quinta-feira, 29 de setembro de 2016

[2534] Ti Fefa... sempre!

O texto de Adriano Miranda Lima tem dez anos mas continua actual, na sua evocação de uma das figuras de docente mais lembradas por inúmeras gerações de alunos que o estimaram e recordam sempre com saudade. Demasido extenso para as características de um blogue, ainda assim não podemos deixar de o publicar, pela qualidade e também pelo sentimento que partilhamos por este "home de Bubista" que em dimensão significativa ajudou a formar tantos de nós, mindelenses (ou aderentes...).

O PROFESSOR ALFREDO BRITO (TI FEFA)
In memoriam

Adriano Miranda Lima
Mal de mim se não utilizasse agora este nominho ─ “Ti Fefa” ─ como era mais conhecido e sempre o tratávamos na intimidade do nosso círculo juvenil. Com um tratamento mais formal não alcançaria a exegese de um reencontro no tempo com aquele que é uma marca inapagável na memória de várias gerações de alunos da antiga escola primária e, particularmente, da classe de admissão ao liceu. Refiro-me, claro está, ao professor de ensino particular Alfredo da Silva Brito, o saudoso mestre cuja acção foi deveras inexcedível na minha preparação para o liceu. 

Conheci-o quando, aos 11 anos, entrei para a frequência da admissão ao liceu, na altura um degrau escolar não absolutamente obrigatório mas que os meus pais julgaram aconselhável. Entendiam que uma boa consolidação das matérias da quarta classe só era de todo garantida com a maturação que advinha de mais um ano escolar a martelar exaustivamente nas suas disciplinas, digamos assim, a virá-las do avesso. Não sei se estavam equivocados ou não, mas a verdade é que esse ano escolar foi das experiências mais marcantes da minha meninice. Primeiro, porque se não tivesse cumprido esse ano intercalar jamais teria tido a oportunidade de conhecer e privar com o professor Alfredo Brito. Depois, porque foi nessa altura que me foi sendo gradualmente consentida uma certa soltura de rédeas que a clausura doméstica dos anos anteriores não tornara possível. Estava naquela idade infantil em que as emoções ganham uma amplitude incomparável e foi assim que passei a demandar o estádio da Fontinha e o recinto do Castilho para umas futeboladas com bola de trapo no intervalo das aulas ou depois do seu término. Isto para não falar em incursões para banhos de mar lá para os lados da Praia de Bote ou do Corê.

O Ti Fefa não era o único professor da nossa classe de admissão, nem sequer, segundo creio, o seu responsável directo em termos formais. Esse era o professor Júlio Teixeira, vulgarmente conhecido como Julinho. As aulas funcionavam num grande espaço, na chamada “Sala do Jacô”, mais conhecida como sala dos tão afamados bailes que se realizavam no Mindelo por alturas do Carnaval e não só. As aulas funcionavam na parte de manhã e era o Ti Fefa quem normalmente as iniciava, normalmente encarregando-se do português, da matemática e da história, se a memória me não falha. Aparecia mais tarde o Julinho e dava seguimento às restantes disciplinas. A acção docente pautava-se por grande rigor e disciplina, fosse exercida pelo Ti Fefa ou pelo Julinho, com pequena margem de contemplação a ser consentida aos desleixados ou pouco estudiosos. Para tanto, poderia agora invocar o efeito dissuasor e sempre omnipresente do instrumento de cabedal de 3 pernas ou das varinhas de marmeleiro ou de tamareira pendurados em local bem visível. Mas o facto é que, tanto quanto me recordo, dissuadia mais do que os instrumentos “supliciais” a postura séria, exigente e aplicada dos nossos mestres. Valha a verdade que diga que o professor Alfredo Brito era quem emocionalmente mais se envolvia connosco, talvez em função da sua idade, pois bastante mais velho que o seu colega de ofício, e da aura paternal que irradiava da sua figura e do seu jeito especial de lidar com os pupilos. Isto sem menosprezar a importância do Julinho, por sinal um mestre conceituado mas certamente mais identificado com o estereótipo normal do professor. Diria que enquanto o Julinho estaria ainda no voo ascensional para o cume da sua carreira, o Ti Fefa já estava em plena velocidade de cruzeiro, depois de ter pilotado céus ignotos e vencido várias procelas. Mas, para ser mais rigoroso, diria que o aspecto físico do Ti Fefa se me afigurava então mais como o de um sexagenário, e por isso inspirando-nos a imagem típica de um avô. Contudo, é sempre por excesso que as crianças avaliam a idade dos mais velhos, daí aceitar que ele pudesse ser mais novo do que de facto me parecia nessa altura (ano de 1955).

Mas enganam-se se pensam que a faina escolar terminava com as aulas da parte matinal. No período da tarde, elas continuavam com o Ti Fefa, e só com ele, num cenário bem diferente. Já não na “Sala do Jacô” mas no átrio do rés-do-chão do edifício onde funcionava o Sindicato dos Marítimos, um espaço lateral e encaixado ao fundo das escadas. Ficávamos então entregues exclusivamente ao nosso Ti Fefa para voltar a carregar as baionetas sobre certas matérias e trabalhos específicos, nomeadamente apuramento da caligrafia, português e matemática. O que eu guardo de mais saudoso da classe de admissão reporta-se precisamente a esse espaço do Sindicato dos Marítimos, onde o mestre desvendava algumas facetas curiosas da sua aptidão pedagógica. Dirão os teóricos modernos das ciências pedagógicas que os processos antigos eram obsoletos ou retrógrados por recorrerem à motivação extrínseca ligada à expectativa do castigo físico. É um facto que alguns colegas desse tempo recordam a varinha de marmeleiro ou de tamareira que se usava e o efeito dissuasor que ela produzia. Um deles, Luiz Silva, até me citou alguém que ainda hoje conserva uma esmerada caligrafia que foi conseguida à custa da varinha do Ti Fefa. No seu livro evocativo “Capitania”, Joaquim Saial evoca o Ti Fefa e a sua varinha mas logo acrescenta que o quadro preto e as cadeiras é que normalmente recebiam as suas esporádicas investidas, quando a cabulice ou a preguiça se tornavam mais intoleráveis. Confirmo a verdade desta afirmação. E confesso que só uma única vez apanhei uma varada, e mesmo assim muito ao de leve e aplicada pelo Julinho e não pelo Ti Fefa, embora com isso não queira alardear virtudes de imunidade a um ou outro castigozinho que a irreverência da idade bem podia justificar. Mas hoje é unânime que a pedagogia do nosso mestre Ti Fefa não estava na varinha mas na vontade de aprender que nos instilava, no sentido prático que imprimia ao ensino, na paciente destreza com que nos desembrulhava as noções mais difíceis. Com isto conseguia uma grande cumplicidade com os alunos, o que era meio caminho andado para a obtenção de bons níveis de aprendizagem em todas as matérias. 

Há dias, li um artigo de jornal em que o Vasco Pulido Valente, conceituado intelectual português, confessava que foi na quarta classe (com ou sem admissão) que aprendeu o que hoje sabe de português. Não me fazendo rogado, reagi logo com um concordante grito interior: “Ah, também eu e foi o Ti Fefa o responsável por isso”. Não há exagero no que digo, pois na admissão assimilávamos de cor e salteado toda a gramática essencial, aprendíamos a redigir praticamente sem erros de ortografia e ganhávamos um notável desembaraço na análise morfológica e sintáctica dos textos do livro de leitura de então. Não me recordo do que possa ter aprendido de essencialmente modelador em português nos meus anos do liceu até ao antigo quinto ano, ano liceal em que cessava a disciplina de português para aqueles que, como eu, não iam seguir qualquer área de Letras. Com isso não tenciono minimizar o trabalho dos meus professores de português no liceu, mas tão-só realçar uma verdade que ninguém me consegue rebater: foi principalmente Ti Fefa quem me ensinou o português que eu hoje sei, cortando e lapidando com mestria as pedras do alicerce da língua.

Falar do empenho do nosso mestre com o português e outras disciplinas é também falar do zelo e da pertinácia com que nos desemburrou na resolução de todo e qualquer problema de aplicação dos conhecimentos de matemática, área em que sobravam sempre lacunas não de todo supridas na quarta classe. Diria mais, o Ti Fefa procurava explorar nessa área, hoje um bicho-de-sete-cabeças para os alunos, todas as potencialidades conducentes a uma boa ginástica mental, criando problemas cujo enunciado percorria tudo o que constava do programa de ensino. Julgo que ninguém ficou com dúvidas sobre problemas de regras de 3 simples ou mesmo de 3 composta, de superfícies agrárias, de valores decimais e fraccionais, etc., etc. Para estes últimos, recorria, com evidente graça, ao exemplo do famoso queijo da Boavista (sua ilha natal) como valor unitário, explorando dessa forma exemplos práticos do nosso quotidiano como forma de banir o abstracto e espicaçar-nos o interesse.

A propósito desta evocação do Ti Fefa, não é meu propósito entrar aqui em juízos valorativos sobre técnicas e processos pedagógicos, porque não é assunto da minha lavra. Apenas um breve comentário. Num contexto evolutivo desde há algumas décadas, marcado pelo desenvolvimento das ciências da educação, das teorias da aprendizagem, dos métodos de ensino, muito se lastima que a escola não consiga nos dias de hoje alcançar o êxito que cientificamente parecia garantido. O sistema educativo antigo, bem personalizado no Ti Fefa, exigia muito do professor mas este dispunha de autoridade e prestígio que a própria sociedade consagrava, e nisso residia a base essencial do seu funcionamento. Mudaram-se os tempos e pretendeu-se, sobretudo nas sociedades libertas da opressão política, como a portuguesa e a cabo-verdiana, exaltar os valores da liberdade individual e promover a transformação do que parecia obsoleto e contrário aos novos paradigmas libertários. Assim, à escola antiga sucedeu uma escola permissiva, onde se calculou que a aprendizagem lúdica e uma atitude elástica e sempre confraternizante do professor seriam quanto bastava para compensar a supressão do esforço do aluno. Os resultados são o que sabemos. Um erro que considero crasso foi ter-se pretendido eliminar ou reduzir consideravelmente o esforço de memorização por parte do aluno. Um erro crasso porque se esqueceu de que a estrutura neurobiológica do ser humano tem janelas sucessivas de oportunidade que se vão revelando e fechando com o andar dos anos. No caso da capacidade de memorização, não se pode evidentemente falar em “encerramento”, mas o facto é que as suas potencialidades têm o seu esplendor máximo nos primeiros anos da escolaridade. É uma pena não serem aproveitadas, não necessariamente em detrimento dos mecanismos de raciocínio, já que estes devem ser estimulados em paralelo. 

Ora, com os considerandos anteriores só queria concluir que o Ti Fefa exercitava à exaustão a nossa capacidade de cálculo e raciocínio, sem prescindir de explorar convenientemente as potencialidades da memorização. Por isso mesmo, deficiências básicas na área da matemática nunca as senti quando transitei para níveis superiores de conhecimento dessa disciplina. Por outro lado, e no capítulo da memorização, sinto que não foi em vão aquilo que então decorei, dado que daí resultou a cozedura de valiosos tijolos em algumas estruturas da minha bagagem de conhecimentos. Ainda hoje sei de cor as regras gramaticais e as suas excepções, da mesma maneira que os marcos temporais entre os vários reinados e dinastias da história de Portugal vou buscá-los aos conhecimentos adquiridos nessa fase da minha educação.

Pela vida fora, manteve-se sempre intacto um vínculo afectivo que se criou entre mim e o Ti Fefa. Nos anos que se seguiram à minha saída de Cabo Verde, e por longo tempo, sempre que ele se cruzava com a minha mãe na rua nunca deixava de procurar saber notícias minhas: “Então, como vai aquele rapaz? Quando lhe escrever mande-lhe um abraço meu”. Quando somos muito jovens não reconhecemos o valor simbólico da humanidade de alguns gestos, mesmo os mais insignificantes. Com isto só quero dizer que me arrependo sinceramente de nunca ter escrito uma carta pessoal ao meu mestre, dizendo-lhe do tamanho do meu carinho e de todo o meu apreço por ele. Afinal, uma carta que só hoje resolvi escrever e que só me resta agora endereçar ao tempo e à memória. Pois quem sabe verdadeiramente até onde pode chegar um testemunho que vem do fundo da alma? Joaquim Saial, no livro “Capitania”, descreve: “É difícil esquecer aquele homem moreno, de olhos esverdeados, invariavelmente de fato castanho…”. Também eu, Joaquim, e muitas gerações de cabo-verdianos. Esse retrato do Ti Fefa pertence à galeria das nossas saudades. 

Tomar, 14 de Agosto de 2006

Adriano Miranda Lima

2 comentários:

  1. Infelizmente, não serão tão abundantes assim, os casos de vínculos afectivos tão fortes entre os estudantes e os seus velhos mestres... E isso só significa, infelizmente, que não serão suficientes os fora-de-série que ensinam e os putos que gostam de aprender...E é pena porque é sobremaneira reconfortante ler coisas como esta nobre peça literária do amigo Adriano...Assinaria idêntica evocação a alguns dos meus mentores...
    Braça
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  2. O Ti Fefa era um professor rigoroso e que exigia dos alunos ter uma boa caligrafia e conhecer bem a regra dos três simples em matematica. Gostav também de dar boas varadas aos alunos e alunas que usavam muitas sais para se proteger das varadas do ti Fefa. Possuia também um humor proprio de boavistense e era agradavel ouvir as suas conversas com maritimos da Boavista no Sindicato dos Maritimos onde iamos também à tarde seguir as suas aulas.Mas tinhamos também a nossa equipa de futebol que aliàs deu alguns jogdores às equipas de futebol de São Vicente. Lembro-me dessa frase dele: dinheiro perdido, pouco perdido, coragem perdida, tudo perdida, tudo perdida. Os alunos do Ti Fefa ainda se reconhecem pela caligrafia...

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