sábado, 26 de maio de 2018

[3777] Um conto quase cabo-verdiano

O bibliófilo
Por Jaime Santos

O acervo do bibliófilo incidia sobretudo em materiais escritos relacionados com um arquipélago da África Ocidental. Vivera numa das ilhas alguns anos e após o regresso à Europa começara a interessar-se pela história e cultura desse território, adquirindo obras que com ele se relacionassem, de literatura e poesia, bem como publicações de toda a ordem, nas áreas da história, sociologia, antropologia, agricultura, engenharia, arquitectura, artes, música, ciência e outras, em livro, periódicos e documentação variada. De modo que, cobrindo toda uma parede da sua extensa biblioteca havia uma estante dividida em seis módulos, apenas dedicada àquele interesse principal. Ali se podia encontrar mais de meio milhar de exemplares, muitos deles primeiras edições – em substancial parte, autografados –, que fora adquirindo por compra em alfarrabistas ou como oferta dos autores ou de amigos que lhe conheciam o particular gosto e a quem dizia recorrentemente que no fim da existência gostaria de ser sepultado numa das ilhas do arquipélago cuja literatura armazenava em casa com tanto carinho.

Acontece que a estante era alta e à medida que o bibliófilo foi entrando em idade se tornou mais difícil empoleirar-se (isto é, equilibrar-se) no banco de pequeno tampo que até aí utilizava para chegar aos livros depositados a maior altura, pelo que adquiriu uma escada de biblioteca, com rodas e seguros largos degraus. Ora, uma tarde, estava ele a meio da mesma, com vários volumes nas mãos, deu-lhe uma tontura. Na eminência de desmaiar, largou-os e agarrou-se à estante que com o seu peso e por não estar presa à parede desabou, arrastando-o e à escada.

Sepultado sob mais de duas centenas de livros, cumpria-se afinal o seu desejo, tanto mais que um dos que encimavam o cone literário que o cobria quando o encontraram se intitulava "Viver e morrer nas ilhas bem-aventuradas".


8 comentários:

  1. Respostas
    1. Não sei quem é o Santal, mas agradeço-lhe vivamente a simpatia do comentário, em nome do meu também grande amigo Jaime Santos que vive aqui em casa, desde sempre.

      Braça com contos,
      Djack

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  2. Bem, creio que isto não é conto nenhum, embora haja aqui margem para cada leitor dar largas à imaginação. Depois de pousar a densa poeira dos livros, é só olhar atentamente para o rosto do bibliófilo, tocar-lhe as feições, reconhecer-lhe o olhar vivo e mofino, ouvir-lhe o riso franco. E quem anda anos a fio a visitar este blogue dirá: não, Jaime Santos, não suba para essa escada sem lhe travar bem as rodas, não vá o nosso Djack desequilibrar-se e cair. Ah, e é preciso ir à IKEA trocar estas estantes por aquelas que têm suportes para fixação à parede. Eh pá, outra coisa também importante, tem de se ver se o Djack não descura a toma diária da aspirina 100. Não é que ele esteja doente mas nada como prevenir, não vá um dia destes ter uma daquelas tonturazinhas que acontecem a todos, sobretudo os que passam horas contínuas a ler e a escrever. E depois, e depois… é muito cedo ainda, Jaime santos, o Djack é um rapaz novo ainda e o ″dezoito oito oito″ que aguarde porque há muita biblioteca e arquivo à espera do Jaime, erro, do Djack. Até porque neste momento o Djosa de nha Bia é a verdadeira prioridade para o ″dezoito oito oito″, porque o gajo pode ter um grande arcaboiço para o grogue mas já ultrapassou todos os limites.

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    1. Mas qual Djack, qual carapuça, o Jaime Santos não escreveu sobre o Djack nem sobre o Djosa de nha Bia que confunde um "A" com uma batata inglesa, o Jaime Santos escreveu isto baseado no caso verdadeiro de Nhelas de Monte Sossego, o maior bibliófilo cabo-verdiano que de facto está enterrado no "dezóite dôs ote" mesmo ao lado da Cize. E ela já protestou, diz a cada pessoa que vai colocar flores no seu túmulo que o sujeito só cheira a pó e a traça, roçando o tchêr de rót d'biblioteca municipal, que não o quer ali, que vá sepultar-se para uma ponta do sumtér, que ela só gosta de tchêr d'pó d'palc, com orquestra e tudo.

      Adriano, não levantes falsos testemunhos que senão não entras no reino dos céus e ficarás para sempre cá em baixo, no "dezóite dôs ote", sem vires a conhecer o odorífero cheiro a vapor das nuvens.

      Braça tumular,
      Djack

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  3. Vocês não me "passam pau". Estou ansioso de ir a Lisboa por muita coisa mais esta e o submarino alemão.
    Tenho de deslindar um caso importante e depois veremos isso tudo.
    Braça pe tude gente

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  4. Ah, Djack, o Val está mandatado pela Interpol para esclarecer este caso, dê por onde der. Há-de aparecer por aí munido de toda a ferramenta investigadora necessária, como certidões de nascimento contraditórias do biliófilo Jaime Santos, um exemplar do romance Capitania, letras das mornas da Cesária, relatos de submarinos alemães fundeados pela calada da noite ao largo da Praia de Bote sem que os guarda de "cuptania" os topem, relatórios da polícia do Mindelo sobre as bebedeiras do Djosa de nha Bia, textos de conferências do historiador Joaquim Saial proferidas em Vila Viçosa e Almada, um livro da escola primária de 1911 encontrado no espólio do antigo professor particular nhô Manim, uma queixa escrita e ainda guardada nos arquivos pelo antigo "pliça" Pistola em Punho, um diagrama de estante metálica de biblioteca encontrado atrás da antiga Escola de Artes e Ofícios do Cunco, uma lista de produtos de contrabando apanhada a bordo do palhabote Ildut; e nem vos passe pela cabeça o que mais leva o investigador Val, a ponto de ter requisitado uma zorra à Alfândega do Mindelo.

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    1. O investigador Val está desacreditado, desde que foi apanhado na base do passarom a jogar aos dados com o Djosa de nha Bia e o Nhelas de Monte Sossego. Foram todos postos pelo patrão-mor a limpar a Praia de Bote, desde garrafas de "Sagres" e "Super Bock" a pupu e caroce d'manga. A verdade, verdadinha é que o que o Jaime Santos escreveu é a pura da verdade e o bibliófe está morto, mais morto que o "Fiel Defunto" do Germano.

      Braça c'tchêr de 18-(2)-8
      Djack

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    2. Aí é que estás enganado, Djack. Uma fila de "mnininhas" de mini-saia e calções curtinhos passava pela rua da Praia (de Bote, claro) quando viu o bibliófilo caído no chão, sem dar sinal de si. Numa das mãos tinha o diário de bordo do comandante do navio brasileiro "Guahyba" que foi afundado na baía do Porto Grande por um submarino alemão no período da I Guerra Mundial. Tinha sido a sua última descoberta, na cave da Capitania. Vai daí, o Val, que estava, de facto, a jogar cartas descansadamente com aqueles dois marmanjos, levanta-se e sobressaltado grita: Acudam, acudam, ajudem o bibliófilo! E foi quando as "mnininhas" caíram sobre o homem a fazer-lhe respiração boca a boca, revezando-se afanosamente. O "pliça" Pistola em Punho, que já estava no local a afastar os curiosos, contaria mais tarde no seu relatório que o bibliófilo abriu logo os olhos mas fechou-os de novo quando percebeu que eram umas ninfas que estavam em cima dele a aplicar-lhe o delicioso beijo ressuscitador. O resto só o Val poderá contar melhor e com mais pormenores.

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