segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

[0752] Crónicas do Norte Atlântico - O PADRE CLÁUDIO SIMÕES, UM MISSIONÁRIO ALENTEJANO ENTRE OS CABO-VERDIANOS DA AMÉRICA



Crónica de Dezembro.2013
  
O PADRE CLÁUDIO SIMÕES, UM MISSIONÁRIO ALENTEJANO ENTRE OS CABO-VERDIANOS DA AMÉRICA


O Padre Cláudio Simões
Demos com o padre alentejano (1) Cláudio Simões pela primeira vez em Agosto de 1953 (2), em Waterbury, Connecticut, quando a convite de antigos paroquianos seus da freguesia de N.ª Sr.ª da Conceição, ilha do Fogo, e enviado pelo bispo de Cabo Verde visitava a colónia cabo-verdiana dos Estados Unidos da América. Estava então alojado em casa de um Augusto Rogério, em Seymour, no mesmo estado, e encontrava-se investido de todas as ordens pelo bispo de Hartford.

No dia 5 mês seguinte, era o celebrante de uma missa na igreja de St. Francis, em Naugatuck, com desejada prática em português. Nada no entanto parecia ligar o evento a Cabo Verde, pois tratava-se de celebrar a festa de São Paio (da Torreira, Murtosa, Portugal) no Clube União Portuguesa daquela localidade americana (3). Mas dias depois, sabia-se através da imprensa de língua portuguesa que o padre, para além de mostrar no dito clube um filme sobre o encerramento do Ano Santo em Fátima, projectou outro sobre as últimas erupções do vulcão do Fogo (4).

A 10 de Outubro, por intermédio do Diário de Notícias de New Bedford, o sacerdote apelava à comparência da população de Waterbury e arredores na missa que iria oficiar a 19, pelas 15 horas, na Community House situada no 34 da Hopkins St. (5). Ali realizaria uma palestra e exibiria os mesmos filmes que mostrara em Naugatuck, perante uma audiência de 150 pessoas e o mayor da cidade, Ray Snyder (6).

Demorando-se nos Estados Unidos da América, em princípios de Dezembro o padre Simões era referenciado entre a comunidade cabo-verdiana de Newport, R.I. No Clube Social Cabo-Verdiano, situado na West Broadway, mais uma vez falou de religião e mostrou os filmes que tinha trazido consigo, desta feita também de danças populares cabo-verdianas e de fados de Portugal, para além dos habituais dedicados a N.ª Sr.ª de Fátima (7). Enquanto isso, realizava outras actividades de âmbito social, como a que teve lugar na Associação de Veteranos de Guerras Estrangeiras na Purchase St., 561, New Bedford, a favor do fundo da Bolsa Escolar em Memória dos Homens do Mar (8).

No Janeiro seguinte, o sacerdote continua a sua tarefa de mostrar entre os cabo-verdianos da América os filmes de que temos vindo a falar. Por notícia do dia 8 (9), ficamos a saber que "entre as danças regionais portuguesas, incluindo as cabo-verdianas" havia "típicas mornas". Desta feita, o local escolhido para a apresentação era o Verdean Hall  (10) de New Bedford e a ela podiam assistir todos os portugueses "sem distinção de naturalidade"…

Entretanto, o missionário ia sendo convidado para outras actividades de cariz religioso e social, como a da tomada de posse da nova direcção do clube da igreja de N.ª Sr.ª da Assunção de New Bedford presidida pelo pároco residente Edmond Francis mas à qual Cláudio Simões deu o brilhantismo da sua reconhecida capacidade oratória (11). 

Em meados de Julho, está em Providence, R.I. (12). Aí, um grupo de senhoras do Portuguese Women's Club do International Institute, em Jackson St., entregou-lhe 40 dólares, resultantes de um sarau dançante realizado no "The Farms" de Warwick destinado a obras caritativas do arquipélago de Cabo Verde. E pouco depois encontramo-lo em Valley Falls, durante as comemorações da primeira festa do Dia do Penalvense (13), no Szpila's Grove, parque da cidade. Aí, exibe uma outra faceta que completa a de conceituado orador: canta "Coimbra", "Santa Luzia", "Avé Maria" e outras canções que deixam "toda a gente profundamente sensibilizada". E é apresentado como missionário na ilha do Fogo, Cabo Verde, com "bela voz de cantor profissional".

Em Maio de 1955 o padre Simões volta a Cabo Verde, após a longa estada por terras do Tio Sam que compreendeu diversificado programa de missionação e amparo espiritual dos cabo-verdianos (e demais compatriotas) que por lá labutavam, nomeadamente nos estados de Rhode Island, Connecticut, New Jersey e Massachusetts. Assim,  no dia 1, pelas 5 horas da tarde, teve início uma festa de despedida no St. Rose's Hall  (14) de Boston. Na notícia que dela dava aviso desvendava-se um pouco do que haviam sido os interesses mais profundos daqueles tempos americanos para o sacerdote. É que ali tinha fundado a Liga de N.ª Sr.ª do Socorro, expressamente destinada a ajudar os mais necessitados de Cabo Verde. No programa da festa, para além de constarem uma sessão solene em que falariam várias pessoas amigas do homenageado, haveria exibição de filmes das ilhas de Cabo Verde e de Portugal (decerto os mesmos vistos antes), música e diversões e a indicação de uma colecta que reverteria para as obras de caridade de Cláudio Simões. Todas as associações de caritativas que haviam trabalhado com ele foram convidadas a enviar os seus representantes e conhecidas figuras locais constituíram a comissão que levou a efeito a homenagem: os advogados Roy F. Teixeira e António J. Cardoso e os senhores José S. Pina, António Aleixo e Teófilo L. Nunes. Uma despedida em grande, para o homem que dedicara quase dois anos à missionação entre as gentes de Cabo Verde na América.

Durante o mês de Maio de 1955, o Presidente da República Craveiro Lopes visitou Cabo Verde, sendo que a 24 esteve no Fogo. Antecipando esse facto, filhos da ilha do residentes nos estados de Nova Iorque, Rhode Island e Massachusetts, congregados no Portuguese-American Social Center de Boston, enviaram telegraficamente e por intermédio do padre Simões uma mensagem especial referente a esta ilha para ser apresentada durante a visita do Presidente (15). Era este o teor resumido da mesma: "Em virtude e conformidade deste mandato, em nome da Assembleia saudamos o Chefe do Estado Português, Exmo. Sr. General Craveiro Lopes, Exmo. Sr. Ministro do Ultramar, Comandante Sarmento Rodrigues (16), Exmo. Sr. Governador de Cabo Verde, Dr. Abrantes Amaral (17), Exmo. Sr. Administrador da ilha do Fogo, Sr. Luís Silva Rendall e as dignas entidades locais. E ao mesmo tempo, em nome desta Assembleia, solicitamos no sentido de originar e impulsionar o fomento desta ilha, principalmente no que toca à construção de um cais acostável adequado às necessidades de transportes modernos ou a excavação de um canal no sítio de Boqueirão, que melhor ainda serviria o povo." Prosseguia a comissão com a referência à fidelidade da ilha à mãe pátria que nem os Filipes nem Napoleão tinham conseguido dobrar e acrescentavam: "A ilha do Fogo é a terceira em área do arquipélago (18) e a segunda das mais produtoras. O seu solo é fértil, o seu clima excelente, os seus filhos são patrióticos e trabalhadores. Merece melhor tratamento!". Prosseguia a missiva com considerações semelhantes mas a exclamação anterior marcava o tom, com assinaturas de várias personalidades, entre as quais o advogado Roy Teixeira que as encabeçava e que por isso recebeu a resposta de Luís Rendall: "Suas Excelências o Presidente da República, o Ministro do Ultramar e o Governador da Província, muito apreciaram a mensagem de V. Exas., sensibilizando-os bastante a prova de patriotismo, pedindo que aceite e transmita à colónia cabo-verdiana os seus mais vivos agradecimentos, aos quais junto os meus próprios. Na sessão de boas vindas ontem realizada, Sua Ex.ª o Presidente da República teve palavras de apreço e simpatia para a mesma colónia." Em resumo, tratava-se de uma resposta diplomática e cheia… de nada. 

Entretanto, o padre Simões desaparece dos registos que temos vindo a consultar, não tendo voltado à América, segundo supomos. Acaba por se mudar para o Mindelo onde vive alguns anos e, ao que parece, foi professor na Escola Técnica. Terá ficado na memória de cabo-verdianos da América e das ilhas pelo bem que fez e sobretudo na ilha do vulcão, ali também pela autoria do chamado "Hino do Fogo" ("Ilha do Fogo, terra ditosa, / recordo agora o teu passado; / ao som da morna quero cantar / tua beleza ao sol doirado"…) – que ainda hoje os naturais cantam. 

Notas:

01. Desconhecemos a sua terra de origem, mas há referência à região de Portugal de onde era oriundo em Diário de Notícias de New Bedford, 29.07.1954, p. 3.
02. DN, 20.08.1953, p. 3. Exercia o seu ministério em Cabo Verde havia sete anos.
03. DN, 27.08.1953, p. 4.
04. DN, 03.09.1953, p. 4. As erupções tinham tido lugar em 1951.
05. DN, 10.09.1953, p. 5.
06. DN, 24.09.1953, p. 5.
07. DN, 03.12.1953, p. 3.
08. DN, 11.12.1953, p. 2. A associação ainda existe, no mesmo endereço.
09. DN, 08.01.1954, p. 6.
10. Pensamos que se tratava do ainda existente Verdean Vets Hall de que se falou atrás.
11. DN, 12.01.1954, p. 2.
12. DN, 15.07.1954, p. 3.
13. De Penalva do Castelo, distrito de Viseu, Portugal.
14. DN, 28.04.1955, p. 1. O St. Rose's Hall situava-se no 17 de Worcester St.
15. DN, 09.06.1955, p. 1.
16. Manuel Maria Sarmento Rodrigues (1899-1979), prestigiado oficial da Armada, foi ministro das Colónias em 1950 e a partir de 1951 do Ultramar, nome então adoptado para a mesma função.
17. Manuel Marques de Abrantes Amaral (Governador de Cabo Verde de 1953 a 1957).
18. O Fogo é de facto a quarta ilha em área (476 km2), depois de Santiago (991), Santo Antão (779) e Boavista (620).

10 comentários:

  1. A Diáspora na sua melhor.
    (Afinal o Djack é um irmão que migrou)
    Uma das brilhantes estórias que merecem ser compiladas e divulgadas na medida em que, já está provado, não podemos contar com os fazedores da nova História de Cabo Verde onde os factos ante-(in)dependência são sistemática e escandalosamente omitidas. Como muitas outras que sucederam nas outras ilhas (ou depois da minha saída) esta me era desconhecia. Fico feliz em saber de mais esta devoção.
    Não me canso de dizer Obrigado ao Ponta de Praia e a Mnine de Cuptania.

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  2. O saudoso Padre Simões (talvez 50-74) foi para mim uma referência e para milhares de jovens mindelenses da geração anos 70. Desde pequenito conheci-o nos Salesianos do padre Filipe Padre (onde frequentei a escola primária, mas uma escola que formou-me humanamente, espiritualmente etc), Valente, Gaspar, Cristiano etc Sr Domingos Sr Rudolfo etc, nas missas, nos cântico corais assim e actividades culturais que esta escola organizava. Padre Simões tinha uma voz que podia quebrar um copo de cristal. Meu professor de música no Liceu, homem bom, jovial, dado ao convívio com os jovens, convivia basicamente com toda a mocidade mindelense. Muito participativo na vida cultural mindelense animava festas (tocava piano num conjunto), grupos musicais e culturais diversos naquele clima são, despreocupado e ‘bom enfant’ que se vivia no Mindelo do início anos 70.
    Padre Simões desapareceu de S. Vicente em 1974 e parece
    que nunca mais voltou nem ouvi falar dele, nem se falou mais dele. Terá sido escorraçado pela arruaça e a canalhice?
    É das pessoas que merecem ser homenageada pela cidade do Mindelo, que devia ser extensiva a todos os padres e irmão salesianos pelo marco que esta instituição deixou em s. Vicente e em todo C Verde. Quem não se lembra dos padres Filipe, Valente, Cristiano dos irmãos Domingues Rudolfo e de tantos que passaram por aí. Os salesianos de S. Vicente eram e ainda são para além de uma missão católica, uma instituição de cariz social, cultural e formação. Formaram milhares de jovens nas artes e ofícios (carpintaria, serralharia, mecânica etc) na cultura e na música (tais como o Paulino Vieira).Quem não se lembra da banda infantil dos salesianos que tocava alternadamente com a banda municipal nos anos 60 aos domingos á tarde na Praça nova, onde já brilhava a criança Paulino Vieira? Nos desportos (vários jogadores iniciaram-se nos salesianos). Com os campos de futebol as salas de jogos era o sítio ideal para passar tardes noites e fim de semana em companhia da juventude sem contar com os deputados jogos de domingo de manhã. Organizavam-se regularmente os ‘passeios de mancarra’ para Baía onde passávamos o dia todo em banhos e actividades.

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  3. Lembro-me bem do Padre Simões que ainda foi meu professor de canto-coral, no Liceu...E concordo com o amigo José: S.Vicente terá uma dívida de gratidão para com este homem de fé e a instituição que servia...Mas, quem é que, hoje, se lembra disso?

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    1. Quem é que se lembra disso? Eu, raios, ahahahahaha, então não temos aqui o homem ressuscitado?

      Braça com "Ah!" de admiração pela reencarnação do Pe. Simões,
      Djack

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  4. Soube agora mesmo, através do meu amigo Alexandre Lima Oliveira que o conjunto do Padre Simões se chamava "Os Robins" e em investigações posteriores à escrita deste texto descobri que existe uma "Marcha Triunfal da Mocidade Portuguesa" com música sua e poema de José Lopes, com data de 1960, apenas duas páginas que mais dia menos dia terei de ir conhecer e copiar. Logo darei novidades. Aqui, há-as sempre... e das ilhas!

    Braça com picareta, pá e lupa,
    Djack

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  5. Pois eu lembro-me muito bem do Padre Simoes que foi meu professor de Religiao e Moral (assim se chamava a disciplina) e de Canto Oral. Ele tinha uma voz maviosa e interpretava Ave Maria de Gounot, com uma classe, so dele. Dava-se muito bem com a juventude estudantil e interessava em direcciona-la para interpretacoes varias: teatro, canto,sport, etc.As vezes iamos a casa dele, para reunioes onde nha Chica, sua governanta preparava-nos um cha muito especial, Realmente, nunca mais soube do Padre Simoes.
    Aqui no PdB e o lugar ideal para recordar...e viver factos da nossa terra.
    Mantenhas com bencao,
    Nita Ferreira

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  6. As pessoas desaparecem do mapa mas quando têm valor deixam sinal, como o Padre Simões. Ficou em páginas de jornal de língua portuguesa da América e foi redescoberto por nós e assim recordado junto dos nossos amigos, nalguns casos seus alunos.

    Braça pesquisadora,
    Djack

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  7. Pois, pois...à bon entendeur demi mot suffit!

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  8. Muito interessantes esses dados, gostaria de ter lido este texto antes de terminar o meu livro sobre personagens ligados à música de Cabo Verde, onde o padre Simões tem um verbete. E sobre a sua ligação com a música, constou-me ele ter gravado um disco de 78 rotações, provavelmente nos EUA. Alguém sabe algo sobre isto?

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  9. Cara Gláucia, foram de facto publicados vários discos de mornas nos EUA, mais ou menos por esta altura. No entanto, não sei se algum deles tinha o Padre Simões como intérprete ou compositor.

    Braça,
    Djack

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