sábado, 31 de dezembro de 2011

[0174] Último post do ano de 2011

Ed. da Casa do Leão, texto do PB (clique para ampliar)

quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

[0173] Praia de Bote, sempre!!!

Adriano Lima
Belíssimo, emocionado e emocionante texto de Adriano Lima que aqui o PRAIA DE BOTE gostaria de ter escrito. Um muito obrigado ao autor e esforçado colaborador deste blogue, não apenas pela qualidade do trabalho inédito enviado como por ter metido o administrador do PB dentro dele, mais o velho Manu de boa memória. É bom acabar assim o ano, com algo mais que adequado ao espírito deste espaço - que é marítimo, mindelense e sanvicentino de gema, hoje e sempre!



À memória de meu pai, nascido em 31 de Dezembro, na noite de São Silvestre
Ao meu irmão Osvaldo, nascido em 28 de Dezembro, vésperas de São Silvestre


NOITE DE SÃO SILVESTRE NO MINDELO

Neste dia, o Sol morreu, solitário e resignado, depois de dobrar a esquina do Monte Cara. Não teve direito a luto nem carpideira, padre ou absolvição. Ele assim quis consignado no seu testamento, quando, ao crepúsculo vespertino, ainda teve forças para se fazer ouvir. E tudo porque sabia que as estrelas do céu iam engalanar-se com os restos da sua mortalha de astro rei, para a noite de São Silvestre do povo do Mindelo. E como este só ia ter olhos para sondar o céu, à espera do ansiado sinal cósmico, bem sabia ele, astro rei, que pouco lhe valeria invocar suas virtudes solares num momento em que a noite seria a única medianeira do signo dos homens.

E tinha ele carradas de razão, convenhamos, porque o mindelense, uma vez mais, não deixaria por mãos alheias os seus créditos do mais criativo e folgazão povo do arquipélago.

O que a seguir vem é um repertório intemporal, porque se a evolução e a modernidade marcam o homem e o seu comportamento, lá no fundo da alma mindelense permanece imutável o que ela tem de mais espontâneo e de mais irreverente.

                                                                           
Foto Joaquim Saial - Mindelo, Drogaria do Djandjan e Câmara Municipal

Toi de nha Sabina, catraieiro com bote arrastado na Praia de Bote, está junto à Drogaria de Djandjan no meio de uma multidão a aguardar que o ponteiro do relógio da Câmara Municipal bata as doze badaladas da meia-noite. Ele já não diz coisa com coisa, taramelando palavras incoerentes em inglês, depois de ter emburquido uns valentes grogues no Bar do Faustino, situado na Rua da Praia, perto da antiga Capitania. Ele e os seus amigos Caraca, Junzim Bicuda, Sarafe e Puntchinha, possantes remadores, tiveram à sua conta duas boas travessas de moreia frita e peixe de escabeche como bafa para aquele groguim (1) de Santo Antão. Aliás, muita malta da Praia de Bote esteve reunida nesse botequim a municiar o estômago e os sentidos para a festança da noite, que se há coisa que vale a pena em S. Vicente é gozar a noite de São Silvestre e brincar ao Carnaval. Mas Toi de nha Sabina sabe que exagerou um pouco nas libações, pois, apesar dos seus sentidos entorpecidos, reconhece que melhor teria sido ir doseando a coisa pela noite dentro, até que o Senhor São Silvestre, lá para a madrugada, desse por terminada toda a efusão de corpo e alma.

Agora, estavam ali, todos juntos, à espera da hora H, quando uns meninos de recordaio (2) em punho passam em grande algazarra a contar os escudos arrecadados até ao momento nas boas festas tocadas às portas das casas. O Toi estava a dirigir-lhes uns palavrões em inglês macarrónico quando se fez um certo suspense de algo que ia eclodir. A multidão começa então a contar em voz alta e uníssona os últimos segundos que faltam para a meia-noite. Por fim, o relógio da Câmara bate a última das 12 pancadas e o povo que se acotovela no largo solta um explosivo e triunfal brado de alegria. Em simultâneo, as sirenes dos navios abrigados no porto abrem as suas goelas numa estridência que se ouve em quase toda a cidade e arrabaldes, em meio ao estalejar de foguetes por todo o lado.
Foto JS - Mindelo, Igreja de N.ª Sr.ª da Luz
No quintal da sua casinha no Alto de Celarino, não há quem segure Maninha de nha Tuda, que, de olho puro nas estrelas e coração em festa, bate com força o pilão do cuscuz (3), iguaria que a tradição manda servir na noite de São Silvestre. Mas não está sozinha. Ela e a sua vizinha e amiga de peito Lorença Piedade fazem parceria e batem compassada e alternadamente as pancadas no pilão, na ânsia de terminarem a tarefa a tempo de saírem em correria rumo à Igreja de Nossa Senhora da Luz para engrossarem a multidão que, à meia-noite, e segundo hábito antigo, vai ali dar umas voltas em redor do templo, com uma pedra à cabeça, acreditando poder assim entrar no novo ano com o pé direito, sob os melhores auspícios. Mas ela, enquanto maneja o pau do pilão, só pensa no Toi, seu cretcheu (4), com quem ia comer mais tarde o cuscuz e os pastéis de malagueta que nessa tarde fritara. Interrogava-se por onde andaria ele quando ouve soar os aguardados apitos no meio da Baía, sinal que faltava para ela e Lorença saírem esbaforidamente para a rua, deixando a farinha de milho a humedecer numa bandeja de palha entretecida, para só a cozerem no respectivo binde (5) depois de cumpridas religiosamente as voltas à Igreja matriz.

Entrementes, Toi de nha Sabina vai ébrio de música e grogue no meio de uma serenata de boas festas, que pára de porta em porta na rua Machado. Trôpego de pernas e baralhado de juízo, vai quase colado ao grupo de músicos composto por Luís Morais e outros tocadores de instrumento, mas sem deixar de dar réplica às piquenas (6) que se riem da maneira exageradamente histriónica como ele trauteia a cantiga da noite festiva (7):

Ó dá, ó dá, si bo tita dá
Se bo ca ti ta dá
M’ta txama Jorge para ramêdêb
Porque Jorge ê um home de má consciência
Ondê quel bai el tra más el ta tchá menos.

    
Mas não há noite de São Silvestre no Mindelo que não celebre o enlace entre a terra e o mar com uma coreografia de saltos para a água executada por alguns voluntários crédulos de que assim lavam do corpo as tristezas e os malefícios do ano velho, afogando-os no mar. E tudo isto ocorre com a Baía do Porto Grande debaixo de uma abóbada incendiada por uma policromia de foguetes a estalejar continuamente. Toi, que nesta noite parece ungido pelo dom da ubiquidade, e querendo estar sempre no núcleo duro da festa, não se coíbe e lança-se todo vestido para a água, com os meninos de há bocado, de recordaios já exaustos e ensonados, a darem-lhe troco das bocas mofinas que momentos antes ele lhes dirigira no largo da Câmara. Mas os meninos o que querem mesmo é gozar a visão da orgia da água e do fogo, e largam da mão o Toi quando percebem o estado em que ele se encontra. Resultasse o que resultasse do seu confronto com o ébrio Toi, estes meninos de recordaio compõem, ao fim e ao cabo, o retrato mais inocente da noite de São Silvestre, apesar de alguns actos de arrebata (8) que podem eventualmente ter acontecido no seu trajecto.

Sucede, no entanto, que todo o ciclo tem um princípio e um fim, mas cujos extremos, tratando-se de uma festa, por vezes se entrelaçam derrogando a noção do real. Mas não, haja consciência de que o que flui não tem retorno, pelo menos à luz da razão. Pois o ano velho há muito havia trespassado os confins do tempo convencional em demanda pressurosa de um refúgio abissal para a derradeira catarse de penas e desventuras de que só ele tem a verdadeira e exacta contabilidade. E o céu já não tarda a acolher a chegada da madrugada, que, pé-ante-pé, se insinuará no horizonte, vestida de cambraia fina, para arrefecer os ardores da noite. E é o próprio Senhor São Silvestre, o patrono da festa, que, não dando já mais de si, está quase a cair de joelhos, exangue, sobre as pedras das calçadas de Mindelo. Em simultâneo, e como que em sintonia, os corações dos bailes que animaram a noite já batem as derradeiras pulsações (9) :

Manchê ó manchê que bô manchê…
Manchê ó manchê que bô manchê…

   
Toi bem tentara uma rusga num ou noutro bailarico lá para os lados do Monte, depois de ele e seus companheiros palmilharem irrequietamente quase toda a cidade e arredores, mas deu-se o caso de ele ter sido o único corrido das salas, por demasiado fusco (10) e implicativo, e ainda por cima encharcado devido ao banho de mar com que quisera afogar o ano velho. Sem outro refúgio de alternativa fora da sua casinha no Alto Celarino, ele agora vai sem rumo pela rua da Praia, e, desatinado, começa a cantar em voz alta o já exaurido tema musical da noite (11):
   
Nharmon Manel
Tem um bode motche capode
El tel marrode
Na ladirinha di Monpatrás…

Foto JS - Mindelo, Praia de Bote

A dado passo, como já pouca gente encontra no seu trajecto, dirige-se na direcção dos botes arrastados na Praia de Bote e põe-se aos gritos a acordar quem julga lá estar a descansar: "Ó menis, bsot pêgá na rême e nô bá ta andá que paquete tita entrá na baía. Jal passá Djeu!" (12)  Mas ninguém lhe responde senão um rapaz de nome Manu que costuma ali dormir tendo como tecto as estrelas, ou, na melhor das hipóteses, e quando está mais frio, acomodado dentro do bote Santa Luzia virado ao contrário. Por sinal, é o mesmo menin de ponta de praia (13) que uns anos atrás conhecera a solidariedade humana de um outro rapaz, filho do Patrão-Mor da Capitania dos Portos. Muitas vezes Manu recorda aquele rapaz português de bom coração que regressou à sua terra, terminada a comissão de serviço do seu pai.

Porém, a esta altura, Toi de nha Sabina sente um opressivo silêncio à sua volta, apenas quebrado pelo espraiar das ondas na areia próxima ou por algum esporádico e remanescente foguete a estalejar longinquamente. Um misto de solidão e abatimento começa então a apoderar-se dele e, num estado de quase catatonia, desata num choro baixinho sem saber bem porquê. De duas uma, ou o remorso lhe pesa a consciência ou esta continua simplesmente nublada pelo efeito do grogue. Por fim, começa a fender o ar com movimentos desconexos dos braços, como que a querer agarrar esquírolas da noite, miasmas da explosão dionisíaca que se recolhera ao ventre da terra-mãe.

Farta de esperar pelo Toi, Maninha de nha Tuda comeu o cuscuz apenas com a sua amiga Lorença, porque o seu cretcheu chegou tarde e a más horas e caiu na cama como uma pedra, aparentemente sem ter curado a valente fusca que todos os anos apanha na noite de São Silvestre. O clarão do crepúsculo anuncia o breve renascer do astro rei, que, prestes a retomar o seu trono, demonstra o quão efémera foi a sua abdicação a favor das estrelas da noite e do povo do Mindelo. De um pequeno rádio de pilhas saem agora acordes da música de boas festas de Luís Morais, e Maninha deixa o seu corpo esguio embalar-se em requebros sugestivos na toada da melodia, que agora ecoa nostalgicamente no seu coração frustrado.


Tomar, Dezembro de 2011
Adriano Miranda Lima

Nota:
Os nomes mencionados nesta crónica são fictícios, e a maior parte resulta de nominhos típicos de S.Vicente de Cabo Verde ou de corruptela em crioulo. O único nome citado que é real é Manu, como real é também o episódio pessoal que lhe é referido (colhido do romance “Capitania”, de Joaquim Saial). Também, todas as referências toponímicas mencionadas são reais, incluindo o Bar do Faustino e a Drogaria de Djandjan.


(1)    Diminutivo de grogue em crioulo.
(2)    Instrumento improvisado com uma tábua e tampas de refrigerantes com que os rapazes e raparigas tocam as boas festas na noite de São Silvestre.
(3)    Espécie de pão de farinha de milho, típico e exclusivo de Cabo Verde, cozido a vapor dentro de um recipiente.
(4)    Querido, em crioulo.
(5)    Designação do recipiente com que em Cabo Verde de confecciona o cuscuz.
(6)    Designação em Cabo Verde para moça nova.
(7)    Uma das duas letras da cantiga tradicional de boas festas em Cabo Verde, sobretudo em S. Vicente.
(8)    Hábito antigo de, na noite de São Silvestre, rapazes arrebatarem coisas das mãos de pessoas desprevenidas, mais para se divertirem com o acto do que para cometer um roubo.
(9)    Cantiga tradicional da ilha de S. Vicente que assinala a aproximação do fim dos bailes, ao raiar da madrugada.
(10)    Embriagado, em crioulo.
(11)    Outra das duas letras da cantiga tradicional de boas festas em Cabo Verde, sobretudo em S. Vicente
(12)    “Ó companheiros, peguem nos remos e toca a andar que um paquete está a entrar na baía. Já passou o ilhéu!”
(13)    Expressão em crioulo para designar rapaz sem-abrigo, vivendo na orla do porto.

quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

[0172] Ainda fotos do funeral de Cesária Évora (de John Leão)

As fotos do John chegaram-me através da Maria Helena Pinto Neto, com o texto do autor que aqui junto. Obrigado a ambos. Se calhar, muitos dos frequentadores do PRAIA DE BOTE já as viram.  Para os que não, elas aqui ficam. 


CLIQUE NAS IMAGENS, PARA AMPLIAR

"Creio que todos os que fotografámos o funeral da Cesária preferíamos ter fotografado um concerto. Nunca me acontecera ter captado imagens deste tipo e sinto até algum embaraço em divulgá-las. Chamem-lhe o que quiserem: falso pudor, superstição, medo e outras coisas. As fotos não primam pela qualidade. Não era essa a minha preocupação, nem poderia ser. Felizmente, guardo para mim recordações de como era em vida a Cesária." 
John Leão
















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[0171] Quase na hora, naquel país tchmóde Soncente

terça-feira, 27 de dezembro de 2011

[0170] Poema de Adriano Miranda Lima

Adriano Miranda Lima
O poema é melancólico (a maioria dos poemas é-o) e rememora as noites do Mindelo e da Praia de Bote. No meu caso, o que mais recordo delas são as horas passadas sentado à noite nos degraus antigos da Capitania (ainda em meia-lua, agora amputada por necessidades modernas de trânsito). Na mão, o meu rádio Philco de 9 transistores, comprado ao Benvindo na Rua de Lisboa. O aparelho captava os postos do Mindelo mas também os da África próxima, Dacar e outras cidades do continente negro. Emissões em francês, cujo conteúdo mais eram adivinhados do que traduzidos. Passavam as mulheres com as latas de dejectos para o caisim e eu a olhar para o céu estrelado, frente à Ferro & Companhia, o rádio tocando mornas e coladeras. Às vezes aparecia o marinheiro de serviço que se sentava ao meu lado ou pescadores que regressavam da faina e por ali ficavam, depois de levarem o peixe ao plurim - que de manhã seria vendido...

Obrigado, Adriano, pelo poema.
Joaquim Saial

Praia de Bote, foto do cabeçalho do PRAIA DE BOTE (clique para ampliar)

PELA NOITE DENTRO

A noite vai alta e tece seu manto.
Um cão ladra algures no escuro
A alguém vestido de espanto
Que emigrou da rua da Praia de Bote.
A lua espreita e sorri com olho puro
A pássaros pousados nas árvores
Dormindo o mistério da noite profunda.
Há sílabas de sono anestesiando as dores
De quem do dia amealhou a luz que inunda
Na ilusão de à noite irradiar seus pesares.
Desperta-me uma camioneta que passa a rosnar,
Levando em cima uma carga de melão,
E o aroma que invade o ar da noite
Tem o sortilégio do perfume
De cachos de banana transportados à cabeça
Pelas ruas da minha infância no Mindelo.
A lua ostenta agora ares de condessa
E olha seu manto de prata com desvelo.

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

[0169] Bom Natal pa tude munde...

Neste final de ano que para os cabo-verdianos e aderentes ficou tristemente marcado pela desaparição física de Cesária Évora, seguem os votos de um Natal cheio de saúde, de preferência passado em família e com amigos.

(clique para ampliar)

[0168] Novo texto de Zito Azevedo. Proximamente, poema de Adriano Miranda Lima

BRANDY v.s.o.p.

Zito Azevedo
Corria para aí o ano de 1953 e o Rádio Clube Mindelo, que funcionava nos dois andares superiores do ultimo prédio da Rua de Lisboa, mesmo em frente ao, então, Palácio do Governo (hoje, Palácio do Povo), organizava um dos seus famosos bailes com orquestra, não me lembro se era o Baile da Pinhata, se era o Baile das Chitas. Só sei que estava animado, como sempre acontecia naquelas organizações do amigo José Pedro Afonso, o primeiro amigo que me calhou com três nomes próprios. Eu, passava as horas a tirar um pequeno espelho do bolso para controlar o estado do meu laço de gravata, pois havia, nessa noite, dois concursos: um para o melhor nó de gravata, para os homens, e outro, para a mais bela flor artificial, para as senhoras.

Reunido o júri, foi deliberado que o Zito Azevedo (que era eu) vencia o concurso do melhor nó de gravata e a menina Maria do Carmo, mais conhecida por Maiúca, vencia o concurso das flores. Não me lembro qual era o prémio mas o simples facto de os dois vencedores terem que dançar um com o outro, já era prémio suficiente para mim pois a menina da belíssima rosa que uma tia lhe havia enviado dos “States” já há algum tempo que me vinha despertando os instintos em fugazes olhares de esguelha naquelas intermináveis voltas na Praça Nova. Mas, encurtando razões, o que é certo é que naquela noite de baile no RCM eu acabara de ter um encontro com o destino, conhecendo a mulher com quem, há 54 anos, partilho a minha vida.

 Algum tempo mais tarde, depois de resolvermos que queríamos dar o passo seguinte, era mister que eu pensasse em dar o corpo ao manifesto. Foi quando me confrontei com uma notícia de que o Governo de Angola queria recrutar em Cabo Verde elementos para o seu Quadro Administrativo, na categoria de Aspirantes. Lá fui de abalada à Praia, prestar umas provas de conhecimentos gerais e físicas sem qualquer tipo de dificuldades, de tal forma que, duas ou três semanas mais tarde fui notificado de que tinha sido aprovado, eu e mais uns tantos amigos e ex-colegas do Liceu Gil Eanes. Lá teria que voltar à Praia, para oficializar a situação e receber guia-de-marcha para Angola…De armas a bagagens rumei à Brava para me despedir da minha futura noiva e esposa, vi a vida mal parada quando, a caminho de Santiago, desembarquei no Fogo abandonando um “Novas de Alegria” demasiado dançarino para o meu gosto, consegui, quase por milagre, viajar, de avião, para a Praia, quase me afoguei nas águas do porto quando buscava meu navio para S. Vicente e a calema inundou a casca de noz que tio Polu tinha colocado à minha disposição por o tráfego profissional estar suspenso, dei de caras com meu pai no aeroporto da Praia e na viagem para S. Vicente ainda houve tempo para uma breve passagem pelo Sal, para reparar um dos tirantes das asas do “Dragon Rapid”. Depois de ter perdido o mesmo navio duas vezes em 24 horas, uma vez na Praia, outra no Porto Grande, lá consegui, com outros amigos, lugar no cargueiro “Ganda” onde, finalmente, me encontrava, três anos depois daquele célebre baile, no Rádio Clube Mindelo, de tão boa memória! Parecia a vida do Tim-Tim em 48 horas…

O Dick Ferro, o Adriano Lima e eu, fomos acordados, subitamente, pela sineta que, insistentemente, chamava os passageiros para o pequeno-almoço. A primeira impressão foi de um certo pânico, pois não se via nadinha. Foram necessários alguns segundos para nos recordarmos que estávamos num camarote interior, onde a luz do sol não tinha acesso e onde, segundo a judiciosa constatação da noite anterior, era tão escuro que se podia dormir de olhos abertos… Tinha começado a rotina que nos haveria de acompanhar nos próximos quatro ou cinco dias, dependendo do estado do mar e esta era a minha primeira “grande” viagem desde que, treze anos antes, tinha partido de Lisboa para o Mindelo, S. Vicente de Cabo Verde.

A vida a bordo de um navio no alto mar, tem um sabor especial em que as dimensões do espaço imenso que nos rodeia nos produz uma sensação de isolamento e solidão tão incoerente quanto é certo que nos encontramos rodeados de gente e de ruídos que percorrem os nossos sentidos como um filme, sempre o mesmo filme, visto e revisto, hora após hora, dia após dia… O nosso relógio orgânico vai-se adaptando a novas realidades, recuperamos o equilíbrio sincronizando os nossos movimentos com as oscilações do grande navio e, sobretudo, sentimos uma certa tendência para engordar. Efectivamente, uma parte substancial da vida a bordo de um navio de longo curso é passada… a comer! São, normalmente, quatro refeições: pequeno-almoço, almoço, lanche e jantar e começa-se, logo ao pequeno-almoço, a comer de garfo, além dos habituais pão, manteiga, café, chá, bolachas, etc. É que, segundo dizem, o ar do mar abre o apetite…


Talvez por deferência institucional, nós os três fomos convidados para almoçar à mesa do comandante do navio, onde também tinham assento os quatro oficiais de bordo, um major reformado que vinha de Luanda e uma senhora a quem, que me lembre, apenas ouvi dizer “bom-dia”, “boa-tarde” e “boa-noite”. Findo o repasto, o comandante pediu licença para acender o primeiro dos dois charutos que fumava por dia, enquanto se deliciava com uma dose generosa de “cognac” cujo aroma se misturava, de forma muito subtil com o do café de Timor que era exclusivo daquela mesa. O nosso anfitrião não se cansava de tecer elogios ao “cognac” que, segundo confessava, não conseguia dispensar depois das principais refeições do dia, tal como o charuto. E explicava que se tratava de um “brandy” de alta qualidade e que, por isso, se designava por v.s.o.p. que significa Very Special Old Pale ou seja, um perfeito Reserva do melhor “Napoleon” que ele conhecia…Foi, então, que o Dick Ferro teve a frase de que, dias mais tarde, se haveria de arrepender até às lágrimas. Disse: “Isso, senhor Capitão, é porque o senhor nunca provou um bom grogue de Santo Antão!”. Levantou-se e saiu, disparado, para voltar dois minutos mais tarde com uma garrafa que acabava de libertar do papel pardo em que vinha embrulhada. Era uma bem conhecida garrafa de “whisky” que conservava o rótulo negro do “Johnny Walker”. Exteriorizando um entusiasmo que eu lhe desconhecia, o Dick tentava destacar um papelinho preso à garrafa com fita-cola, (mais tarde vim a saber que tinha o nome de um familiar residente em Lisboa) enquanto explicava que, segundo constava, os ingleses que trabalhavam em S. Vicente na estação do cabo submarino da Cable & Wireless, a que todos chamávamos de Telégrafo, recebiam o “whisky” da Escócia em pequenos barris de madeira de carvalho, de 50 litros. Em S. Vicente era “destemperado” até se obter a graduação oficial e engarrafado, apenas para consumo do pessoal da Companhia. Ora, os produtores da melhor aguardente de Santo Antão, sabendo muito bem que o carvalho era uma madeira óptima para envelhecer destilados, compravam aqueles barris que, ainda por cima vinham “bêbedos” de “whisky”, e neles guardavam as suas melhores “colheitas” por anos, obtendo autênticos néctares de sabor e aroma inigualáveis… Um “rum” melhor do que muitos mundialmente célebres como os da Jamaica e de Cuba.  Com tanta euforia o Dick já suava enquanto o comandante, que já ia no seu segundo “brandy v.s.o.p.” se afirmava pronto a experimentar o grogue especial do Dick Ferro, no dia seguinte, quando não tivesse o palato adormecido pelo distinto sabor do Napoleon...


No dia seguinte, ao almoço, não tivemos o prazer da companhia do Comandante que, segundo o telegrafista, estava um pouco febril. Pensei logo que devia ser do “calor” do “cognac” que, por ausência do anfitrião, também parecia indisponível e não deu as caras sequer. O telegrafista, para além de um tanto comprometido pela ausência do seu chefe, parecia cansado e eu os meus amigos não deixamos de sentir uma carta pena do homem – afinal, tínhamo-lo desalojado do seu camarote para podermos usufruir de instalações similares a uma primeira classe, já que o navio não tinha segunda, a que tínhamos direito por inerência de funções – e nem sequer sabíamos como é que ele estava acomodado.

Ao jantar, o Capitão da nave parecia fino que nem um pêro, barbeado de fresco e impecável na sua farda branca, brancura “Omo”, decerto e, segundo dizia, em grande expectativa de que a refeição terminasse para provar “aquela maravilha envelhecida em barris de “whisky”. Cá com os meus botões, eu pensava que no dia seguinte ao almoço o Comandante iria primar, de novo, pela ausência…E já não falo do pequeno-almoço porque, esse, tomava-o, sempre, nos seus aposentos. Enfim, após uma primeira baforada do robusto charuto, levou ao nariz o cálice de meio-cristal, meio de grogue, inspirou longamente, de olhos semicerrados, fez o liquido âmbar rodar dentro do cálice para acentuar mais o aroma e levou-o aos lábios entreabertos sorvendo, quase que com receio, uma lágrima que o obrigou a esbugalhar os olhos e esboçar um sorriso de deleite quase sensual a que se seguiu o veredicto que haveria de fazer do Dick o mais feliz e o mais infeliz dos cabo-verdianos de Santo Antão: “Isto, meus amigos, é uma bomba!!!”


E, claro, os bombardeamentos que se seguiram, até ao fim da nossa viagem colocaram em sério perigo a integridade moral do amigo Dick, que tinha recebido do pai quatro garrafas do seu melhor grogue de sempre para levar pessoas de família residentes na Metrópole. Só que, as sucessivas rodadas da “bomba” que o Comandante não se cansava de elogiar a ponto de dizer que, como se costuma afirmar a respeito de Nápoles, ele já podia morrer pois tivera o privilégio de ter beber a melhor aguardente, o melhor “brandy”, o melhor “cognac” que jamais alguém produzira sobre a terra, tudo, consubstanciado naquele divino grogue de Santo Antão, a melhor colheita de sempre da marca Ferro, iam consumindo o “stock” a olhos vistos: primeiro, foi a garrafa do tio, depois a do primo, depois a do cunhado e só a última, que era para o irmão ainda estava intacta… Estava pois, na véspera da nossa chegada a Lisboa, o que aconteceria às primeiras horas da manhã seguinte, o nosso Capitão resolveu proporcionar-nos e aos restantes passageiros da primeira classe, uma ceia de despedida, que foi servida com alguns requintes por volta das 10,30 da noite. Teve direito a vinho espumante, carnes frias, tábua de queijos, saladas e, imagine-se, pastéis de nata. Estava tudo na maior, quando o Comandante, de forma audível a todo o salão, inquiriu: “Então, senhor Aspirante Henrique Ferro, não há lá uma pinguinha do melhor “brandy” do mundo para a despedida?” Como quem caminhasse para a forca, o Dick lá foi ao camarote buscar a ultima garrafa da relíquia de seu pai. Então, tive uma ideia luminosa e, à socapa, segredei ao Dick que deixasse lá no camarote, um bom bocado do grogue, no copo da casa de banho, que depois lhe explicaria a finalidade.

Era já madrugada quando nos recolhemos para refazer as malas e pouco mais. E, então, expliquei ao Dick para o que era o grogue que tinha sido guardado: como o pai dele, decerto, teria avisado as pessoas a quem mandava os presentes, o portador teria que ter uma boa explicação para a não entrega das mesmas. Era fácil: o Dick diria que devido a mau manuseamento da bagagem, aquando do embarque em S. Vicente, a sua mala tinha caído e as garrafas haviam-se partido todas, encharcando a roupa de grogue… Nada mais eficiente.

Dois dias mais tarde, encontrámo-nos todos, conforme o combinado, no Pic-Nic, em pleno Rossio. Perguntado sobre o assunto das garrafas de grogue, o Dick, satisfeito, informou que tudo tinha corrido bem. Aliás, o pai, que era homem precavido e, obviamente, muito vivido, na presunção de que pudesse haver algum acidente com as garrafas que o Dick trazia na mala de mão, tinha mandado colocar umas tantas na mala de porão. “Just in case!”...

Zito Azevedo

Queluz, 21 de Dezembro de 2011

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

sábado, 17 de dezembro de 2011

[0162] SODADE

[0161] CESÁRIA, CIZE, A SODADE QUE FICA...


Nesta dia triste para Cabo Verde e para o mundo, o  PRAIA DE BOTE publica um poema de Valdemar Pereira que acompanha a alma da diva em direcção ao céu dos que se libertaram da lei da morte.


Rosas desfalecidas
(à minha amiga Cesária)


As rosas dos melhores dias
ontem bem desabrochadas
ao sol das nossas alegrias
acabaram-se enfraquecidas
no profundo da minha alma
hoje bem dolorosa e calma.

Porque se aproximou a hora
quero poder mesmo agora
saborear o encanto precário
dos meus sonhos em relicário
mesmo sabendo-os sem a chama
que roubaram à minha alma.

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

[0160] "Meu falucho", soneto de Adriano Miranda Lima

Adriano Miranda Lima
O PRAIA DE BOTE que, como se sabe é um espaço cabo-verdiano assumido e reivindicativamente marítimo, fica mais que contente quando lhe oferecem petiscos como este que AML lhe enviou para publicação. O sentimento que fez com que o coronel-escritor-poeta tenha tido vontade de escrever o presente poema, teve-a o administrador do blogue quando viu o "Carvalho" jazer no cais acostável em 1999, como cão lazarento votado ao abandono. Será uma história, com contornos políticos nebulosos (ainda por cima britânicos), para contar noutra altura. Limitemo-nos, por enquanto, a ilustrar o "falucho" de Adriano Miranda Lima com a dramática foto de há 12 anos do palhabote que tantas vezes cruzou o Mar d'Canal.



Meu Falucho

Cavername é o que resta de ti, no rochedo a apodrecer,
Navio de outra era, nostálgico veleiro.
Há quanto tempo já as ondas te não embalam inteiro?
Em sonhos ainda te vejo a todo o pano, ao entardecer...

Mas tu também sonhas às vezes, eu sei...
Se o vento sopra de feição, não resistes ao incitamento
Das ondas, das toninhas e das estrelas do firmamento,
E retomas as rotas centenárias do mar da velha grei.

Ainda vives imanente nas pupilas dos meninos da beira-mar,
Herdeiros da genética memória das lides marinheiras,
Agora teus tripulantes no cavername das suas brincadeiras.

E continuas vivo nas histórias do povo insular,
Meu falucho, modesto barquinho de carga e passageiro.
Só eu sei quanto desejas voltar a um estaleiro.


Foto Joaquim Saial - "Carvalho", palhabote do armador Henrique Ferro (clique para ampliar)

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

[0159] Continuando com naufrágios... (ver post anterior, de Zito Azevedo)


Aqui está uma pérola da minha investigação (notícia de Julho.1967) que ofereço como primeira prenda de Natal a todos os interessados nas coisas de Cabo Verde e visitantes do PRAIA DE BOTE, mudos ou colaboradores... A notícia é oriunda da Praia mas obviamente refere-se a coisas de Barlavento - ou do Norte, como agora se diz. E com uma personagem de valor marcante que todos conhecemos mas que já abandonou este mundo. Mais não digo, porque o que se lê, chega...

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quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

[0158] Após o "naufrágio", um texto ainda "naufragado" do nosso colaborador Zito Azevedo

REGRESSO AO FUTURO

Zito Azevedo
Naquele dia, que jamais esquecerei, do ano de 1956, as últimas horas da minha ainda breve existência tinham sido bem mais frenéticas do que eu teria desejado - caso se pudesse interferir na marcha do destino, se é que essa coisa existe. Não havia dúvidas que eu havia sido abalroado por uma onda de calema, em plena baía do porto da Praia, capital do arquipélago e da sua maior ilha, Santiago! Pescados à procela eu, o meu remador e a minha bagagem, aí vínhamos nós, cavalgando as ondas, agarrados de unhas e dentes ao banco do robusto escaler que oito espadaúdos remadores impulsionavam, à força de braços e ao som de uma melopeia ininteligível, que dava ritmo às remadas, nos limites do esforço, onda acima, a toda brida, onda abaixo, enquanto, na direcção de terra as luzes escassas subiam e desciam no nosso horizonte visual, ora aparecendo, ora desaparecendo, prolongando a nossa angustia ao dar-nos a ilusão de estarem cada vez mais distantes.

À segunda ou terceira tentativa, conseguimos encostar o tempo suficiente para um rápido desembarque, antes que nova ondona levasse o nosso barco de salvação para o meio da calema, de regresso ao vapor cuja tripulação nos tinha subtraído a uma situação que poderia ter sido bem mais grave. Ainda hoje, passados tantos anos, conservo gravadas na minha memória afectiva cada imagem desses momentos de aflição e recordo de, nessa altura, sentir o que era, na realidade, regressar ao futuro…

Foto Joaquim Saial - Mar d'Canal, com Djéu e São Vicente em fundo (clique na imagem)
 O meu primeiro grande suspiro do dia, creio que me saiu directo da minha alma, estava eu sentado na calma cálida do cadeirão preferido do tio Polu que me estendia, com a sua mão peluda de longos dedos, um cálice microscópico cheio daquele néctar cor de âmbar com cheirava à distância ao bom grogue de Santo Antão, daquele que nem toda a gente tinha o privilégio de degustar!

Estava aquele calorzinho etílico a chegar-me ao estômago quando me apercebi da verdadeira dimensão do brado que ti Nanda me enviava, lá da varanda do bungalow, como se a terceira guerra mundial tivesse eclodido: “Oi Zito, águ di mar dja stragâ tudo bu rôpa!”

Eu tinha ido à Brava despedir-me da minha futura esposa, numa visita de algumas semanas e, por isso, tinha enchido a abarrotar a minha bela mala, que por sinal me tinha sido oferecida pela Ti Nanda, com tudo o que tinha de melhor, por motivos óbvios… Ora, a mala, era uma bela peça, de calfe azul que envolvia uma armação de aço bem forte mas, pelos vistos, a tinta não era de tão boa qualidade e ali estava eu, mais a Ti Nanda e o Tio Polu, a olharmos para umas dezenas de peças de roupa, interior e exterior, toda muito azul, tão azul, que pouca coisa escaparia…E estávamos em 1956, numa altura em que a roupa pronta a vestir, para além de cuecas, camisolas e camisas, pouca mais era… A minha única safa é que eu estava, afinal, a caminho de Lisboa, via  Mindelo.

Depois de uma noite mal dormida, em que sonhei com tubarões, sereias, casamentos e marcianos azuis, lá fui para o aeroporto da Praia, para apanhar o Dragon para S. Vicente, onde dei de caras, imagine-se, com o meu pai que vinha aflito para saber de mim depois de constatar que eu não tinha seguido no navio que era previsto, entretanto chegado ao  Mindelo.  Na altura, ainda não havia telefones móveis. Na viagem, além de meu pai, tive a companhia do “velho” amigo Rui Miranda e, claro, dumas dezenas de caixas dos tais pintainhos amarelos palradores…

Estava eu a tentar catalogar os acontecimentos dos últimos dois dias, quando verifiquei que um dos tirantes, esticadores ou como se chamam aqueles cabos que ligavam as duas asas dos Dragon Rapid, estava solto… Ía eu entrar em pânico quando o piloto disse que tínhamos que fazer uma escala técnica no Sal, para reparar o tal tirante. E eu a ver o tempo a passar e a gente a passear lá em cima, à velocidade do caracol! Enfim, descemos no Sal, bebemos uma cerveja morna enquanto substituíam o tirante, levantámos voo, de novo, voltamos a aterrar, desta vez em S. Pedro (ou seria na Baía das Gatas?), uma corrida de automóvel até à morada ao encontro da minha mãe chorosa de preocupação, agravada com a notícia de que estava sem roupa…

E, claro, o meu navio, esse, eu havia-o perdido pela segunda vez em vinte e quatro horas mas, felizmente, não era o único. Os meus camaradas Dick Ferro e Adriano (Migo) Brito Lima, que também iam para Angola, andavam a ver que conseguiam ir no “Ganda” da Sociedade Geral, que estava no porto a descarregar milho do sul e seguiria, no dia seguinte, para Lisboa. O cargueiro não tinha muitas acomodações para passageiros mas, como se tratava de funcionários públicos, lá deram um jeito e venderam-nos as passagens.

"Ganda" - Foto do blogue Companhia de Moçambique (clique na imagem)

Assim, tivemos tempo para eu refazer o meu “guarda-roupa”, dentro das limitações do mercado e, no dia seguinte, de manhã, lá fomos, de armas e bagagens para bordo do "Ganda" onde nos levaram para a 3.ª classe… Aí, a gente estranhou e com a ajuda do amigo Pedro Afonso, que tinha servido na Marinha e era, na altura, telegrafista do "Senhor das Areias", fizemos ver ao pessoal do navio que, sendo funcionários administrativos de Angola tínhamos direito a viajar em 2.ª classe. Ora, como o navio só tinha 1.ª e 3.ª obviamente, tínhamos que seguir viagem em 1ª classe…Mas, azar dos azares, a 1.ª classe estava repleta. Assim tiveram que desalojar o telegrafista do navio, que tinha uma cabine bem ampla, onde nós os três fomos instalados, com quarto de banho privativo e tudo… Só havia um inconveniente: o camarote era interior e, depois da luz apagada, o sítio ficava tão escuro que o Adriano comentou, nessa noite: “Ó mnis, ess lugar é tão ‘scuro que bô câ nen mestê f’chá oi pâ dormi…”

Com uma saudável e ensonada gargalhada despedimo-nos do nosso primeiro dia a bordo. Os dias seguintes dariam, como um via veremos, pano para mangas!

Zito Azevedo

Queluz, 5 de Dezembro de 2011

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

[0157] Pozolana e outras coisas

À pergunta do Adriano e do Zito, não sei eu responder. Fi-la nos meus dois retornos a Cabo Verde, sem sucesso de maior: uns diziam que se tinha extinguido; outros, que existiam agora outros produtos superiores que a haviam tornado obsoleta. Fiquei na mesma. Se alguns visitantes que se ficam pela visita dessem o seu contributo, poderíamos chegar lá. Mas daí já eu tirei a ideia. É como diz o Adriano. Se o PRAIA DE BOTE se dedicasse a enaltecer ou a vilipendiar políticos, estariam aqui os lobos habituais, de dentuça afiada. Como pelo contrário se dedica à história e memória das ilhas - e isso é, como sabemos, assunto secundaríssimo -, não vamos ter nenhuma ajuda... Enfim, pode ser que surja um milagre...

De qualquer modo, aqui vai a notícia mais recente que obtive sobre o assunto, de Março de 1971 - que ainda dava a pozolana como produto importante na economia do arquipélago. Depois, é a bruma... da memória. 


sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

[0156] A pozolana...

Vinha de Santo Antão, em sacos azuis, com o mesmo feitio dos de cimento. Temporariamente, ficavam depositados no cais acostável do Porto Grande. Muitos, em pilhas enormes, prontos para a exportação. Eu usei-os como brincadeira, subindo por eles acima, quando se postavam em degraus. Amigos meus, de pele mais escura que a minha, mascaravam-se de "bronque", espalhando o dito pó, extraído de alguns que se rasgavam, pelos seus corpos.

Depois, os sacos desapareciam, carregados em barcos que os levavam para a Europa, talvez até para partes de África, sabíamos lá nós para onde. E algum tempo a seguir, apareciam outros, vindos da ilha vizinha, a pedreira... Era a pozolana, uma rara riqueza de Cabo Verde.

Notícia de Novembro de 1966
Diz dela a Wikipédia:

Pozolana, ou pozzolana (do italiano pozzolana ou pozzuolana), nome derivado da localidade italiana de Pozzuoli, nas imediações do Vesúvio, onde é encontrada em cinzas vulcânicas conhecidas por cinzas pozolânicas ou pumicite. Embora a designação se tenha alargado a materiais produzidos industrialmente, ou derivados de cinzas volantes de processos de queima industrial, na sua origem as pozolanas são rochas de origem vulcânica, constituídos por uma mistura mais ou menos homogénea de materiais argilosos, siltes e areias, com maior ou menor agregação, resultantes da alteração pelos agentes atmosféricos de materiais vulcânicos ricos em sílica não cristalina, com destaque para a pedra-pomes. Devido à sua riqueza em silicatos vítreos, as pozolanas são consideradas rochas sedimentares de natureza ácida, contendo um elevado teor de sílica reactiva (SiO2), capaz de reagir com o óxido de cálcio (CaO), dando origem a silicatos amorfos de carácter cimentante. As pozolanas mais comuns são de cor clara, mas em função dos óxidos metálicos que contenham podem ter colorações que variam desde o esbranquiçado até ao cinzento-escuro, incluindo variedades avermelhadas e rosa. A pozolana é um dos componentes do cimento utilizada na preparação de argamassas pozolânicas, misturada com água e cal hidratada, melhorando as características dos betões e permitindo a sua utilização dentro de água. (...)

terça-feira, 29 de novembro de 2011

[0155] De novo, a London House

Já vimos a London House no post 0013, mas entretanto encontrámos mais um objecto desta prestigiada casa sanvicentina. Ele aqui vai: um álbum encadernado, com ornamentos art-nouveau e indicação do nome da casa e do seu proprietário, comportando cinco postais ilustrados a cores de cujo conjunto vemos dois bem conhecidos. A casa era chique, situava-se na Rua de Matijim e pertencia a João Joaquim Ferreira, conhecido como João da Boa Sorte. Aos artigos publicitados no anúncio do "Futuro de Cabo Verde" de 1 de Maio de 1913 pode juntar-se o objecto hoje divulgado. Vai ainda reprodução, também vista no post 0013, daquilo que julgamos ser a etiqueta retirada de algum artigo comercializado na London House.

Uma casa com "stil", dos tempos do gato de Mané Jom que aqui de certo modo refazemos. Afinal, para isso também serve o PRAIA DE BOTE...

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sexta-feira, 25 de novembro de 2011

[0154] Nova crónica de Zito Azevedo

O DIA EM QUE NAUFRAGUEI…

Zito Azevedo
Eu fora a S. Tiago tratar da papelada para depois seguir para Angola, como funcionário administrativo, com guia de marcha, guia de vencimentos, protocolo de adiantamentos em numerário, requisição de passagem para Lisboa, etc. etc., um monte de papelada que me lembrei de acomodar numa daquelas pastinhas de capitão de palhabote, imitações de pele com um fecho de correr em três dos seus quatro lados e que dava ao portador um aspecto de pessoa ocupada e quase importante, carregando uma pasta negra repleta sabe-se lá de que segredos.

Corria o ano de 1956, estaríamos aí em Outubro ou Novembro e o dia tinha amanhecido carrancudo, lá na Chã de Areia, em casa de Ti Nanda, tia da minha, na  altura,  noiva,  e que era casada com Polú,  professor da Escola Técnica, mas um mestre em carpintaria, marcenaria, mecânica, engenharia naval e civil, electricidade, metalurgia, um homem para quem as ciências práticas não tinham segredo… Ficaram célebres os seus cachimbos extraordinários, especialmente os de raiz de roseira, as suas cadeiras de baloiço e muito mobiliário de mogno com acabamentos lacados, arte milenar que ele interpretava como ninguém. Este homem foi o mais completo repositório de conhecimentos que até hoje conheci e que até construíra o bote em que eu, nesse dia fatídico, haveria de naufragar…

Foto Joaquim Saial (clique na imagem)
Ao princípio da tarde, e debaixo de um céu plúmbeo de quase meter medo, lá fui para o cais do porto para apanhar um “gasolina” que me haveria de levar a bordo de um dos navios da Sociedade Geral de viagem para Lisboa via Porto Grande, fundeado a meio da baía. Foi na altura em que todos ouviram o lúgubre lamento do alarme da Capitania do Porto avisando a cessação de trânsito das embarcações mais pequenas por via da calema… Lá se ia a minha hipótese de chegar a bordo do navio que me levaria a S. Vicente e Lisboa.

A calema é uma situação, creio, característica das águas tropicais, em que de formam  ondas por vezes de grande porte, entre curtos períodos de acalmia quase podre… Não me parece que se saiba quando e porque se formam e também julgo que ninguém saberá quando vai a calema amainar, o que quer dizer que eu estava metido numa camisa de onze varas, pois nem com uma gratificação extra se conseguia uma oferta de transporte. Foi quando o Tio Polú se lembrou do botezinho que tinha construído, meses antes, no seu estaleiro privativo de Chã de Areia. O bote era minúsculo e éramos eu, o moço dos remos, a minha mala da roupa e a minha preciosa pastinha de mão, repleta de documentos e bastante dinheiro para a época… As ondas da calema, dizem, acontecem de sete em sete mais pequeninas, quase imperceptíveis e foi num desses hiatos de acalmia que nos lançamos à água fria do porto, com o navio à vista mas parecendo tão distante…Tão distante, efectivamente, que nunca chegámos a alcança-lo. Creio que, se não foi à primeira foi à segunda ondona que o barquinho ficou repleto de água mas, graças a Deus manteve-se à tona e nós muito sentadinhos comigo segurando a alça da minha mala e a pastinha apertada debaixo do braço, com toda a pressão possível. Estaríamos a entrar em pânico, quando ouvimos uma voz gritar o conhecido “homem ao mar!”… Levantámos os olhos e lá estavam três ou quatro marinheiros à ré de um navio de casco escuro e altíssimo, para cujas cercanias a onda nos tinha arrastado! Um deles segurava uma bóia, que nos foi lançada segura a um cabo, enquanto nos recomendavam que não tentássemos levantar-nos pois sentados estaríamos mais seguros. Tudo se passou com tal rapidez que nem deu tempo para pensar em ter medo e poucos segundos depois estávamos a ser içados para bordo, a minha mala e a minha pastinha bem seguras, molhados até aos ossos mas felizes como passarinhos acabados de libertar da gaiola...

Vesti um pijama do capitão do cargueiro português que nos havia “pescado” e o meu companheiro uma farda de trabalho de um tripulante, enquanto a nossa roupa secava e, como a noite já tinha caído e as emoções abrem o apetite, não nos fizemos rogados quando o capitão nos convidou para jantar. Foram momentos de descontracção que vieram a calhar depois daquele estranho naufrágio mas, terminada a refeição e seca a nossa roupa, regressei à terra e constatei que o problema, afinal, subsistia e até se agudizava pois, momentos antes, tinha assistido à saída do navio a bordo do qual eu era suposto estar, a caminho de S. Vicente… e no mar, havia calema!

Foi quando o capitão me levou perto da amurada e apontando para um grupo de tripulantes do navio me disse:
-Meu amigo, estes são os oito melhores remadores que tenho a bordo. Se você os convencer a levá-lo e ao seu companheiro, a terra, eu autorizo a utilização de um dos escaleres salva-vidas do navio!

E ilustrava a palavra “convencer”, esfregando, significativamente, o polegar no indicador da mão direita… Claro que não levei muito tempo a negociar e ofereci 500 escudos, de caras; o patrão fez notar que eram oito, eu percebi a lógica aritmética e meia hora mais tarde, lá fomos, cavalgando as ondas da calema, eu, o meu remador – que não tinha dito mais do duas palavras desde que saíramos de Chã de Areia – a minha mala da roupa e a preciosa pastinha negra onde, pasme-se, não entrara uma única gota de água!
Havia sobrevivido ao meu primeiro naufrágio e, como contarei um dia, acabei por chegar a Angola!

Zito Azevedo
Queluz, 21 de Novembro de 2011

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

[0153] Zona central da Praia de Bote (areia e Atlântico) ou coisa parecida



À semelhança dos dois posts anteriores, este é dedicado aos visitantes que gostam de "não comentários"... Ou seja, aos que nos visitam mas não colaboram. Com a amizade de sempre. Porque no PRAIA DE BOTE todos cabem...

domingo, 20 de novembro de 2011

[0152] Mar na Praia de Bote


Ora aqui está!... Uma fotografia excelente, para os apreciadores de "não comentários". O mar na Praia de Bote. Haverá outro assim? Caro leitor, não se distraia e não comente. Esta é uma imagem para "não comentários".

sábado, 19 de novembro de 2011

[0151] Céu na Praia de Bote


Dado o elevadíssimo número de comentários aos posts do PRAIA DE BOTE (como se pode bem ver nos imediatamente atrás), o blogue arrepia caminho, pois não quer maçar os muitos leitores que aqui vêm com imagens complexas e coloca outras mais calmas, passíveis de "não comentários". Começamos por uma que desde logo se percebe ser o céu da Praia de Bote. Quem não conhece este espaço inconfundível que cobre não só a Praia de Bote como a baía do Porto Grande, o Mindelo, a ilha de S. Vicente, o restante Cabo Verde, toda a África e o resto da Terra? Ora aqui está algo que não precisa de comentários... No próximo post mostraremos o mar da Praia de Bote e noutros o ar da dita praia, a sua areia e por aí fora. Uma maravilha, mesmo boa para "não comentários".

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

[0150] A "Sagres" e o Mindelo

Soube hoje que o porto que a "Sagres" mais tocou nos seus 50 anos de vida ao serviço da Marinha de Guerra Portuguesa como navio-escola, a seguir ao do Funchal, foi o do Mindelo. Não fixei o número de vezes, dado o excesso de informação absorvida em algumas horas de inesquecível visita ao navio, mas recordo que excede as três dezenas. Gabo-me de, em pelo menos duas delas, a segunda e a terceira, ter estado em S. Vicente e lá ter ido com o meu pai. Voltar ali, tantos anos depois, ainda por cima como convidado, fez deste dia uma data muito especial... para recordar.

A "Sagres" está neste momento na Base Naval de Lisboa (Alfeite) em preparos que lhe darão especial brilho para as cerimónias do cinquentenário a efectuar no próximo ano. E atenção aos admiradores da velha barca (já com quase 75 anos na totalidade - datada de 1937, Hamburgo, Estaleiros Blohm & Voss) que em Fevereiro de 2012 estará aberta ao público. A visita valerá a pena, como sempre. Seguem algumas fotos fresquinhas, feitas ao início da tarde de hoje... dedicadas ao nosso coronel Adriano Miranda Lima, homem cujo cérebro está na Infantaria mas em cujo coração residem o mar e a Armada.

Resta dizer que este é o post 150. Comemorado com fotos da "Sagres", o número ainda fica mais bonito.

(clique nas imagens)