domingo, 6 de abril de 2014

[0810] Morreu hoje o comandante Guilherme George Conceição e Silva, grande apaixonado por São Vicente

A Sagres, atracada na Base Naval de Lisboa (Alfeite) - Foto Joaquim Saial
O capitão-de-fragata Guilherme George Conceição e Silva faleceu hoje, em Lisboa. Licenciado em Direito (especializado em Direito Marítimo), foi professor da Escola Naval e, após o 25 de Abril, chefiou a comissão de extinção da PIDE/DGS. Este militar da Armada encontrava-se, em Março de 1961, a bordo da fragata Nuno Tristão em Angola, no início da guerra e comandou a força de desembarque que protegeu as populações do Ambriz e Ambrizete. Foi Secretário de Estado da Comunicação Social nos governos de Vasco Gonçalves, quando o ministro da pasta era o comandante Correia Jesuíno. O funeral realiza-se amanhã, segunda-feira, estando o seu corpo na capela do Cemitério Inglês.

Era filho de outro distinto oficial da Marinha, o comandante Eugénio da Conceição e Silva, considerado o pai da astronomia amadora em Portugal e irmão do general da Força Aérea Tomás George Conceição e Silva, também com brilhante folha de serviço.

Na sua longa vida profissional, viajou vários anos a bordo do Navio-Escola Sagres como instrutor de vela e remo em viagens de formação de cadetes. Neste âmbito, aportou inúmeras vezes a Cabo Verde, nomeadamente a São Vicente, terra que amava e à qual pretendia voltar, a bordo do iate de um amigo, com este e mais dois companheiros da Armada. A doença de um deles impediu a realização da expedição que o Pd'B publicitou. Devido a esse desaire, pretendia realizá-la em breve, por meios convencionais, de avião. 

Cais acostável do Porto Grande, anos 60/70
Isso mesmo o disse ao Pd'B em longas e proveitosas conversas que tivemos na Brasileira do Chiado e na Associação Caboverdiana, onde almoçámos, os cinco, há pouco, talvez há três ou quatro meses. O comandante estudava nos arquivos de Marinha os barcos de cabotagem das ilhas e acabámos por trocar muita informação. Também se interessava pela obra de Teixeira de Sousa que conhecia em profundidade e considerava exemplar na minúcia e exactidão com que retrata a ambiência e nomenclatura marítimas. No final desse almoço, no hall do piso térreo do edifício, acabaria por me oferecer um pisa-papéis em cristal com a Sagres, tendo eu retribuído com um CD com quase uma centena de fotografias de barcos de Cabo Verde. Ofertas singelas, mas significativas, trocadas entre dois mondronguim amantes das coisas da Marinha e das terras e gentes do arquipélago de morabeza. As coisas que Cabo Verde produz... Ainda conversámos com o poeta José Luís Hopffer Almada na ACV sobre uma possível palestra a fazer ali, em que seriam intervenientes antigos oficiais de marinha que tinham passado por Cabo Verde, mas agora essa ideia caiu por terra.

Quis o destino que esta bela amizade acabasse demasiado cedo. Neste dia de tristeza, resta-nos encomendar a alma do comandante a Deus e a Neptuno, desejando que ambos a embalem na longa viagem agora iniciada.

6 comentários:

  1. Quando esta manhã a minha me deu a notícia, pensei tratar-se do irmão dele, general que foi CEMFA (Chefe do Estado Maior da Força Aérea). Eu e este estivemos num reunião da Associação de Oficiais, em Lisboa, em 22 de Março.

    Mas não, afinal é o "Nosso Comandante" da Armada e amigo de S. Vicente e dos cabo-verdianos. Fico triste por uma dupla razão, ser um militar de prestígio e ser um amigo de Cabo Verde. Senhor Comandante, que vá ao encontro de Neptuno, de velas enfunadas pelo mar fora.

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  2. Nas nossas conversas, falámos de muita gente de São Vicente que ambos conhecíamos. De um, porém, eu não me lembrava: o barman do Grémio, se não estou em erro um tal Sr. Pina. Mas isso era natural, pois entre os meus 9 e 12 anos, nunca bebi um gin-tonic nem um whisky... O mais interessante é que o comandante Conceição e Silva não só tinha navegado na "Sagres III" (a actual), como na "Sagres II" (depois "Santo André", hoje em exposição em Hamburgo com o primitivo nome de "Rickmer Rickmers"). Daí que tenha sido contemporâneo do meu pai que nela fez uma comissão de 14 anos e tenham ambos saltado muitas ondas do Atlântico juntos no velho navio apreendido aos alemães.

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  3. Boas recordações, Joaquim. É assim a vida do homem, feita de recordações, de sentimentos e de sonhos que se cristalizam com o tempo. Penso que tudo isto amalgama aquilo que é o espírito, ou, por outras palavras, o que enforma a existência, dando-lhe significado e amplitude, à medida da natureza humana de cada um.

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  4. Este comentário foi removido por um gestor do blogue.

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  5. A noticia do passamento de um amigo (nosso ou da nossa terra) não pode deixar-nos insensíveis. Sobretudo um amigo de fora que nos admirou e a quem deram a reciprocidade com a nossa tradicional morabeza.

    Que bons ventos o ajudam a chegar mais depressa ao mais alto Astral

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  6. Sentidos pêsames aos amigos por esta perda

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