terça-feira, 27 de setembro de 2016

[2518] Uma morna, um lenço, uma gralha

O lenço está cá em casa, há mais de meio século. É de seda, logo tem toque extremamente agrdável e encontra-se dobradinho, dentro de bolsa de plástico/mica, como relíquia. É claro que é de Cabo Verde e foi comprado em São Vicente, algures por 1965. Até hoje, nunca ninguém o usou. Mostra-se, pela primeira vez. 

E começamos por uma estrofe de poema de morna mais que famosa, de nhô Eugénio. Com gralha que lhe fornece o ar popular, na palavra mais erudita.


Canção ao Mar - Mar Eterno
Eugénio Tavares

Oh mar eterno sem fundo sem fim
Oh mar das túrbidas vagas oh! Mar
De ti e das bocas do mundo a mim
Só me vem dores e pragas, oh mar

Que mal te fiz oh mar, oh mar
Que ao ver-me pões-te a arfar, a arfar
Quebrando as ondas tuas
De encontro às rochas nuas

Suspende a zanga um momento e escuta
A voz do meu sofrimento na luta
Que o amor ascende em meu peito desfeito
De tanto amar e penar, oh mar

Que até parece oh mar, oh mar
Um coração a arfar, a arfar
Em ondas pelas fráguas
Quebrando as suas mágoas

Dá-me notícias do meu amor
Que um dia os ventos do céu, oh dor
Os seus abraços furiosos, levaram
Os seus sorrisos invejosos roubaram

Não mais voltou ao lar, ao lar
Não mais o vi, oh mar
Mar fria sepultura
Desta minha alma escura

Roubaste-me a luz querida do amor
E me deixaste sem vida no horror
Oh alma da tempestade amansa 
Não me leves a saudade e a esperança

Que esta saudade é quem, é quem
Me ampara tão fiel, fiel
É como a doce mãe
Suavíssima e cruel

Nas mágoas desta aflição que agita
Meu infeliz coração, bendita!
Bendita seja a esperança que ainda
Lá me promete a bonança tão linda

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