segunda-feira, 3 de outubro de 2016

[2559] Como o comandante Daniel Duarte Silva e um sargento de manobra da Armada "escaparam" de trabalhos de guerra

NRP "Afonso de Albuquerque"
Todos conhecemos aquelas histórias do avião que cai, do barco que se afunda ou do autocarro que tem despiste fatal, em que morrem todos os passageiros excepto um ou dois que por isto ou por aquilo não embarcaram à última hora e que por isso se sentem o que na verdade são: uns felizardos. 

Praia de Bote divulga aqui dois casos semelhantes, um por espaçamento no tempo, outro por escolha acertada. Ambos no entanto com o mesmo denominador comum: o aviso "Afonso de Albuquerque" afundado na Índia na última batalha naval em que Portugal participou (a operação "Mar Verde", passada no Guiné, então portuguesa, e na Guiné-Conakry é de outro tipo pois embora esta seja de facto a última grande operação naval portuguesa de combate, teve características muito diferentes).

Ver AQUI o "Afonso de Albuquerque"

Caso 1 - Alguns dos leitores do Pd'B conhecem-no, do livro de um amigo nosso. Relembramo-lo, no entanto:

(...) Tratava-se do Francisco Lima, ex-tripulante do aviso de 1.ª classe Afonso de Albuquerque, que estivera preso na União Indiana, após a invasão do Estado Português da Índia. Por um daqueles acasos da sorte que sempre protegeram o meu pai, por pouco não fora ele em lugar do camarada de armas, escapando assim à humilhação que os homens do Afonso sofreram como prisioneiros de guerra e restantes males dessa condição. Ambos haviam sido chamados ao departamento da Marinha que se ocupava dos destacamentos, onde os informaram de que havia dois lugares de mestre, destinados precisamente a eles: ou no Afonso de Albuquerque, ou na recente fragata Pero Escobar. O colega, de maior antiguidade, virou-se para o meu pai e disse-lhe: “Narciso, desculpa, até porque somos amigos, mas já que posso escolher, prefiro a Índia; sempre é mais fascinante. Vou para o Afonso!” E lá foi para a Índia, enquanto o meu pai acabou por seguir para Angola, como mestre de um dos primeiros barcos de guerra que partiram em comissão para a colónia, começado o conflito. Por seis meses ali esteve, navegando costa acima, costa abaixo, sem ter ouvido um único tiro do inimigo, e de lá voltou com algumas economias, duas sacas de vinte quilos de açúcar pilé, uma caixa de bugigangas inúteis oferecida pelo damas do Movimento Nacional Feminino e uma pequena cicatriz num cotovelo... provocada por um atropelamento em Luanda. (...)

Caso 2 - No final de Setembro de 1952, o já então capitã-de-mar-e-guerra Daniel Duarte Silva (cabo-verdiano, como sabemos) torna-se comandante do "Afonso". Não sabemos quanto tempo durou a comissão a bordo do malogrado navio, mas é possível que tenha sido pelo menos de um ou dois anos. O que significa que cerca de oito depois (com mais alguns comandantes pelo meio) foi um seu colega, o comandante Aragão, e não ele, quem esteve metido em trabalhos, foi ferido e quase ia morrendo.

Digamos então que se o "Afonso de Albuquerque" teve um final azarento houve um sargento (que depois cumpriu comissão em São Vicente) e um oficial (natural do arquipélago) que se escaparam desse suplício. Sorte, sorte!...

2 comentários:

  1. Sortudos os que escaparam.
    Fico à espera de mais alguma coisa proveniente do que foi guarda-redes do Sporting de S.Vicente, na altura Capitão dos Portos e... fundador do efémero Leão Verde.

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  2. Dois relatos interessantíssimos, Djack, que nos mostram que a vida é marcada por coincidências. Seria caso para trazer aqui os conceitos de livre-arbítrio,
    determinismo e compatibilismo (entre os dois primeiros). Mas muito simplificadamente, prefiro dizer que a vida é feita de acasos. Ou então, invocando
    Werner Heisenberg, um dos fundadores da mecânica quântica, aceitar que não é previsível o comportamento de um sistema de partículas, sendo que estas não reagem da mesma maneira em função das mesmas causas. Portanto, não é possível saber que o sargento Narciso iria ter a vida em mais perigo na Índia do que o teria em Angola, pois nesta poderia ter sofrido um acidente grave por qualquer causa imprevisível.
    Coincidência, acaso ou aleatoriedade, é o que parece comandar as nossas vidas.
    Gostei muito deste post, Djack!

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