quinta-feira, 1 de novembro de 2012

[0274] Ainda a defesa de Cabo Verde durante a II Guerra Mundial

TROPAS EXPEDICIONÁRIAS PORTUGUESAS A CABO VERDE NO PERÍODO DA SEGUNDA GUERRA MUNDIAL

6 - A actividade militar e as suas múltiplas contingências (2.ª parte)         comente, não se limite a ler 

Adriano Miranda Lima
Na 1.ª parte da narrativa sob este subtítulo, procurou-se reconstituir o que foi a acção das forças de infantaria instaladas na ilha de S. Vicente, constituídas precisamente pelo Batalhão de Infantaria 5, pelo Batalhão de Infantaria 7 e pela 3.ª Companhia de Atiradores do Batalhão de Infantaria 15, este destacado para a ilha de Santo Antão, mas ficando aquela sua subunidade em S. Vicente.

Perguntar-se-á agora que actividade operacional terá sido desenvolvida em Santo Antão e no Sal. Em relação a estas duas ilhas, poucos testemunhos pessoais disponho que me permitam sequer um esboço de reconstituição daquela actividade, já que, como anteriormente foi referido, não me foi possível encontrar nos arquivos militares o pormenor descritivo dos planos de defesa das nossas ilhas. Mas o despacho de 12 de Agosto de 1942 do subsecretário de estado da guerra, Fernando dos Santos Costa, estabelecia o seguinte, no concernente às ilhas de Santo Antão e Sal:

"d) Para a Ilha de Santo Antão não poderão ser deslocados da Ilha de S. Vicente efectivos superiores a uma companhia de atiradores reforçada com um pelotão de metralhadoras pesadas e uma secção de morteiros de 81 mm. Visto não ser possível reunir nesta ilha efectivos que garantam a sua defesa integral em todas as circunstâncias devemos apenas contentar-nos com a vigilância do canal em frente do Porto de S. Vicente, tendo como base principal a ocupação de CARVOEIROS.
e) A guarnição da Ilha do Sal será constituída por um Regimento de Infantaria a dois batalhões e uma bateria A.A. [antiaérea] de 40 mm provisoriamente a 4 peças, mas elevada a 6 logo que o permitam as disponibilidades em material. Não sendo possível por dificuldades de reabastecimento ou de vida manter na ilha os dois batalhões do regimento deve ali ficar apenas o comando do regimento e um batalhão transferindo-se o outro batalhão para a Ilha de Santo Antão, onde permanecerá durante oito meses, recolhendo então a S. Vicente todas as tropas da guarnição desta Ilha.
Nesta hipótese o conceito de ocupação da ilha de Santo Antão deve prever a vigilância da sua zona Norte e Noroeste e a defesa a todo o custo da sua zona Sul. Em contrapartida o conceito de defesa da ilha do Sal deve modificar-se no sentido de ser apenas defendido a todo o custo o planalto da zona do aeródromo vigiando-se com elementos não superiores a um pelotão de atiradores cada um dos portos de Santa Maria e Pedra Lume."

Ora, este documento corresponde mais propriamente àquilo que se designa na esfera castrense por “directiva de planeamento”, documento que estabelece as linhas gerais de acção e a intenção do comandante, neste caso concreto, do decisor político, que por acaso era militar (major nessa altura). Porém, causa-me certa estranheza que este despacho seja datado de 12 de Agosto de 1942, quando a totalidade das forças militares, que foram embarcando fraccionadas em contingentes, já estava concentrada em Cabo Verde em Janeiro de 1942. Por outro lado, o que o documento reporta parece não condizer com o que na realidade se passou em Santo Antão no que respeita a efectivos. De facto, há testemunhos pessoais credíveis e confirmados por imagens fotográficas que o contradizem. Com efeito, embora talvez no início se destinasse também a S. Vicente, o Batalhão de Infantaria 15 acabou por ser destacado para Santo Antão (menos a sua 3.ª Companhia de Atiradores), e não somente uma companhia, como prescreve o despacho. Será que um estudo mais aprofundado da situação conduziu a uma reavaliação da decisão, com base em factores e condicionalismos que não terão sido considerados à data da formulação do despacho em causa?

Foto pertencente e autorizada pela família do capitão Paiva Nunes. (este oficial é o segundo da direita para a esquerda). Paiva Nunes escreveu nas costas da foto o seguinte: «Em Porto Novo, 5/4/942; tenente Sérgio, alferes Curto, eu, e capitão Mota Carmo (usando bigode); fotografia tirada à porta do barracão onde está o comando e o alojamento dos oficiais». (clique para ampliar)

Lembre-se que o capitão Mário de Paiva Nunes era o comandante da Companhia de Formação e Trem e o capitão Miguel da Conceição Mota Carmo o comandante da 1.ª Companhia de Atiradores. Atendendo à ordem numérica das companhias de atiradores, conclui-se que o Mota Carmo era o mais moderno (em termos de antiguidade) no posto de capitão. Lembra-se que este oficial viria a desempenhar o cargo de administrador do concelho de S. Vicente, terminada a sua missão nas forças expedicionárias.

O despacho do subsecretário de estado da Guerra já faz todo o sentido quanto às preocupações críticas a ter em conta na defesa da ilha de S. Antão, e é nessa conformidade que a Ordem de Operações n.º 1, do QG das Forças Expedicionárias (1), estabelecia a seguinte missão: “ocupar a povoação de Porto Novo, mantendo a posse da água de abastecimento e a vigilância do canal, em especial na zona correspondente ao Porto Grande de S. Vicente”. Deste modo, as forças instaladas na ilha devem ter guarnecido em primeira prioridade a sua região sul, entre o Porto Novo e Tarrafal de Monte Trigo, região que confina mais proximamente com o canal entre as duas ilhas vizinhas. No entanto, e em obediência ao despacho de Fernando dos Santos Costa, as zonas norte e noroeste da ilha, designadamente, entre Janela, Paul, Ribeira Grande, Ponta de Sol e Cruzinha, terão sido vigiadas, patrulhadas ou mesmo ocupadas descontinuamente por forças de efectivo pelotão. Há testemunhos orais que referem a presença de forças militares destacadas temporariamente nessas localidades tidas como de 2.ª prioridade. A actividade operacional terá sido em tudo idêntica à desenvolvida em S. Vicente, consistindo em organização de posições defensivas e em marchas de deslocamento em direcção às posições mais distantes, o que, tendo em conta a orografia da ilha, foram certamente difíceis e desgastantes.

O capitão Paiva Nunes e oficiais subalternos do BI 15. Observe-se o pormenor da mulher cabo-verdiana encostada à varanda do barracão e do atrelado militar atrás dos oficiais, que pode ser de água ou sanitário. Foto pertencente e autorizada pela família do capitão Paiva Nunes. (clique para ampliar)

Em relação à ilha do Sal, menos provido estou ainda de elementos sobre o seu dispositivo de defesa, mas aqui quase se poderá dizer que o despacho do subsecretário de estado da Guerra dispensará grande esforço de dedução, atendendo a que as características físicas da ilha e a sua fraca demografia àquela época não deixavam margem para uma concepção táctica muito divergente das linhas consignadas naquele documento. O único ponto crítico da ilha a justificar uma defesa a todo o custo era, sem dúvida, a zona do aeroporto (ou aeródromo). Calcule-se o quão difícil terá sido a vida das tropas face à secura extrema da ilha, à falta de água e à escassez de habitantes e, concomitantemente, de recursos locais. É possível que os militares do Sal tenham sofrido em maior escala as agruras da sede e de uma alimentação possivelmente escassa. Não é por acaso que se registou uma elevada taxa  de morbimortalidade entre os militares. Não disponho de elementos que confirmem a rotação das forças dos dois batalhões, mas a intenção expressa nesse sentido pelo subsecretário de estado da Guerra demonstra a preocupação da hierarquia superior com as más condições de vida então existentes na ilha.

Pergunta-se agora, e quanto ao papel da artilharia? Sendo óbvia a missão que competia às duas baterias de artilharia antiaérea de Monte Sossego (equipadas com peças de 94 mm e 4 mm), olhemos agora para as duas baterias de artilharia de costa instaladas, respectivamente, no Morro Branco e em João Ribeiro. Um projecto de Plano de Defesa do Porto Grande de S. Vicente elaborado em 1939 (1) incluía a seguinte análise: “Se examinarmos o Porto Grande, vemos que qualquer navio para o alcançar terá de entrar e caminhar por qualquer dos canais formados pela ilha de São Vicente com a de Santo Antão. O Porto Grande poderá começar a ser batido pela artilharia de qualquer vaso de guerra, antes de instalar baterias de costa que forcem esse vaso a manter-se a uma distância tal que a sua artilharia não possa alcançar o objectivo, ou a impedi-lo de forçar os canais e vir a atacar directamente o Porto”. Este estudo foi feito antes da decisão de incorporar na força expedicionária duas baterias de costa, pelo que só por uma questão de curiosidade histórica ele é aqui referido. Quanto aos “dois” canais entre as duas ilhas, depreende-se que o autor se queria referir à cada uma das suas entradas, designadamente, a nordeste e a sudoeste.

Fosse como fosse, o problema da defesa do porto viria a ser resolvido com a instalação das duas citadas baterias. O general reformado Arménio Nuno Ramires Oliveira, que, no posto de major foi chefe de estado-maior do Comando Territorial Independente de Cabo Verde, prestou-me a seguinte informação: as 3 peças da bateria de Monte Cara foram retiradas de uma fragata inglesa e eram de calibre 120 mm; as da bateria de João Ribeiro foram retiradas do couraçado português Vasco da Gama, adquirido em 1876, remodelado em 1901 e abatido ao efectivo em 1936. Aquele oficial general já não se recorda do calibre dessas peças, mas, por consulta através da net (www.areamilitar.net), e considerando o calibre do armamento daquele couraçado (2 peças de 203mm, 1 de 152mm, 1 de 75mm e 8 de 47mm), crê-se que em João Ribeiro estiveram (e actualmente estão os restos) peças daqueles diferentes calibres, sabendo-se, como nos mostram algumas fotos, que o material é ali diversificado.

Refira-se que a escolha das posições para essas duas baterias de costa não podia ter sido mais judiciosa, pois foram instaladas em locais opostos da entrada da baía, permitindo assim a execução do chamado “tiro flanqueado” contra meios navais que atacassem o porto. Resta saber qual seria a sua capacidade relativa face ao poder de fogo dos meios navais invasores. Em todo o caso, os nossos meios nunca seriam suficientes para resistir a um invasor bem apetrechado, sendo certo que a capacidade dessa artilharia de costa era, no seu conjunto, inferior em calibre e em número à de qualquer couraçado ou cruzador alemão que incorporasse o ataque ao porto. Repare-se no armamento e possibilidades de qualquer dos seguintes vasos alemães da época:

Couraçado "Tirpitz": armamento principal: 8 canhões de 380 mm/L45 (4 torres duplas); armamento secundário: 12 canhões de 150 mm/L55 (6 torres duplas); armamento Antiaéreo: 16 canhões de 105 mm/L65 (8 torres duplas), 16 de 37 mm/L83 (8 montagens duplas) e 18 simples de 20 mm; meios aéreos: 4 hidroaviões Arado Ar 196; tripulação: 2300 homens. (clique para ampliar)

Cruzador de batalha "Scharnhorst": armamento principal: 9 peças de 280 mm; 12 peças de 150 mm; armamento antiaéreo: 14 peças de 105mm; 38 peças de 20mm; outro armamento: 6 tubos lança-torpedos de 533 mm; meios aéreos: 4 hidroaviões Arado; tripulação: 1968 homens. (clique para ampliar)

Assim, tem de se reconhecer que, de facto, as forças de defesa de Cabo Verde não teriam capacidade para resistir por muito tempo a forças alemãs (ou outras) que quisessem invadir as ilhas com o apoio de vasos de guerra e, eventualmente, de meios aéreos instalados em Dakar (este território e outras colónias francesas da África Ocidental ficaram à disposição da Alemanha depois da capitulação da França). Contudo, num cenário desses, os aliados não iriam certamente ficar impávidos e serenos, porque o interesse era também deles, não obstante a neutralidade de Portugal.


Não é possível dizer se a actividade reportada nestas duas fotos em cima (colhidas no blogue Luís Graça & Camaradas) é um exercício de fogos reais ou uma demonstração de fogos reais das baterias antiaéreas de Monte Sossego. A ser exercício, a guarnição teria de estar, em princípio, equipada para o combate, o que não parece ser o caso. Assim, presumo que se trata de uma demonstração de fogos reais ou apenas uma apresentação do material aos oficiais trajando farda branca, que podem estar de visita às baterias de Monte Sossego. Dado que os oficiais do exército também usavam a farda branca nas colónias, não é possível dizer se os presentes são do exército ou da marinha de guerra. Mas se é um francalete o que o oficial mais à direita da segunda foto tem a segurar o boné, então é possível que sejam da marinha de guerra, pelo menos, em parte. Terá sido a guarnição de um navio de guerra que foi visitar a tropa de Monte Sossego? (clique para ampliar)

Aspecto actual e parcial do que foi a bateria de costa de João Ribeiro. A peça pequena em posição mais adiantada pertencia, segundo o general Ramires Oliveira, a uma bataria de salva de ordenança do Porto Grande. Eram duas e salvavam a todos os navios de guerra, nacionais e estrangeiros, que demandavam o porto. Foto publicada no blogue Luís Graça & Camaradas. (clique para ampliar)

Restos das duas baterias de Monte do Sossego. Foto publicada no blogue Luís Graça & Camaradas. (clique para ampliar)

Exercício de tiro antiaéreo com metralhadora pesada Breda no aquartelamento do BI 5 em Lazareto. Foto publicada no blogue Luís Graça &Camaradas. (clique para ampliar)

Resta acrescentar que “a missão das forças militares baseou-se na previsão de que a acção de um possível inimigo fosse inicialmente exercida por meios navais e aéreos, seguida de uma ou mais tentativas de desembarque de forças terrestres. A preparação para o combate das forças passava pelas seguintes atitudes:

─ Estado de Vigilância: todas as unidades mantinham nos quartéis os quadros necessários para poderem marchar uma hora depois de receber aviso, devendo cada batalhão ter uma companhia pronta no prazo de meia hora;
─  Estado de Alerta: observação e vigilância intensificadas, unidades nas posições de alerta duas horas depois do aviso, defesa antiaérea em posições de combate, controle da circulação nas estradas, condicionando o movimento de civis, e extinção de luzes nos pontos sensíveis;
─  Estado de Alarme: observação e vigilância em actividade plena, dispositivo de defesa instalado, circulação nas estradas reservada à actividade militar, transportes concentrados e abrigados nas posições de espera e extinção total de luzes (3).

Foi nestes termos que as forças expedicionárias realizaram, em princípio e como é habitual, exercícios e manobras de defesa a vários níveis. Poderiam os exercícios ser de âmbito local (ilha) mas no caso de manobras militares é natural que fossem em conjunto com todas as forças destacadas no arquipélago, numa simultaneidade de acções integradas que testariam a sua capacidade de resposta perante várias e prováveis hipóteses de invasão e ocupação do território.

Tomar, 27 de Outubro de 2012
Adriano Miranda Lima

(1) História do Exército Português (1910-1945), p. 453.
(2) Arquivo Histórico Militar – FO/029/10/365/236.
(3) História do Exército Português (1910-1945), p. 451.

Continua...

3 comentários:

  1. Estou a comentar mais para certificar se a minha dificuldade em inserir comentários (como vinha acontecendo há uns dias no meu computador pessoal e no da minha filha) é por causa do aparelho ou outra razão. A conclusão será tirada depois de eu accionar a janela "publicar". É claro que se a coisa falhar, como vem acontecendo, os leitores não saberão desta tentativa.
    No mais, espero que apareçam pessoas que possam dar algum testemunho útil no sentido de confirmar os factos relatados ou até acrescentar factos importantes. As pessoas daquele tempo já rareiam, mas é natural que haja descendentes´que tenham capturado e guardado certos relatos.

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  2. Afinal era do computador do AML, comprado na Loja do Sol Nascente do Sr Fung Li Chong Feng, no Mindelo. Felizmente, após o arranjo do mesmo em nabantina oficina, o problema parece ultrapassado. Ufaaaaaaaaaa, que alívio, já estava a ver que tinha de dar com um martelo aqui no meu portátil.

    Quanto aos comentários, o administrador do PRAIA DE BOTE espera o mesmo. Aliás, a maior parte do divertimento desta coisa é a do convívio e da partilha de conhecimentos... sempre com o Mindelo na mira.

    Braça comentada,
    Djack

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  3. Quando cheguei a S.Vicente, em 1943, era um miudo deslumbrado com coisas novas, gentes de outra raça, uma lingua desconhecida, montes nús, e só me recordo que, na nossa sala de jantar, à Rua Senador Vera-Cuz, se reuniam, todas as noites,depois do jantgar, o capelão do exército, dois sargentos e o meu pai, em animados jogos de sueca que à meia-noite eram interrompidos para ouvir o noticiário da BBC, na voz dee Fernando Pessa.Os avanços de recúos das forças emconfronto eram, depois, passados para o mapa da Europa pendurado na parece, em linhas azuis para os aliados e vermelhas para os alemães...Não me recordo que o estado de guerra me tenha provocado especial emoção, assim como também não estranhei que houvesse tanta tropa pois...havia guerra! Mas lembro-me de a minha se queixar da escassez de frescos no Mercado pois, dizia ela, os tropas compravam tudo oferecendo mais dinheiro às vendedeiras...Mas, por outro lado, tambem se ganhava alguma coisa com a situação, pois alguns militares com quem meu pai acabou por fazer amizade, às vezes traziam umas "prendas" muito apreciadas como um pouco de bacalhau, um garrafãozinho de vinho com umas engraçadas protecções de gesso por cima da rolha e do gargalo, um litrinho de azeite virgem, ou um naco de queijo curado...Eram uns tempos giros!

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