sexta-feira, 22 de janeiro de 2016

[1830] "Sabrina", uma memória de Manuel Amante da Rosa

O "Sabrina", já como "Ana"
Acreditem mesmo que há navios que se recusam a morrer, mesmo no estertor da vida. "Sabrina" foi um deles. Talvez o único em Cabo Verde. Era uma velha ronceira das travessias Praia/Maio, em qualquer tempo de mar. A amiga certa das horas incertas da ilha amiga. Aguentava tranquila e altiva o embalo das ondas alterosas, ainda que fosse pequena, rasteira, vagarosa e de fundo chato. Uma noite de forte calema na baía do Porto da Praia fê-la desgarrar-se do seu fundeadouro e dar de proa à costa na Praia Negra. Considerada irremediavelmente perdida ficou por lá alguns anos. Isolada, triste, mas sempre na expectativa de que pudesse retornar ao mar e de novo de porão cheio e alegres passageiros, ser acompanhada pelos golfinhos até ao Porto Inglês. Imóvel, fora do seu ambiente natural, mas dando sempre mostras de fadigada mal as ondas lhe lambiam o casco.  

Numa noite adentro, usando da sua presteza inabalável, ningém sabe como, reflutuou, deslizou de ré ainda trôpega da sua cama de pedra até ao meio da baía com o seu antigo “capton” ao leme. Aquele, o esguio, tranquilo Homem de mar, que lidava com ela como uma amante, lhe roçava  de amor a mão pelos costados mal pisasse o seu corpo. Rejubilando de boémia, deslizou sem pressa num doce balouçar pela baía evitando o cais, o djéu, escolhos vários e despedindo-se graciosa, bem de perto, de outras antigas companheiras ali fundeadas. 

Há quem jure ter visto nessa noite, em que ela ressuscitou, uma figura na desbotada casa do leme fazendo a “Sabrina” bailar em jeito de despedida e encostando-a depois de mansinho, bem de mansinho, no areal da Gamboa, virada para o Pico d´Antónia, do outro lado da baía. Mas diz-se tanta coisa na Praia de Santa Maria…

Manuel Amante da Rosa
Roma,16/09/2015

Segundo este novo colaborador do Praia de Bote, "o 'Sabrina' era mais embarcação a motor do que propriamente um navio. "Conseguia carregar uns 40 ou 45 passageiros. Estaria a traficar algo e foi apanhado. mas porque avariou. Poderei em breve saber toda a história."

4 comentários:

  1. São sempre deliciosas e entusiasmantes estas histórias sobre navios, barcos e coisas do mar. E o texto está bem tratado.

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  2. Parabéns! Gostei da estôria do "Sabrina" e vou aguardar a continuação
    Força !!!

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  3. Obrigado aos nossos habituais comentaristas do PB. As achegas que vao dando a cada edição dos posts fazem- nos chegar a parte mais marcante e configuradora da ilha de S. Vicente e suas gentes -a Baía do Porto Grande. Tudo terá partido desta cratera submersa. Apesar da nossa condição arquipelágica, Mindelo terá sido a única urbe caboverdeana voltada para o mar, condicionando toda a sua existência. Contrariando a tendência que havia ao tempo de se resguardar das ameaças vindas do mar. Prometo continuar com outras crönicas. Um Abraco a todos. Manuel amante

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  4. Se existisse ainda hoje mais duas "Sabrina", a ligação marítima Praia/Maio seria menos "angustiante"

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