubro de 1917 (data da fundação do liceu oficial, com a designação de Liceu Nacional que em 15 de Janeiro de 1926 passou a Liceu Infante D. Henrique). Claro que o Colégio Esperança era só para endinheirados, mas mesmo assim... Ficava na Rua da Luz, bem na morada, bem no coração do Mindelo e era dirigido pelo brilhante santantonense cónego Teixeira.

Nota: Tanto esta como qualquer outra imagem que aqui colocamos pode ser apreciada com melhor qualidade se o interessado fizer download dela. Depois, então, poderá ampliá-la pelo processo normal de aumento de imagem, até conseguir fazer uma leitura facilitada.

quinta-feira, 15 de fevereiro de 2018

[3538] Ainda no dia do 8.º aniversário do "Esquina do Tempo", eis o seu arquitecto

Ele sempre teve jeito para arquitectar e por isso levei-o a um edifício em adaptação a hotel na baixa lisboeta, onde eu e arquitecto amigo e autor do projecto (compadre, ainda por cima) lhe mostrámos a famosa "gaiola" da reconstrução pombalina que poucos têm oportunidade de ver "ao vivo." Passou-se isto em 2 de Setembro de 2014. Ó B-S, já é hora de bô voltá li...!

[3537] No dia de aniversário do "Esquina do Tempo", comemoremos com um dos seus posts, este dedicado a António Aurélio Gonçalves. Uma verdadeira delícia!

Ver AQUI
António Aurélio Gonçalves, "Nhô Roque"

[3536] Zito Azevedo, em imagem e som

Já conhecíamos as mornas cantadas pelo Zito mas não este vídeo (sobretudo a imagem do então grande sport) que encontrámos no nosso contínuo sgroventanço, colocado no Youtube pelo Carlos Gonçalves, também ele homem da música cabo-verdiana e autor de livro básico sobre a mesma. Aqui fica ele então, no rescaldo da passagem do 1.º aniversário da partida do nosso amigo para o grande palco celeste.

[3535] "Mussim de mandod" renasce em São Vicente

segunda-feira, 12 de fevereiro de 2018

[3530] Três pérolas de outro nosso amigo, Zito Azevedo, que nos deixou há exactamente um ano

Cumpre-se hoje, 12 de Fevereiro, o primeiro aniversário da morte de Zito Azevedo, notável e persistente colaborador do Praia de Bote (o mesmo acontecendo do nosso lado, aliás, pelo menos no que toca ao "persistente"), bom amigo, e mestre de conhecimento mindelense, faceta que ainda encontramos em posts do seu defunto blogue "Arrozcatum" e neste Pd'B, em dezenas e dezenas de comentários. Foi uma grande perda para familiares e amigos e infelizmente o nosso blogue deixou de ostentar a sua verve e perene boa disposição. Mas a vida é mesmo assim. Seja como for, ficaram a sua memória e muitas outras coisas, entre as quais os seus textos. Aqui deixamos hoje três deles. Vejam sobretudo como ele falava da Praia de Bote. Ele sabia, ele sabia que esta podia ser uma grande praia. E no fim de contas, é-o... seja como for...

Um braça, Zito. Nôs ca ta squecê de bô!

Navio "Empress of England"
28.12.1967


20.6.1968

[3529] Um texto conhecido do nosso falecido amigo Viariato de Barros, ainda (e sempre) actual

S. VICENTE, QUEL PAÍS

Viriato de Barros
Quem chega a São Vicente, vindo de uma outra ilha como a Brava, por exemplo, de rochas húmidas e terras verdejantes, muros forrados de musgo, estradas ladeadas de cardeais ou de cercos de cafezeiros, ou Santo Antão, com os seus vales férteis, exuberantes por onde correm ribeiras de água cristalina, tem, de entrada, a sensação de um banho de aridez e secura que o envolve para onde que se vire.

As espinheiras cobertas de poeira vergam sob a pressão do vento agreste que fustiga a ilha sem cessar. A poeira deposita a sua marca em tudo por onde passa e passa por tudo. Tudo seco. Tudo árido. Mas quando ergue os olhos e alcança a vista que se descortina mais à distância, vê areais dourados em estonteante contraste com o azul do mar e descobre, aí, uma outra beleza feita de tons do mar, do céu e dos matizes de crepúsculos e auroras sem igual.

É uma outra ilha, outra gente. É uma ilha-cidade. Não há campo, nem camponeses. Há rochas, pedras e terra, areia e ribeiras secas que não nos deixam esquecer que, por serem ribeiras, um dia por elas passou água e por ela esperam o ano inteiro, todos os anos. Em S. Vicente também chove, pelo menos uma vez por ano. E às vezes chove tanto que algumas ribeiras conhecem dias de verdura, ainda que por tempo escasso.

É por isso que se diz que S. Vicente não tem interior, como tem, por exemplo, a ilha de S. Tiago. Claro que, rigorosamente, talvez a Ribeira Julião, o Lameirão, o Pé de Verde e o Monte Verde pudessem ser considerados "interior", mas a verdade é que ninguém pensa nesses lugares como tal. Nas disputas entre mindelenses e santiaguenses, numa rivalidade possivelmente tão antiga como o povoamento das respectivas ilhas, um dos argumentos que se tem ouvido santiaguenses utilizar contra os mindelenses para demonstrar que a sua ilha é melhor, é o de que S. Vicente não tem interior. Na versão que conheço da história, esse argumento foi rebatido sem qualquer hesitação ou dúvida por um mindelense de gema com a afirmação de que S. Vicente tinha interior, sim senhor, e que o interior de S. Vicente era naturalmente toda a ilha de Santo Antão. Dali vinham as verduras, e outros produtos que enchiam o mercado municipal de S. Vicente. Perante tão segura convicção, quem ousará duvidar? Com efeito houve tempos em que a própria água de beber ia de Santo Antão, transportada em barcos-depósitos. Mais propriamente num barco depósito conhecido popularmente por "vaporim d'água", ou seja, vaporzinho de água, em português corrente.

O certo é que o mindelense - todo o natural de S. Vicente é mindelense, já que nunca se ouviu ninguém dizer que é são-vicentino - desenvolveu ao longo da sua história um sentimento muito próprio de orgulho e independência a respeito da sua ilha, sentimento que lhe adveio de certas vantagens e circunstancias. Os mindelenses tinham um liceu e centros de formação profissional como a Escola Técnica e a oficina da Pontinha, tinham as companhias inglesas que davam uma nota britânica aos costumes locais, como o hábito de jogar o cricket, o golfe e o ténis, aprendido com os ingleses, havia expressões que faziam parte do vocabulário comum como crizmis (de Christmas), nhocasse (de New Castle) para designar o carvão eventualmente proveniente daquela cidade britânica, as pessoas andavam de calções e usavam sapatos de ténis, bebiam o chá das cinco e tomavam gin tonic. Havia mesmo quem falasse português (ou creoulo) com sotaque inglês adquirido por contiguidade nas companhias inglesas. Coisas, evidentemente do passado. Havia mesmo um certo estilo de andar, ligeiramente inclinado à direita, com um bengalim debaixo do braço esquerdo que, segundo parece, tinha proveniência britânica. Mesmo sem o bengalim, ficava-lhe o jeito. A postura imprimia um estilo.

Havia outra circunstância que contribuía para esse modo mindelense de estar na vida. O fato de o Porto Grande de S. Vicente ser um importante porto internacional, visitado por navios de todas as nacionalidades e provenientes dos mais longínquos e variados lugares, permitia aos mindelenses um contato constante com diferentes culturas, com diferentes hábitos e costumes.

Para além daquelas influências, houve um outro fator, muitas vezes ignorado ou minimizado por sociólogos: a influência do cinema. O Eden Park e posteriormente o também o cinema Parque Miramar, popularmente conhecido como "Cinema do Tuta" foram duas importantes instituições de educação informal e de aquisição de conhecimentos e de estilos. Quem quiser pesquisar a origem de um certo estilo mindelense, de uma determinada época, terá que rever os westerns, os filmes de aventura e mesmo os musicais da época e observar os seus protagonistas para compreender esse estilo. Irá encontrar as réplicas mais acabadas dos estilos John Wayne, Errol Flynn, Fred Astaire ou César Romero, não esquecendo as Betty Grables, as Alice Fayes, das épocas mais antigas e os Clint Eastwoods e seus parceiros dos tempos mais recentes. Nas outras ilhas ou não havia cinema ou a sua influência era não era tão dominante nos costumes locais, como no caso da ilha de Santiago onde, quando muito, os seus efeitos sentir-se-iam na Praia, deixando o interior de fora.

Para além dessas influências, os mindelenses criaram o seu próprio modo e filosofia de vida de que é parte integrante um sentido de humor muito seu, que o leva a rir-se das suas próprias carências e dificuldades. Esta postura obedece a uma estratégia de defesa e sobrevivência num determinado meio, cujos padrões de avaliação foram gerados dentro dos parâmetros estabelecidos pela realidade local e pela sua capacidade criadora e imaginativa. Registo aqui um simples incidente a que pude assistir no período de transição para a independência de Cabo verde em que a rotura de stocks provocou situações de carência de alguns géneros básicos e com as consequentes filas de espera à frente de estabelecimentos comerciais. Tinha-se formado uma "bicha" à frente de uma conhecida padaria à esquina da Rua da Luz, mesmo junto à igreja, o tempo ia passando e o pão não aparecia. A medida que o tempo ia passando, aumentava o silêncio e mais pesada se tornava a atmosfera ambiente. E a dúvida sobre se haveria pão ou não aumentava. Subitamente uma moça descalça que se encontrava na bicha juntamente com uma companheira da mesma idade olhou para a amiga e começou a entoar uma coladeira muito em voga na altura. E as duas começaram a cantar elevando a voz aos poucos e a dançar. Daqui a pouco dançavam e cantavam alegremente como se estivessem numa festa popular. E toda a gente se riu, esquecendo as preocupações que naquele momento a todos inquietavam. O pão, felizmente, acabou por aparecer.

Se relativizarmos o conceito de nação não é difícil concluir que os mindelenses constituem uma nação dentro do conjunto das ilhas, conclusão, aliás, aplicável a cada uma das ilhas de Cabo Verde. Somos nove (Santa Luzia não conta, por enquanto) pequenas nações insulares, sempre dentro dessa relatividade. Conquanto os mindelenses o façam a brincar ao se referirem muitas vezes à sua ilha como "aquele país", quando residem noutra ilha, a brincadeira não deixa de ter um fundo de convicção e de que alguma coisa foi criando, ao longo dos anos, de seu, de próprio, que faz da sua ilha aquilo que o leva irresistivelmente a chamar-lhe "aquele país", quando de longe a ele se refere. Sem dúvida o distanciamento do centro do poder e alguma autonomia conquistada graças ao Porto Grande, desde os tempos coloniais e mesmo depois da independência, apesar da progressiva diminuição sua importância como porto, tem muito a ver com isso. Há qualquer coisa a que podemos chamar o espírito de uma cidade. É o que sentimos em relação a Rio de Janeiro, Paris, Lisboa, Londres, Nova Iorque, Dakar, Buenos Aires, sei lá... Nem todas as cidades têm isso. Mas ninguém tem dúvida, estou certo, que Mindelo tem esse carisma. Um não sei quê indefinível que todo o mindelense sabe bem o que é.

sábado, 10 de fevereiro de 2018

[3524] Resultados do 3.º concurso da 2.ª série de Pd'B, comemorativo do 7.º aniversário do blogue

Resultados:
   Adriano - Acertou: 1, 2 e 6
   Carmo - Acertou: 2 e 7
   Ondina - Não acertou


Assim, o Adriano venceu o concurso mas sem direito a ramo de acácia, por não ter acertado em pelo menos quatro respostas (que, aliás, seria meio ramo).

O júri julga que não cometeu nenhum deslize, mas se o fez, que seja disso avisado, para o emendar.

EIS AS RESPOSTAS CERTAS

Resposta 1: Ilha de São Vicente, Ribeira de Julião
Ora aqui estava uma das duas questões a que eu não seria capaz de responder. Isto parece-se com algumas zonas de Santo Antão, de Santiago, até da Brava... O Adriano acertou à primeira.

Resposta 2: Ilha Brava, Nova Sintra
Carmo e Adriano, acertaram à primeira. Também esta, eu não acertaria.


Resposta 3: Ilha de São Vicente, Ferro e Cia., empresa de distribuição de água
Esta era de caras, facílima. Para começar, claro que se topava logo quem era o miúdo. E sabendo-se quem era o miúdo, chegava-se logo à casa em que ele está a apagar as velas do bolo ou seja, à sala da festa de aniversário, algures na antiga Capitania dos Portos / Torre de Belém. Já agora, para os rigorosos, era a segunda a contar do "plurim d'pêxe". Ora aí, o raciocínio tinha de ser orientado assim: se se fala "do outro lado da rua", é porque tem de haver rua. Para o lado do "plurim d'pêxe (direita de quem observa a foto), não há rua, porque é na continuação; para o lado de onde foi feita a foto (à frente do miúdo), há o mar e para a esquerda do fotógrafo há a Praia de Bote. Rua, há só uma, a que passa à frente da Torre e seu anexo (onde está a sala que vemos, como se conta em "Capitania", livro que todos os concorrentes têm ou pelo menos conhecem), a Avenida República, dita "Rua de Praia". Logo, só a empresa Ferro poderia ser a resposta. É claro que ninguém ligou ao "outro lado da rua"...

Resposta 4: Arnaldo "Naldinho" Gonçalves, pianista de mérito
Esta era de facto um bocadinho difícil, mas não impossível de responder, com as dicas que dei. Fartei-me de associar a senhora às letras seguidas KKKKKK... porque era a D. Katy Karantonis, cabeleireira, irmã do chamado Jorge "Grego" Karantonis. Como é sabido, odeio os "K" no crioulo, mas é claro que nada tenho a dizer sobre eles, por exemplo, em palavras gregas. Era de desconfiar a minha insistência no "K". Ninguém desconfiou... E depois falei dos manos AAAAAA e AAAAAA (Arnaldo e António Aurélio Gonçalves). Que dois manos famosos do Mindelo eram os AAAAAA? Só eles... O Sr. Naldinho homem da cidade mas menos conhecido fora dela; Nhô Roque, professor de grande prestígio da terra, por isso e por ser escritor famoso (até claridoso) também em Portugal pelos seus livros... Mas pior que isso tudo, é que a foto já tinha sido vista e já tínhamos falado sobre ela, incluindo o Adriano, ahahahaha, que descuido fatal Ver AQUI
Arnaldo "Naldinho" Gonçalves é a figura de cócoras. Os outros, também gente tchéu cunchide.
Resposta 5: São Vicente, degraus para descer para a água (ou subir a partir dela, claro) da Baía das Gatas
Sim, no "tanquim" da Matiota havia uns semelhantes, mas o "tanquim" da Matiota já desapareceu, engolido por um estaleiro e eu disse que as fotos, separadas por meio século, eram do mesmo local. Na segunda foto, que tem dois ou três anos, há uma cabeça com cabelos brancos. É um adulto, percebe-se bem. O adulto está em pé. Se ainda houvesse "tanquim" na Matiota, mesmo sentado, ele taparia os degraus com a cabeça. Mas sabemos que não há "tanquim". Logo, se a foto de cima  é vaga, a de baixo mostra degraus molhados. Se há um homem dentro de água, é coisa de praia. Se é coisa de praia, é Baía das Gatas. E assim é, de facto. Trata-se do meu amigo José Carlos Marques que se fez retratar meio século depois de eu, ele e o irmão termos tirado uma foto no mesmo local, com os mesmos degraus em fundo...

Resposta 6: Barcos de nacionalidade japonesa; eram barcos de pesca de atum, ou atuneiros; "Maru", palavra comum a todos os barcos japoneses. 
E só esta última dica já dava para responder a tudo... Só os barcos japoneses têm esta palavra comum no nome. Aliás, o povo de São Vicente chamava-lhes "marus", em vez de atuneiros ou barcos japoneses. Por causa destes, surgiu até uma coladeira, a conhecida "Saiko Daio" de Ti Goy, celebrizada pelos "Ritmos Cabo-verdianos".

Resposta 7: São Vicente, Cine-Teatro Eden Park
Fartei-me de falar em horizontalidade, mandei um braça paradisíaco (paraíso = Eden), mas nada. Se eu fazia uma pergunta destas, com uma nesga tão curta de edifício, só podia ser um edifício muito marcante. Nunca iria colocar uma casa de habitação qualquer. A única confusão que podia haver era por exemplo com o Hotel Porto Grande ou o edifício da nova Defesa Marítima, mas estas linhas não enganavam. Era o velho Eden Park, sim senhor. E o cinema do Tuta era uma espécie de caixa, se bem me lembro lisa, sem aberturas, para além da porta e da loja de fotografia "Foto Melo" no canto.


Insisto, em algo que já disse 6.594.320.960.125 vezes: os concorrentes não tomam atenção nem ao que se pergunta de início, nem ao que se vai dizendo depois. Avançam por ali fora, às cegas, quando a papinha, se não está toda feita... está quase. Mais perdem, por não darem atenção às ajudas. É que nos concursos do Pd'B, até as vírgulas contam.

Seja como for, um grande, grande, grande abraço para os que participaram. Foi trabalhoso mas muito divertido e haverá continuação, no 4.º concurso da 2.ª série, do Pd'B que será mais fácil que este. Até lá, então.

quinta-feira, 8 de fevereiro de 2018

[3523] Faleceu ontem o professor, diplomata, jornalista e escritor bravense Viriato de Barros (notícia veiculada por Valdemar Pereira)

Teixeira de Sousa e Viriato de Barros
Ditou o destino que este nosso amigo morresse no dia do 7.º aniversário do Praia de Bote. Conhecemo-nos por vontade minha, pois sabendo da sua existência (e aqui perto) manifestei interesse em me encontrar com ele. Não me recordo da data, mas há-de ter sido aí por volta de 2000, mais coisa, menos coisa. Lembro-me sim que nesse dia fomos ver uma exposição de pintura no Seixal, para a qual eu estava convidado, e que ele deixou esquecido o telemóvel no meu carro - que lhe fui entregar a casa, também em Almada.

Encontrámo-nos depois aqui na minha, ele com a sua Laura, muitas vezes na rua e em outros locais, esses de "fundos" cabo-verdianos. Numa dessas situações foi ele orador principal, na homenagem que a Associação dos Antigos Alunos do Ensino Secundário de Cabo Verde  (Lisboa) fez ao médico e escritor Teixeira de Sousa no restaurante Caravela em Algés, em 12 de Novembro de 2005. Aí sei a data, pois fiz fotografias do evento que estão datadas e repousam no arquivo. Caso curioso, foi precisamente na altura que conheci em pessoa outro cabo-verdiano ilustre, mindelense (e do Mindelense) e praiabotista encartado... Adriano Miranda Lima - com quem, no entanto, já travara profusa correspondência electrónica. Fiquei também a saber nesse dia que o Viriato era irmão de outro amigo nosso e depois colega de escritas no mesmo jornal cabo-verdiano, o Arsénio de Pina e da Carlota de Barros, poetisa.

Entretanto, o Viriato foi escrevendo e publicou dois livros, "Identidade" (2001) e "Para Além de Alcatraz" (2005), onde convivem episódios das suas vivências da Brava, Fogo, São Vicente e Lisboa. E ofereceu-mos, autografados, como não podia deixar de ser. Curiosamente, o de 2001, em segunda edição, só me chegou em 2007, enquanto que o de 2005 aportou à minha biblioteca na hora.

Nos últimos anos vivia na Praia, vindo esporadicamente a Portugal. Sei exactamente, quando o vi pela última vez, em 15 de Abril de 2016, num dia em que fiz uma palestra sobre escultura pública de escritores, num Centro Cultural da Cova da Piedade. Ele surgiu lá com a Laura, não entraram, e ali logo lhe resolvi um problema que o afligia. Depois, ainda me telefonou e eu não atendi, por estar ocupado na altura. E pronto, ontem deixou de haver Viriato. Isto é, ficou a sua boa memória, de homem inteligente, grande conversador, intelectual culto e bom cabo-verdiano. Ficaram também os dois filhos de papel e tinta que me ofereceu e agora vão ser relidos. Não sei se foi ele quem inventou a expressão, mas foi da sua boca que a ouvi pela primeira vez: "Soncente é aquel país..." 

Boa viagem para o Céu, Viriato. Lá nos encontraremos, logo que os fados mandem!...