segunda-feira, 17 de março de 2014

[0779] A recepção a Capelo e Ivens no Mindelo, no regresso da viagem que estabeleceu a ligação por terra entre o Atlântico e o Índico

Hoje o Pd'B foca uma recepção no Mindelo a Hermenegildo Capelo e Roberto Ivens, desbravadores do sertão africano, cujas duas viagens principais ficaram para a História. Há muito material na Internet sobre eles e apenas aqui damos sinais das ditas viagens, existentes na Wikipédia, para situarmos o texto do jornal americano de língua portuguesa O Luso (Honolulu, Hawai) de 5 de Novembro de 1885, p. 3, onde se conta a recepção do Mindelo aos dois aventureiros, no regresso da sua segunda expedição.

A primeira Viagem - De Benguela às Terras de Iaca

O objectivo
Brito Capelo, quando da sua permanência em Angola fez o reconhecimento científico daquela zona, facto que o fez ser escolhido, por Decreto de 11 de Maio de 1877, para dirigir uma expedição científica à África Central da qual também faziam parte o oficial da marinha Roberto Ivens e o major do exército Serpa Pinto. Sob os auspícios da Sociedade de Geografia, esta expedição tinha por fim «…o estudo do rio Cuango nas suas relações com o Zaire e com os territórios portugueses da costa ocidental, assim como toda a região que compreende ao Sul e a sueste as origens dos rios Zambeze e Cunene e se prolonga ao Norte, até entrar pelas bacias hidrográficas do Cuanza e do Cuango…».

A viagem
A 7 de Julho de 1877 Brito Capelo, Roberto Ivens e Serpa Pinto iniciam a expedição. Feito o trajecto Benguela-Bié, divergências entre Serpa Pinto e Brito Capelo levam a expedição a dividir-se, com Serpa Pinto, por sua iniciativa a tentar a travessia até Moçambique. Não o conseguiu como pretendia, mas chegou a Pretória, e posteriormente a Durban. Brito Capelo e Roberto Ivens mantiveram-se fiéis ao projecto inicial concentrando as atenção na missão para que haviam sido nomeados, ou seja nas relações entre as bacias hidrográficas do Zaire e do Zambeze. Percorreram as regiões de Benguela até às terras de Iaca, tendo delimitado os cursos dos rios Cubango, Luando e Tohicapa. A 1 de Março de 1880, Lisboa recebe triunfalmente Brito Capelo e Roberto Ivens, tendo o êxito da expedição ficado perpetuado no livro De Benguela às Terras de Iaca.

A segunda viagem - De Angola à Contra-Costa

Depois de concretizado o importante percurso entre o Bié e o Zambeze, e atingidas as cataratas Vitória, Capelo e Ivens são estimulados a prosseguir com as suas expedições.

Foto Arquivo Municipal de Mafra - Capelo e Ivens na ilha da Madeira
O objectivo
Dada a necessidade de ser criado um atlas geral das colónias portuguesas, Manuel Joaquim Pinheiro Chagas, ao tempo Ministro da Marinha e do Ultramar, criou por decreto de 19 de Abril de 1883 a Comissão de Cartografia, para a qual nomeou como vogais os dois exploradores. Por outro lado, pretendendo a criação de um caminho comercial que ligasse Angola e Moçambique nomeou-os a 5 de Novembro do mesmo ano para procederem aos necessários reconhecimentos e explorações. A escolha de dois oficiais de Marinha para a concretização desta importante missão, prende-se com o facto de se tratarem de territórios desconhecidos, não cartografados, nos quais era necessário avançar, recorrendo aos princípios da navegação marítima, tão familiares a estes exploradores.

A viagem
Entre 1884 e 1885, Capelo e Ivens realizaram nova exploração em África, primeiro entre a costa e o planalto de Huíla e depois através do interior até Quelimane, em Moçambique. Continuaram, então, os seus estudos hidrográficos, efectuando registos geográfico-naturais mas, também, de carácter etnográfico e linguístico. Estabelecem assim a tão desejada ligação por terra entre as costas de Angola e de Moçambique, explorando as vastas regiões do interior situadas entre estes dois territórios e descrevem-na no livro em dois volumes: de Angola à Contra-Costa. Tendo partido para essa missão a 6 de Janeiro de 1884 haveriam de regressar a 20 de Setembro de 1885 sendo recebidos triunfalmente pelo rei D. Luís.

Esta e outras notícias sobre o assunto publicadas em O Luso (incluindo a da recepção na Praia) eram um resumo de outras saídas no Diário de Notícias, Novidades, Correio da Manhã e Correspondência de Portugal

6 comentários:

  1. Ê sempre prazer relembrar (ou saber) tais factos e ver como o nosso povo sempre foi de morabeza.
    Bravo aos reporters do Praia de Bote que nem precisam saber o nùmero de visitantes que passam a cada vez. Aparecem sempre, mesmo sem dar um sinal
    Força !!!
    Braça

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  2. Quando estive en Angola, estive vai-não-vai para fazer a viagem Benguela-Beira, de combóio, daqueles com vagões-cama e vagão-restaurante...Tive um amigo, que foi Delegado do Ministério Publico em S.Vicente que fez o trajecto e ficou maravilhado,
    como Capelo e Ivens devem ter ficado...
    Braça transafricano,
    Zito

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  3. Jantarada e baile até de madrugada, na Câmara Municipal, grande festarola para os exploradores do sertão africano. Mas o que eu gostava mesmo era de conhecer o "hino expressamente composto e dedicado aos dois oficiais". Quem o terá feito? Em que gaveta desconhecida ainda parará? O arquivo da Banda Municipal de São Vicente tê-lo-á? Isso é que era curioso saber.

    Braça musical ignota,
    Djack

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  4. A História re-acontece aqui neste e no ArrozCatum sem se esquecer do Esquina do Tempo e ficamos todos os dias cada vez mais cultos ou melhor informados, graças ao Saial, Zito e amigos. Eu não tinha a mínima ideia que Capelo e Ivens estiveram no Mindelo apesar de ter estudado isto na história. Bravo bravo

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  5. E não só estiveram como foram muito bem recebidos por toda a gente. Ricos e pobres, autoridades e população tudo estava contente com o feito tal como depois aconteceu com o Gago e o Sacadura. Gente de Mindelo é assim... E do que eu me tenho apercebido e do que já não tenho mínima dúvida, nestes anos que levo de estudo da História de Cabo Verde, é que ela é de facto riquíssima.

    Braça com festa rija,
    Djack

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  6. Realmente, é curioso registar estes testemunhos da galhardia do povo do Mindelo. Um povo que tem apreço por tudo o que é coragem e valentia, não poupando esforços para lhe render merecido preito. Eu já sabia que os exploradores tinham passado por Mindelo. O Djack tem razão, é importante descobrir o paradeiro desse hino, mas quem o fará com empenho e sensibilidade pela preservação da História? Pergunto ainda que importância dá o ministério da cultura de Cabo Verde a certa História, quando sabemos quais são os seus critérios e as suas prioridades? Não deixo de pensar que a comunidade britânica local não terá tido óbvias razões para se associar à homenagem aos exploradores.

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