segunda-feira, 25 de maio de 2015

[1526] Duas grandes obras da literatura claridosa: "Chuva Braba" (1956) e "O Galo que Cantou na Baía" (1959), ambos de Manuel Lopes

Chuva Braba

Primeiro romance de Manuel Lopes (clique no nome, para ver a biografia de ML), "Chuva Braba" (1956) foi galardoado com o prémio "Fernão Mendes Pinto" de Literatura do Ultramar (Lisboa, 1956, em edição patrocinada pelo Instituto de Cultura e Fomento de Cabo Verde). Chamamos a atenção dos nosso leitores para o facto de tanto a capa como as duas ilustrações do texto (no final de cada uma das duas partes) serem do autor. Há também que referir que segundo parece ML nasceu em São Nicolau e não em São Vicente (como se lê em quase todas as suas biografias), embora tenha vindo cedo para a ilha do Monte Cara, com escassos meses de vida.

Eis a sinopse do livro, retirada do site Wook:

Mané Quim, jovem camponês da Ilha de Santo Antão, vive confrontado com um dilema - aceitar o convite do padrinho e emigrar para a Amazónia, onde o espera uma terra rica, abundante em água e de colheitas fáceis e fartas, ou ficar, com a velha mãe, labutando nas ressequidas courelas, sonhando com a água que lhes dê vida. 

Chuva Braba conta a história de Mané Quim dando-nos um retrato veemente desse extraordinário povo que habita Cabo Verde, com a sua doçura, a sua pureza, o seu estoicismo, o seu apego à terra, no quadro grandioso da paisagem de Santo Antão. 

Sobre Chuva Braba escreveu Vitorino Nemésio: "uma pequena obra-prima da novelística islenha".


Várias folhas estão por abrir, incluindo as primeiras quatro
Primeira imagem, à p. 209

Segunda imagem, à p. 310

Composto e impresso em Lisboa

Edição da Editorial Caminho (1997), que também existe na nossa biblioteca. Ilustração de José Serrão. Esta edição tem um glossário de termos cabo-verdianos que a de 1956 não apresenta. Imagem Internet

O Galo Cantou na Baía / O Galo que Cantou na Baía / Galo Cantou na Baía


O livro contem seis contos:

- O Galo que Cantou na Baía

- O Jamaica zarpou
- As férias do Eduardinho
- No terreiro do bruxo Baxenxe
- O "Sim" da Rosa Caluda
- Ao Desamparinho

A questão do título é algo deconcertante. Saído o conto que dá o nome a esta compilação em 1936 no n.º 2 de Claridade,  o título na capa do livro é "O Galo Cantou na Baía" (sem reticências); porém, em todo o miolo (frontispício, folha de rosto, topos de página e índice) lê-se "O Galo que cantou na Baia...". A edição de 1988 da Caminho (Portugal) indica-o sempre como "Galo Cantou na Baía", tal como surgiu no n.º 2 de Claridade (sem confirmação, porque não conseguimos ver o original ou cópia, embora tenhamos referências deste nome em alguns estudos). 

Temos particular simpatia pelos dois contos iniciais: o do galo - no texto, bicho de "pescoço pelado" (ao contrário do que as imagens de capa de Cipriano Dourado e José Serrão mostram) - que denuncia com o seu canto inesperado a presença de contrabandistas de grogue a Toi, incorruptível guarda da Alfândega e "mornador" e ""O Jamaica zarpou" em que Rui desiste de embarcar num navio que lhe poderia dar segurança e fortuna, ficando a trabalhar, talvez em São Vicente, talvez nas terras da tia Gêgê em Santo Antão.

O livro recebeu prémio do mesmo nome que o anterior (1959).

Capa de Cipriano Dourado (1921-1981), artista português neo-realista com actividade nas áreas da gravura, pintura, desenho e aguarela. A sugestiva imagem da capa prolonga-se na contracapa, numa idealização poética do Mindelo e do Porto Grande




Edição Caminho (Portugal) de 1998, que também possuimos. Image Internet

7 comentários:

  1. Obrigada Joaquim Djack, por trazer com oportunidade, à lembrança dos leitores e dos visitantes do «PdB» este grande nome do romance, do conto e da poesia das ilhas, Manuel Lopes.
    Sem dúvida que as obras maiores de M. L. são os dois livros aqui citados e fotografados, com a história contada das primeiras edições.
    Caro Djack também o conto que mais gostei do «Galo Cantou na Baía» é o « O Jamaica Zarpou». Bem estruturado, bem narrado e tocante as hesitações/certezas do protagonista.

    Homenagem bonita! Sim senhor! Valeu!

    Abraços
    Ondina

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  2. Manuel Lopes é uma figura de relevo da ficção cabo-verdiana. Evocar a sua pessoa e a sua obra é manter viva uma memória que nos honra e enriquece como povo.
    Desconhecia estas diferentes versões do título deste livro. Só conhecia "O galo cantou na baía". Também ignorava que fosse o Manuel Lopes o autor das ilustrações dessa edição.
    Obrigado, Djack, pela tua incansável militância a favor da nossa cultura.

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  3. Cara Ondina,

    Estes dois, juntamente com "Caderno de um Ilhéu" do Barbosa (que mostrarei em breve), são agora os três reis magos da minha colecção cabo-verdiana. Fico embevecido a olhar para eles, a folheá-los (e a lê-los claro), coisa que não acontece com as duas edições modernas da Caminho, no entanto também agradáveis de ver. Relidos na edição primeira, têm outro sabor. É como se o escritor estivesse por aqui, a pairar no escritório, com a sua "conklin". Mas "As Férias do Eduardinho" também têm muito interesse, naquela conversa dele com o antigo colega do liceu em São Vicente que se fez agricultor em Santo Antão. O jovem intelectual e o jovem agricultor completam-se de algum modo, grandes amigos, embora sempre a discutir um com o outro. Foi um divertimento reler esta stóra lopesca.

    Braça em prosa,
    Djack

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  4. Caro Adriano,

    Desde sempre, a minha admiração pela cultura cabo-verdiana (e meu restante interesse pelas coisas do arquipélago) está na razão directa do muito que dali recebi e ainda hoje e sempre fará parte de mim e daquilo que sou. Há que ser agradecido a quem merece.

    Quanto às ilustrações, o ML é autor da capa e de dois desenhos inseridos no "Chuva Braba". A capa de "O Galo que Cantou na Baía" é do Cipriano Dourado.

    Braça com gosto pelos dois books,
    Djack

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  5. De certa maneira, As Férias do Eduardinho fazem-me lembrar que, quando completei o 5º ano, então chamado de Curso Geral dos Liceus, houve uma festa, no Eden-Park, no 10 de Junho, preparada por alunos e professores do LGE. Pontificavam, na época, Baltasar e Maria de Jesus e uma peça teatral em um acto da minha autoria havia sido premiada em concurso no Liceu, recebendo, como prémio, a sua colocação em cena, nesse dia...Eu e um colega (de letras) discutiamos com dois outros (de ciencias), as vantagens e desvantagens de cada um dos percursos académicos...O titulo, recordo-me, era tão naif como o texto: A César o que é de César...
    Bem sei que parecerá deslocado vir falar disto numa postagem dedicada a dois "monstros" da literatura cabo-verdiana, sobre quem já tudo foi dito e escrito...O que é que um mero pião, como eu, poderia acrescentar?!
    Braça, embaraçado
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    1. Não acho nada deslocado. E esses tempos áureos são sempre bem recordados, sobretudo se por um Augusto da rádio e agora imperador do Ac'A. Nessa idade é que se forjam os temperamentos e as ilusões. E se o dito cujo não seguiu pela via das literaturas, decerto deu aos dias da rádio importante contributo. Palmas, portanto, como se estivéssemos na plateia do Eden.

      Braça cesarista,
      Djack

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  6. Obrigado, Djack! Mandando às urtigas a falsa modéstia, que também não cultivo, sempre confesso ter a consciência de, nos vários sectores de actividade em que me movi, ao longo da vida, ter feito o melhor que podia e sabia, sem regatear esforços e até com alguns sacrifícios ocasionais..E que o fiz com sentido cívico e um carinho sem limites pelos lugares e pelas gentes com as quais me identifiquei desde a mais tenra idade...
    Braça morabi
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