sexta-feira, 26 de julho de 2013

[0522] Alguns documentos sobre as últimas horas da administração portuguesa em Cabo Verde

Como todos os países, Portugal tem os seus defeitos e fez grossas asneiras nos territórios que por todo o mundo colonizou. Mas em simultâneo tem grandes virtudes e nos mesmos locais também executou obra digna de orgulho nacional. Digamos que no momento da contabilidade, o que de bom realizámos se sobrepôs àquilo que não devia ter tido lugar. Prova indubitável desse facto é que na hora da partida saímos em óptimo relacionamento com as antigas colónias (para reforçar esta constatação, lembremos o que aconteceu com a França no que concerne à Argélia, com a Grã-Bretanha relativamente à Índia e por aí fora) - que se tem mantido até hoje, apesar de uma ou outra pequena fricção, sempre resolvida.

Cabo Verde é disso talvez o exemplo mais significativo de excelentes relações recíprocas e contínuas desde o dia da sua independência. Felizmente!... Inclusive, na hora da passagem do testemunho e da criação do novo país soberano, o alto-comissário português era... um homem nascido em Cabo Verde. Tratava-se do prestigiado almirante Vicente Manuel de Moura Coutinho de Almeida d'Eça VER AQUI

Ora é este oficial da Armada que avisadamente guarda alguns dos documentos relacionados com as últimas horas da transição e os doa em 2003 e 2005 ao Arquivo Nacional da Torre do Tombo, em Lisboa, onde hoje "residem". Tratados por Teresa Tremoceiro, estão divulgados na Internet no programa "A Torre do Tombo ao encontro de todos". São esses materiais que PRAIA DE BOTE agora também difunde, para melhor conhecimento dos cabo-verdianos e outros visitantes que frequentam as suas areias...

Quanto ao futuro a seguir ao 5 de Julho de 1975, aconteceu mais ou menos o mesmo que surge a seguir a todas independências, revoluções e mudanças radicais de regime ou sistema: uns sofreram injustamente, outros adaptaram-se, alguns singraram mais do que nunca haviam esperado e outros fizeram o que honestamente deviam fazer e não ganharam nada com isso. A outros ainda, tanto se lhes deu. O que interessa é que no cômputo geral o saldo foi positivo e Cabo Verde aí está, ainda jovem mas com energia e sabedoria suficientes para envaidecer o velho e agora esmorecido Portugal que lhe deu vida.

1 - Assinaturas do acordo entre o Governo português e o PAIGC em 19 de Dezembro de 1974


2 -1.ª Sessão da Assembleia Representativa do Povo de Cabo Verde


3 - Projecto de programa para as cerimónia da declaração de independência do Estado de Cabo Verde a realizar no estádio da Praia



4 - Excerto do rascunho do discurso (primeira e última de onze páginas manuscritas) do Alto-Comissário dirigido ao povo de Cabo Verde na véspera da independência (4 de Julho de 1975)



6 comentários:

  1. Todos têm obrigação de saber e, sobretudo, de sentir, que os cabo-verdianos foram criação pura dos portugueses, para o bem ou para o mal. Foram eles os primeiros a pisar o chão das nossas ilhas, que, boas ou más em dotes da natureza, é o que temos. O que se seguiu ao pisar do chão das ilhas pelos portugueses durou séculos e faz parte da história, e esta tem de ser lida e interpretada à luz dos tempos que foram sucessivamente perfazendo cada etapa e não segundo os conceitos e padrões civilizacionais da actualidade. Portugal e Cabo Verde são países amigos e com laços de irmandade (ou paternidade?) que não podem ser questionados ou menosprezados por alguns que se acham no limbo das verdades absolutas. Ainda agora, pára no jornal A Semana um texto sobre o Bana em que alguns comentaristas bem identificados quanto ao seu radicalismo mental tendem a confundir o povo português com a repressão política e a PIDE. Tão injusto e despropositado é esse entendimento que só isso revela o grau de tacanhez e de torpeza mental que ainda persiste em alguns conterrâneos. Causa dó porque isso demonstra que são pessoas que ainda não esconjuraram das suas mentes certo tipo de fantasmas. Estive em Cabo Verde no ano passado e pude presenciar a franca amizade e o espírito de cooperação que pautam as relações entre cabo-verdianos e portugueses que lá trabalham ou têm os seus negócios. Pareceu-me que se sentem como se em suas próprias terras de origem. Tanto uns como outros têm a percepção e o sentimento de que a condição humana, com o que ela tem de sublime, está acima dos regimes ou conjunturas políticas. E que o amor deve ser a principal força mobilizadora do progresso.

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    1. O meu amigo tem o condão de analizar as coisas com uma equidistância intelectual que é coisa rara nos temos em que vivemos...Numa época em que campeiam os talibanismos, conforta a alma ouvir palavras sábias e moderadoras sobre questões sensíveis e controversas, colocando-as na perspectiva correcta sob o ponto de vista histórico e humano...Tivera eu a veleidade de partilhar a sua pena e diria que me tirou as palavras da boca!
      Como português-caboverdiano daqui lhe endereço um fraterno abraço de respeito e mindelense morabeza...
      Zito

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  2. Estes dois rapazes aqui de cima disseram tudo. Eu sinto o mesmo em relação a Cabo Verde. E já contei em crónica de jornal que numa fila de aeroporto no Sal fui para a dos nacionais, esquecendo-me completamente de que ali era estrangeiro.

    "O embate da estreia, como quase sempre, é o do aeroporto. Este, dito de Amílcar Ca-bral, velho de meio século, ainda não conseguiu adquirir verdadeiro ar moderno, mais parecendo uma incaracterística sala de espera de gare de autocarros. Talvez em breve isto mude, pois decorrem vultuosas obras, com o concurso da cooperação portuguesa, que o irão tornar mais funcional, de modo a servir com eficácia o já elevado fluxo de passageiros que o demandam. Reparo, contudo, na limpeza exemplar dos espaços e na amabilidade do pessoal de terra. Um lapso, que se deve ao facto de me sentir tão próximo deste povo, leva-me para a fila dos nacionais e não para a dos estrangeiros, quando se trata de mostrar a documentação."

    Quanto ao resto, é parvoíce pura. Os cabo-verdianos também têm os seus parvos, como todos os países, Portugal incluído. E esses parvos ainda não conseguiram fazer a transição da infância para a idade adulta (mesmo alguns que nasceram após a independência). Ou seja, sairam de casa mas ainda têm medo irracional de que o pai lhes possa dar um sopapo. Só que esse pai, curiosamente, nunca foi muito de bater... foi mais de se ausentar. Sobretudo no caso das ilhas de morabeza. Ah! E os ditos cujos (parvo, "parvus" em latim traduz-se por "pequeno, insignificante") são tão poucos, tão poucos que não dariam lucro a um infantário - que só com eles iria à falência.

    Braça com amizade, companheirismo e colaboração entre gente de bem de duas nações independentes e soberanas (embora a deste lado algo entroikada),
    Djack

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  3. Por outro lado, o que mais interessa neste post são os importantes documentos preservados para a posteridade por um luso-cabo-verdiano avisado.

    Todos os países independentes devem conservar carinhosamente as provas dessa sua condição. Portugal, à falta de documentação do Tratado de Zamora (1143) que alguns até dizem que não passou de mera reunião após o acordo extraído do recontro de Arcos de Valdevez, tem no mesmo arquivo onde estão estes documentos relacionados com Cabo Verde a "Bula Manifestis Probatum" (23 de Maio de 1179) em que o Papa Alexandre III considerava Afonso Henriques Rei dos portugueses.

    Esse documento, já eu o vi em exposição da Torre do Tombo, bem protegido da luz e da humidade, lindíssimo pergaminho, certidão de nascimento da nação lusitana. Assim estes documentos aqui divulgados possam ser vistos por todos os cabo-verdianos que o desejarem. Para isso, o PRAIA DE BOTE dá agora o seu modesto contributo.

    Braça certificada,
    Djack

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  4. Pois esqueci-me de falar nos documentos, ou talvez não, já que o meu comentário anterior foi precisamente suscitado pelas palavras do almirante Almeida D'Eça. É que foram essas sábias palavras no momento de despedida que me suscitaram um sentimento de saudade retrospectiva porque, vivendo em Portugal e continuando português, sabia que nunca deixaria de ser filho autêntico daquelas ilhas. Eu e muitos outros na minha situação. Estou em crer que se a coisa política não tivesse toldado algumas cabeças (tanto em Portugal como em Cabo Verde) a despedida teria de ser dolorosa, como o são todas. Mas hoje regozijo-me com a quase certeza de que afinal não deve ter havido qualquer despedida, no coração dos dois povos. Ainda ontem, por convite de um amigo, fui ao estádio do Alvalade assistir a um desafio de futebol entre o Sporting e a Real Sociedade, para apresentação da equipa da primeira para esta época. Ao chegar ao estádio, o amigo, que é português, sugeriu-me que fôssemos comer uma bifana com uma cervejinha numa tasca de duas cabo-verdianas mesmo ali perto. Disse-me que vai lá sempre porque elas são muito simpáticas e a tasca serve bem, inclusive cachupa, que esse meu amigo não dispensa sempre que pode. Chegámos lá e aquilo estava repleto de sportinguistas (quero frisar que sou benfiquista), pessoas de todas as idades que me pareceram ser clientes habituais, pelo menos em dias de jogo. Elas andavam numa roda-viva, mas certamente radiantes pela numerosa clientela. Como eu já tinha jantado, fiquei pela cervejinha e o meu amigo sugeriu-me então que comesse uns torresmos que elas fazem maravilhosamente. Eu não costumo comer torresmos, mas algo me aconselhou a provar. De facto, foram uns torresmos do género que só me lembro de comer em criança. Não apenas fritadas, mas com dois condimentos (um deles piripiri) que lhes inculcavam um sabor muito especial. O ambiente era de grande movimento e animação. Foi então que percebi tanto os portugueses presentes como as cabo-verdianas (eram de Santiago) e eu próprio estávamos ambiguamente em Cabo Verde e em Portugal. É o nosso destino.
    Agradeço ao Zito as suas palavras amáveis e devo dizer que a admiração e o respeito são mútuos, pelas razões que o meu amigo referiu.

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  5. Nada a fazer. Aqui no rectângulo e nas ilhas há um monte bem grande de luso-cabo-verdianos ou cabo-verdianos-lusitanos ou luso-verdianos-cabenses ou coisa parecida... sem que isso belisque os sentimentos nacionais de cada um. Uma maravilha verdadeiramente crioula. Não esquecendo que a estes dois exemplares há a juntar africanos continentais, mouros, visigodos, ostrogodos, romanos, celtas, lusitanos, iberos, fenícios, gregos e cartagineses e um ctchada de homens do neolítico e do paleolítico. Enfim, uma grande salada é o que nós somos.

    Braça de todas as cores e cromossomas,
    Djack

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