sexta-feira, 10 de junho de 2016

[2194] Um texto de um tenente da Armada sobre a visita de Craveiro Lopes a Cabo Verde

O presente e saboroso texto, que nos foi indicado pelo amigo e colaborador do Pd'B Adriano Miranda Lima, surgiu no número do passado Maio da "Revista da Armada". Aqui fica, com pequenas correcções de gralhas como no caso do nome da metralhadora francesa Hotchkiss e no "Hora di bai" que deve levar o "h", como no livro do Manuel Ferreira. É da autoria do 1.º tenente reformado Teodoro Ferreira. A propósito do "D. João de Castro", navio da Armada perdido em Santo Antão que o autor cita, revisitaremos no próximo post um texto nosso de 2006 sobre o assunto. Não emendámos o nome "Cisneros" mas é quase certo que o autor se referirá ao capitão-de-mar-e-guerra António Alemão de Cisneiros e Faria falecido em 1946, que comandou a canhoneira "Beira" em Cabo Verde e foi o primeiro comandante da "Sagres II" (a actual é a III).

"HORA DI BAI" 

Presidente Craveiro Lopes e esposa, Berta - site PR
Chegados da Índia no “Bartolomeu Dias”, em princípios de 1955, tivemos a natural mudança da guarnição e de comando. O comandante Gabriel Prior é rendido pelo Comandante Sarmento Rodrigues, a que se junta o CFR Pinto Bastos Carreira como Imediato. Começam os preparativos para a viagem presidencial do General Craveiro Lopes, a Cabo Verde, Guiné e Madeira. 

Sendo artífice torpedeiro electricista, eu “acumulava”, em part time, a função de fotógrafo. Talvez por isso, fui chamado ao Senhor Comandante, que me disse: “Ah, é você! Já falei com uma casa de fotografia e eles dar-lhe-ão instruções. Veja lá o material que é preciso, máquina, rolos, essas coisas” e entregou-me um cartão, rematando: “É só!” Lá me apresentei na casa de fotografia na Rua da Prata, onde fui instruído e aprovado nessa mesma tarde. Maio de 1955. Gare Marítima de Alcântara. Máquina fotográfica em posição, imortalizando “tudo o que mexia”. Salvo o devido respeito, assim foi com o Presidente da República, entrando a bordo. Ouvia-se a charanga do navio, magistralmente dirigida pelo mestre Vargas (1SAR B) tocando o Hino Nacional, ao mesmo tempo que soavam as salvas da ordenança disparadas pelas Hotchkiss, sob as ordens do tenente Raposo, Chefe de Artilharia. Este, empunhando a espada, gritava: “Peça de BB… fogo!… Peça de EB... fogo” e um artilheiro a contar em voz alta, não fosse passar das 21… enquanto entrava também a bordo D.ª Berta Craveiro Lopes e demais comitiva. Estas honras repetir-se-iam ao longo de toda a viagem sempre que o Presidente da República desembarcava ou regressava a bordo. Ouvido mil vezes, ora nos ensaios, ora nas cerimónias, o respeitadíssimo Hino Nacional já provocava protestos ao Mestre Vargas, do género: “se não conhecia outra música” e “que mal é que o ‘homem’ lhe fez?”. 


Toca à faina e lá vamos nós rumo a Cabo Verde escoltados pelo contratorpedeiro “Lima”. O tempo bonançoso permitia que o marinheiro artilheiro Vitorino, nosso barbeiro e actor cénico de grande gabarito, com provas dadas na anterior comissão na Índia, atendesse Sua Excelência para um “caldinho no cabelo”, usando a bata branca emprestada pelo enfermeiro, o 1SAR H Albergaria. Depois, com ar importante, recusava contar as conversas que tivera com o nosso General. 

Embora a ordem de visita fosse a inversa, entendi começar a estória pela Madeira. Da Pérola do Atlântico, para além da sua beleza reconhecida por todo o mundo, nada mais há a registar, excepto ter sido o local onde o PR foi mais calorosamente recebido. Da Guiné, recordo o rio Geba, a bonita e larga avenida de Bissau, o Palácio do Governador e a Praça com a estátua de Honório Barreto, ilustre guineense, Governador e patriota como poucos. Além da presença de alguns régulos a cavalo, não observei manifestações. Não vejo outra explicação senão a diversidade de etnias (Balantas, Fulas, Papéis, Grumetes, Mandingas, Bijagós, Majancos, Felupes...) e muito analfabetismo. 

Eis-nos chegados a Cabo Verde. A mais lusa e romântica das terras que conheci. S. Vicente. Atracámos à muralha no Porto Grande da cidade de Mindelo, conforme testemunha o Monte Cara. Muitas embarcações a remos e a motor, muitas bandeirinhas, muitos gritos e acenos e a retribuição de bordo, o que se repetiu em todas as outras ilhas visitadas: Santo Antão, onde, no “porto da Janela” em 1946, encalhou e lá se perdeu o navio hidrográfico “D. João de Castro”; a ilha do Fogo e o seu pequeno porto de águas profundas, bem escondido e, como tal, bom refúgio de piratas, que o foi para Francis Drake e outros; S. Nicolau e a subida da Ribeira Prata; S. Tiago, a maior de todas as ilhas, com a cidade da Praia, capital do arquipélago; Sal, com o seu aeroporto internacional; Boa Vista, com as suas lindas praias (onde fica o paraíso, não há que errar); e a que, propositadamente, deixei para o fim: a Brava, a mais doce, pequenina, a mais querida, a mais lembrada. O que tem esta ilha de especial? A Vila de Nova Sintra. Local espectacular, lindíssimo, aprazível, a mais de 400 metros de altitude e a bela Praça de Eugénio Tavares, escritor e compositor de mornas. “Dja Brava” tem ainda excelentes intérpretes. Mais uma vez, tive a felicidade de reviver a “Nha Cretcheu”, a “Moreninha”, a “Sôdade” (tão divulgada pela genial Cesária Évora) e a inesquecível “Hora di Bai” de B. Leza. Sô B. Léza, natural de S. Vicente, também autor de músicas e letras de mornas. Uma delas foi dedicada ao Comandante Cisneros da velha “Sagres”. Cito de cor: “Selô, Selô, barca Sagres, Noiba di mar, ama de marinero, Ninfa di Tejo di porte faceiro, qui onda de oceano tá bejá, brisa di espaço tá miná, Strela di mar, bô é mansa e garbosa, Aiii!!... com bô ar di rainha, di traço divinal, bô é noiba di marinha, di nosso qrido Portugal”. 

E na Hora di Bai abraça-se fortemente os amigos, disfarça-se umas lágrimas e… até um dia. 

Que sôdades… do mar… 

Teodoro Ferreira 
1TEN. SG REF.

8 comentários:

  1. O relato, sobretudo a parte final, mexe com a gente. Quem escreveu isso guardou para sempre em si a morabeza que recebeu.
    Bem haja !!!

    ResponderEliminar
  2. Saboroso, reconfortante, intimista, um pedaço de morabeza de encher a alma!
    Braça
    Zito

    ResponderEliminar
  3. O que aconteceu a este lobo do mar é o que acontece sempre a alguém que passe por aquelas terras e tenha um mínimo de sensibilidade e espírito aberto. Fica "apanhado" por elas e pelas suas gentes.

    Braça mindelense
    Djack

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Geralmente, os marinheiros têm sempre algo de bom a contar dos portos por onde passam.
      Logo à minha chegada aqui, em 1975, recebi a vizita de um senhor que me perguntou se conheci Nha Luiza Manobra. Acostumado a estas imprevistos, sorri e respondi alongando uns detalhes. A pessoa em questão era um ex-sargento da Armada que tinha o hàbito de ir beber o célebre ponche no bar do Lombo e, pelos vistos... não so!!!
      Mais que foi "apanhado".

      Eliminar
  4. Djack, como não acusate a recepção do texto, pensei que estarias off computer. Mas, desconfiado, vim ao blogue e afinal está aqui postado o que te enviei. Copiei exactamente como estava escrito, não alterando nem adaptando nada.
    Isto dá de facto para confirmar que S. Vicente era uma terra encantadora e acolhedora. E os marinheiros portugueses que o digam em especial.

    ResponderEliminar
  5. Isto aqui chega sempre tudo. Nunca falha! Não vale a pena estar sempre a dizer que chegou. E como tenho recebido muitas mensagens por causa do evento de ontem, há que responder às mesmas.

    Quanto ao resto, isto aqui é como no New York Times... (hum!), há que ler os textos que vêm e emendar o que é possível emendar, melhorar o que é possível melhorar, em suma, editar.

    Por exemplo, o caso da metralhadora (para além dos canhões e automóveis da mesma marca) que embora tenha nome inglês é francesa (e é Hotchkiss).

    E o caso do comandante Cisneiros é o mesmo. Tudo gralhas que acontecem mas que a gente deve emendar logo que detectadas, como foi o caso.

    E um super-abraço por teres desencantado este saboroso texto que já fez as delícias de pelo menos dois leitores famosos, um em Tours e outro em Queluz... fora os outros dois, o de Tomar e o de Almada.

    Braça com navio de guerra e mar por todo o lado,
    Djack

    ResponderEliminar
  6. Aqui está o Djack depois de um interregno trazendo mais uma peça importante da História de CV e de SV: a visita de Craveiro Lopes

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Depois da "tempestade" de trabalho há sempre a "bonança" do Pd'B. E há bom material para ir colocando. A pouco e pouco...

      Braça postista,
      Djack

      Eliminar