segunda-feira, 6 de abril de 2015

[1475] Continua a interminável mas assaz proveitosa discussão entre os dois amigos sobre a língua cabo-verdiana

VIII Parte

(Ver I AQUI, II AQUI, III AQUI, IV AQUI, V AQUI, VI AQUI e VII AQUI)

Adriano Miranda Lima
Filinto:  ̶  Cada vez mais vou ficando com a vaga impressão de que esta nossa conversa tende a não terminar tão depressa,  porque o fio da meada tanto pode ir-se desenrolando como enrolando  de novo, conforme os conceitos se clarificam ou se adensam com novas incógnitas, dúvidas e perplexidades.

Elísio:  ̶  Se tu o dizes, amigo… Olha, eu por mim estou disponível e enquanto não te saturares da minha presença.  E, como a conversar é que a gente se entende, conforme diz o povo, é bem possível que não venhamos a desamparar a loja tão depressa.

Filinto:  ̶  Bem, enquanto o dono deste “Café” aturar a nossa presença,  mas como o Djack tem uma paciência de santo…

Bem, continuemos, então. Na nossa última conversa, não houve tempo para explicitar a opinião do Dr. Baltasar de que o crioulo de Santiago é o mais capaz de viabilizar uma solução de  escrita. Diz que é “por causa do vocalismo”, entendendo ele que “no crioulo  de S. Vicente há encontros violentos, bruscos de consoantes…” (1). O que, deduz-se, não acontece com o de Santiago.

Elísio:  ̶  Bem, agora ou alinhamos com o “advogado do diabo”, ahahahah, ou tentamos clarificar a afirmação, contextualizando-a ou identificando-lhe alguma insuficiência de conteúdo, o que, convenhamos, soará como  heresia,  sendo quem é o Dr. Baltasar.  Ainda por cima quando nenhum de nós é linguista ou filólogo. Antes de mais, note-se que o Manuel Veiga, reagindo ao artigo “Grinhassim Não”, de Dulce Lush Ferreira Lima, publicado no Expresso das Ilhas em 13 de Junho de 2013, não perdeu a preciosa oportunidade de citar o Dr. Baltasar Lopes e afirmou (2): “….. É certo que no colóquio de 1979 vozes autorizadas do Norte do arquipélago defenderam a primazia do badio como variante de base no processo de padronização do crioulo. E isto, talvez, influenciados por Baltasar Lopes da Silva que, no Prefácio  à "Aventura Crioula", de Manuel Lopes, escreve: ‘... o falar do grupo de Sotavento é, a meu ver, o mais adequado ... para o tratamento literário.  Mais abaixo continua, citando Baltasar Lopes: ‘... me parece que o crioulo padrão para o uso literário se há-de fixar, partindo da base fonética do falar de Sotavento’.” Concluiu Manuel Veiga: “Porém, essa proposta de Baltasar Lopes, apesar de relevante,  nunca chegou  a ser ratificada oficialmente e, hoje, eu próprio, por uma questão de respeito pela diversidade cultural, defendo que a unificação linguística deve ter em conta todas as variantes, com um eixo Sul, à volta de Santiago, um eixo Norte, à volta de S. Vicente, e um eixo Norte/Sul à volta dessas duas variedades, em estreita cooperação com as particularidades pertinentes, enriquecedoras e representativas de todas as variantes.”

Filinto:  ̶  Elísio, vamos começar por analisar comparativamente os tais casos de “encontro violento de consoantes” versus o que será supostamente o seu contrário. Reparemos nestes exemplos, em que aparece a versão santiaguense seguida da mindelense:

Alfabétu  ̶  alfabet;  kabuverdianu  ̶  cabverdióne; kasamentu  ̶  csament; independentu  ̶  indpendent.
Ora, quanto a colisão de consoantes, é indiscutível que o Dr. Baltasar tem razão no que diz. Repara que esse encontro violento resulta da elisão de vogais, como é particularmente nítido no caso de “csament”. E este fenómeno tem uma relação directa com a diferença de acentuação entre as duas variedades do crioulo, sendo que as palavras santiaguenses são genericamente paroxítonas (acentuação na penúltima sílaba) enquanto as mindelenses/barlavenses  são oxítonas (acentuação na última sílaba). Esta é uma diferença fundamental na fonologia das duas variedades do crioulo. Pergunto agora que factores o terão determinado na formação original de cada uma.

Elísio:  ̶  Posso dar um palpite, sem saber se este aspecto já foi ou não objecto de investigação? A meu ver, a morfologia/fonologia típica do vocábulo santiaguense remonta ao primeiro encontro linguístico entre  o português e as línguas africanas de origem, assim se explicando o predomínio da influência dos fonemas “u” e “i” no falar santiaguense. Dir-se-á que esta circunstância cristalizou para sempre o crioulo de Santiago. Quanto ao crioulo do Barlavento, e em particular o de S. Vicente, creio que a atonização de vogais, que é a causa do encontro brusco de consoantes, se deve a uma possível influência de línguas estrangeiras, nomeadamente o inglês. Basta ver que na língua inglesa é de um modo geral inaudível o som dos grafemas terminais das palavras. 

Numa tentativa de compreender a posição de Baltasar Lopes, tomemos de novo o exemplo da palavra santiaguense “kazamentu”. Quando se pronuncia  “kazamentu”, a palavra se expõe em toda a sua inteireza vocabular e só se distingue do “casamento”, português, na entoação fonética e na peculiar acentuação da vogal final. Portanto, um estrangeiro com conhecimentos rudimentares de português apreenderá mais facilmente a correspondente palavra portuguesa em “kasamentu” do que em “csament”. Não achas?

Filinto:  ̶  Penso que sim, Elísio, mas esta diferença  justifica por si só que se considere  o crioulo santiaguense mais apto para a escrita do que o do Barlavento? Será, com efeito, por uma maior proximidade à grafia portuguesa?

Elísio:  ̶  A meu ver, não. Mas, se for assim, o curioso é que há uma contradição na intencionalidade, e implicitamente na argumentação, dos que preferem a padronização e oficialização do crioulo a uma aposta firme num maior aprofundamento do ensino e uso da língua portuguesa em Cabo Verde. 

Filinto:  ̶  Explica-te.

Elísio:  ̶  A contradição advém da circunstância de 97% do léxico do crioulo ter origem na língua portuguesa. É o próprio Baltasar Lopes que o sublinha. Daí eu pensar que, perante a flagrante identidade léxica entre as duas línguas, uma opção diferente, e porventura viável e justificável, seria uma aposta decisiva no português, como eixo fundamental do futuro linguístico do país, ao invés da tentativa de o substituir por  um crioulo que nos é querido mas cuja real capacidade de afirmação como língua literária, de ensino  e de Estado só não suscita dúvidas aos defensores do  projecto que temos estado a discutir.

Está mais que evidente que essa opção tem subjacente uma motivação política: tornar o crioulo um importante vector da identidade cultural do país. E é para credibilizar essa opção aos olhos de quem se interrogue sobre o seu real fundamento, que se adoptou uma escrita sob a égide de um alfabeto concebido para iludir o mais possível a semelhança morfológica entre as duas línguas e contrariar a lógica gramatical que preside à língua portuguesa. Porém, como 97% do léxico do crioulo têm origem na língua portuguesa, estamos perante uma situação deveras insólita e que nos dá razão para dizer que o gato está escondido com o rabo de fora. Bem disse o Professor José Fortes Lopes que “a temática da língua tem sido instrumentalizada desde há 40 anos por questões de ordem e agenda política.”(3)

Filinto:  ̶  Mas convém lembrar que os princípios por que se rege esse alfabeto, o ALUPEC, aprovados na 1ª Conferência Internacional de Fonologia realizada em Praga em 1930,  não se aplicavam a países que já tinham uma língua oficial, como é o nosso caso. Referiam-se, sim, a situações em que se parte de um ponto zero linguístico para se criar uma escrita. Ora, em Cabo Verde, o convívio entre dois alfabetos diferentes e com finalidades distintas vai provocar uma autêntica balbúrdia linguística, como já dissemos.  

Elísio:  ̶  Então, meu caro, temos de concluir que a perspectiva do nosso saudoso mestre, Baltasar Lopes, sobre a questão da língua literária  tem de ser contextualizada e  lembrados os seus pressupostos.

Filinto:  ̶  Ah, o mais importante pressuposto é o que subjaz a estas palavras do nosso saudoso Mestre que já analisámos no diálogo anterior: “Era preciso que houvesse já uma literatura, um passado literário escrito, para nós podermos escolher o crioulo padrão, e ele não existe. Se se continuar a escrever o crioulo como se escreve (ou como não se escreve) actualmente, isto é um problema para ser resolvido pelos nossos netos. Têm de passar duas gerações para este assunto ficar limado e nessa altura ver-se claro. Por enquanto, o que se diga é prematuro. Não confundamos a visibilidade da língua escrita com a da língua oral.”

Ora bem, que produções literárias tem havido em crioulo a uma escala editorial que permita extrapolações de ordem científica?  Estou a lembrar-me de “Odju d’Agu”, precisamente da autoria do voluntarista Manuel Veiga, do “Vangêle Contód de Nos Móda”, de Sérgio Frusoni. Tirando isso, haverá poemas em crioulo e algumas crónicas, como as do Zizim Figueira, e o curioso é não haver um predomínio do crioulo de Santiago no pouco que se conhece. Pode-se então falar de uma efectiva produção literária em crioulo? Nem por sombras! O que existe não tem qualquer significado literário.

Elísio:  ̶  Então temos que reconhecer que a tese do advogado do diabo não beliscou a nossa visão pessoal do problema. E que não cometemos qualquer heresia contra o nosso querido Dr. Baltasar Lopes, assegurado que está que o seu entendimento se baseava num importante pressuposto que está longe de verificar-se para que o crioulo de Santiago se eleja de direito próprio como língua-padrão. Ignorar  a observância dessa condição basilar é descontextualizar o pensamento de Baltasar Lopes. E é como colocar a carroça à frente dos bois.

Filinto:  ̶  O que é um facto é que as duas línguas, o português e o crioulo, sempre conviveram paredes-meias no universo literário cabo-verdiano. Desde sempre até aos dias de hoje, a nossa literatura foi veiculada em português, sem que isso signifique, no entanto, menosprezo pelo idioma materno.  É que apesar de o crioulo ser a expressão natural das vivências da nossa existência insular, esbarra-se com dificuldades para transcender a realidade empírica e tornar-se um veículo credível de uma produção literária de ampla aceitação e difusão. De facto, parece difícil que o crioulo deixe o seu escopo marcadamente popular e consiga estimular o mercado editorial. Não é por acaso que os nossos escritores sempre preferiram e continuam a preferir escrever em português, e sem que o expressionismo do seu universo crioulo perca autenticidade. Não há dúvida que a língua portuguesa consegue a plasticidade necessária para se moldar às exigências da expressão das nossas peculiaridades identitárias, idiossincráticas e psicológicas. Quem lê um “Chiquinho”, de Baltasar Lopes, um “Chuva Braba”, de Manuel Lopes, um “Cais de ver partir”, de Nuno de Miranda, um “Testamento  do Sr. Nepomuceno da Silva Araújo”,  de Germano de Almeida, entre muitas outras obras, percebe que a língua portuguesa se adapta perfeitamente ao tratamento dos contextos sociais cabo-verdianos, sem perda da tonalidade crioula na descrição das vivências sociais, dos comportamentos individuais, ou na criação dos diálogos e interacções humanas.

Elísio:  ̶  Isto porque os nossos escritores têm a consciência assumida de que se não for a língua portuguesa a mediatizar a sua produção literária,  jamais conseguirão transpor as fronteiras do nosso modestíssimo e insignificante mercado literário. Pensam e escrevem para o universo cabo-verdiano, mas têm os olhos no imenso mercado que é a CPLP. Escrever para poucas centenas de milhares de pessoas não é o mesmo que escrever para 270 milhões.  Além disso,  as obras que alcançam sucesso no universo lusófono encontram, em muitos casos, possibilidades de tradução editorial para outras línguas estrangeiras  de grande difusão. Estás a ver nosso crioulo a mediatizar esta última performance?

Filinto:  ̶  Claro que não, mas respondo-te com uma outra pergunta, Elísio. Se a realidade é esta, por que é que os nossos escritores ainda não tomaram um posição séria sobre esta questão? Como conseguem demitir-se  das suas responsabilidades quando  uma seta venenosa está apontada ao coração da sua actividade?

Bem, terminamos por hoje, mas este aspecto particular do tema terá de ser retomado.

(1) Entrevista ao Jornal Ilustrado (Portugal), na sua edição de 12 de Maio de 1988.
(2) Artigo de Manuel Veiga, de 12 Julho de 2013,  “Grinhassim, Não” ou a Energia do Yes We Can”  publicado no jornal Expresso das Ilhas.
(3) Artigo de José Lopes, de Março de 2015, “Desmistificando as questões da Oficialização do Crioulo e do Bilinguismo”, publicado no jornal Notícias do Norte.

Tomar, 3 de Abril de 2015
Adriano Miranda Lima

3 comentários:

  1. "Tá-se" mesmo a ver que este kasamentu se radica num divórcio difícil de entender, entre o portruguês e o crioulo...É como matar Rómulo ou Remo porque a loba romana apenas gera leite para um dos gémeos, em vez de dar meia ração a cada um! Parece que a cauda do felino está mesmo à vista!

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  2. O amigo Adriano Miranad Lima continua o seu infatigável trabalho de reflexão sobre a problemática da oficialização do Crioulo sempre numa abordagem ficcionada, na perspectiva de dois cidadãos comuns, tão perplexos que preocupados com a aventura. É estranho que nunca nos cruzamos com os novos donos, os revolucionários da língua cabo-verdiana, num debate no ArrozCatum ou no Praia de Bote onde ficamos sempre na expectativa de aparecerem um dia, dado os desafios que lhes vemos colocando. De resto os artigos estão disponíveis no facebook se eles quiserem dar a cara e enfrentar-nos num confronto intelectual estamos abertos. E posso dizer que lhs acolheríamos de braços abertos.
    Continuo a achar que esta problemática devia estar na Praça Pública a ser debatida pelo país inteiro, e que os intelectuais ou assimilados deviam ter um papel activo e constante na formação da Opinião.
    Decididamente debates em CV toda a gente foge como diabo da Cruz. Ninguém quer ser visto pelos famosos Big Brothers de Cabo Verde.Como Adriano referiu se os cabo-verdianos querem ser um país independente e soberano com esta postura então: 'Espera que vou ali, volto já' que mais vali estarem quietos que é preciso muito mais, mas mesmo muito mais do que isto. É que o esforço de não fazer nada ou ser indiferentes já me parece sobrenatural. Que cada um conclua...

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  3. onde escrevi .
    tão perplexos que preocupados
    deve-se ler
    tão perplexos como preocupados

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