sábado, 14 de março de 2015

[1434] Os dois amigos continuam a sua profícua conversa sobre a língua cabo-verdiana

V Parte (ver partes I AQUI, II AQUI, III AQUI e IV AQUI)

Adriano Miranda Lima
Filinto:  ̶  Amigo, retomemos então a questão do ensino  do (e em) crioulo, que para mim será o que determinará o sucesso ou a falência do processo. Digamos que o ensino será o veio de transmissão de todo o seu mecanismo funcional. Será importante analisar de que modo e em que momento o crioulo será encaixado em toda a engrenagem.

Elísio:  ̶ Sim, o primeiro passo será constituir, como ponto de partida, um corpo docente, devidamente preparado e habilitado para o ensino do crioulo, que antes de tudo tratará da formação pedagógica dos professores nos mais diferentes sectores e estruturas do sistema de ensino, básico, secundário e superior. Isto implica que a norma-padrão esteja já bem definida e consensualizada, restando, no entanto, saber  como irá ela conformar-se com a manutenção de todas as variedades do crioulo. Haverá necessidade de um cuidadoso faseamento de todo o processo de implementação, com a devida consolidação de cada etapa, avançando e recuando para poder avançar melhor, se for caso disso. sem o que cairemos no mais descontrolado improviso. Para não dizer uma autêntica balbúrdia linguística, com graves implicações sociais e psicológicas.

Filinto:  ̶  Improviso em que se cairá fatalmente se o processo não for  concebido e executado com o necessário embasamento científico. Mas convinha desde já saber que prioridade, que meios e que suporte pedagógico restarão para o ensino da língua portuguesa, enquanto paralelamente se empenha no crioulo. Sim, porque não é crível que o ensino e a formação nessa língua sofram desacelerações e constrangimentos enquanto não se atingirem os padrões de sucesso almejados com o crioulo. Se não for bem acautelada essa condição, o resultado será um desastre certo, porque se perdem as competências anteriormente garantidas com o português, poucas que fossem, sem terem sido alcançados os objectivos visados com o crioulo, no todo ou em parte. Sobre esta questão, o Professor José Fortes Lopes, entre outras personalidades, tem vindo a fazer sérias advertências, que parece não merecerem a devida atenção dos responsáveis. 

Elísio:  ̶  É iniludível que essa fase de transição e sobreposição será de muito difícil e delicada gestão. Não apenas em termos de prática funcional mas também  de disponibilidade de recursos humanos para fazer face às duas realidades em simultâneo. É que os professores que vão ministrar o ensino do  crioulo terão de ser, em princípio, recrutados entre os da formação em língua portuguesa, pelo que não vejo onde poderá o país ir buscar os recursos humanos necessários, a não ser que tenha de importar de Portugal ou do Brasil os do ensino da língua portuguesa. 

Filinto:  ̶  Estás a referir-te à fase em que se sobreporá o ensino nas duas línguas. No entanto, caso se mantenha a intenção de não abdicar do ensino do português, a duplicação de recursos humanos  manter-se-á pelo tempo fora. De facto, não vejo como poderão ser simultaneamente inclusivas duas realidades não somente distintas mas que se oporão na disputa de prioridade e de recursos.

Elísio:  ̶  Rapaz, o desafio vai ser tremendo e não posso deixar de tirar o meu chapéu àqueles que ousam enfrentá-lo como se fosse a mais crítica prova das suas vidas. O facto de levantarmos questões e de chamar a atenção da comunidade para este processo, não significa que não respeitemos os que tomaram a opção de ir pelo ignoto caminho de uma aventura de desfecho imprevisível. 

Filinto:  ̶  Concordo com o que dizes. Todavia, é sempre de questionar se uns poucos têm o direito de arrastar todo um povo para uma situação de verdadeira incógnita. E importará saber se se prevê arrepiar caminho caso os efeitos desta medida se verifiquem claramente perniciosos  e com   reflexos no sistema educativo que não tardarão a repercutir-se em outros sectores vitais do país. Se a instrução é a pedra angular do sistema económico e social em qualquer sociedade, até que ponto se poderá assistir à sua  ruína sem que os sinos toquem a rebate a anunciar a suspensão e a retroversão do que está a revelar-se nocivo?

Elísio:  ̶  E olha, Filinto, que ainda não entrámos no cerne do que poderá ser o mais crucial dos problemas. Se o Governo levar por diante a sua promessa de manter e respeitar cada uma das variedades dialectais, do que duvido, mas se por hipótese assim acontecer, como é que vai ser a sua implementação? Já pensaste bem no problema?

Filinto:  ̶  Se tal for mesmo levado a efeito, o resultado será  a proliferação de medidas de padronização e a adopção de um número diversificado de gramáticas, dicionários e prontuários conforme cada variedade dialectal. Em vez de um único modelo, haverá tantos quantos forem as variedades detentoras do privilégio de pontificar no sistema de ensino.  Julgo que não é preciso muito esforço intelectual para se concluir que essa abrangência e diversificação é irrealizável em termos práticos e porventura  inconcebível cientificamente.  E do ponto de vista económico, nem um país rico ousaria semelhante aventura de desperdício de recursos, quanto mais Cabo Verde, que nem para o prioritário há dinheiro suficiente.

Elísio:  ̶  E estamos só a falar de aspectos de concretização prática e da desmesurada grandeza dos seus custos reais. Porém, se transferirmos o desafio para a esfera íntima do ensino e da formação,  em que não é concebível que o instrumento linguístico passe a ser mais um agravante das dificuldades naturais do processo de aprendizagem, raia o  insólito imaginar que numa determinada aula com alunos oriundos de várias ilhas, cada um tenha a faculdade de usar o seu próprio crioulo, com os respectivos meios de suporte (gramática, dicionário, etc.),  para atingir os objectivos de aprendizagem. Calcule-se a Torre da Babel crioula que se instalará em cada estabelecimento de ensino.  

Filinto:  ̶  Conclui-se assim que estamos perante um terrível dilema. Se todas as variedades forem alienadas das suas prerrogativas naturais para serem integradas num único padrão,  as populações vão indignar-se  com o que não passa de uma violência moral, para não dizer um afrontamento histórico. Se, por outro lado, forem dadas a todas as variedades igual primazia no sistema de ensino, assistir-se-á, sem dúvida alguma, à total falência de uma solução demagógica e irresponsável, que, no entanto, e como já analisámos, poderá não passar de um mero expediente dilatório. 

Elísio:  ̶  Vamos lá ver uma coisa. Dou de barato que a filosofia de toda esta mudança radica na convicção de que é com o crioulo que realizamos os nossos legítimos anseios como povo, quaisquer que sejam eles, daí a intenção de o envolver em todo o espectro da vida nacional. E, neste caso, o ensino não pode deixar de ser o motor impulsionador de toda a mudança. Sabemos que a concepção do sistema moderno de ensino se funda em três pilares fundamentais: o intelectual, o instrumental e o analítico. Mas o entendimento do Governo é que o crioulo será o cimento para o reforço transversal daqueles pilares, enfim,  a  “afectividade”  a que se referiu o Primeiro-Ministro. Deduzo assim que, no fundo, a ideia-força perseguida é que só o crioulo é capaz de realizar a função de ponte entre os vectores da cognição com a qual apreendemos a realidade e atingimos o conhecimento. Ou seja, acreditam que a íngua materna terá potencialidades de ordem espiritual que a língua portuguesa não consegue carrear para os cabo-verdianos. Não há dúvida que o crioulo tem a sua vocação genética virada especialmente para as manifestações folclóricas e para a espontaneidade das emoções e da afectividade. Por exemplo, para o cabo-verdiano, não fará sentido contar em português uma anedota relacionada com o contexto social das ilhas. Resta, porém, saber como se comportará o crioulo quando lhe vestirem uma  farpela gramatical, amarrando-o a normas rígidas. Não creio que as crónicas do Zizim Figueira nos soassem da mesma maneira sem a espontaneidade e a liberdade do seu linguajar típico mindelense. Contudo, uma coisa são os afloramentos espontâneos da alma, outra é a racionalização do processo do conhecimento. Bem disse Max Weber que a realidade é infinitamente complexa, tanto quantitativa quanto qualitativamente, de forma que nenhum conceito abstracto pode abarcá-la.

Filinto:  ̶  Mergulhaste fundo no problema, meu caro. Mas repara que às vezes a alma popular exprime a verdade com uma veemência e simplicidade que os intelectuais não conseguem senão com grandes dissertações. Há dias, li um artigo do Dr. Arsénio de Pina em que contou um episódio engraçado. Uma cabo-verdiana, ao saber que o filho ia passar a aprender o crioulo, afirmou: “Adeche, criol ele nascê c’ele prindid; bsot insnál maz ê quel português”.

Elísio:  ̶  Ah, ah, ah, fizeste-me rir agora. Recapitulando, toda esta problemática resulta da convicção de que o crioulo está socialmente subalternizado e que a sua promoção a um estatuto mais elevado (língua do ensino, no caso em apreço) produzirá efeitos positivos no processo de aprendizagem. Alguns atribuem as nossas dificuldades naturais no domínio do português a uma situação de diglossia, daí convencerem-se de que a instituição do enino em crioulo não só será um factor de desbloqueamento mental como promoverá uma efectiva igualdade sociolinguística. No entanto, estão a ignorar a enormíssima dificuldade que será obrigar as nossas crianças a aprender ao mesmo tempo o crioulo e o português, cada uma destas línguas com o seu respectivo alfabeto, um fonológico, o ALUPEC,  outro etimológico, o alfabeto latino. Para não falar dos constrangimentos que decorrem da supressão da letra “C” no ALUPEC e da ausência de solução para o caso dos ditongos, que existem em algumas variedades do crioulo. Cito apenas dois exemplos, pois o imbróglio não é pequeno.

Filinto:  ̶  Pergunto se as  alegadas dificuldades no domínio do português  imputadas à influência do crioulo são mesmo uma realidade incontornável, ou se apenas serviram de pretexto para justificar uma decisão política visando outro objectivo. Sim, porque outra opção poderia ser melhorar e investir mais no português.

Elísio:  ̶  Até porque não é verdade que só os cabo-verdianos têm actualmente problemas com a língua portuguesa. É hoje em dia uma tendência generalizada, e basta observares o que se passa em Portugal e no Brasil. Só que, enquanto eles estão a tentar superar essas dificuldades, nós queremos abolir o português e substituí-lo pelo crioulo. Exageram quando invocam os sobressaltos e traumas psicológicos na transição das nossas crianças do universo doméstico para o escolar. No meu caso pessoal, e certamente no de outros alunos do passado, iniciei o ensino primário com uma professora da Metrópole, que não tinha o crioulo como coadjuvante do seu magistério. Não me lembro de ter havido grandes problemas de comunicação. Como foi isso possível? Em minha opinião, a resposta é esta. Se o português foi a língua mãe nos primórdios da formação do nosso crioulo, com o andar dos tempos as duas línguas se tornaram uma espécie de irmãs, embora uma delas mais distante e mais pretensiosa. Mas bastou isso para que o cabo-verdiano retivesse o essencial do português no seu espírito. Mesmo as crianças e os adultos analfabetos que não o falam correctamente percebem-no de forma intuitiva. Alguém disse que a linguagem é a revelação da sombra do pensamento. Acrescentaria que o crioulo se revela instantaneamente e em primeiro lugar na zona cognitiva, enquanto o português jaz ali, oculto, imiscuindo-se na intelecção da linguagem e dando sinais da sua existência quando espicaçado.

Filinto:  ̶  Queres tu então concluir que não há uma razão suficientemente válida para retirar à língua portuguesa o lugar que tem tido no nosso sistema de ensino.

Elísio:  ̶  É isso mesmo, o que não significa que o crioulo não possa ser objecto de um processo de estudo e investigação científicos para melhor o compreender e enquadrar na nossa realidade social. Ir além disso tem riscos enormes que podem desestabilizar o país, com danos porventura irreparáveis. Bem, por ora chega. Continuamos amanhã à mesma hora e no mesmo lugar.

Tomar, 13 de Março de 2015
Adriano Miranda Lima

2 comentários:

  1. Com esta parte Adriano toca no busílis do problema, a questão do ensino, pelo que é de leitura obrigatória para qualquer pessoa preocupada com as implicações desta Revolução ( eh li que corda tita bem deçapá) Ao longo do diálogo entre Elísio e Filinto nos apercebemos da verdadeira dimensão da problemática da oficialização.
    Sublinho o questionamento do Filinto """ se uns poucos têm o direito de arrastar todo um povo para uma situação de verdadeira incógnita. E importará saber se se prevê arrepiar caminho caso os efeitos desta medida se verifiquem claramente perniciosos e com reflexos no sistema educativo que não tardarão a repercutir-se em outros sectores vitais do país. Se a instrução é a pedra angular do sistema económico e social em qualquer sociedade, até que ponto se poderá assistir à sua ruína sem que os sinos toquem a rebate a anunciar a suspensão e a retroversão do que está a revelar-se nocivo?"""

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  2. (Isto só pode ser obra dessas mancomunados alupecadores ah ah ah ah)

    Ensino primário moçambicano será ministrado nas 16 línguas nativas a partir de 2017


    A decisão de introduzir o ensino bilingue nas escolas primárias moçambicanas foi divulgada pela diretora nacional do Ensino Primário, Antuía Soverano, durante o Seminário de Revisão Linguística dos Planos Analíticos do Ensino Bilingue, que está a decorrer na capital moçambicana.
    "O ensino primário pode ser lecionado monolingue e também na modalidade bilingue, onde as crianças começam o processo de socialização e aprendizagem na sua língua materna e depois têm a transição para a língua de instrução após consolidarem os conhecimentos e capacidades na sua própria língua", afirmou Soverano, explicando as vantagens da introdução do sistema bilingue.
    Com a inovação, assinalou a fonte, o Ministério da Educação e Desenvolvimento Humano, pretende melhorar os resultados no ensino primário, promover a interação na escola e agilizar o processo de socialização dos alunos.
    Antuía Soverano afirmou que estão a ser preparados instrumentos de apoio aos professores, para a implementação do ensino bilingue, nomeadamente a produção de materiais de ensino nas línguas locais.
    A utilização das 16 línguas nativas de Moçambique, ao lado da língua portuguesa, no ensino primário, irá traduzir a expansão deste modelo, uma vez que o ensino bilingue já tinha sido introduzido a título experimental em algumas escolas do país.
    O novo modelo implica que cada escola primária lecione na língua nativa mais falada na comunidade em que está inserida, em paralelo com português.
    Vários estudos sobre o ensino primário têm apontado o uso de português como uma barreira à assimilação dos conteúdos, uma vez que a maioria das crianças moçambicanas não tem o português como língua materna

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