quinta-feira, 22 de novembro de 2012

[0277] As tropas portuguesas em Cabo Verde durante a II Guerra Mundial

TROPAS EXPEDICIONÁRIAS PORTUGUESAS A CABO VERDE NO PERÍODO DA SEGUNDA GUERRA MUNDIAL

 8 - Levaram na mochila o espírito de solidariedade  comente, não se limite a ler  

Adriano Miranda Lima
Em linguagem castrense, o termo “impedido” significa um soldado colocado, com carácter mais ou menos temporário, num serviço alheio às funções da sua especialidade militar. Ou seja, um soldado com a especialidade de atirador, apontador de morteiro, sapador, ou outra, pode ser colocado num órgão administrativo como uma messe, o rancho geral ou um qualquer depósito ou armazém, para suprir uma eventual necessidade de pessoal. Em tempos já mais recuados, os oficiais, normalmente a partir do posto de capitão, tinham um soldado “impedido” ao seu serviço pessoal. Este intróito serve apenas para dizer que até as praças do contingente expedicionário arranjaram o seu “impedido”, glosando-se aqui, claro, o significado militar do vocábulo. E quem eram esses “impedidos”? Nada mais que a miudagem que se acercava dos portões dos quartéis à procura de um pouco de alimentação. As praças precisavam de alguém que lhes levasse a roupa a uma lavadeira, que lhes desse um recado ou até que lhes engraxasse as botas.

Já nesta narrativa foi aflorado o grave problema da fome em Cabo Verde naqueles anos terríveis em que as tropas metropolitanas ali estiveram destacadas (1). Em relatos que ouvi a muitos desses ex-militares, raros são os que não conservaram para sempre na memória o triste episódio da fome que assolava o arquipélago e dizimava impiedosamente vidas humanas (cerca de 50.000 mortos entre 1943 e 1945). É por esta razão que o coração dos militares não era insensível ao espectro da fome estampado nos rostos dos rapazinhos que se abeiravam dos quartéis. Muitos reservavam um pouco da sua alimentação diária aos seus “impedidos”, quer fosse pão quer fosse comida confeccionada nos caldeiros do rancho geral. Só quem nunca sentiu a tortura da fome não imagina o valor que teria naquela altura uma simples côdea de pão ou uma tijela com uns restos de sopa. Valdemar Pereira (2), cidadão de origem cabo-verdiana, que ao tempo andava pelos 9 e 10 anos de idade, recorda-se perfeitamente desse contingente de “impedidos” dos militares expedicionários. Outros conterrâneos contam episódios que nos revelam que algumas crianças podem ter sobrevivido graças ao espírito de generosidade dos militares.

Foto de origem desconhecida. Imagem expressiva da miséria das populações rurais do interior de Santo Antão naqueles tempos de seca terrível e devastadora.

Expedicionário 1.º cabo Luís Henrique, do Batalhão de Infantaria 5. Foto reproduzida, com a devida vénia, no blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné (Meu pai, meu velho, meu camarada).

De entre muitos testemunhos, vale a pena registar aqui o do antigo expedicionário 1º cabo Luís Henrique, do Batalhão de Infantaria 5, aquartelado em Lazareto, que me foi transmitido em mail pessoal pelo seu filho Dr. Luís Graça, sociólogo, autor e editor do blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné, espaço no qual o mesmo testemunho foi reportado há alguns anos, assim como factos relevantes da vida militar do seu pai em terra cabo-verdiana. Textualmente, transcreve-se esta seguinte passagem do citado mail: “O meu pai lembra-se da epidemia de fome que assolou as ilhas, no tempo em que lá esteve (1941/43). O seu “impedido”, o Joãozinho, que ele alimentava com as suas próprias sobras do rancho, também ele morreu, de fome e doença, em meados de 1943. Comove-se ao dizer que deu à família do miúdo todo o dinheiro que tinha em seu poder (cerca de 16$00), para ajudá-la nas despesas do funeral”. Luís Graça explicou que o seu pai estava na altura hospitalizado mas que acompanhou o triste episódio da morte do seu “impedido”, que nunca mais se lhe deliu na memória. O senhor Luís Henrique faleceu aos 92 anos em 8 de Abril de 2012. Rendo-lhe aqui uma justa e sentida homenagem póstuma, que, estou seguro, é partilhada por todos os cabo-verdianos que são gratos àqueles que, por qualquer forma, foram solidários para com a nossa gente num momento de verdadeira tragédia humana. Não há exemplo mais tocante e mais grandioso do que o daquele que dá o pouco que tem para mitigar a fome e o sofrimento do seu semelhante. Foi o caso do senhor Luís Henrique e de muitas praças dos contingentes militares expedicionários.

Vista da cidade do Mindelo e Porto Grande obtida em 1943. Foto de origem desconhecida mas que parece ser da Foto Melo ou do José Vitória.

Mas se importa, e muito, a exemplaridade do gesto individual, ganham especial relevância acções de expressão mais colectiva, tanto mais quando se dispensam do selo da formalidade institucional. Em narrativas anteriores, referi a importância particular que para mim reveste o Batalhão de Infantaria 15, nomeadamente a sua 3.ª Companhia de Atiradores, a que ficou em S. Vicente enquanto o grosso do Batalhão foi destacado para a ilha vizinha. Vamos ver o porquê desse meu sentimento. Essa companhia, sob o comando do capitão Fernando de Magalhães Abreu Marques e Oliveira, ficou aquartelada no centro do Mindelo, em instalações situadas na rua Senador Vera Cruz que pertenciam à Sociedade Luso-Africana. Tive ocasião de participar, em um ou outro convívio anual dos antigos expedicionários do Batalhão de Infantaria 15, o último dos quais foi em 1996. Por tudo o que lhes ouvi, posso afirmar que aquele capitão era venerado pelos seus antigos subordinados, que o recordavam pela sua competência profissional e pelo espírito humanitário oculto atrás do seu ar sóbrio e grave.

E então recordam que naqueles tempos difíceis, em que grassava a fome em Cabo Verde, vitimando muita gente entre a população, o capitão Oliveira assistia à distância a presença das pessoas que se aglomeravam à entrada do improvisado aquartelamento para receber alguma sobra de rancho. Um dia, o graduado de serviço diário tomou uma certa atitude de contenção receando que, por uma questão de segurança militar, o comandante de companhia proibisse aquele amontoado de pessoas mesmo em cima das instalações militares. Mas o capitão reagiu assim: “Não, deixem-nos estar, dêem-lhes todas as sobras que houver…”. Isto foi-me contado pelo então furriel miliciano encarregado do rancho geral, Herman Mendes Shultz Guimarães, que haveria de prosseguir a carreira militar chegando ao posto de capitão do serviço geral do exército. Condoído com aquela dramática situação, o capitão Oliveira ordenou ainda a montagem de um mais organizado serviço de distribuição de sobras de rancho, autorizando que aqueles pobres civis entrassem mesmo para dentro da área militar. À certa altura, reparando que o número de necessitados crescia a olhos vistos, disse ao furriel que tinham de arranjar um processo de maximizar as sobras de alimentação de forma a responder melhor àquela situação. Perante as dúvidas do subordinado, explicou-lhe que era preciso recorrer a todas as situações administrativas e meios possíveis. Persistindo o subordinado nas suas dúvidas, que aliás suponho seriam legítimas, o capitão deu-lhe instruções mais precisas para se conseguir aquele desiderato, o que, lembra-se ainda o antigo furriel, deixava os níveis do depósito de géneros da companhia abaixo do que estava estabelecido. Recorda-se ainda de o seu comandante de companhia ter ido falar com o comandante do Regimento de Infantaria 23, designação da unidade que englobava os batalhões de infantaria de S. Vicente, no sentido de sugerir ao seu superior hierárquico que todas as companhias procedessem de igual forma, e dentro dos possíveis, para ajudar as pessoas carentes de alimentação. E a verdade é que o gesto humanitário do capitão Oliveira em prol dos necessitados de S. Vicente não tardou a ser seguido nas outras companhias e baterias destacadas na ilha de S. Vicente.

Foto pertencente à família do capitão Paiva Nunes e por ela cedida ao autor. Os oficiais presentes são todos capitães. Na fila de trás só posso identificar o que está no meio. Chamava-se José do Peso e Sousa Benchimol e era de origem goesa. À frente, e da esquerda para a direita, o capitão Mário de Paiva Nunes e o capitão Fernando de Magalhães Abreu Marques e Oliveira (aos 40 anos de idade), benfeitor do povo faminto do Mindelo.

O antigo expedicionário Shultz Guimarães transmitiu-me este registo visivelmente comovido com o desenterrar da sua memória. O seu comandante de companhia era realmente de uma natureza humana invulgar, um homem de grande nobreza de carácter e alta estatura moral. Faleceu de morte súbita em 1975, aos 72 anos de idade, já general reformado, tendo tido como último cargo o de Comandante Geral da Polícia de Segurança Pública. Não foi por acaso que o seu funeral, realizado em Tomar, de onde era natural, foi acompanhado por um infindável número de antigos subordinados. Durante os anos que se seguiram, o aniversário do seu falecimento era sempre assinalado pela presença no cemitério de Tomar de um número elevado de militares e polícias, seus antigos subordinados, vindos de vários pontos do país. De igual modo, os veteranos do ex-3.ª Companhia de Atiradores aproveitavam a ocasião do seu convívio anual para cumprir uma romagem ao jazigo do cemitério de Tomar onde estão depositados os restos mortais do “seu capitão". Escusado é dizer que, na companhia daqueles antigos expedicionários, me incorporei algumas vezes no séquito, em preito de homenagem a um oficial de estirpe e a uma grande alma cristã, sentindo que o fazia também em nome de todos os meus conterrâneos a quem o oficial mitigou a fome com o seu espírito de compaixão e amor ao próximo. Por alguma razão, a rua em que esteve aquartelada a 3.ª Companhia de Atiradores do Batalhão de Infantaria 15 durante muito tempo ficou conhecida como “Rua Infantaria 15”. Interessará ainda referir, segundo o que ouvi aos seus antigos subordinados, que o capitão Oliveira, na altura com 40 anos de idade, foi, durante a sua missão militar em Cabo Verde, convidado para o cargo de administrador do concelho de S. Vicente mas que declinou o convite. Como o capitão Miguel da Conceição Mota Carmo, comandante da 1.ª Companhia de Atiradores do mesmo Batalhão, exerceu esse cargo, admito que o convite lhe tenha sido dirigido em segunda escolha. E o Mota Carmo, que ficou conhecido pelo seu carácter autoritário e mão de ferro, algumas vezes roçando o despotismo, como rezam alguns, fez todavia um bom trabalho durante o seu mandato.

Antigo hospital de S. Vicente, posando à frente dois oficiais, possivelmente médicos. Foto de origem desconhecida obtida em 1942.

Mas o apoio e o espírito de solidariedade das forças militares tiveram uma expressão alargada e transversal, passando por actos individuais e colectivos e por diferentes sectores das estruturas militares. Destaca-se a acção médica e medicamentosa que a população recebeu durante a permanência das tropas de uma forma sem precedentes na história colonial das ilhas, sobretudo em S. Vicente. Essa acção permitiu salvar inúmeras vidas mediante intervenções cirúrgicas e uso de meios terapêuticos que não teriam sido possíveis sem a presença dos militares. A Dr.ª Risanda dos Reis Soares, na sua tese de mestrado (3) refere um eloquente testemunho do cidadão cabo-verdiano Sr. Arnaldo Lima, contemporâneo dos factos, que a dado passo afirma: “A população mostrou-se saudosa com a saída dos militares, reconhecendo principalmente a ajuda médica e medicamentosa que lhes tinham prestado durante a sua presença na ilha”. Sobre este assunto, o próximo texto terá como tema a acção de um oficial médico que foi o grande protagonista da solidariedade humana no capítulo da assistência médica – o capitão médico José Baptista de Sousa.

(1)    “TROPAS EXPEDICIONÁRIAS PORTUGUESAS A CABO VERDE NO PERÍODO DA SEGUNDA GUERRA MUNDIAL – A Actividade Militar e o Meio Físico Envolvente”, blogue Praia de Bote.
(2)    Vice-cônsul português em Tours (França), aposentado, autor do livro “O Teatro é uma Paixão, a Vida é uma Emoção”.
(3) “SÃO VICENTE DE CABO VERDE NO PÓS-GUERRA (1945-1960) ”, p. 26.


Tomar, 17 de Novembro de 2012
Adriano Miranda Lima

5 comentários:

  1. Não era fácil abordar os temas desta crónica...O autor conseguiu-o, com inegável mérito e equidistancia quanto baste...A memória desses tempos é naturalmente dolorosa e a sua abordagem não raro se reduz à preocupação de encontrar culpados e destilar algum veneno...Adriano Lima provou que o assunto pode ser tratado com serenidade e sentido humanista para além de histórico.
    Um abraço de muita admiração.
    Azevedo

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  2. Boa escrita adriânica, boa escrita zítica!...
    Obviamente, o PRAIA DE BOTE, mesmo a meio gás, continuará a dar guarida a estas especiais "canetas", dado o interesse sanvicentino que as mesmas têm.

    Abraço expedicionário,
    Djack

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  3. Assíduo leitor deste blog, vejo com entusiasmo os artigos da autoria do Adriano relativos à Tropa Expedicionària em Cabo Verde, nomeadamente na minha ilha de S.Vicente, onde morava não muito longe do Quartel General ao fundo da Rua do Telegraph. O Alto da Companhia, ao lado também da Praça Nova, era lugar ideal para observar os vai-vens que despertavam interesse em saber do que se passava. Da conversa tida com o autor sobre esses "impedidos especiais" ou meninos mais chegados a um militar, esqueci de algo que me veio agora. A história de um orfãozinha dos seus 3 ou 4 anos recolhido por um soldado que teve a autorização de o guardar no Quartel. A criança, vestida de militar, tinha a patente de 1° cabo. Todos queriam saber o que seria do miúdo, tão pequeno, quando a tropa retirasse. Gente, não houve problema na medida que foi levada para Portugal e adoptada pelo militar. Convém dizer que a criança era "de todos os militares" que se ocupavam alternadamente dele.

    Havia de aparecer um segundo caso com um rapazinho mais velho mas dele não me lembro grande coisa. Talvez alguém da minha geração possa dizer algo sobre isso

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  4. Muito bem! Uma leitura agradavel e que, alem de trazer a baila remanescencias de um tempo passado que ainda vive na lembrança de muitos, fala da grandiosidade de sentimentos desses homens mencionados pelo Adriano. POrtanto, e sempre com muito prazer que acesso esse blog e deixo aqui os meus parabens por essa iniciativa.
    Nita Ferreira

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  5. Parabéns pelo artigo. Com esta agradável leitura, fiquei a perceber mais sobre o assunto. Fiquei apaixonado por este tema durante a minha licenciatura, o que me levou a escolhê-lo para ser o título da minha dissertaçâo de mestrado defendida em 2011, na FCSH-UNL.

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