segunda-feira, 21 de setembro de 2015

[1680] Garças cabo-verdianas, vistas por Adriano Miranda Lima na Beira Baixa, Portugal

PERFIS DE GARÇA

Adriano Miranda Lima
A minha mulher nasceu na freguesia da Serra de S. Domingos do concelho da Sertã, Beira Baixa. O lugar fica obviamente no cimo de uma serra e à volta abundam matas de pinheiro, castanheiros, carvalhos e outras espécies arborícolas, em meio a urze, rosmaninho e medronheiro, pelo que aquilo é aprazível e um bom reconstituinte para as energias vitais. Volta e meia vamos até lá para apanhar ar puro e comer maranho, um prato típico que é um enchido à base de carne de cabrito ou borrego, arroz e ervas aromáticas. A Serra de S. Domingos tem muita gente que emigrou desde há dezenas de anos para várias zonas de Lisboa. Assim se compreende que existe um interessante intercâmbio desportivo entre o Clube Desportivo da Serra de S. Domingos e o seu congénere de Loures, com iniciativas frequentes para fins competitivos, recreativos ou simples comezainas. A minha mulher tem primos intervenientes no processo, quer de um lado quer de outro, dos clubes em causa.

Sucede que um desses primos, o mais chegado, vive em Tomar e convidou-nos para ir à confraternização realizada no passado sábado e que ia aproveitar-se para a inauguração da nova sede do Clube Desportivo local. A iniciativa incluía um magnífico repasto à base de porco assado no espeto e outras especialidades locais, pelo que não nos fizemos rogados. Mas a comemoração e a comezaina iam ser precedidas de uma pequena caminhada envolvendo todo o pessoal interveniente, e também aí não hesitámos, tendo ido munidos, claro, de sapatilhas e indumentária adequada.

A certa altura, chegou ao lugar um autocarro carregado de pessoal de Loures e, qual não foi a minha surpresa, dele desembarcaram uns 20 jovens adolescentes em que o meu olho antropológico identificou um número apreciável de cabo-verdianos. Eram atletas de Loures e a maior parte raparigas, apenas dois ou três rapazes. Mas o meu olho antropológico foi ainda mais longe: verifiquei que só podiam ser de origem mindelense, pois aquela pose, aquele ar descontraído e aquela maneira de olhar não enganavam. Vinham no grupo três ou quatro mulheres adultas que eu identifiquei como sendo as mães de alguns dos jovens cabo-verdianos. Então, pelo olhar destas, mais se me confirmou a ilha de origem, S. Vicente, de certeza absoluta. Mas não me senti com à vontade para lhes perguntar algo sobre a origem, para não ser mal interpretado, embora se o fizesse teria previamente esclarecido que o fazia por ser também de origem cabo-verdiana. Apurei o ouvido para ouvir alguma conversa em crioulo, mas nada. As miúdas só falavam em português entre elas, pelo que concluí que já eram nascidas em Portugal, e possivelmente até as próprias mães, que eram ainda jovens. 

Mas há uma particularidade que não posso omitir. As miúdas davam nas vistas porque eram altas e esguias, de pernas compridas e bem torneadas a exibirem-se fora dos calções, de físico talhado para o atletismo (corrida), e com potencialidades para sonharem também com uma possível futura carreira de manequim. Os rostos tinham aqueles traços harmoniosos e expressivos que tornam as crioulas do Mindelo verdadeiramente atraentes. Fiquei com os olhos em bico de tanto contemplar aqueles perfis de garça. Uma tia da minha mulher desabafou: - Ah, como são elegantes de corpo e bonitinhas essas meninas de cor… ai, aquelas pernas!…

A festa lá aconteceu com tudo o que estava programado. A caminhada foi agradabilíssima e pelo caminho fomos colhendo uns cachinhos de uva das videiras pendentes nas vedações ao longo do caminho, para adoçar a garganta e saciar a sede, até porque o dia estava quente. O presidente da Câmara da Sertã inaugurou a sede do Clube com pompa e circunstância. Seguiu-se o repasto, com o porco assado no espeto a ser o centro das preferências, tal a mão atilada do cozinheiro, que doseou magistralmente o tempero e o grau de cozedura da carne. Aliás, não me lembro de ter comido porco assado no espeto que me soubesse tão bem, e o segredo, vim a saber, era só um: o bicho sacrificado tinha sido criado à base de milho, feijão, couve, batata e outros produtos locais. Nada de ração, garantiram-me.

Por fim, seguiu-se uma tocatina, com uma miúda (sertanense) como vocalista, mas a incluir também música gravada. Houve pé de dança. Não foi com grande surpresa quando a certa altura ouvi duas coladeiras: “Sabino Larga’m” e “Menininha de Morada”. Mas quem pôs as coladeiras, ah-ah-ah? O mundo afinal é mais pequeno do que aquilo que julgamos!

Por fim, por volta das 23 horas cada um regressou ao seu destino, após um dia esplendoroso e bem passado. Eu e a minha mulher pedimos ao tal primo para nos fazer sócios do Clube. Aqueles perfis de garça!...

Tomar, 20 de Setembro de 2015
Adriano Miranda Lima

7 comentários:

  1. Raramente comento os textos de amigos aqui no Pd'B ou em jornais. Desta vez, contudo, tenho a dizer que este saboroso texto devia ter ido primeiro para o "Liberal", onde decerto seria visto por mais público das nossas ilhas. Mas assim foi, assim é... No entanto, recomendo ao escriba são-vicentino-nabantino que se mexa e comece a mandar a sua prosa para o jornal (coisa que aliás lhe sugeri logo que ali reiniciei as minhas fainas plumitivas).

    Braça com teclas marteladas,
    Djack

    ResponderEliminar
  2. Faço minhas as palavras do Djack e destaco o perspicaz olho ornitológico do amigo Adriano!
    Braça esvoaçante,
    Zito

    ResponderEliminar
  3. Podia dizer o que disse o amigo Djack e o não menos Zito mas vou mais longe e digo ao Adriano que ele fez bem em contar essa estorinha que bem merece divulgação. E, para corroborar essa de "munde ê piqnim", cito uma que sucedeu comigo na antiga Gaulia, ora conhecida por Franca, mais precisamente na pequena cidade de Notre Dame d'Oé: - Convidado a um lanche de casamento (entre franceses, er o ùnico estrangeiro ali) qual não foi o meu espanto quando puseram a primeira mùsica para abrir o baile. Acreditem, meus amigos, o DJ, contratado para a festa, escolheu "S.Vicente ê um Brasilim".
    Corpe rupià-m'

    ResponderEliminar
  4. Eu já contei algures (e não há muito tempo) que em visita de trabalho com colegas professores a caminho da Roménia parámos um dia em Budapeste. Colocámos a bagagem no hotel, fomos dar uma volta pela margem de Peste do Danúbio e eis que chagados a uma zona de barcos-restaurante, do cimo de um poste provisório de madeira saía de um altifalante meio rouco a voz de Cesária. Não me lembro do nome da morna, mas era ela, a genuína, a do pé descalço, a Cize...

    Há dias, num almoço de professores, uma colega algarvia, amiga de muitos anos, confidenciou-me que em viagem de turismo pelas memórias guerreiras da Normandia se lembrou de mim e da minha paixão cabo-verdiana porque ouviu ali (suponho que num restaurante) a Cize.

    Enfim, Cabo Verde não é assim tão picnim como pensamos.

    Braça musical intercontinental,
    Djack

    ResponderEliminar
  5. Com efeito o Adriano deve ser lido e conhecido pelo público em geral cabo-verdiano não somente pelas suas qualidades literárias e o exímio domínio do português mas também pela sua sensibilidade política honesta e ponderada. Os nossos bolgues têm visibilidade mas um jornal como o Liberal atrai muita gente

    ResponderEliminar
  6. É o momento de acrescentar que na minha visita a S. Vicente, em Maio passado, infelizmente motivada pela doença e falecimento da minha mãe, tive ocasião de verificar que esta estirpe de jovens belos e longilíneos é muito comum nas nossas ilhas. Muito mais do que antigamente, o que pode ser influência de novos hábitos alimentares, em combinação com a genética. É vulgar ver raparigas esbeltas e elegantes quase da minha estatura. Antigamente, não era nada frequente.

    ResponderEliminar
  7. A respeito da minha participação nos blogues e jornais da nossa terra, o meu problema tem a ver com o distanciamento político-partidário que procuro impor-me. Bastas vezes opinei sobre questões mais genéricas e transversais, como a temática da centralização política, a regionalização, a cultura e a língua, etc, ou seja, sobre aquilo que não entra na mesquinhez dos conflitos partidários. Mas tenciono frequentar o Liberal, e não tardará que o faça.

    ResponderEliminar