quinta-feira, 2 de abril de 2015

[1472] "Crónicas Desaforadas", novo livro do encenador teatral João Branco, vai ser apresentado em Lisboa por Joaquim Saial (clique nas imagens, para as ver melhor)

Livraria Ler Devagar - Ver AQUI

João Branco
"(...) Recordando aqueles tempos,  parece-me claro o quanto o nosso Mindelo se transformou e não foi para melhor. Os cinemas fecharam, a Praça Nova deixou de ser aquele lugar aprazível no qual dava tanto gosto passear, conversar, namorar, ver os amigos. Sair à noite pressupõe cuidado, com o medo dos assaltos, cada vez mais violentos, sempre presente. O alcatrão não é tudo e eu senti saudades da calçada nas ruas da morada.  

Hoje, sempre que passo na Praça Nova, sinto uma energia ruim de que algo mau nos pode acontecer a qualquer instante, a que não será alheio o facto de a praça ser uma montra e um resultado dos problemas sociais na ilha (...)"
João Branco

"(...) As Crónicas de Branco deixam, ainda, testemunho de um tempo, de um lugar e de gentes, em uma espécie de inventário dos sucessos culturais que se deram continuamente nos últimos 20 anos, no Mindelo e arredores, envolvendo o autor, figuras mindelenses - de Cesária e Germano Almeida - ancorados nos corredores de saudade - boates e bares, aeroportos e aeronaves, Rua d'Lisboa, Monte Cara e Porto Grande (...)"
Jorge Carlos Fonseca - PR de Cabo Verde

"(...) A crónica mais afastada no tempo, de Janeiro de 2008, fala-nos de dragões em garagens, coisa em que não podemos crer, como também não nos escritores que não escrevem, actores que não actuam, pintores que não pintam e músicos que não tocam mas que se acham escritores, actores, pintores e músicos – e o propagandeiam, para além do razoável, em bazofaria cultivada como produto nacional, como refere o cronista – em Cabo Verde, como afinal em Lisboa e em muitos outras geografias.

Logo a seguir passa ele para o seu manifesto teatral, coisa que um home de teatre (e estou a falar em crioulo e não em francês) deve ter. Para ele próprio se domesticar, para não fugir de si próprio e daquilo que pensa que a sua arte deve ser. E para não se acomodar, pior coisa que pode acontecer ao que lida com o intelecto. Correr riscos, lançar-se na aventura, calculada embora, é o dever do trabalhador cultural, com a ajuda das palavras-chave que o neste caso encenador captura para o seu manifesto e a que nele jura obediência: criatividade, coerência, concepção, estudo, exigência, experimentação, humildade, trabalho e… partilha – esta. Corolário de todas as outras e objecto delas, digo eu. (...)"
Joaquim Saial

3 comentários:

  1. Excelente entrada das "Crónicas Desaforadas", crónicas de diazà daquele tempe qu'nôs terra era sabura pa tude lode e tudo hora.
    Os três intervenientes nesta pàgina que viveram ali antes, durante ou depois da época das vacas (não gordas mas) remediadas têm toda a legitimidade par falar e serem ouvidos. E é o que vou fazer quando me chegar às mãos o volume que vou adquirir.
    Que estas crônicas, que desespero de ler, sejam também de sucesso intra e extra muros.
    Braças e mantenhas pa tude gente, grande e piqnim.

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  2. Registo as eloquentes palavras do apresentador do livro em Lisboa, o amigo Joaquim Saial. Sem o ter lido ainda, julgo não me enganar se disser que o livro é um olhar amargo sobre a actual realidade da sociedade mindelense. Não se surpreenderá quem, como eu e muitos outros, não vem enterrando a cabeça na areia, como a avestruz, para não ver o que se passa em redor.
    Contrariamente ao Valdemar, não tenho a mesma ideia de que a nossa terra tenha alguma vez conhecido a "sabura". Algumas pessoas talvez, mas não o povo anónimo e em larga escala. Contudo, quero crer que o sentido que o Valdemar dá à palavra sabura nada tem a ver com fartura e vida regalada, mas sim com aquela prosaica facilidade com que o mindelense sabia trocar as voltas à má sorte para sair sempre por cima. Porventura um mindelense sonhador e pouco precavido, mas um mindelense que sabia habitar o coração palpitante da sua cidade.
    A diferença entre os tempos de "diazá" e os de hoje é a aparente descaracterização cívica do homem do Mindelo. O homem que antes era inconformado, voluntarioso e empreendedor, parece hoje vegetar num incompreensível limbo de conformismo e fatalismo, a ponto de abdicar do direito de reivindicar e influenciar o curso da sua vida. Uma cidade que já foi o palco das transformações sociais em Cabo Verde, é hoje um passivo observador do que acontece na Praia. Deixou que a pulsão cívica de outrora se escoasse inteirinha para a a ilha capital, como se viu agora com a manifestação contra a reforma do estatuto da classe política.
    É triste que o faz-de-conta e o culto da aparência tenham tomado conta das gentes do Mindelo.

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  3. Faço minha as vossas palavras pois está tudo dito. Um sucesso para o livro. e uma óptima Pascoa à todos os frequentadores do Praia de Bote e em particular ao seu editor

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