terça-feira, 27 de dezembro de 2011

[0170] Poema de Adriano Miranda Lima

Adriano Miranda Lima
O poema é melancólico (a maioria dos poemas é-o) e rememora as noites do Mindelo e da Praia de Bote. No meu caso, o que mais recordo delas são as horas passadas sentado à noite nos degraus antigos da Capitania (ainda em meia-lua, agora amputada por necessidades modernas de trânsito). Na mão, o meu rádio Philco de 9 transistores, comprado ao Benvindo na Rua de Lisboa. O aparelho captava os postos do Mindelo mas também os da África próxima, Dacar e outras cidades do continente negro. Emissões em francês, cujo conteúdo mais eram adivinhados do que traduzidos. Passavam as mulheres com as latas de dejectos para o caisim e eu a olhar para o céu estrelado, frente à Ferro & Companhia, o rádio tocando mornas e coladeras. Às vezes aparecia o marinheiro de serviço que se sentava ao meu lado ou pescadores que regressavam da faina e por ali ficavam, depois de levarem o peixe ao plurim - que de manhã seria vendido...

Obrigado, Adriano, pelo poema.
Joaquim Saial

Praia de Bote, foto do cabeçalho do PRAIA DE BOTE (clique para ampliar)

PELA NOITE DENTRO

A noite vai alta e tece seu manto.
Um cão ladra algures no escuro
A alguém vestido de espanto
Que emigrou da rua da Praia de Bote.
A lua espreita e sorri com olho puro
A pássaros pousados nas árvores
Dormindo o mistério da noite profunda.
Há sílabas de sono anestesiando as dores
De quem do dia amealhou a luz que inunda
Na ilusão de à noite irradiar seus pesares.
Desperta-me uma camioneta que passa a rosnar,
Levando em cima uma carga de melão,
E o aroma que invade o ar da noite
Tem o sortilégio do perfume
De cachos de banana transportados à cabeça
Pelas ruas da minha infância no Mindelo.
A lua ostenta agora ares de condessa
E olha seu manto de prata com desvelo.

2 comentários:

  1. Dizem que a beleza não está nas coisas mas nos olhos com que as divisamos...Não sei se concordo com a complicada mecânica que sustenta tal conclusão e, quando se trata de poesia, então, eu sou faccioso à ultima potência..,Ela - só ela -nos dá a dimensão exacta das coias, dos sentimentos e de como tudo se caldeia na alma do poeta, até ao jorrar das pétalas cujo perfume nos envolve e nos transporta às portas da memória e das coisas que nela deixaram as suas impressões digitais...Obrigado, Adriano!

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  2. Obrigado, Zito, por apreender e partilhar a expressão do meu sentimento.

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