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quarta-feira, 9 de julho de 2014

[0955] O "Madalan", navio de longa história (1.ª parte)

 







POR MOTIVOS RELACIONADOS COM A FUTURA PUBLICAÇÃO EM LIVRO DAS "CRÓNICAS DO NORTE ATLÂNTICO" (JORNAL EM PAPEL "TERRA NOVA") E DOS ARTIGOS "CABVERD DI MEU" (EXTINTO JORNAL DIGITAL "LIBERAL"), A PARTIR DE AGORA AS "CRÓNICAS DO NORTE ATLÂNTICO" SERÃO  DIVULGADAS NO Pd'B APENAS ATRAVÉS DOS PRIMEIROS TRÊS PARÁGRAFOS.

Crónica de Abril.2014

"MADALAN", BARCO DE MUITAS NAVEGAÇÕES E FIM TRÁGICO [1]

Da marinha de recreio e investigação científica à actividade militar, durante a II Guerra Mundial

O "Madalan" ainda como "Illyria"
Praticamente todo o povo de Cabo Verde conhece o "Madalan", de o ver ao vivo, em fotografia ou nas belas moedas de 100$00 da emissão de 1994, alusiva a navios históricos das ilhas. Construído em Itália em 1928 e registado no arquipélago em 1950[2], o veleiro teve história movimentada que acabou em naufrágio, em 1959, junto ao ilhéu de Santa Maria, à vista da Praia.

Construído como iate na localidade então italiana de Lussimpiccolo[3] pelo estaleiro de Marco U. Martinolich para Cornelius Crane, industrial americano de artigos de casas de banho, de Ipswich, Massachusetts, chamava-se de início "Illyria". Com 133 pés[4], 357 toneladas brutas e 242 líquidas, para além da cabina do capitão e alojamentos dos tripulantes, tinha quatro quartos duplos, biblioteca e sala de estar. Enquanto propriedade de Crane, realizou em 1928-29 uma longa viagem, procurando peixes, aves[5] e animais raros para o Field Museum de Chicago. Partiu de Boston, atravessou o Canal do Panamá e passou pelas Galápagos, Marquesas, Taiti, Novas Hébridas, Ilhas Salomão, Nova Bretanha (no arquipélago de Bismarck), Nova Guiné, Celebes e Bornéu, antes de transpor o Mar da China Meridional e o Oceano Índico e regressar ao porto de partida, 11 meses e 32 000 milhas depois. Planos iniciais para levar um avião com asas desmontáveis, três câmaras e um projector de cinema, equipamento de mergulho, dinamite, 25 espingardas e diverso outro material, não foram concretizados por absoluta falta de espaço no navio[6].

Entretanto, passa à posse de George M. Moffett, de Nova Iorque, que o rebaptiza como "Malaina". No início da II Guerra Mundial, a Guarda Costeira americana adquire-o por 45 000 dólares e gasta quase outro tanto para o reconverter em barco de guerra, equipando-o com duas metralhadoras de 2 20mm[7], dois lançadores de cargas de profundidade, localizadores de alcance e plataformas para armas. É a partir dessa altura que toma o nome de "Madalan"[8] com que há-de ficar para sempre. A sua permanência como vaso de combate iniciou-se em 1 de Abril de 1943, estando nessa altura adstrito ao Fort Tilden, Nova Iorque. Exactamente um mês depois do fim do conflito na Europa[9], o "Madalan" foi transferido para a War Shipping Administration, já como embarcação mercante[10]. (o presente texto é um excerto do artigo total)

(continua)

 Notas:

[1] A documentação que possuímos sobre o "Madalan" dá para pelo menos dois artigos.
[2] Ver Notas e Moedas de Cabo Verde, Cadernos BCV, Série Educação Financeira – 05/2007, p. 17.
[3] Lussimpiccolo, na ilha de Lussino (actualmente Losinj), pertenceu ao império austro-húngaro até ao fim da Grande Guerra, à Itália até ao término da II e integrou a Jugoslávia a partir de 1947. Hoje, é território croata.
[4] Cerca de 40,54 metros.
[5] Em Zoological Series of Field Museum ofd Natural History, Vol. XX, Chicago, 30.Agosto.1938, n.º 34, refere-se na p. 53 que foram recolhidos 1198 espécimes de aves.
[6] Ver SHURCLIFF, Sidney Nichols e SCHMIDT, Karl Patterson – Jungle Islands: The "Illyria" in the South Seas, ed. G. P. Putnam's Sons, Nova Iorque e Londres, 1930 (The Record of the Crane Pacific Expedition Fields Museum of Natural History, Chicago, Illinois). Este livro foi-nos dado a conhecer por Artur Manuel Mendes, ex-tripulante do "Ernestina", do "Novas de Alegria" e do Carvalho", antigos navios de cabotagem de Cabo Verde.
[7] Número do texto original, mas 20mm deve ser a referência exacta. A sugestão, que nos parece plausível, foi feita pelo coronel Adriano Miranda Lima, em conversa que com ele tivemos.
[8] Na Guarda Costeira dos EUA, "Madalan" (WYPc-345).
[9] Embora a guerra no Pacífico ainda tenha continuado, o que restou do governo alemão rendeu-se a 7 de Maio de 1945.
[10] Estes dois sítios apresentam rica informação sobre o navio, nomeadamente o segundo: www.uscg.mil/history/webcutters/Madalan_WYP345.pdf e www.worldofcoins.eu/forum/index.php?topic=11080.85;wap2

sexta-feira, 23 de maio de 2014

[0885] Na continuação do post 878, as relações e o gosto de Jorge Barbosa com o (e pelo) Brasil







Crónica de Março.2014

CONTRIBUTOS PARA O ESTUDO DAS RELAÇÕES CULTURAIS ENTRE CABO VERDE E O BRASIL (2/2)

O gosto de Jorge Barbosa pela cultura brasileira

Jorge Barbosa
Quando em 15 de Junho de 2013 mostrámos em público no Fórum Municipal Romeu Correia, Almada, em sessão de homenagem a Jorge Barbosa (1), alguma documentação inédita alusiva ao poeta, estavam entre ela dois exemplares curiosos: o livro de poesia do brasileiro Jorge de Lima (2)  A Túnica Inconsutil (1938), cuja dedicatória "A Jorge Barbosa com o apreço e admiração de Jorge de Lima", com indicação do seu endereço (3), mostra conhecimento mútuo e suposta troca de correspondência (4) e a reprodução do envelope de uma carta que o autor enviou do Sal ao colega de letras brasileiro Manuel Bandeira (5), em 1948. Mais provas há deste interesse de Barbosa pela cultura do país irmão que aliás era de certo modo correspondido do outro lado do Atlântico, como podemos deduzir através deste poema de Ribeiro Couto (6): "Jorge Barbosa, / Em Cabo Verde te imagino / Olhando o céu – triste menino da ilha do Sal / Ah! horizontes do destino! / Ah! solidão da água amargosa, / Nascer poeta é sempre um mal / Seja onde for – Jorge Barbosa! / Águas e Céu é tudo estreito, / Jorge Barbosa: / Cada um de nós leva no peito / A Ilha do Sal."

Quanto a Barbosa, são conhecidos vários exemplos poéticos desta paixão pelo país sul-americano, desde logo "Carnaval do Rio de Janeiro" (1950), onde fala de Linda (Linda Batista), Dircinha (irmã mais nova de Linda) e Emilinha (Emilinha Borba), todas rainhas da rádio brasileira por longos anos e de Oscarito, actor que Barbosa terá eventualmente visto no filme Aviso aos Navegantes nesse mesmo ano de 1950 em que foi realizado e os mindelenses reviram vezes sem conta nos meados dos 60, no Park Mira Mar de Tuta Melo em altura de defeso de outros filmes que demoravam a chegar à terra. Para além disso, remata o poema com quatro versos significativos: "E o verso de Manuel Bandeira / ecoando cá dentro / deste folião que eu já fui: /- Evoé Momo!" 

Três outros poemas de Caderno de um ilhéu (1956), "Carta para Manuel Bandeira", "Carta para o Brasil" (este ao cuidado de Gilberto Freyre) e "Você Brasil" (para o poeta Ribeiro Couto) são a confirmação cabal desse namoro cabo-verdiano-brasileiro. Os dois últimos, cheios de energia, são no entanto imensamente tristes, na certeza que Barbosa tinha de jamais poder atravessar o longo oceano que separava as suas ilhas da sul-américa. Em "Carta para o Brasil", diz: "Estou a ver-me entrando no Guanabara / para essa visita finalmente / que eu tenho há muito tempo / guardada no meu desejo! / Não sei quando será. / Algum dia, meu Amigo, / algum dia." (…). E nesse fabuloso "Você Brasil" o remate, depois de enumerar as parecenças entre os dois territórios e de confessar ao Brasil "Eu desejava fazer-lhe uma vista", é: "Mas tudo isso são cousas impossíveis – Você sabe? – Impossíveis".

Apesar destes sinais óbvios da admiração barbosiana pela cultura do lado de lá do Atlântico, procurámos em jornais brasileiros outras confirmações, o que acabou por acontecer. A mais antiga referência conhecida está no Dom Casmurro (Rio), de 26 de Agosto de 1939. Sob o título "Livros e revistas do Brasil em Cabo Verde", o texto alude às reportagens de Arnon de Melo, jornalista brasileiro que acompanhou nesse Verão a viagem do Presidente português Óscar Carmona a África. Ali se escreve, a dado passo: "Queremos falar é do trecho da crónica em que Arnon de Carvalho diz da admiração dos filhos de Cabo Verde por uma gente brasileira bem menos importante que os jogadores de football: os intelectuais. A moderna literatura brasileira é conhecida e amada em Cabo Verde. O poeta Jorge Barbosa – poeta de rara sensibilidade cujas melhores produções Dom Casmurro pretende divulgar em breve no Brasil através de uma página de poesia – tem mesmo esta frase que Arnon transcreve: 'A bem dizer, só lemos aqui livros brasileiros'. E cita os autores mais divulgados: Jorge de Lima, Érico Veríssimo, Jorge Amado, Amando Fontes, José Lins do Rego, Ronaldo de Carvalho. Diz também da admiração que existe pelas obras de Nina Rodrigues, Gilberto Freyre e Arthur Ramos. (…) E apontando o livreiro da terra [Praia], que se aproxima, diz ao jornalista brasileiro: 'É o dono da nossa livraria. Ele sabe que o senhor está aqui e quer falar-lhe. Não sabe a dificuldade que temos em receber livros brasileiros. Se pedimos de livrarias de lá não nos mandam.' (…) Continuando a falar da dificuldade da venda dos livros brasileiros em Cabo Verde, Arnon de Melo informa que os cabo-verdianos resolveram o problema pelo sistema de empréstimo. E [faz] referência aos escritores brasileiros mais populares em Cabo Verde. 'De todos os escritores brasileiros notei que Jorge Amado é o preferido. Os seus romances em que o mar e o preto entram de maneira tão viva penetram mais a sensibilidade de Cabo Verde'. Cita logo a seguir os livros de José Lins do Rego. E mais [adiante] vai achar na biblioteca de um advogado Júlio Monteiro Júnior a Casa Grande e Senzala onde, no dizer do próprio advogado, são encontrados inúmeros trechos que se ajustam perfeitamente a Cabo Verde. E é ainda Jorge Barbosa quem declara ao jornalista brasileiro que existe uma infinidade de termos empregados na literatura brasileira que são comuns no dialecto cabo-verdiano. O interesse pela literatura brasileira vai em Cabo Verde ao extremo de esses leitores tomarem partido nas coisas daqui. Assim, o poeta Jorge Barbosa é pelos escritores do Norte (nesta briga inventada e tola que deu margem a tanta exploração cretina): 'Gostei da réplica dos escritores do Norte do Brasil aos do Sul. Os nortistas têm realmente muito talento e imaginação.'"

Este texto iria ser reproduzido com pequenas alterações em 12 de Julho de 1964 no Diário de Notícias do Rio de Janeiro, em longo artigo de João Alves das Neves "Os escritores cabo-verdianos e o Brasil", com referências a Baltasar Lopes, Teixeira de Sousa, António Aurélio Gonçalves e outros. Seria longo comentar aqui esse artigo mas reproduzimos a sua parte final, significativa do pensamento da elite intelectual das ilhas da altura: "A maioria defende aliás a autonomia da literatura cabo-verdiana, proclamando alguns escritores que ela não se integra na chamada 'literatura da negritude', pois em Cabo Verde se tem procurado realizar única e exclusivamente 'cabo-verdianidade', ainda que reconhecendo as influências que podem ter vindo da África, de Portugal ou do Brasil."

Quanto a Jorge Barbosa, se mais sinais não existissem do seu gosto brasileiro, o início do poema "Viagens" seria suficiente para o atestar: "Lembro as viagens que fazia nos paquetes da Blue Star / quando escalavam o porto da ilha de S. Vicente. / Eram viagens que não passavam nunca do cais / mas punham um alvoroço bem grande no meu coração. / Ora seguia rumo à Europa, / Hamburgo, Paris, Londres… / Ora para Cuba, México, Argentina… / Mas para o Rio de Janeiro é que ia sempre de preferência (…)". Esse gosto foi assaz retribuído por colegas brasileiros, como vimos, mas também a nível académico, quando foi convidado pela Universidade da Baía, para participar no Colóquio de Estudos Luso-Brasileiros que se realizou em São Salvador, em 1959 (7) no qual participaram Agostinho da Silva, auto-exilado no Brasil, em fuga ao regime salazarista e Eduardo Lourenço, entre outros oposicionistas, mas também Marcelo Caetano...

Notas:

[1] A homenagem foi levada a cabo pelos admiradores portugueses Joaquim Saial e Fernando Fitas, pela Associação Cabo-Verdiana de Lisboa (representada por José Luís Hopffer Almada), pela Câmara Municipal de Almada e pela Embaixada de Cabo Verde. Nela avultaram a colocação de uma placa comemorativa no prédio onde Barbosa faleceu (Cova da Piedade) e uma sessão em que intervieram vários conhecedores e estudiosos da sua obra.
[2] Jorge de Lima (União dos Palmares, 1893 – Rio de Janeiro, 1953), médico de interesses culturais multifacetados, dedicou-se a várias áreas: política, pintura, ensaio, tradução, poesia e romance, entre outras.
[3] Rua Floriano, 55 – 11.º andar, Rio de Janeiro.
[4] O livro é actualmente propriedade do autor destas linhas, por gentil oferta de familiar do poeta. A dedicatória é datada de 20 de Setembro de 1938. Sinal da estima em que Jorge Barbosa teve essa oferta é visível no Diário de Notícias do Rio de Janeiro de 12.06.1964, em artigo de João Alves das Neves, "Os escritores Cabo-Verdianos e o Brasil" de que se falará adiante: "Conhecemos Jorge de Lima que, aliás, me ofereceu, com amável dedicatória, o seu Túnica Inconsútil" (palavras de Jorge Barbosa).
[5] Manuel Bandeira (Recife, 1886 - Rio de Janeiro, 1968), poeta dos mais conceituados do modernismo brasileiro, também se dedicou à crítica literária e de arte, à tradução e ao ensino da literatura. O endereço indicado é: Avenida Beira Mar, 406, apartamento 409, Rio de Janeiro.
[6] Ribeiro Couto (Santos, 1898 - Paris, 1963), jornalista, magistrado e diplomata, cultivou a poesia, o conto e o romance.
[7] Diário de Notícias de New Bedford, 01.12.1958.

segunda-feira, 19 de maio de 2014

[0878] Contactos culturais entre Cabo Verde e o Brasil, em mais uma "Crónica do Norte Atlântico"







Crónica de Fevereiro.2014

CONTRIBUTOS PARA O ESTUDO DAS RELAÇÕES CULTURAIS ENTRE CABO VERDE E O BRASIL (1/2)


Pode ler-se no carioca Jornal do Brasil de 18 de Janeiro de 1933 um texto de crítica literária demonstrativo do interesse que as coisas cabo-verdianas já despertavam na altura entre a intelectualidade e a imprensa daquele país latino-americano de expressão portuguesa – no caso, associado ao poeta das ilhas, José Lopes da Silva (1). Daí, a nossa crónica desta feita descer do Atlântico Norte ao Sul, em águas de igual gosto lusófono, sentido por irmãos brasileiros, cabo-verdianos e portugueses. Este é o primeiro de dois textos que escrevemos sobre o tema. O segundo figurará no próximo número deste jornal.


José Lopes da Silva, uma paixão pelo Brasil

José Lopes da Silva, c. 1933
O aludido texto, publicado no Rio de Janeiro pelas oficinas gráficas do Jornal do Brasil nesse mesmo ano, reproduzia o discurso de José Lopes da Silva na Câmara Municipal de São Vicente, escrito por ocasião da passagem pela ilha, a 24 de Maio do ano anterior, do cabo-verdiano Martinho Nobre de Melo, então embaixador de Portugal no Brasil, que se dirigia ao Rio (2). Dizia o autor que se tratava de notável peça de oratória que convinha "ser conhecida de todos e principalmente dos que [sabiam] aquilatar da vernaculidade da língua portuguesa, tal [era] a expressão do tribuno erudito que se [revelava], nesse trabalho, um atleta da linguagem castiça, dos grande lances oratórios e do pensamento fecundo." Prosseguia o texto: "O discurso, que ocupa (2…) (3) páginas do folheto recebido é uma saudação ungida de afecto do venerando professor ao Dr. Martinho Nobre de Melo, seu discípulo na adolescência, aferindo as qualidades de carácter e talento do homenageado em todos os postos da sua vida pública, como as dos mais eminentes patrícios." Mais curiosa, pela inclusão de pedido local, era a referência à esposa do embaixador. Afirmando que pelo nome (Alexandra) ela era "defensora do homem", invocava o orador o seu auxílio em favor da mocidade escolar cabo-verdiana. Terminava o trecho com cumprimentos ao também ali presente antigo senador Augusto Vera-Cruz, então cônsul do Brasil em São Vicente. A representação brasileira no arquipélago iria ser detida pouco depois, como veremos, pelo próprio poeta José Lopes da Silva, por morte do senador Vera-Cruz, a 5 de Dezembro desse ano (4).

A 3 de Novembro, Lopes da Silva surge-nos em A Noite (5), outro jornal do Rio, a propósito do livro "Hesperitanas", saído em Lisboa em edição da Livraria J. Rodrigues (6). Chamavam-lhe ali "notável poeta" diziam-no "festejado nos círculos da elite cultural brasileira" e consideravam-no "uma das mais pujantes cerebrações contemporâneas, sendo as suas obras difundidas em vários continentes". A notícia tem erros de impressão mas percebe-se que ali se fala em referências à mãe-pátria e em "hinos calorosos ao Brasil (7) com entusiasmo marcado em versos de doçura e espontaneidade indizíveis." Martinho Nobre de Melo retribuía agora as palavras produzidas pelo seu mestre no Mindelo, prefaciando as "Hesperitanas". Concluía o texto com a seguinte declaração: "Sua obra é de vulto e bem merece o alto conceito em que é tida no julgamento dos expoentes da literatura nas duas pátrias irmãs. 'Hesperitanas' está fazendo um grande sucesso pois os seus poemas instruem, encantam e deliciam."

José Lopes da Silva, c. 1934
A 29 de Outubro de 1934, ainda em A Noite (8), dava-se a conhecer a nomeação do poeta pela chancelaria brasileira para o cargo de vice-cônsul do país em São Vicente de Cabo Verde. E os elogios à sua figura continuavam: "O festejado homem de letras sempre se revelou grande amigo do Brasil, tendo dedicado ao nosso país diversas das lindas páginas do seu recente livro de poesias – 'Hesperitanas' – que teve larga aceitação entre nós." O jornal revelava ainda um aspecto que pode ter tido alguma influência na escolha do poeta para o cargo diplomático: o facto de seu filho, Francisco Lopes, prestigiado oficial da marinha mercante brasileira ser funcionário da Companhia Comércio e Navegação na qual exercia o cargo de administrador da ilha de Caju (9) e chefe dos serviços marítimos.

Esperaremos até Janeiro de 1938 (10) para vermos o poema "Osmologia" (reflexos do poeta inglês Richard Lovelace (11) ) de José Lopes publicado no Jornal do Brasil. Mas no mês seguinte surge em A Noite a notícia da saída do seu ensaio sobre Getúlio Vargas (12). Ali se reafirmava a ligação do poeta cabo-verdiano ao Brasil: "O autor desse opúsculo, que exerce actualmente o cargo de vice-cônsul sempre se revelou sincero amigo do Brasil ao qual está ligado não só por laços espirituais mas também por liames de família pois tem filhos que são cidadãos brasileiros. José Lopes, que é oficial da Academia Francesa e comendador da Ordem de Instrução de Portugal, não perde uma só oportunidade para elogiar o nosso país, como fez, com brilho, nos versos do seu livro 'Hersperitanas'. Seu novo ensaio, agora editado, vem demonstrar mais uma vez a carinhosa atenção que dispensa a quanto se relacione com a vida e o destino do Brasil."


Francisco Lopes da Silva, uma morte imprevista

Francisco Lopes da Silva, c. 1947
Curiosa e ainda elucidativa do interesse dos Lopes da Silva pelo Brasil é a notícia sobre ambos em mais um exemplar de A Noite, de 20 de Fevereiro de 1941 (13). Ao cabeçalho "Dois poetas de Cabo Verde – 'Recordações", de Francisco Lopes e 'Ombres Immortelles' (14), de José Lopes" sucedem-se algumas dezenas de linhas em que se conta que José Lopes enviara para a redacção do jornal uma plaquette com esse título, contendo vinte sonetos em francês, "demonstração do seu completo domínio na língua de Racine". Sombrios, os poemas aludiam a grandes figuras da história e das artes, como Napoleão, Frederico II, Beethoven, Mozart, Bellini, Goethe, Voltaire, Rousseau e outros. Quanto ao livro do filho Francisco, esse era publicado através das oficinas gráficas do Jornal do Brasil. Chamava-se-lhe "herdeiro do talento paterno, um legítimo e inspirado poeta". No mesmo local se contava que era frequente colaborador de jornais cariocas, como articulista cujos escritos sobretudo incidiam em questões de transportes marítimos. Era esta a sua estreia como poeta e a mesma considerada auspiciosa pela crítica que referia haver no livro "excelentes trabalhos que lhe asseguravam uma unidade perfeita". Terá sido no entanto obra única, pois Francisco José Lopes da Silva, português de origem cabo-verdiana mas naturalizado brasileiro, suicidar-se-ia pouco depois (15). Por motivos de intrigas na sua actividade profissional consubstanciadas em invejas de superiores e companheiros, pôs fim à vida na ilha de Caju com um tiro na cabeça. Deixou viúva, quatro filhos… e três cartas de despedida: ao Secretário de Segurança Pública do Estado, ao almoxarifado da companhia onde prestava serviço e à esposa, Leonor. Na primeira, despedia-se do "pai e [de] todos da família de além-mar". Tinha 53 anos, quando foi enterrado a 19 de Junho de 1947 (16). José Lopes sobreviver-lhe-ia 15.

Notas:

[1] José Lopes da Silva (São Nicolau, 1872 – São Vicente, 1962). Entre outras actividades profissionais que desenvolveu, foi professor primário na ilha da Boavista e depois no Mindelo, de Latim, Português, Francês e Inglês no Liceu Infante D. Henrique, antecessor do Liceu Gil Eanes.
[2] Um outro discurso, feito durante o banquete de homenagem ao embaixador, este pelo Dr. João Gomes da Fonseca, teve publicação em São Vicente (ed. Sociedade de Tipografia e Publicidade), também em 1933. Existe, na Biblioteca Nacional de Lisboa.
[3] O cardinal é de difícil leitura, talvez 21 ou 24.
[4] O senador Augusto Vera-Cruz representou os interesses de Cabo Verde no parlamento lisboeta desde 1912 a 1926, quando a ditadura substituiu a I República em Portugal.
[5] P. 2.
[6] Supomos que se tratará da 2.ª edição da obra que teve 1.ª em 1929, pela mesma editora lisboeta.
[7] Por exemplo, o famoso poema "Ao Brasil", escrito anos antes, em 1919.
[8] P. 2.
[9] A ilha situa-se no delta do rio Parnaíba, no estado do Maranhão.
[10] 30.01.1938, p. 7.
[11] Poeta inglês do século XVII.
[12] 09.02.1938, p. 4. Getúlio Vargas (1882-1954) foi Presidente da República do Brasil de 1930 a 1945 e de 1951 a 1954, tendo terminado o seu segundo mandato por suicídio do político.
[13] P. 2.
[14] Ed. J. Rodrigues e Ca., Lisboa, 1940. Existe na Biblioteca Nacional de Lisboa.
[15] Posteriormente à saída deste artigo no Terra Nova verificámos que Francisco Lopes da Silva publicou pelo menos outro livro, "Recordações", Rio de Janeiro, Brasil, 1940, e um pequeno opúsculo, "José Luís de Melo", Rio de Janeiro, Brasil, 1939. A indicação foi-nos dada verbalmente por João Manuel Nobre de Oliveira e depois confirmada no seu monumental livro "A Imprensa Cabo-Verdiana, 1820-1975", ed. Fundação Macau, Direcção dos Serviços de Educação e Juventude, Macau, 1998. Outro livro seu, de igual interesse, sobre a genealogia das famílias cabo-verdianas, aguarda sponsor/financiamento para publicação.
[16] Ver várias referências na imprensa brasileira desta data e de datas subsequentes próximas.

terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

[0755] Crónicas do Norte Atlântico - UM MINDELO A MODERNIZAR-SE, NO INÍCIO DO SÉCULO XX



Crónica de Janeiro.2014

A I Guerra Mundial começou a 28 de Julho de 1914. Pouco antes, inaugurava-se no Mindelo o grande frigorífico conjunto das casas Lopes & C.ª e Madeira & C.ª e a Câmara Municipal pensava em substituir o antiquado sistema de iluminação Kitson pela electricidade. Pelo meio, a mesma instituição acabava de deitar abaixo um pestilento e degradado urinol, vergonha da urbe que se queria limpa e renovada. São tudo notícias da Folha de São Vicente, secção do jornal O Futuro de Cabo Verde, de 2 de Julho de 1914 (1), que mostram uma certa dinâmica de modernidade que percorria a cidade única de São Vicente, apesar das nuvens negras de morte e destruição que se avizinhavam no Mundo.


Urinol a abater…

"Pois já não era sem tempo." Assim começava a nota sobre o urinol que se encontrava à entrada da cidade (2). Com notável sentido de humor, o articulista anónimo dizia que o tempo e a Câmara Municipal haviam feito a meias o trabalho de derrube do equipamento: "Esta [a CMSV], com medo de ofender aquele, foi esperando que ele, a pouco e pouco, como bom obreiro, se encarregasse da parte que lhe competia e depois um pouco envergonhada do seu descuido chegou lá e em dois dias, com um pedreiro, foi um ar que lhe deu." Referia o jornal que se soava que o Município de São Vicente pensava em substituir o desmantelado urinol por outro "em melhores condições de construção e mais facilidade de higiene" e perguntava, terminando: "Será assim?" É quase certo que tal tenha acontecido. Pelo menos, o plurim de virdura (3) sempre teve uma casa de banho pública, à direita de quem entra pela porta da Rua de Lisboa e que curiosamente protagonizou perto dos meados dos anos 60 do passado século um episódio de milagroso aparecimento de… petróleo. Servido de água salobra por uma abertura no pavimento da rua, um dia alguém para lá atirou uma beata ou fósforo ainda aceso. Este, logo incendiou o combustível fugido por uma fissura na tubagem da bomba de gasolina existente alguns metros a seguir e que, escoando-se nas entranhas da Rua de Lisboa, penetrara no poço… Foi dia de pitrol no Mindelo e de stóra sem fim nos tempos seguintes (4). Outra instalação sanitária, no canto direito do muro do saudoso Eden Park, levou descaminho, devido às obras de construção do Hotel Porto Grande e consequente fecho da rua onde fazia esquina. E hoje, num canto da Praça Nova, temos uma, gigantesca, que dá para eventual alojamento de várias famílias e todo o seu mobiliário, em caso de catástrofe…


O frigorífico da marginal

A 13 de Junho, pelas 17 horas, na marginal do Mindelo, em frente da Casa Madeira e C.ª,  inaugurava-se o novo frigorífico que esta casa comercial e a sua sócia Lopes e C.ª haviam mandado erigir. Junto ao mar, o complexo tinha casa de máquinas e congelação e seis câmaras refrigerantes para peixe, carne e hortaliças. 
À cerimónia acorreram membros do corpo consular, funcionários públicos representados pelos chefes das repartições, o comércio e as casas estrangeiras. Os convidados foram brindados com champagne frapée e bolos e o redactor da Folha agradeceu em nome do gerente da firma Lopes e C.ª, Roberto Duarte Silva (5) (que se encontrava impossibilitado por um incómodo de garganta) a todas as autoridades que haviam concorrido para que a obra tivesse sido concretizada, incluindo o Governador da Província, Joaquim Pedro Viera Júdice Bicker (6). A festa encerrou com hurras!, à inglesa.

O frigorífico abria diariamente às 8 horas da manhã, para a venda de gelo e para serem retirados os volumes depositados para resfriar, em troca de senhas que eram entregues no acto do depósito. O gelo que ali se podia adquirir, em blocos ou peças mais pequenas, custava oito centavos por quilograma.

Outra fábrica de gelo seria mais tarde implantada na Lajinha, propriedade do empresário de origem italiana Pietro/Pedro Bonucci (7). A actividade frigorífica em São Vicente teve ainda maior desenvolvimento a partir dos anos 50 do século XX, com a criação de duas grandes empresas: a Sociedade Frigorífica Exportadora e a Congel – Companhia de Pesca e Congelação de Cabo Verde. Ambas tiveram boas áreas de frio e razoáveis frotas de pesca. À data da independência de Cabo Verde ainda existiam, embora em condições económicas e financeiras difíceis. Da Frigorífica, nada sabemos; quanto à Congel, foi dissolvida pelo decreto 524-A/76 de 5 de Julho (Ministério dos Negócios Estrangeiros de Portugal). O texto do acordo de extinção seria assinado por Vítor Crespo, pela parte portuguesa e por Osvaldo Lopes da Silva, do lado cabo-verdiano.


A ideia da luz eléctrica no Mindelo

Foi numa sessão da Câmara Municipal realizada algures na primeira metade de 1914 que surgiu a ideia de se substituir a iluminação pública vigente, do sistema Kitson, por uma rede eléctrica. A proposta, assinada por Júlio Veiga, presidente da edilidade são-vicentina, e pelo vereador César Serradas, tinha apenas a finalidade de fazer com que se estudassem os meios de se tornar viável o projecto. Mas, previdentes, apelavam ao senador Vera-Cruz para que este com o seu "zelo pelo desenvolvimento e progresso [da] província e, em especial [da] ilha [de São Vicente, procurasse] obter propostas em condições as mais vantajosas para o fim que se [tinha] em vista." Pretendia a Câmara pedir um empréstimo para prover as carências de tarefa de tamanha envergadura, para a qual não possuía os meios necessários, devido à escassez do seu orçamento. A Folha de S. Vicente lamentava o facto de se ter gasto muito dinheiro com o sistema de iluminação a acetileno e depois com os candeeiros Kitson (8), alegando que esse montante poderia ter sido aplicado à partida no moderno sistema eléctrico de iluminação.

Imagem de início de século da Rua de São João, vendo-se candeeiro

Contudo, só no dia 6 de Agosto de 1925, 11 anos depois, a electricidade deu verdadeiramente o primeiro passo no Mindelo, através da assinatura do contrato para fornecimento da nova energia entre a Câmara Municipal de São Vicente e os industriais Pietro Bonucci e João Rocheteau Lessa. À frente do Município de então estava Francisco Augusto Regala, o médico militar para sempre amado pelos mindelenses que assim punha em prática deliberação tomada pela Assembleia Municipal no ano anterior (9). Há quase 90 anos, portanto…

Notas:

1. P. 3.
2. Não conseguimos saber em que exacto sítio.
3. Mercado municipal ou mercado de verduras.
4. Stóra semelhante se encontra em Ilhéu de Contenda, de Teixeira de Sousa, desta feita situada na Praia de Nossa Senhora, na ilha do Fogo. Ali, o petróleo viera de um bidão furado armazenado na Alfândega próxima da dita praia. No mesmo livro, Teixeira de Sousa conta terceiro caso, de um são-vicentino que vendera gasóleo proveniente do seu poço de quintal, neste caso "fugido" de depósitos da Miller's & Cory's.
5. Não confundir com o famoso químico santantonense do mesmo nome, falecido em Paris em 1889.
6. (1867-1926). Distinto oficial da Armada portuguesa, atingiu o posto de capitão-de-mar-e-guerra. Foi Governador de Cabo Verde, no período de 1911-1915.
7. Ver recente estudo de Lucy Bonucci in http://brito-semedo.blogs.sapo.cv/437264.html
8. Numa das quatro sessões camarárias de Maio e Junho desse ano foi autorizado o pagamento de materiais Kitson, na importância de 79$32. Tal como se afirma no texto do jornal, os candeeiros Kitson, que forneciam iluminação satisfatória, eram contudo pouco práticos pelos cuidados que requeriam. O sistema foi inventado por Arthur Kitson (daí o nome) nos Estados Unidos da América, em 1885. No essencial, tratava-se de fazer arder querosene ou nafta numa camisa incandescente.
9. Ver nota 5.

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

[0752] Crónicas do Norte Atlântico - O PADRE CLÁUDIO SIMÕES, UM MISSIONÁRIO ALENTEJANO ENTRE OS CABO-VERDIANOS DA AMÉRICA



Crónica de Dezembro.2013
  
O PADRE CLÁUDIO SIMÕES, UM MISSIONÁRIO ALENTEJANO ENTRE OS CABO-VERDIANOS DA AMÉRICA


O Padre Cláudio Simões
Demos com o padre alentejano (1) Cláudio Simões pela primeira vez em Agosto de 1953 (2), em Waterbury, Connecticut, quando a convite de antigos paroquianos seus da freguesia de N.ª Sr.ª da Conceição, ilha do Fogo, e enviado pelo bispo de Cabo Verde visitava a colónia cabo-verdiana dos Estados Unidos da América. Estava então alojado em casa de um Augusto Rogério, em Seymour, no mesmo estado, e encontrava-se investido de todas as ordens pelo bispo de Hartford.

No dia 5 mês seguinte, era o celebrante de uma missa na igreja de St. Francis, em Naugatuck, com desejada prática em português. Nada no entanto parecia ligar o evento a Cabo Verde, pois tratava-se de celebrar a festa de São Paio (da Torreira, Murtosa, Portugal) no Clube União Portuguesa daquela localidade americana (3). Mas dias depois, sabia-se através da imprensa de língua portuguesa que o padre, para além de mostrar no dito clube um filme sobre o encerramento do Ano Santo em Fátima, projectou outro sobre as últimas erupções do vulcão do Fogo (4).

A 10 de Outubro, por intermédio do Diário de Notícias de New Bedford, o sacerdote apelava à comparência da população de Waterbury e arredores na missa que iria oficiar a 19, pelas 15 horas, na Community House situada no 34 da Hopkins St. (5). Ali realizaria uma palestra e exibiria os mesmos filmes que mostrara em Naugatuck, perante uma audiência de 150 pessoas e o mayor da cidade, Ray Snyder (6).

Demorando-se nos Estados Unidos da América, em princípios de Dezembro o padre Simões era referenciado entre a comunidade cabo-verdiana de Newport, R.I. No Clube Social Cabo-Verdiano, situado na West Broadway, mais uma vez falou de religião e mostrou os filmes que tinha trazido consigo, desta feita também de danças populares cabo-verdianas e de fados de Portugal, para além dos habituais dedicados a N.ª Sr.ª de Fátima (7). Enquanto isso, realizava outras actividades de âmbito social, como a que teve lugar na Associação de Veteranos de Guerras Estrangeiras na Purchase St., 561, New Bedford, a favor do fundo da Bolsa Escolar em Memória dos Homens do Mar (8).

No Janeiro seguinte, o sacerdote continua a sua tarefa de mostrar entre os cabo-verdianos da América os filmes de que temos vindo a falar. Por notícia do dia 8 (9), ficamos a saber que "entre as danças regionais portuguesas, incluindo as cabo-verdianas" havia "típicas mornas". Desta feita, o local escolhido para a apresentação era o Verdean Hall  (10) de New Bedford e a ela podiam assistir todos os portugueses "sem distinção de naturalidade"…

Entretanto, o missionário ia sendo convidado para outras actividades de cariz religioso e social, como a da tomada de posse da nova direcção do clube da igreja de N.ª Sr.ª da Assunção de New Bedford presidida pelo pároco residente Edmond Francis mas à qual Cláudio Simões deu o brilhantismo da sua reconhecida capacidade oratória (11). 

Em meados de Julho, está em Providence, R.I. (12). Aí, um grupo de senhoras do Portuguese Women's Club do International Institute, em Jackson St., entregou-lhe 40 dólares, resultantes de um sarau dançante realizado no "The Farms" de Warwick destinado a obras caritativas do arquipélago de Cabo Verde. E pouco depois encontramo-lo em Valley Falls, durante as comemorações da primeira festa do Dia do Penalvense (13), no Szpila's Grove, parque da cidade. Aí, exibe uma outra faceta que completa a de conceituado orador: canta "Coimbra", "Santa Luzia", "Avé Maria" e outras canções que deixam "toda a gente profundamente sensibilizada". E é apresentado como missionário na ilha do Fogo, Cabo Verde, com "bela voz de cantor profissional".

Em Maio de 1955 o padre Simões volta a Cabo Verde, após a longa estada por terras do Tio Sam que compreendeu diversificado programa de missionação e amparo espiritual dos cabo-verdianos (e demais compatriotas) que por lá labutavam, nomeadamente nos estados de Rhode Island, Connecticut, New Jersey e Massachusetts. Assim,  no dia 1, pelas 5 horas da tarde, teve início uma festa de despedida no St. Rose's Hall  (14) de Boston. Na notícia que dela dava aviso desvendava-se um pouco do que haviam sido os interesses mais profundos daqueles tempos americanos para o sacerdote. É que ali tinha fundado a Liga de N.ª Sr.ª do Socorro, expressamente destinada a ajudar os mais necessitados de Cabo Verde. No programa da festa, para além de constarem uma sessão solene em que falariam várias pessoas amigas do homenageado, haveria exibição de filmes das ilhas de Cabo Verde e de Portugal (decerto os mesmos vistos antes), música e diversões e a indicação de uma colecta que reverteria para as obras de caridade de Cláudio Simões. Todas as associações de caritativas que haviam trabalhado com ele foram convidadas a enviar os seus representantes e conhecidas figuras locais constituíram a comissão que levou a efeito a homenagem: os advogados Roy F. Teixeira e António J. Cardoso e os senhores José S. Pina, António Aleixo e Teófilo L. Nunes. Uma despedida em grande, para o homem que dedicara quase dois anos à missionação entre as gentes de Cabo Verde na América.

Durante o mês de Maio de 1955, o Presidente da República Craveiro Lopes visitou Cabo Verde, sendo que a 24 esteve no Fogo. Antecipando esse facto, filhos da ilha do residentes nos estados de Nova Iorque, Rhode Island e Massachusetts, congregados no Portuguese-American Social Center de Boston, enviaram telegraficamente e por intermédio do padre Simões uma mensagem especial referente a esta ilha para ser apresentada durante a visita do Presidente (15). Era este o teor resumido da mesma: "Em virtude e conformidade deste mandato, em nome da Assembleia saudamos o Chefe do Estado Português, Exmo. Sr. General Craveiro Lopes, Exmo. Sr. Ministro do Ultramar, Comandante Sarmento Rodrigues (16), Exmo. Sr. Governador de Cabo Verde, Dr. Abrantes Amaral (17), Exmo. Sr. Administrador da ilha do Fogo, Sr. Luís Silva Rendall e as dignas entidades locais. E ao mesmo tempo, em nome desta Assembleia, solicitamos no sentido de originar e impulsionar o fomento desta ilha, principalmente no que toca à construção de um cais acostável adequado às necessidades de transportes modernos ou a excavação de um canal no sítio de Boqueirão, que melhor ainda serviria o povo." Prosseguia a comissão com a referência à fidelidade da ilha à mãe pátria que nem os Filipes nem Napoleão tinham conseguido dobrar e acrescentavam: "A ilha do Fogo é a terceira em área do arquipélago (18) e a segunda das mais produtoras. O seu solo é fértil, o seu clima excelente, os seus filhos são patrióticos e trabalhadores. Merece melhor tratamento!". Prosseguia a missiva com considerações semelhantes mas a exclamação anterior marcava o tom, com assinaturas de várias personalidades, entre as quais o advogado Roy Teixeira que as encabeçava e que por isso recebeu a resposta de Luís Rendall: "Suas Excelências o Presidente da República, o Ministro do Ultramar e o Governador da Província, muito apreciaram a mensagem de V. Exas., sensibilizando-os bastante a prova de patriotismo, pedindo que aceite e transmita à colónia cabo-verdiana os seus mais vivos agradecimentos, aos quais junto os meus próprios. Na sessão de boas vindas ontem realizada, Sua Ex.ª o Presidente da República teve palavras de apreço e simpatia para a mesma colónia." Em resumo, tratava-se de uma resposta diplomática e cheia… de nada. 

Entretanto, o padre Simões desaparece dos registos que temos vindo a consultar, não tendo voltado à América, segundo supomos. Acaba por se mudar para o Mindelo onde vive alguns anos e, ao que parece, foi professor na Escola Técnica. Terá ficado na memória de cabo-verdianos da América e das ilhas pelo bem que fez e sobretudo na ilha do vulcão, ali também pela autoria do chamado "Hino do Fogo" ("Ilha do Fogo, terra ditosa, / recordo agora o teu passado; / ao som da morna quero cantar / tua beleza ao sol doirado"…) – que ainda hoje os naturais cantam. 

Notas:

01. Desconhecemos a sua terra de origem, mas há referência à região de Portugal de onde era oriundo em Diário de Notícias de New Bedford, 29.07.1954, p. 3.
02. DN, 20.08.1953, p. 3. Exercia o seu ministério em Cabo Verde havia sete anos.
03. DN, 27.08.1953, p. 4.
04. DN, 03.09.1953, p. 4. As erupções tinham tido lugar em 1951.
05. DN, 10.09.1953, p. 5.
06. DN, 24.09.1953, p. 5.
07. DN, 03.12.1953, p. 3.
08. DN, 11.12.1953, p. 2. A associação ainda existe, no mesmo endereço.
09. DN, 08.01.1954, p. 6.
10. Pensamos que se tratava do ainda existente Verdean Vets Hall de que se falou atrás.
11. DN, 12.01.1954, p. 2.
12. DN, 15.07.1954, p. 3.
13. De Penalva do Castelo, distrito de Viseu, Portugal.
14. DN, 28.04.1955, p. 1. O St. Rose's Hall situava-se no 17 de Worcester St.
15. DN, 09.06.1955, p. 1.
16. Manuel Maria Sarmento Rodrigues (1899-1979), prestigiado oficial da Armada, foi ministro das Colónias em 1950 e a partir de 1951 do Ultramar, nome então adoptado para a mesma função.
17. Manuel Marques de Abrantes Amaral (Governador de Cabo Verde de 1953 a 1957).
18. O Fogo é de facto a quarta ilha em área (476 km2), depois de Santiago (991), Santo Antão (779) e Boavista (620).

domingo, 16 de fevereiro de 2014

[0751] Crónicas do Norte Atlântico - CURIOSOS ASPECTOS DA AVENTUROSA VIDA DO CAPITÃO DE VELEIROS "JOHN" DE SOUSA

Praia de Bote inicia hoje uma peregrinação de três dias por idêntico número de "Crónicas do Norte Atlântico" que tinham publicação atrasada neste blogue, embora já todas vistas no blogue irmão "Esquina do Tempo". Uma nova, que seguiu ontem para o jornal, sairá em altura oportuna primeiro do "Esquina" e depois aqui, como é costume.



Crónica de Novembro.2013
  
CURIOSOS ASPECTOS DA VIDA AVENTUROSA DO CAPITÃO DE VELEIROS "JOHN" DE SOUSA

Em notícia bombástica de primeira página, o Diário de Notícias de New Bedford de 18 de Janeiro de 1929 referia que fora apreendida na Geórgia a escuna Fannie Belle Atwood e que o seu capitão, João L. Sousa (1) fora preso, "acusado de passar ilegalmente para os Estados Unidos centenares de estrangeiros". Denominado como "chefe de uma das maiores companhias de contrabandistas estrangeiros no Sul" e procurado desde 1925, o capitão John (como também era conhecido) fora capturado na cidade costeira de Brunswick por um esquadrão de marshalls. Imediatamente conduzido a Boston, ali iria responder a um processo que lhe fora posto dois anos antes. Portugueses (decerto na maioria cabo-verdianos) mas também espanhóis, pagando entre 400 e 1000 dólares cada um, eram os passageiros que durante anos introduzira clandestinamente nos States. O capitão, que transferira a sua actividade de New Bedford para a zona costeira da Georgia cerca de 1925, era naturalizado americano desde Junho de 1926. Fora detentor da escuna William A. Graber que vendeu para depois adquirir a Fannie Belle Atwood (2) com a qual fez várias viagens entre Cabo Verde e a Flórida. João de Sousa comandara também a Georgette que naufragou algures na América do Sul, em desastre no qual se salvaram todos os tripulantes mas foram perdidos os bens que o barco transportava.

O capitão "Jonh" de Sousa
No dia seguinte, o mesmo jornal titulava o desenvolvimento da notícia com um enigmático texto: "O capitão Sousa está secretamente acusado em Boston – Vem da Georgia, onde foi preso, para aquela cidade, onde responderá, crê-se que por passar passageiros ilegalmente neste porto". O esquema encontrado para o negócio, segundo as autoridades de imigração de Jacksonville, era o seguinte: o capitão tinha duas tripulações, uma composta de verdadeiros marinheiros e outra de patrícios portadores de documentos de navegação falsos que chegavam escondidos em carregamentos de sal (3). Quando a escuna entrava no porto, estes passavam por marinheiros e indo para terra nunca mais regressavam. Na altura em que o navio se preparava para zarpar, as autoridades de imigração encontravam intacta a tripulação (4).

Na manhã de 28 de Janeiro, João de Sousa está no Tribunal Federal, perante o juiz James A. Lowell (5). Mas alega inocência e sai sob fiança de 2500 dólares. Curiosa e estranhamente, a acusação referia-se apenas a um clandestino, Manuel Mendes, havia 18 meses residente em Hartford, Conn., também ele sujeito a fiança do mesmo montante e que se esperava viesse a depor como testemunha principal no dia do julgamento. O capitão John acaba por se dar por culpado da entrada ilegal do Mendes nos EUA e é sentenciado ao pagamento de uma multa de 1000 dólares e a prisão durante quatro meses em New Bedford (6).

Em finais de Outubro de 1933, a escuna Corona estava amarrada ao cais do Gás, em New Bedford, a receber carga com destino a Cabo Verde (7). Chegaria a São Vicente a 17 de Dezembro, após 28 dias de viagem, mais oito que o previsto, devido ao tempo desfavorável (8). Inclusive, três tanques de água assentes no convés, destinados ao consumo da tripulação e passageiros haviam sido levados pelas ondas. A Corona, que fora construída em Bristol, R.I. (9), como "navio de corridas", estava agora na carreira de Cabo Verde sob comando do nosso capitão, seu proprietário – o qual esperava voltar aos Estado Unidos da América na Primavera seguinte, com passageiros e carga. Assim aconteceu, de facto. Desta feita, porém, a viagem foi mais longa e durou 32 dias, desde a Brava. Trazia 25 passageiros e carga diversa. Chegado a New Bedford a 2 de Junho de 1934 (10), esperava fundeado a 5 a visita das autoridades de saúde e da alfândega, antes de atracar ao cais.

O Corona
Em 1935, o navio era dirigido pelo capitão Rui B. Carvalho (11). Chegou de novo a New Bedford, a 15 de Junho, numa das suas mais demoradas viagens, após 54 dias de bom tempo e muita calmaria. Trazia carga diversa e oito passageiros, para além de 21 tripulantes. Dias depois de largar de Cabo Verde, o capitão Carvalho adoeceu gravemente e logo que chegado deu entrada no St. Luke’s Hospital, em perigo de vida. Ali faleceria a 27 de Junho, aos 44 anos (12). A bordo vinha um passageiro distinto, o professor primário, poeta, jornalista e activista da africanidade Pedro Cardoso, mais conhecido por "Afro" (13). Cardoso ia aos Estados Unidos com o objectivo de recolher entre os seus patrícios das colónias cabo-verdianas da América dinheiro para ajudar a população das ilhas, mais uma vez a passar fome (14). A triste sina de sempre…

Em Setembro, a Corona, então atracada no cais Merrils, preparava nova partida para Cabo Verde, com carga e 25 passageiros (15). Era agora comandada pelo capitão João Silva e levava como imediato o seu proprietário, João de Sousa (16). Mas em Outubro de 1938, este era de novo o comandante. Na altura amarrada ao cais Philadelphia & Reading, a Corona estava a carregar para partir antes do fim do mês, para a Brava. Levaria oito passageiros (17). Contudo, parece que para além de 15 tripulantes transportava apenas dois passageiros, Ana Gomes, de 70 anos, e Teófilo da Silva Neves, de idêntica idade, que queriam acabar os seus dias na terra onde tinham nascido… (18) O barco chegou a São Vicente, a 14 de Dezembro, sem incidentes, após 37 dias de viagem (19).

Segundo o DN, em 1939, a Corona era à época o único navio da carreira de Cabo Verde (20). Previa-se que chegasse, vinda da Brava a 20 de Julho, 35 dias depois, número aproximado que em geral levava no trajecto (21). Afinal, dessa vez foram 45 os gastos. A notícia do DN é um pouco mais desenvolvida que habitualmente e mostra algumas facetas das chegadas de navios a New Bedford (22). Assim que a escuna carregada com feijão e tabaco ancorou no porto, dirigiram-se para bordo o funcionário da Alfândega Dave J. Allen, o Dr. Edmond F. Cody, dos Serviços de Saúde Pública, o inspector dos Serviços de Imigração Charles F. Quinlan e uma tradutora, aparentemente de origem lusitana, Lucy Dias. Quanto aos 15 tripulantes, dizia-se que nove eram portugueses e os restantes naturalizados cidadãos americanos eventualmente de origem portuguesa. Comandada ainda pelo capitão-proprietário João Sousa, largaria no Outono seguinte com passageiros que iriam passar o Inverno a Cabo Verde, ficando durante essa estação a fazer cabotagem entre Cabo Verde e a costa de África. A 18 de Setembro de 1940, em plena II Guerra Mundial, a Corona chegou de Cabo Verde após longa viagem de 47 dias, com 15 tripulantes e outros tantos passageiros (23), sem avistar submarinos ou demais vasos militares alemães. Trazia também arroz, milho picado, feijão, tabaco e algumas latas de xarope de cana-de-açúcar. O capitão Sousa, questionado pela imprensa sobre a situação económica em Cabo Verde referia que os preços dos artigos estavam altos devido às contingências provocadas pelos efeitos da guerra. O barco entrou na doca seca para ser limpo e reparado, tendo em vista a sua partida em Outubro ou Novembro. Com efeito, em meados de Novembro estava pronta para voltar às ilhas (24).

Mais não sabemos da Corona. Relativamente ao capitão, ao invés de o considerarmos mero "contrabandista de estrangeiros" (como o classificava o DN de 18 de Janeiro de 1929), podemos sem grandes pruridos inclui-lo no vasto grupo de comandantes e donos de navios da carreira de Cabo Verde que, embora ganhando com o negócio mas arrostando contra inúmeros perigos no mar e em terra, possibilitaram a saída e salvação de muita gente de um malfadado arquipélago onde neste tempo a fome, a miséria e a morte faziam teimosa parte do quotidiano (25). De qualquer modo, se infracções praticou às rigorosas leis da imigração americana, não foram elas significativas a ponto de o impedirem de continuar nos Estados Unidos (e no Atlântico) a profissão que lhe granjeou a aura de um dos de maior sucesso na sua actividade. Para além disso, abstraindo o amor filial do escritor Teixeira de Sousa, há que fazer fé na dedicatória que este apôs ao seu livro de contos "Contra Mar e Vento": "À memória do capitão John, meu Pai – capitão que foi de veleiro e sabia protestar contra mar e vento e contra quem de direito for e pertencer possa"…

Notas:

01. Tratava-se do capitão João Lúcio de Sousa (1892-1958), pai do notável e malogrado médico e escritor cabo-verdiano Henrique Teixeira de Sousa (1919-2006), longo colaborador deste jornal. Descendente de pescadores baleeiros madeirenses, era natural da ilha Brava. Casou em 1918 com a foguense Laura Martins Teixeira e fixou-se em São Filipe, ilha do Fogo, onde ainda existe o sobrado por ele mandado fazer. Teve outro filho, Orlando (1921 - …), ainda vivo em 2013 e a residir no Bombarral, Portugal. O capitão John faleceu respeitado, em São Vicente. Estas valiosas informações foram-nos prestadas pelo neto, o médico nosso amigo e colega de Liceu Gil Eanes Aníbal Orlando "Landim" Teixeira de Sousa.
02. Que pertencera a Ernest A. Montrond, de New Bedford e fora barco de pesca em Gloucester, Mass.
03. Há conhecimento da importação de sal de Cabo Verde para os Estados Unidos da América, para aplicar nas ruas e sobretudo nos carris dos eléctricos, em altura de nevões.
04. DN, 19.01.1929, p. 1.
05. DN, 29.01.1929, p. 2. É dado como morador no 79 de Grinnell St., New Bedford.
06. DN, 28.02.1929, p. 1.
07. DN, 31.10.1933, p. 2.
08. DN, 23.01.1934, p. 2.
09. DN, 18.08.1938, p. 7.
10. DN, 05.06.1934, p. 5.
11. DN, 16.07.1935, p. 2.
12. DN, 27.09.1935, p. 8.
13. Pedro Monteiro Cardoso (Fogo, 1890 – Praia, 1942).
14. Uma das acções resultantes desta visita de Pedro Monteiro Cardoso foi a soirée dançante que se realizou a 14 de Setembro na Aliança Liberal Portuguesa, na Delano St., 4, onde ele descreveu os horrores da fome que estava a lavrar no arquipélago (ver DN, 13.09.1935, p. 2).
15. DN. 19.09.1935, p. 2.
16. DN, 15.10.1935, p. 2.
17. DN, 27.10.1938, p. 8.
18. DN, 09.11.1939, p. 2.
19. DN, 15.12.1938, p. 3.
20. DN, 05.07.1939, p. 2.
21. DN, 01.08.1939, p. 2.
22. DN, 19.09.1939, p. 2.
23. DN, 20.09.1940, p. 2.
24. DN, 16.11.1940, p. 2.
25. DN, 25.09.1926, p. 1. Joaquim Duarte, comandante da Lina ou Elizeu Neves, também capitão da Fannie Belle Atwood, entre muitos outros. Estes, por motivos semelhantes aos do capitão John, foram sentenciados cada um a um ano de cadeia e ao pagamento de 1000 dólares.

sábado, 19 de outubro de 2013

[0601] Mais uma "Crónica do Norte Atlântico", desta feita sobre a barca "Coriolanus"


Crónica publicada nos meses de Julho e Setembro.2013
 
A BARCA "CORIOLANUS" FASCINANTE E AZARADO NAVIO DA CARREIRA DE CABO VERDE

Com casco de ferro, três mastros e cerca de 1000 toneladas brutas, o "Coriolanus" era um veleiro elegante, extremamente rápido [1] e dedicava-se ao transporte de mercadorias e passageiros. O barco teve longa história de 60 anos e passou por várias bandeiras e donos, entre os quais alguns portugueses, até que em Agosto de 1936 chegou a um sucateiro em Fall River, Massachusetts, para abate. Lançado à água em Maio de 1876 nos estaleiros escoceses de Archibald McMillan & Son, em Dumbarton, passou em 1891 para mãos alemãs e em 1903 arvorava pavilhão norueguês (sob o nome "Lina") para pouco depois voltar a ser britânico e logo a seguir americano (como "Tiburon"). Só em 1921, já com 45 anos de mar, tem proprietário português que o compra por 7525 dólares e o rebaptiza de "Eugénia Emília". Vejamos então o seu historial lusitano, a partir desse momento.

O navio chegou a New Bedford a 17 de Dezembro de 1921, proveniente de Boston. Uma notícia do Alvorada Diária dava a conhecer que o anterior dono o tinha vendido em hasta pública nesta cidade, uma vez que fora arrestado por causa de um carregamento ilegal de álcool [2]. Comprado pelo capitão Luís Oliveira, estava desde logo destinado à carreira New Bedford – Cabo Verde. Não se sabia então quando se realizaria a sua primeira viagem para as ilhas [3]. Encontramo-lo de novo em Janeiro 1923, sob o comando do seu proprietário, a regressar de Cabo Verde com carga de sal [4].


Pouco depois, em meados de Fevereiro [5], revelava-se um facto que iria complicar a vida do "Eugénia Emília". A 12, o governo dos Estados Unidos apresentara um libelo no tribunal contra o veleiro, que estava no porto de New Bedford, para que o proprietário deste pagasse uma multa aduaneira. Fora-lhe apreendida carga, estimada em 8970 dólares, montante pelo qual ia ser obrigatoriamente posto à venda. E porquê, esta medida? É que em plena lei seca, no "Eugénia" haviam sido encontradas 262 caixas de bebidas alcoólicas, cujo valor era calculado em 7860 dólares, mais 66 garrafas de álcool soltas (150 dólares) e 16 garrafas contendo… cocaína (480 dólares). Para além disso, também não declaradas, jóias que compreendiam relógios, correntes, braceletes, brincos e bolsas de filigrana, 36 peças de âmbar e perfumes. O barco acabou por ser vendido em 21 de Março a Januário O. Amarante, morador em Rotch St., 64, por apenas 6700 dólares [6]. A notícia dava a ficha técnica do navio que era a seguinte: 1050 toneladas brutas, 952 líquidas, 47 pés de comprimento, 35 de largura e 25 de profundidade. E lembrava-se que fora de Luís Oliveira, sob cujo comando fizera uma única viagem, de azarado desfecho. A 23, no tribunal federal, este confessar-se-ia culpado de contrabando de whisky, cocaína e jóias que pretendia fazer passar no porto de New Bedford e seria multado em 200 dólares [7]. A 6 de Julho anunciava-se a sua saída para dia 15, levando carga e passageiros destinados a Cabo Verde com bilhetes de ida por 50 dólares e de ida e volta por 125 mas com validade para seis meses. Os fretes para mil pés de madeira custavam 20 dólares, cada barril dólar e meio e um por cada saca transportada. O comando era agora da responsabilidade do capitão João Correia [8]. Quanto ao capitão Luís Oliveira, vemo-lo em 30 de Dezembro de 1926 a responder por vadiagem, desordem e embriaguez, em repetição de factos semelhantes que se haviam passado no Novembro anterior. O relato do estado em que o marítimo se apresentou é confrangedor: "Sujo, com a barba crescida, cabelo grisalho desgrenhado, coberto de andrajos, o homem que em tempo se orgulhava de ser comandante dum dos mais belos barcos da carreira cabo-verdiana, causava dó pela forma como se apresentou ontem no tribunal. Até aparentava estar um tanto confuso das suas ideias, e compreender bem pouco do que se passava em redor de si [9]."

Como "Eugénia Emília", no cais estatal de New Bedford - Créditos das Colecções Especiais da Biblioteca da Universidade Estatal da Pensilvânia, EUA
Voltamos a encontrar o veleiro em Maio de 1928, com o nome original de "Coriolanus" que terá até ao fim dos seus dias [1]. Procedente de Cabo Verde, estava em Block Island, a cerca de 13 milhas da costa de Rhode Island, com 48 passageiros e 32 tripulantes. No dia seguinte chegou a New Bedford e fundeou junto ao farol de Butler Flats [11]. Depois de longa viagem de 34 dias entre o Fogo e aquele local, foi ainda necessário aguardar a visita do médico do porto (que inspeccionou os passageiros no cais do Estado) e dos inspectores da imigração e da alfândega, acompanhados por um intérprete, no caso, um tal António F. Dias. Só em Janeiro de 1929 saberemos de novo do barco. Em carta enviada de S. Vicente ou do Fogo e recebida na redacção do Diário de Notícias, contava-se o conjunto de desaires sofridos na no entanto curta viagem de 23 dias, entre New Bedford e a ilha do Monte Cara [12]. Devido a forte temporal e deficiente acondicionamento da carga, a tripulação fora forçada a lançar ao mar grande parte desta, entre a qual madeira e camionetas…E da carga que fora desembarcada em S. Vicente, significativa quantidade estava em más condições, coberta de areia. O anónimo autor da carta terminava-a com a seguinte frase: «O descontentamento dos passageiros é enorme e o arrependimento de viajar em navio à vela é ainda maior.» 

A verdade é que a competir com os veleiros havia então as carreiras de vapores da companhia francesa Fabre Line [13], da qual Guilherme Luiz, proprietário do DN, era agente. E contra a de Cabo Verde, à vela, e afinal com razão, ele fazia campanha repetida no jornal. Leiamos, por exemplo, parte do longo texto que vinha agregado a um anúncio que propagandeava a viagem do S.S. "Roma" de Nova Iorque e Providence directamente para S. Vicente, em finais de Setembro de 1927: (…) Com um serviço desta natureza, um paquete capaz de fazer a viagem em 8 dias, proporcionando ao mesmo tempo ao passageiro todos os confortos modernos e com segurança, além de uma alimentação abundante e de primeira ordem, cozinhada à portuguesa e servida por criados portugueses, seria um contra-senso, mesmo uma loucura, pensar em navios de vela que tanta miséria e tragédia têm levado ao seio das famílias cabo-verdianas. Os navios de vela são uma coisa do passado e já há muito tempo deviam estar em exposição nos museus.[14] » Mas se por um lado paquetes como o "Roma", o "Asia", o "Saturnia" e outros iam cumprindo esse desiderato, o cruzamento do Atlântico à vela havia de durar até bem tarde. Após os meados do século XX, em finais de 1965, por exemplo, ainda o "Ernestina" fazia viagens para a América…

A 25 de Abril de 1929, o "Coriolanus", que saíra sete dias antes do Fogo, praça à qual pertencia, estava para chegar a New Bedford [15]. Após longa viagem de cerca de 25 dias, ancorou a 13 de Maio, pelas 10 da noite, à entrada da baía. A longa demora e a ansiedade derivada da mesma provocaram descontentamento entre a colónia cabo-verdiana local. Avistado cerca do meio-dia a leste de Cuttyhunk [16], foi acompanhado a partir das 6 da tarde por um barco da Guarda Costeira e logo depois pelo rebocador "John Duff", até ao farol Butler Flats, como habitualmente, onde lançou ferro. A 14, como também era costume, recebeu a visita das autoridades do porto e funcionários da alfândega e da emigração [17]. Transportava o "Coriolanus" nada menos que 134 passageiros e tripulantes, quantidade considerável de pessoas que pelo menos em parte haviam viajado com condições substancialmente melhores que as permitidas por outros veleiros da carreira de Cabo Verde. Pertencia agora a uma sociedade constituída por Roy Teixeira [18], António Macedo e um tal Albio (?) [19]. Com capacidade para 200 passageiros mais a tripulação, possuía casas de banho pavimentadas a mosaico, luz eléctrica, rádio, e uma orquestra, bem como um jornal que divulgava as actividades diárias. E havia festas constantes a bordo, como o "baptismo" do macaco, muito estimado pela tripulação – o qual acabou por morrer ao cair de uma verga durante uma tempestade [20]…

Ainda em 1929, mas em Junho, previa-se para breve nova partida da barca para Cabo Verde, desta feita carregada de automóveis, bicicletas e mais carga diversa. Seguiam para as ilhas 70 viaturas mas também oito cabo-verdianos deportados [21] e apenas dois passageiros regulares [22]. Comandava-a o capitão Alfredo Piedade e a carga destinava-se sobretudo à cidade da Praia. Esta viagem, também longa, levaria mais de 30 dias [23]…

Como "Coriolanus" - Créditos da Universidade de Massachusetts, Dartmouth, EUA
Tal como sucedia com outros veleiros desta carreira, nem sempre as viagens do "Coriolanus" se faziam entre New Bedford e Cabo Verde. Em princípios de Outubro de 29, o navio estava a fazer o percurso entre as ilhas e a Flórida, onde ia buscar madeira, com passagem pelas Bermudas. Disso mesmo era informado o DN pelo telegrafista de bordo, Olavo M. Cardoso [24], que também dizia em radiograma enviado para o jornal que de Cabo Verde trouxera Manuel Sacramento Monteiro, sobrinho de um dos donos do barco, Abílio Monteiro [25].

No ano seguinte, o "Coriolanus" seria motivo de notícia devido a problemas legais da entrada de passageiros e tripulantes nos Estados Unidos da América [26]. A 24 de Setembro já haviam desembarcado cinco passageiros mas diversos outros estavam em vias de ter de regressar às ilhas, a não ser que conseguissem provar o seu direito de entrada no país. O assunto meteu uma junta especial composta pelos inspectores da imigração de New Bedford George Y. Parker e John G. Hagberg e Miss Florence Welsh, da de Boston, que despacharam favoravelmente o caso de Adílio Gomes mas que remeteram dois para as autoridades de Washington. Na semana anterior, outros casos haviam sido vistos, com pouco sucesso para os interessados, nomeadamente o de Marcelo Quintino Galvão que inscrito como tripulante, estivera na cidade pela primeira vez em 1906. Após ter sido ferido, fora-lhe amputada uma perna. Munido de uma prótese, regressou a Cabo Verde, voltando aos EUA em 1912 para a consertar, o que agora pretendia de novo. No DN de 5 de Março de 1931 [27] ficamos a saber um pouco mais sobre as desventuras do barco e a sorte de significativa parte dos seus tripulantes. Nesse mesmo dia seguiram de autocarro para Boston e embarcariam no "Pátria", repatriados, vinte e seis tripulantes do "Coriolanus". Seis meses antes, o navio arribara muito danificado a New Bedford, onde ficara amarrado no Merril's Warf [28]. Grandes temporais tinham-lhe levado o velame e partido os mastros, para além de terem causado outros prejuízos importantes. Mas as reparações demoraram, porque os proprietários estavam sem fundos para o efeito – inclusive para o pagamento de ordenados à tripulação. Assim, esta passou grandes dificuldades, até ao momento em que o consulado português, tendo tomado conhecimento do drama, resolveu prover a sua alimentação. Na altura, ficaram a bordo apenas o capitão Francisco José Rosário, o contramestre Pedro Maria Andrade, o marinheiro José Baptista Jr. e o cozinheiro Nicolau Moniz [29]. Nesse mesmo dia, notícia de última hora dava conta do libelo interposto junto do United States District Court de Boston pelo causídico Joseph F. Francis, contratado pelo cônsul português, de modo que o navio fosse embargado e vendido e que a receita revertesse a favor da tripulação, colmatando assim os vencimentos em falta e as despesas do repatriamento. Contudo, a odisseia destes homens não acaba aqui. Chegados a Lisboa (o "Pátria" não escalou Cabo Verde), foram internados como náufragos (!) no asilo de Marvila, juntamente com loucos e doentes de outra natureza, como contava o Diário de Lisboa, em notícia de primeira página, reprovando tamanho atentado contra esses "portugueses de lei e de coragem" [30]. O Diário de Notícias de New Bedford, que divulgava esta nota do DL, dizia com razão que os homens do "Coriolanus" não eram náufragos. E adiantava: "No próprio dia do seu embarque foi embargada a 'Coriolanus' pelos salários devidos aos tripulantes. O resultado foi a barca ser vendida em hasta pública no último sábado, rendendo $690 para mais de $6000 de dívidas. No rateio que será necessário fazer, os salários devidos aos marinheiros que foram repatriados e que em Lisboa foram internados como doidos, serão reduzidos a nada. Eis o prémio de tanto sofrimento. É de crer que o governo português já terá atendido, ou cedo atenderá ao seu pedido, transportando-os para Cabo Verde"[31]. 

Em Dezembro de 1931, o "Coriolanus" passou a Clarence Nelson Rogers de Boston, por 250 dólares. E em Agosto de 1936, com a sua venda aos sucateiros da General Iron Smelting Co. de Fall River, acabava sem chama a vida deste garboso mas desafortunado navio que durante décadas sulcou o Atlântico, escrevendo um pouco da história trágico-marítima de Cabo Verde. Deixou porém saudades, como se pode comprovar pela inauguração de um modelo do veleiro no Museu da Baleia de New Bedford, em 19 de Maio de 1972 [32].

NOTAS

[1] Ver em http://www.bruzelius.info/Nautica/Ships/Merchant/Sail/C/Coriolanus%281876%29.html detalhada cronologia do veleiro. Conforme ali se diz, o "Coriolanus" fez em 1877 uma viagem entre a Sicília e Calcutá em 69 dias, tempo igualado por outros veleiros mas nunca batido.
[2] Lembramos que a chamada lei seca foi criada em 16.01.1919 e entrou em vigor exactamente um ano depois. Foi abolida em 05.12.1933.
[3] Alvorada Diária, 19.12.1921, p. 1 (incluindo este, todos os jornais citados são luso-americanos).
[4] Alvorada Diária, 17.01.1923, p. 1.
[5] Alvorada Diária, 14.02.1923, p. 1.
[6] Alvorada Diária, 22.03.1923, p. 6.
[7] Alvorada Diária, 23.03.1923, p. 1.
[8] Alvorada Diária, 06.07.1923, p. 4.
[9] A Alvorada, 31.12.1926, p. 2.
[10] Diário de Notícias, 24.05.1928, p. 1.
[11] Diário de Notícias, 25.05.1928, p. 2. No jornal, designado por "Butlers Flat".
[12] Diário de Notícias, 04.01.1929, p. 1.
[13] Com sede em Marselha, a Fabre Line funcionou entre 1868 e 1970. Recebeu subsídios do Estado português para manter carreiras que interessavam ao país e passavam por Portugal, Açores, Madeira, Cabo Verde e Estados Unidos da América.
[14] Diário de Notícias, 24.09.1927, p. 7.
[15] Diário de Notícias de New Bedford, 25.04.1929, p. 1.
[16] Cuttyhunk é uma das ilhas Elizabeth, no estado de Massachusetts.
[17] Diário de Notícias de New Bedford, 14.05.1929, p. 3.
[18] Roy Teixeira marcou durante cerca de meio século a comunidade cabo-verdiana dos Estados Unidos da América, país ao qual chegou com apenas 16 anos. Conhecido como "Lawyer Teixeira", para além de dono de barcos foi consultor de proprietários e capitães de outros. A este propósito, ver ALMEIDA, Raymond A. Cape Verdeans in America: Our Story, ed. Raymond A. Almeida. Boston: Tchuba-American Committee for Cape Verde, Inc., 1978, Boston.
[19] Deve ser gralha referente a Abílio Monteiro de Macedo.
[20] In texto referido na nota 4.
[21] Provenientes de outra barca, a "John R. Manta", que entrara nos Estados Unidos com clandestinos. Ver Diário de Notícias de New Bedford, 15.06.1929. p. 1 e 17.07.1929, p. 2.
[22] Diário de Notícias de New Bedford, 06.07.1929, p. 2.
[23] Diário de Notícias de New Bedford, 28.08.1929, p. 2.
[24] Olavo Cardoso suicidou-se em Cabo Verde, com 25 anos de idade, no início de 1932. Era então um dos proprietários da barca "Bradford E. Jones" (que na altura estava em Cabo Verde), juntamente com Abílio Monteiro de Macedo. A este propósito, ver Diário de Notícias de New Bedford, 14.01.1932, p. 1.
[25] Diário de Notícias de New Bedford, 05.10.1929, p. 2.
[26] Diário de Notícias de New Bedford, 24.09.1930, p. 1.
[27] P. 1.
[28] Zona histórica de New Bedford, ligada à pesca da baleia.
[29] A lista dos repatriados era a seguinte: Francisco Cabral Fernandes, segundo-piloto; Olavo Monteiro Cardoso, comissário; Anastácio Monteiro, Pedro Semedo Monteiro, Henrique de Oliveira, Vasco Almeida, Alfredo Manuel Lima, Jorge António dos Santos, Álvaro A. A. dos Santos, José Cabra, Miguel Barbosa Amado, Domingos Pereira Antunes, Jorge Cabral Avelino, Armando Garcia, Eduíno Mendes e Francisco Gomes Furtado, marinheiros; Augusto C. Fortes, despenseiro; Hermano Alves Pina, enfermeiro; José Vieira dos Santos e Custódio Gomes Pina, carpinteiros; Isabel Pires da Veiga e Luísa Barbosa Fernandes, criadas; António Nobre de Oliveira, Francisco Almeida e Marcelo Quintino Galvão, criados. Manuel Sacramento Monteiro, figura que depois granjeou considerável importância no Fogo, era declarado como praticante.
[30] Diário de Lisboa, 20.03.1931, p. 1.
[31] Diário de Notícias de New Bedford, 08.04.1931, p. 1.
[32] No âmbito de sessão promovida pelo museu e pela comunidade cabo-verdiana local em que discursou o Dr. Norman Araújo, ali nascido mas descendente de cabo-verdianos. Norman Araújo era doutorado em Letras por Harvard com tese sobre a literatura de Cabo Verde premiada pela Academia Internacional de Cultura Portuguesa com o prémio Bartolomeu Dias. O modelo foi feito pelo dr. Costagliola de Sean Cliff, Long Island. A este propósito ver o Diário de Notícias de New Bedford de 20.5.1072, p. 2   e 31.5.1972, p. 2.