sábado, 10 de maio de 2014

[0868] Baltasar Lopes, sempre... sem dúvida!

A recente paragem do Pd'B por alguns dias, acompanhada de um volume desmesurado de mensagens de correio electrónico entretanto surgidas na nossa caixa de correio, fez com que perdêssemos algumas delas, em apagamento involuntário, ou ali as tivéssemos deixado algo "congeladas", por falta de tempo de leitura. Por outro lado, a aparição de alguns desses materiais no blogue parceiro e amigo Arrozcatum (Ver AQUI) também contribuiu para que elas fossem ficando no nada, aqui deste lado. Isto, para que os dois blogues mais são-vicentinos de Portugal não se pareçam um com o outro como gémeos - o que faria perder a piada que cada um deles tem. Mas... a foto que acima exibimos tem de escapar a essa situação, dado que tanto um como o outro dos retratados, pela sua grandeza intelectual e moral merecem a multiplicação e remultiplicação de exibições, ainda assim sempre poucas. Enviada pelo nosso amigo e colaborador Luiz Silva, ela aqui vai com um pequeno texto do  mesmo e outro nosso, já oferecido ao Arroz (as referências ao amigo e também colaborador do Pd'B têm a ver com trocas de mensagens particulares entre a "tropa" deste blogue.

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Em Maio de 1989 morreu Baltasar Lopes em Portugal. No mesmo mês a nossa Associação Solidarité Cap-verdienne em França prestou-lhe uma grande homenagem na Cité Universitaire de Paris, tendo usado da palavra o Michel Laban (seu tradutor em francês), o Alfredo Margarido e eu. Houve uma tarde musical com a participação da Cesária Evora e uma sessão  de poesia cabo-verdiana. Editámos também um poster dele e um cartão poético em sua  homenagem. Tive-os como amigos e especial o Gabriel Mariano com quem falava de tudo inclusive da literatura e da poesia em lugares dispersos como na ilha do Maio, na Praia e em Paris.  Tanto o Baltasar Lopes como o Gabriel Mariano morreram com uma grande sensação de ingratidão da parte do Governo e antigos colegas. Sugiro ao Jack que publique esta fotografia no seu blogue.
Luiz Silva, França

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Meus caros,

Gabriel Mariano, não o conheci. Mas tive Nhô Baltas como professor de Francês, no 2.º ano do Gil, em 1964-65. A memória que dele possuo encontra-se algo esbatida, obviamente, mas mantém-se a lembrança de um homem extremamente culto e cuja personalidade e modo de ensinar, como diz o Adriano, nos prendia do princípio ao fim dos 50 minutos de aula. Que toda a gente lhe tinha um enorme respeito, é outra coisa que mantenho como dado adquirido. 

Hoje, depois do que li sobre ele e dele (tenho quatro edições de "Chiquinho", uma delas em catalão - que me foi gentilmente oferecida pelo bubistano Dr. Celso Celestino - e uma edição rara de "Os trabalhos e os dias") ampliou-se a minha noção de que se trata de facto de uma das grandes figuras da lusitanidade e da cabo-verdianidade. 

Diz o Adriano que ele merecia ter sido apanhado por uma universidade mas que esse facto o guardou para nós, com benefício nosso. É verdade, mas isso não aconteceu por culpa das ditas academias mas sim por culpa da PIDE e um pouco por desejo dele, também: a Baltazar não lhe foi possível aceitar convite para leccionar a nível superior em Portugal porque tinha no seu espírito a missão de servir as ilhas - onde, na altura, não havia academia e porque para integrar a academia de Lisboa foi impedido pela PIDE (tinha sido convidado por Orlando Ribeiro e por Jacinto do Prado Coelho, dois "monstros" da cultura portuguesa).

Braça baltazariana,
Djack

5 comentários:

  1. O Dr Balatazar respirava intelectualidade pelos poros.Justa Homenagem

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  2. Trancrevo aqui o meu comentàrio no blog-irmão Arrozcatum jà que a foto é a mesma/

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    Tive a felicidade de o ter nos 1° e 2° anos (em português e francês) e, mais tarde, nos exames de fim de ciclo (era externo).
    Nunca mais esqueci a "espremidura" que me deu para que guardasse as notas da escrita. Grande HOMEM que era o Dr. Baltazar, no mesmo dia, no caminho do seu passeio à tardinha, fez um desvio e para ir felicitar o meu Pai.

    Do Gabriel recordarei sempre jà que aceitou o meu convite para escrever "Clandestinos no Céu" e "Clandestinos na Terra", escrevendo, à tabela, as letras das duas famosas mornas "Sina de Cabo Verde" e "Mudjer Bonita" para os teatros do Castilho contribuindo para que nunca mais se parasse no Mindelo esta actividade que se encontrava morta e enterrada havia poucos anos.

    Das vidas e obras do Tio e do sobrinho todos conhecem

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  3. Eu, enquanto aluno do liceu, ​lamento dizer que o meu contacto com Baltasar Lopes se resumiu à relação professor-aluno.. No 3º ciclo, altura em que a adolescência já está no seu dealbar e transita para o amadurecimento da personalidade, apenas o apanhei como professor de Organização Política e Administrativa da Nação (OPAM), sem possibilidade de o ter como professor das áreas nucleares do seu saber, porque fui para a área das Ciências. Em anos anteriores tive-o como professor de francês. Hoje, sinto pena que tenha sido assim, ou seja, que não tenha sido aluno de Letras. Mais ainda quando só anos depois, com as minhas leituras de iniciativa pessoal (autodidactismo), é que percebi bem a dimensão desmesurada do intelecto e do saber daquele homem. Assim, tal como há dias confessei ao Luiz Silva, sinto em mim um vazio onde se entrechocam um remorso irremissível e uma saudade retrospectiva.

    Realmente, estes dois homens são vultos notáveis da nossa cultura, mas o Baltasar Lopes é único e é inimitável. Não sei se alguma vez aparecerá um cabo-verdiano da sua estirpe.

    Resta dizer que ele tinha o talento de transformar a OPAM em algo interessante, porque ia muito além da substância estéril e fastidiosa daquela disciplina. Associava o conteúdo da disciplina a outras áreas do conhecimento e assim obrigava-nos a puxar pela mente para compreendermos a relação simbiótica que existe entre os vários saberes das ciências sociais. Não era fácil corresponder às suas expectativas e normalmente o desapontávamos com a nossa ignorância. Mas a verdade é que saíamos da sala de aula embevecidos e rendidos. Aquele homem devia ser sido professor de etapas superiores do ensino. Dir-se-á então ao jeito da nossa expressão crioula: mal empregado estava o Baltasar Lopes no Gil Eanes. Mas ainda bem que ele lá permaneceu porque assim temos hoje possibilidade de lhe tributar o sentido da nossa imensa gratidão.

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  4. Daqui da Cidade da Praia, as minhas felicitações pelo conteúdo excelente do seu "Blog".
    Olhando para os retratados, dois gigantes (por sinal, tio e sobrinho) da nossa Literatura e da nossa cultura, para além do orgulho que naturalmente se sente, por eles serem parte incontornável do património cultural destas ilhas, há, por outro lado, como que uma espécie de nostalgia,que toma conta de nós, pelo facto de Cabo Verde de hoje não ter continuado a ter (a produzir?)homens de cultura com a craveira de Baltazar Lopes da Silva (o maior!) e de Gabriel Lopes da Silva Mariano.
    Gosto do seu "Blog" e continuarei a visitá-lo.

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  5. Cara Ondina, é com grande prazer que registo as suas simpáticas palavras, sobretudo vindo elas de uma das mais marcantes personalidades da cultura cabo-verdiana.

    Será sempre bem-vinda.
    Um braça de amizade,
    Joaquim Saial

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