sábado, 11 de março de 2017

[2893] SUBMARINOS À VISTA… (artigo escrito em 2006)

Emmanoel Oliveira "Monaya"
Praia de Bote resolveu juntar alguma documentação visual a este artigo de Emmanoel Oliveira e links para a biografia do comandante do U-68 da altura, Karl-Friedrich Merten (Ver AQUI) e a história do seu navio (Ver AQUI)

Estava o mundo em plena Segunda Grande Guerra e o oceano Atlântico era então dominado pelas forças do Eixo. Os submarinos germânicos não davam descanso aos navios que abasteciam o Reino Unido, eram particularmente temidos devido ao seu poder mortífero e silenciosa capacidade de destruição. A propaganda militar nazi incumbiu-se de espalhar uma imagem de terror e precisão na aniquilação do inimigo, as missões arriscadas e bem sucedidas multiplicavam-se, artigos sobre o assunto enchiam os jornais de ambos os lados da linha de fogo. O mar de Cabo Verde foi palco de algumas dessas manobras e recontros.

Na calma tarde de 27 de Setembro de 1941 a população de Tarrafal do Monte Trigo em Santo Antão foi agitada pelo súbito aparecimento de submarinos a escassos metros da praia. Eram cerca das dezasseis horas quando o primeiro submarino emergiu e não tardou que o Guarda Fiscal Rufino Lopes, acompanhado de três remadores, do sargento do pelotão ali colocado e do filho Crisanto, se aproximasse do submersível cujo único ruído que produzia era de marteladas ou batimentos como se estivesse a ser consertado.

O U-68
Ao apresentar-se na qualidade de autoridade da minúscula e mais do que pacata aldeia de Tarrafal, os homens armados com metralhadoras ligeiras no convéns da nave começaram a movimentar-se apressadamente, nisto o Guarda Fiscal achou que era prudente afastar-se e regressar à terra o mais rapidamente possível sem efectuar os procedimentos burocráticos habituais. Porém conseguiram aperceber-se que se tratavam de alemães.

Em estado de alerta, o pelotão de cerca de 45 homens do exército português, entrincheirado na praia, armado de espingardas e de uma metralhadora com tripé, não podia rechaçar o intruso, decidiram então enviar um mensageiro ao quartel do Porto Novo a quase 60 quilómetros de distância (via litoral).

Germano Delgado, rapaz nos seus dezasseis anos e mais um colega foram os escolhidos para a missão. Saíram da aldeia às dezoito horas, caminharam sem parar, sem descanso, rasgaram vales, montes e bocas de ribeiras para poderem entregar a importante missiva às seis da manhã do dia seguinte. Foi assim que Mindelo pode receber a informação e enviar um vaso de guerra para averiguar e intervir em caso de necessidade.

Durante a noite os submarinos desapareceram, no dia seguinte tudo voltou à normalidade. A criançada ajudava no transporte de munições para a trincheira incitando os soldados a dispararem as armas. Todos queriam ouvir nem que fosse um tiro só, o que não aconteceu. No pelotão ali colocado havia um sargento e um furriel, os restantes eram soldados, todos mondrongos, hospedados nas casas da família Ferro, na ocasião proprietária de toda a localidade.

Uns dizem que eram dois os submarinos, outros lembram-se de um único. Na verdade os relatórios militares revelam que eram quatro, sendo três alemães e um inglês.

Os germânicos precisavam encontrar-se numa baía calma e segura para trocarem de víveres e armamento entre si, para além de assistir um dos tripulantes que precisava de cuidados médicos com urgência. Foi assim que o U-111 e o U-68 ancoraram lado a lado na tarde de 27 de Setembro, há sessenta e cinco anos, a menos de 200 metros da praia. O barulho que se ouvia vinha das manobras de transbordo de quatro torpedos, enquanto os comandos dos dois submersíveis jantavam juntos, descontraidamente.

O HMS "Clyde"
O que os alemães ignoravam era que a combinação do encontro via rádio tinha sido captada e decifrada pelos ingleses, apesar da complexa e enigmática técnica de comunicação dos germânicos. Quando, por volta da meia-noite, por precaução, o U-111 e o U-68, resolveram afastar-se para o mar alto a aguardar o U-67 (o terceiro submarino), aparecem os ingleses no "Clyde" (submarino da classe River). Começaram então a troca de disparos de torpedos e muitas manobras de combate entre todos os submarinos presentes. É nesse preciso momento que chega o último submarino alemão, o U-67. Confundido com tantos sinais ou sombras no seu sonar, sem saber muito bem como proceder, não conseguiu evitar um violento embate contra o submarino inglês, ficou bastante danificado mas conseguiu afastar-se sem se afundar.

A tripulação do U-67 ouviu duas fortes explosões dentro da baía, deduziu que um dos submarinos foi atingido ou mesmo ambos tinham sido afundados. Uma outra versão insiste que as detonações deram-se em terra. Naquela noite porém ninguém no Tarrafal deu conta desse confronto bélico nem das explosões, a aldeia dormia como nos dias de hoje ainda dorme, calma e serena, na paz de Deus.

A rendição do U-111
Os submarinos dispersaram-se, cada um à procura de segurança no vasto oceano Atlântico. Finalmente, restabelecidos do susto, o U-67 conseguiu alcançar uma doca nazi na França após transferência de alguns torpedos para o U-68 na costa da Mauritânia, este depois seguiu para o Atlântico-Sul e continuar a sua missão. O U-111 dirigiu-se às proximidades das Canárias onde tinha por tarefa atacar comboios de navios que abasteciam os aliados. Devido a problemas mecânicos, foi subjugado e a tripulação presa por um rebocador civil armado apenas de uma metralhadora de 20mm. 

Do "Clyde" não temos noticias, perdemos-lhe o rasto.

Emanuel C. D’Oliveira


O Sr Germano António Delgado “o mensageiro”, hoje com 87 de idade, conta as peripécias do dia 27 de Setembro de 1941.

O Sr Crisanto Lopes tinha 12 anos quando se aproximou dos submarinos, acompanhando o pai em missão de serviço.

2 comentários:

  1. Mas que história maravilhosa e bem contada! Já conhecia alguma coisa deste episódio mas não com este pormenor descritivo e identificação dos elementos envolvidos. Contribuo com esta informaçãozinha adicional: o pelotão de atiradores que estava no Tarrafal do Monte Trigo seria de uma das duas companhias de atiradores do Batalhão de Infantaria 15, cujo comando estava no Porto Novo. O Batalhão estava instalado em Santo Antão com: Companhia de Comando e Trem; 1ª Companhia de Atiradores; 2ª Companhia de Atiradores; Companhia de Acompanhamento (de armas pesadas). Refira-se que a 3ª Companhia deste batalhão ficou destacada em S. Vicente. E aquela metralhadora aqui referida poderia ser: ou uma Dreyse, se fosse a arma orgânica do pelotão, neste caso uma metralhadora ligeira; ou uma Breda, que é uma metralhadora pesada, que neste caso teria sido dada de reforço pela Companhia de Acompanhamento.

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  2. Emmanuel C D'Oliveira - Monaya27 de maio de 2017 às 09:21

    Agradeço as ilustraçoes e os links sugeridos. O artigo ficou muito mais rico. Não conhecia as imagens, felizmente que coincidem com o texto, sobretudo o aprisionamento do U-111.Bom trabalho de equipa. A melhor parte deste artigo, para mim, foi conhecer e passar a ser amigo das pessoas que estiveram directamente envolvidas de uma forma ou de outra.

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