sábado, 11 de janeiro de 2014

[0680] Ontem na Fundação Calouste Gulbenkian (Lisboa, Portugal) foi tempo de Cabo Verde

Aspecto do público - Foto Joaquim Saial

A tarde estava fria em Lisboa e cerca das 18h00 as luzes acesas em todo o edifício da Fundação convidavam à entrada. Numa sala do piso inferior, preparava-se o lançamento do livro de 792 páginas "Entre África e a Europa - Nação, Estado e Democracia em Cabo Verde" (29,90€), organizado por Cristina Montalvão Sarmento (portuguesa, doutorada em Ciência Política) e Suzano Costa (cabo-verdiano que está a fazer o seu doutoramento na mesma área na Universidade Nova de Lisboa). Publicado por Edições Almedina (Coimbra) com o apoio da FCG, da Fundação Millennium e do Observatório Político, o trabalho compila o contributo de 25 autores cabo-verdianos (ou que fazem investigação sobre o país), residentes nas ilhas ou na diáspora. Eis a lista dos seus nomes e respectivos contributos:

Prefácio - Adriano Moreira
Introdução - Cristina Montalvão e Suzano Costa

Gabriel Fernandes - Nação e Dupla Inclusão: entre o Pragmatismo e o Saudosismo
José Luís Hopffer Almada - Cabo Verde - Regime de Partido Único e Consolidação Democrática
José Carlos Gomes dos Anjos - De Políticos-literários a Políticos-técnicos: a Perda da Imaginação Política e o Mimetismo Estatal Pós-Colonial em Cabo Verde
Victor Barros - Cabo Verde: os Avatares dos Discursos Identitários e a Imaginação dos Espaços de Pertença
Odair Bartolomeu Varela - Cabo Verde: A Máquina Burocrática Estattal da Modernidade (1614-1990)
Daniel dos Santos - Cabo Verde: uma Vaga, duas Transições Políticas
Roselma Évora - Cabo Verde: Democracia e Sistema de Governo
Edalina Rodrigues Sanches - Institucionalização do Sistema Partidário e Democratização em Cabo Verde (1991-2011)
Suzano Costa - Sociedade Civil, Estado e Qualidade da Democracia em Cabo Verde: Entre a Letargia Cívica e a Omnipresença do Leviathã
Leão Jesus de Pina - Tendências de Cultura Política, Democratização e Esfera Pública
Ângela Sofia Benoliel Coutinho - O Recrutamento Ministerial em Cabo Verde (1975-2006)
Crisanto Barros - Notas Sobre o Recrutamento da èlite Político-Administrativa Cabo-Verdiana Após a Independência
Eurídice Furtado Monteiro - Quem Governa? Da Ausência à Emergência de Mulheres no Campo Político em Cabo Verde
Silvino Lopes Évora - Liberdade de Imprensa e Pluralismo Democrático em Cabo Verde:Galgando Margens e Fronteiras
Daniel Medina - Os Media e a Comunicação Política em Cabo Verde
Aquilino Évora - A Literartura coomo Estética de Demarcação e Estratégia de Afirmação Diplomática em Cabo Verde
José Pina Delgado - Os Cruzamentos entre a Política Migratória Cabo-Verdiana para a Europa e a Política Migratória para a África Ocidental: Racionalidade, Incoerência ou Inevitabilidade de uma Democracia em Consolidação?
Alena Vysitskaya Guedes Vieira e Laura C. Ferreira-Pereira - Cape Verde and the European Union: The Role of Portugal in the Creation of a Special Partnership
Abel Djassi Amado - Cape Verde: The Illegible State and Lack of Democratoc Control
André Corsino Tolentino - A Difícil Integração Africana
Cláudio Alves Furtado - Cabo Verde e a Integração Regional na África do Oeste: Diossonâncias Discursivas e Identitárias
Maurino Évora - Regimes de Segurança e Estados Virtuais: uma Incursão ao Regionalismo Securitário Oeste-Africano
João Estêvão - Cabo Verde entre a Integração Económica Internacional e a Integração Regional: Dilemas e Conradições
João Resende-Santos - Developement as Managing Vulnerability: Cape Verde in the World Economy
Djalita Fialho - Cape Verde's LDC Trajectory: From Admission to Graduation (1970-2007)

Paula Valente, Editora Almedina - Foto Joaquim Saial
A sessão iniciou-se com a intervenção de Paula Valente, da Editora Almedina, que fez a apresentação dos organizadores e uma pequena abordagem ao livro. Frisou nomeadamente o facto de o Dr. Adriano Moreira ser um investigador várias vezes publicado pela editora e o agrado da mesma pela elevada qualidade dos textos que a presente compilação apresenta, sobretudo de jovens investigadores das ilhas.

Eduardo Vera-Cruz Pinto - Foto Joaquim Saial
Seguiu-se o Professor Doutor Eduardo Vera-Cruz Pinto (nascido em Angola mas descendente do famoso senador cabo-verdiano do mesmo apelido), director da Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa que com o seu habitual à-vontade dissertou sobre as relações internacionais de Cabo Verde, país charneira entre a África e a Europa, do encanto das duas línguas das ilhas que não se anulam e pelo contrário se completam, do facto de o ensino ter vindo a ser uma métrica da identidade cabo-verdiana e também do orgulho que a faculdade que dirige possui em ter tido como alunos alguns dos principais políticos cabo-verdianos, entre os quais o actual Presidente da República, Dr. Jorge Carlos Fonseca. Eduardo Vera-Cruz Pinto protagonizou dois dos momentos mais divertidos da cerimónia. Num deles, exemplificando a simpatia dos cabo-verdianos e os seus fortes abraços ("quel braça", como se diz em crioulo) revelou que por usar os seus óculos no bolso do casaco já ficou com alguns inutilizados quando patrícios o envolveram em fortes amplexos de cumprimento... Noutro caso, para demonstrar que no tempo de partido único apesar de tudo se protestava, contou uma stóra que alguém lhe referiu sobre um funcionário dos correios do Mindelo que indo devagar no seu automóvel pela velha Rua do Telégrafo viu uma velhota que estava a atravessar uma passadeira de peões, recentemente implantada. Ao fim de muito tempo, com a senhora quase no mesmo sítio e na contingência de chegar tarde ao trabalho, o homem perguntou-lhe porque não apressava um pouco o passo. Retorquiu ela: "A culpa é do Governo que pôs aqui esta passadeira mas se esqueceu do corrimão..."

Adriano Moreira - Foto Joaquim Saial
Foi então a vez do Professor Dr. Adriano Moreira que começou por enaltecer a figura do Dr.  Almerindo Lessa e sua dedicação científica e pessoal a Cabo Verde. Lembrou depois a sua viagem a todas as ilhas, em Agosto e Setembro de 1962, na qualidade de ministro do Ultramar, inclusive a de Santa Luzia onde chegou quase à deriva por o barco que o transportava se ter avariado antes da chegada. Tal como Eduardo Vera-Cruz havia referido, lembrou o facto de em Cabo Verde a noção de Nação ter precedido a de Estado. No resto do seu discurso acentuou a tónica de um Cabo Verde capaz de ser o elo entre a África e a Europa, numa comunhão com Portugal, decerto benéfica para ambos os países, na procura de uma Euráfrica que poderia por exemplo ter reflexos na articulação entre os países do Atlântico Norte e Sul no combate à criminalidade marítima.

Suzano Costa - Foto Joaquim Saial
Por fim, Suzano Costa e Cristina Montalvão Sarmento explicaram sinteticamente o livro e fizeram os agradecimentos da praxe, em particular aos patrocinadores do livro e à FCG que cedeu a título gracioso a sala que se encontrava completamente cheia de público. Ali se podiam ver, entre muitas outras figuras conhecidas de Portugal e Cabo Verde, Maria Barroso, Almeida Santos, a embaixadora de Cabo Verde, Dr.ª Madalena Neves, Moacyr Rodrigues (que fez companhia ao Praia de Bote), Celina Pereira, Filinto Elísio, Carlota de Barros, Helena Benrós, Rui Machado, Gumercindo Chantre, Guilherme Chantre e António Castilho Semedo.

Cristina Montalvão Sarmento - Foto Joaquim Saial

Foi de facto um final de dia sabe comunhão cabo-verdiana em que os aptos oradores intercalaram a erudição de circunstância com a boa disposição, em sala repleta (o que, diga-se, não é muito habitual, no que concerne a obras do género). E ainda por cima numa sessão que começou a horas (outra raridade) e acabou no momento certo, cerca de uma hora depois. Seguiram-se os cumprimentos e os autógrafos do uso, mas a reportagem do Praia de Bote teve de sair porque ainda ia assistir a uma palestra sobre arte sacra em Almada. Contudo, parece-nos que os nossos leitores, em Cabo Verde, Portugal e noutras partes do éter internético ficam com uma imagem aproximada no que ali se passou.

Terminamos com a stóra desconhecida do dia. Como dissemos acima, o livro custa 29,90€. O nosso amigo António Castilho Semedo está a pagar e diz para o lado: "Bô ta dá 30 euro e bô ta recebê deztom..."

Embaixadora de Cabo Verde. Dr.ª Madalena Neves - Foto Joaquim Saial

Membros da Associação dos Antigos Alunos do Ensino Secundário de Cabo Verde e Celina Pereira - Foto Joaquim Saial

Adriano Moreira à conversa com Almeida Santos - Foto Joaquim Saial

Aspecto da mesa - Foto Joaquim Saial

11 comentários:

  1. Pelos vistos foi uma grande jornada onde tudo correu da melhor maneira possivel.
    Regozijo-me. Agora é so esperar pacientemente para em breve, em Lisboa, ler a obra.
    Obrigado e parabéns pela extraodinària reportagem
    Braça

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Cá esperaremos pelo vice-cônsul. Há um almoço a retribuir e aquel vim de Borba para beber. E esperemos que haja relançamento de livro de teatro da lavra dela na Associação Caboverdiana, como prometido.

      Braça almoçante e livresca,
      Djack

      Eliminar
  2. Grande reportagem, Djack. Completa e recheada de interesse, não só pela narrativa como pelas imagens. Depois de ler as saídas engraçadas do Eduardo Vera-Cruz Pinto, típicas de um mindelense, volto a perguntar se ele é filho da pessoa que tem exactamente o mesmo nome (cabo-verdiano) e que foi meu vizinho em S. Vicente. Se for, terá nascido em Angola (Luanda), para onde o pai foi transferido, nos finais da década de 50, como funcionário judicial. Alguém me responda a esta pergunta que eu já tinha feito em post anterior. Aliás, tudo bate certo porque a reportagem refere que ele nasceu em Angola.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. É de facto a mesma pessoa, como já respondi noutro post. O pai, pessoa muito simpática, reside em Almada e é mais ou menos assíduo em actividades da AAAESCV. Já falei algumas vezes com esse senhor. Quanto ao filho, o Dr. Eduardo Vera-Cruz, residiu alguns anos dois andares acima do meu. O seu extenso e importante CV responde por ele.

      Braça genealógica,
      Djack

      Eliminar
  3. Bela reportagem, meu caro...Passo a acrescentar um pormenor ligado à visita de Adriano Moreira a Cabo Verde, nomeadamente, à Ilha Brava...Eu tinha regressado de Angola ha pouco tempo e, de sociedade com a minha sogra, tinha inaugurado, meses antes, um café-bar-restaurante em Nova Sintra. A empresa foi solicitada pela Administração do Concelho para assegurar o serviço de um jantar à comitiva do ministro e convidados o que foi feito com agrado geral por um repasto alicerçado numa cachupa rica que até os anjos a comiam...Um pormenor: Adriano Moreira fumou uma série de cigarros durante o jantar e achou delicioso o doce de leite...Bons tempos!

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Um destes dias farei um post sobre essa viagem ministerial dos idos de 1962. Tenho o repositório todo, com pormenores engraçados.

      Braça viajante,
      Djack

      Eliminar
  4. Essa jantarada bravense realizou-se exactamente a 21 de Agosto de 1962. Fui agora confirmar. No Pd'B, como eu costumo dizer, sabe-se tudo... Dali, seguiu para a ilha do Maio.

    Braça geográfica,
    Djack

    ResponderEliminar
  5. A Esquina orgulha-se da parceria com o PdB, agradece o material enviado e a prioridade, mas nada como ouvir/ler de quem lá esteve este relato "sabe pa fronta". Obrigado Djack

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. O Praia de Bote e o Esquina do Tempo são o exemplo mais acabado dos fortes laços culturais e de amizade que unem as nossas duas queridas terras.

      E o resto são... fados e mornas,
      Djack

      Eliminar
  6. Ali na última stóra esteve durante cerca de duas horas uma gralha: lia-se "António Brito Semedo". Era, claro, "António Castilho Semedo" nome do nosso amigo que mais acima estava correctamente escrito.

    ResponderEliminar
  7. Reunião eclética com grandes personalidades portuguesas o que atesta o interesseo afecto e a curiosidade de intelectuais portugueses em relação realidade cabo-verdiana o que nos deixa orgulhosos

    ResponderEliminar