segunda-feira, 4 de julho de 2016

[2252] Uma visão particular (de 2005) de um filme cabo-verdiano

“Ilhéu de Contenda”, o romance e o filme

Adriano Miranda Lima
Raro deve ser o cabo-verdiano que, atento à literatura doméstica, não leu o romance “Ilhéu de Contenda”, de Henrique Teixeira de Sousa. 

Tendo lido a obra mais de uma vez, tive agora a oportunidade de a ver recentemente transposta para a tela, através de uma cassete de video. Sou obrigado a confessar que me passara completamente despercebida a existência deste filme de Leão Lopes, facto que pode ser imputado à escassa divulgação feita por ocasião do seu lançamento no mercado cinematográfico português. 

Ao introduzir a cassete no aparelho video, sentia que a minha expectativa de ver o romance nas mãos da sétima arte superaria qualquer juízo valorativo que pudesse a posteriori formular sobre a realização, certo de que me interessaria, de que jeito fosse, todo o trabalho cinematográfico que recriasse uma das obras do autor cabo-verdiano que mais aprecio. É sabido que um filme deste género é sempre uma versão cinematográfica da produção literária em que se baseia, com adaptações e/ou amputações ou próteses, que tanto podem resultar num atentado de lesa obra literária, como num enaltecimento gratuito a algo medíocre. De facto, o bom realizador pode, com um enredo extraído de obra rasca, valorizar conteúdos ligeiros através de bons efeitos estéticos (visuais e sonoros). 

Depois de ver o filme, permito-me julgar que o cineasta procurou fazer um trabalho honesto, no esforço de agarrar os contextos essenciais do romance e integrar-se na realidade sociológica local. Porém, não é excessivo dizer que há alguns desvios e deformações em relação à intenção do autor literário e ao conteúdo mensagístico que ele visou. Para começar, logo no arranque da narrativa fílmica. No romance, tudo começa com as exéquias fúnebres da nha Caela dentro da Igreja, enquanto lá fora estalejavam foguetes e se soltavam as cavalhadas. Ou seja, num cenário, preside a religiosidade, noutro, a esfuziante alegria popular a explodir nesse dia do Padroeiro da Freguesia, clara alegoria à transição dos tempos, com a queda sociológica da classe branca dominante e a emergência e afirmação das camadas antes discriminadas e até desprezadas.
     
O realizador, com as alterações introduzidas, optando por uma solução cinematográfica algo diferente, retirou o brilho cristalino à simbologia que o autor da obra emprestou àquele momento. E, como se não bastasse, o arranque do filme é servido por um cenário (Eusébio em “vestes coloniais” e contemplativo na varanda do sobrado) e um fundo musical que mais sugerem um ambiente de África (roça) na sua expressão mais telúrica do que a fisionomia identitária da terra cabo-verdiana.

Quanto aos personagens, alguns me parecem mais ou menos bem representados, enquanto outros tentam, com maior ou menor sucesso, travestir as verdadeiras personalidades criadas pelo autor do romance. Apesar de ser um actor de mérito, João Lourenço pareceu-me não se meter lá muito bem no papel de Eusébio, um pouco desajustado da personalidade do seu personagem e algo artificial no seu enquadramento com a realidade humana que o envolvia. Por outro lado, ao utilizarem a língua portuguesa em expressão bem vernácula, os actores portugueses afastam-se, a meu ver, daquilo que seria verdadeiramente o estilo e a linguagem do chamado “branco da terra”. É que mesmo o “branco da terra” cioso dos seus pergaminhos familiares ou das suas puras origens lusas, não deixava de falar o crioulo do Fogo, sobretudo no contacto com as camadas socialmente mais baixas. Creio que na vida corrente se podia falar, sim, o português, mas seria sempre um português com laivos da nossa cabo-verdianidade, em especial na acentuação e no uso de alguns léxicos locais, coisa que não foi nada perceptível no filme. Admitamos que não era de modo algum fácil pôr aqueles actores a falar o crioulo ou um português com tais temperos. Contudo, neste ponto o actor Camacho Costa (já falecido) é quem parece identificar-se mais fielmente com o personagem Felisberto, pela naturalidade do seu desempenho, pela sua aparência exterior e até pelo uso de uma linguagem aparentemente mais descontraída e informal. A única excepção, a confirmar a regra, é a actriz Teresa Madruga (Belinha), que fez questão de aprender as palavras em crioulo para o seu diálogo com o Eusébio, palavras que lhe foram ensinadas pelo autor do romance, segundo o próprio me contou. Além disso, a actriz assimilou posturas e tiques que a identificaram plenamente com o seu papel de amante crioula, o que é digno de nota. E desta maneira ressalta a incongruência de ela se exprimir sempre em crioulo, enquanto o seu interlocutor, Eusébio, também foguense, o faz sempre em português. Já o mesmo sucede entre Eusébio e Soila, esta representada por uma cabo-verdiana. É claro que o crioulo não poderia ser a língua dominante num filme que naturalmente olha para o mercado lusófono. Mas sempre se podia ter introduzido alguns condimentos do linguajar crioulo aqui e além, de modo a representar mais fielmente uma realidade que, sendo de raiz cultural portuguesa, tem no entanto as suas próprias originalidades idiomáticas. 

O intérprete do Doutor Vicente pareceu-me bem no seu papel. Pena é ter sido um angolano a representá-lo, e não um cabo-verdiano. Em pólo oposto, o personagem Augusto faroleiro está muito mal representado na pele daquele actor português. O Augusto do romance não tem nada de comum com aquele actor baixinho e anafado, mais talhado para a comédia revisteira. Alguém glosou este desajustamento comentando que foi o mesmo que ver D. Quixote interpretado pelo Sancho Pança, o que é pura verdade.

É um dado adquirido que o filme dificilmente conseguiria reproduzir alguns desenvolvimentos laterais que embelezam a obra literária, mas reconheça-se que não descurou o diálogo, que é profundo, entre o Doutor Vicente e o seu colega mais velho, Doutor Rafael. Claro que não o faz com a profusão contida no romance, mas o suficiente para elucidar sobre o espírito e o idealismo dos dois personagens.

Penso que houve preocupação de transpor para o filme as cenas mais estruturantes do romance. Mas claro que nem todas, sobretudo uma, cuja omissão penaliza seriamente a obra cinematográfica, pela poderosa carga simbólica que reveste na obra literária. Refiro-me à lestada que assolou a ilha por ocasião da agonia da nha Mariquinha. No filme só aparece uma cena breve e fugidia sobre os seus efeitos, mais perceptíveis (ou dedutíveis) no diálogo entre Eusébio e Soila do que materializados cinematograficamente. Tivesse havido outro tratamento, o filme teria beneficiado da grande carga dramática que é a manifestação da violência da lestada no momento da agonia da nha Mariquinha. Por exemplo, na obra lê-se: “…Noite que nunca mais chegava a dia. Noite agitada pelo vendaval que tudo estaria espatifando lá fora. E o corpo de nha Mariquinha estendido na cama, serenamente estendido, como barca acabada de ancorar em porto abrigado….” “…Um valente esticão de vento desengonçou a armação do telhado, ouvindo-se acto-contínuo um estilhaçar de coisa frágil, que devia ser das telhas…” “…Quando clareou o dia, a lestada já havia amainado. Eusébio saíu a averiguar os estragos do temporal. A verdura que na véspera cobria as achadas, os cutelos, as ribeiras, transformou-se da noite para o amanhecer num emaranhado de hastes e folhas ardidas. O milharal que tanto prometia, as faquetas arremangadas prometendo fartura, encontrava-se agora alastrado no chão, de mistura com as cordas de aboboreira e caules de feijoeiro. As árvores pareciam aves depenadas, os galhos contorcendo-se de desespero. O vento leste queimara tudo. Nada, positivamente nada, restava com o viço da véspera…”

Ora, o filme limita-se, pois, a apresentar o diálogo, que eu atrás referi, entre Eusébio e Soila, frente a um terreno árido e algumas árvores, cenário indigente e inexpressivo se a intenção era transmitir ao espectador os efeitos da dramática violência da natureza. E, quanto a mim, é pena porque a narrativa da manifestação da lestada e dos seus danos, associada à morte de nha Mariquinha, toca profundamente a sensibilidade do cabo-verdiano, na medida em que ilustra a nossa luta secular contra uma natureza que não lhe dá folgadas tréguas. O romancista valoriza o significado dessas cenas e trabalha-as literariamente com arte e mestria, mas o cineasta, recorrente já anteriormente em outras desatenções, não as privilegia com suficiente sensibilidade estética e com dinâmica condizente. Admito que a escassez de meios, que não de imaginação criativa, poderá ter impedido o realizador de utilizar os recursos da sétima arte para transpor a metáfora literária para a metáfora fílmica.

O cineasta altera a cena da despedida do Doutor Vicente. Este não é levado aos ombros ao som da música “Hora di Bai”, mas é ele que, cantor, à frente de um grupo de músicos, entoa a “Hora di Bai” pelas ruas de S. Filipe. Aqui não censuro Leão Lopes pela adaptação/alteração porque a cena por ele recriada está bem conseguida e é comovente, quanto mais não seja pela belíssima voz do intérprete da morna. No entanto, poderia ter sido mais natural, com menos teatralidade na representação.

“Last but not the least” neste meu arrazoado, é a denúncia inequívoca que o romance faz ao tipo de racismo outrora existente na ilha Fogo, com as suas manifestações primárias e os seus reflexos sociais. Não conheço mais nenhuma obra de ficção cabo-verdiana que denuncie sem mistificações e sem eufemismos esse fenómeno que se permitiu viver paredes-meias com o povo da morabeza. Só por isso, honra redobrada ao romancista e à sua obra! E justiça ao cineasta por não ter escamoteado esta verdade bem estampada na obra literária! 

Em minha opinião, o romance “Ilhéu de Contenda” figura entre o que de melhor e mais belo já foi produzido por autores cabo-verdianos. E é uma obra que honra a literatura portuguesa.

Apesar de tudo, não se pode, em consciência, alegar que o filme de Leão Lopes distorce ou maltrata a obra literária, pois apenas comete o pecado de desvios e omissões, alguns deles a merecerem reparo. Todavia, quem, como eu, conhece bem o romance, é tomado de uma grande emoção ao revisitá-lo através deste filme. 


Tomar, 2 de Novembro de 2005

Adriano Miranda Lima

4 comentários:

  1. Fabulosa critica do Adriano que se aceita como sincera pois o moço é nado no espaço, viveu no ambiente e é conhecedor do autor e de sua excelente obra, um dos nossos tesouros litaràrios e mesmo da lingua portuguesa.
    Ê sabido que raramente um filme traz-nos a inteira realidade de uma obra.
    Obrigados ao autor, ao critico que enriquece mais o trabalho e ao difusor que também é imbativel na matéria.
    V/

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  2. ASSINO POR BAIXO, EM LETRA PEQUENINA...
    Braça cinéfilo
    Zito

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  3. Eis pois uma crítica que não perde actualidade, porque arrimada ao conhecimento que o seu autor tem da História e da terra. Concordo com o geral do seu conteúdo. O filme de Leão Lopes,que naturalmente teve um guião, já não se "fidelizou" tão totalmente ao romance que nós leitores esperávamos nas sequências. Daí a cena inicial e mais algumas outras. Adriano observou ao pormenor a adequação de cada actor/personagem. E tem razão nos reparos feitos às falas e ao tipo selecionados. Interessante é que também pensei nisso quando vi o filme pela primeira vez.

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  4. Excelente crítica do Adriano com o qual concordo integralmente. Um filme é sempre um retrato esbatido de um livro. Vou voltar a ler o livro e ver o filme.

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