sábado, 3 de junho de 2017

[2993] Primeiro dos dois anunciados textos de Arsénio de Pina

Conseguido um curto espaço de sossego nas nossas actividades, resolvemos publicar o primeiro de dois prometidos textos de Arsénio de Pina. Ele aqui vai... "incomodamente".

ALGUMAS VERDADES INCÓMODAS

Arsénio de Pina
As verdades incómodas a certos políticos, a mamadores do úbere governamental e a poucos inocentes são o que geralmente se apelida de politicamente incorrecto. Como fazer política é, acima de tudo, mudar a realidade, vou apresentar algumas dessas verdades a políticos consequentes e a inocentes que o queiram fazer.

A expressão cabo-verdianidade pode cheirar a racismo e nacionalismo chauvinista, ou levar a isso, como aconteceu na Costa do Marfim após o falecimento do H. Boigny com o seu sucessor. Talvez seja mais recomendável a expressão Cabo Verde cultural, no sentido lato de cultura, que implica educação, sociologia, política, economia e relação com o outro.

Reduzir Cabo Verde ao crioulo significa confiná-lo ao mutismo, mormente agora quando o português já é língua internacional utilizada na ONU.

O direito à diferença não se encontra consignado em nenhuma constituição, provavelmente porque o outro, isto é, a alteridade, permanece uma abstracção na maioria do espírito de constituições. Esta falha é tanto mais grave quando se observa também na religião, como acontece no Islão.

O monismo de opinião na sociedade não se limita a ser unicamente uma simples servidão política, mas igualmente servidão cultural, económica e social. Subjuga o homem e prolonga a dependência.

À noção de Nação que existia entre nós, em Cabo Verde, de longa data, como escrevi algumas vezes, veio enxertar-se a de Estado aquando da independência, mas subordinada ao Partido, identificando Nação e Estado com Partido. Se estivesses com o Partido, eras cidadão; caso contrário, estavas sujeito à nulidade ou à perseguição. Esta é a prática, aliás, a política do partido único, a que vivemos no chamado Estado Novo e após a independência, mesmo quando chegámos à pluralidade partidária, embora em menor grau, por o vício ter costas largas e nunca termos cultivado a prática da liberdade.

Os militantes partidários políticos são, na sua maioria, formatados às ideias dos líderes.

O diálogo que existiu entre o logos grego e os pensadores muçulmanos, diálogo sobre a metafísica, desde Averróis e Avicena e entre outros sábios da época, deixou de produzir frutos devido ao fundamentalismo religioso e à instrumentalização política e social do Islão.

O equívoco da globalização, que levou à anulação das soberanias nacionais e da regulamentação económica e financeira, apostou na liberalização de tudo (bens, capital, etc.), havendo aumento de tutela do financismo sobre a vontade do poder. Quanto ao prometido crescimento económico, aconteceu o contrário. Só cresceu a disparidade entre os excessivamente ricos e os imensamente pobres e miseráveis. O que hoje se globaliza é precisamente a forma capitalista de exploração.

O que é preocupante no mundo actual é a falta de sentido de serviço público, aquilo a que os ingleses chamam de civil service spirit. O sentido do serviço público, e não apenas funcionar ou gerir o que é público. O que é público é, vezes sem conta, interpretado como um património sem dono e não como um património colectivo, que realmente é. Por outro lado, não haver uma condenação sistemática da corrupção por parte dos colegas dentro de uma instituição, permite que estas práticas e condutas se tornam um modus operandi.

A organização em holding, quer dizer, a possibilidade de um grupo ter um banco a cuja direcção possa confiar as operações financeiras, tem precisamente por objectivo tornar mais fácil a entrada em pleno nas finanças globalizadas.

É preciso chamar as coisas pelos seus nomes como fez, corajosamente, a deputada do PS, Isabel Moreira, no Parlamento Português, despindo o regime angolano: a corrupção que goza da subserviência de quem beneficia da sua característica real, o dinheiro.

Uma das armas mais eficazes da comunicação social subserviente é a maior parte das telenovelas que adormecem a consciência popular e provocam uma verdadeira viciação. São o ópio do povo do mundo de hoje.

O milagre é como um golpe de Estado dado por Deus contra as suas próprias leis.

O abstencionismo que se observa nas eleições é quase sempre provocado por aversão à propaganda. A informação verídica é uma das melhores armas contra a violação psíquica das manipulações.

Quando a política se esvazia da sua dimensão ética e das regras básicas da lealdade humana, estaremos a legitimar o oportunismo, o cinismo e a duplicidade de comportamentos.

Veja-se como foram transformados os nossos tribunais, para deleite dos advogados de negócios e interesses, desespero dos lesados e alegria dos culpados!

A moda é a procura de um novo ridículo. É só ver os jovens com as calças descaídas no traseiro e os fundilhos ao nível dos joelhos para se verem as cuecas, as jovens com jeans rasgados nos joelhos e coxas, e já vi com rachas no traseiro (nos EUA), o que promete rachas também à frente. De ridículo, a moda passou a ser pornográfica. Não obstante os jovens actuais serem mais bem formados do que outrora, nalguns a extensão da ignorância é abissal. Há quem pense que o Levítico é um grupo rock.

Por ora ficamos por aqui, dito de outro jeito, é quanto basta para irritar alguns e agradar àqueles que em Cabo Verde se esforçam por cultivar a sua inteligência, como diria o nosso Mestre Aurélio Gonçalves.

Parede, Dezembro de 2016

6 comentários:

  1. Interessante artigo do Arsenio que tira sempre um coelho da cartola. Aqui alguma dá senso a algumas palavras do léxico posmoderno desmontando assim a realidade da nossa civilização global

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  2. Nem é preciso lançar encômios ao autor sobejamente conhecido pelo que escreve ultrapassando a sua especialidade. Não me lembro ter ligo aqui (peço desculpa mas a idade começa a meter-se) notas de como livrar-se do dores hemorridais, da insónia ou desarranjos causados pelos nervos "à fleur de peau". Dr. Arsénio tem sido doutor também na política, na agricultura e... tanta coisa mais, penso, "desafiando" os compatriotas a debates construtivos. Mas, como disse em outro lugar "ninguém quer ler e todos se debruçam nos samartefones" e acrescento quando não estão nos cacos e bafas ou festejando as vitórias do Benfica com mais ardor ainda do que os adeptos em Portugal. Enquanto isso, os turistas nigerianos entram e não saem, desenvolvem-se e contribuem para que a população nacional se modifique em tudo, que outros mais se enriqueçam vendendo óculos de sol e relógios como esses produtos fossem quartas de milho ou toneladas de arroz (jà nem falo em trabalhos especializados).

    Desculpem. Tenho de parar o comentário.

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    Respostas
    1. Quando da independência diziam "nôs terra ê d'nossa" mas agora não fazem o suficiente para a guardar "nossa

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    2. Mais precisamente, diziam "nosse terra ê pa nosse pove", Val. Como se estivesse iminente a captura dos nossos poços de petróleo e das nossas minas de ouro e diamante.

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  3. Um bom cardápio de significados e conceitos nos deixa aqui o Arsénio.

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  4. Obrigado Dr Arsénio Pina

    Hoje aprendi muito consigo... venham mais lições "Incomodas" ... com as "comadas" não vamos lá!

    Saúde e felicidades

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