quinta-feira, 7 de agosto de 2014

[1010] Um final desgraçado, em longo conto de autor nosso amigo, sujeito quase mindelense...


(...) Voltou ao Mindelo, para participar, tanto quanto a débil saúde lho permitia, nas tarefas necessárias à afirmação da pátria que era a sua: trabalhou na Câmara, nas Finanças e em programas ligados à pesca, dando sempre o melhor de si. Num dia de 1982, quando entrou no Café Royal para beber um grogue, pareceu-lhe reconhecer um sujeito branco e abrutalhado, de camisa às flores e calções de caqui que estava numa das mesas. Perguntou ao jovem que servia ao balcão se sabia de quem se tratava. "É um antigo militar português. Um tal de Roseta, Roseira ou coisa assim, sempre com basofarias, a gabar-se que é capaz disto e daquilo. É professor, esteve cá na tropa antes da independência e agora é cooperante no Liceu. Parece que os patrícios dele nem o podem ver", respondeu o empregado. Foi a penúltima notícia sobre o cunhado que chegou aos ouvidos de "Letinho". A derradeira, também lha contou o rapaz do Royal: segundos depois de Fernando Desamparado da Luz Spinelli sair por uma das altas portas do café, ouvira-se um estrondo, seguido de grande alvoroço, mais acima. Fernando tinha sido projectado por um automóvel de encontro à parede do Mercado, entre a porta principal e a da casa de banho pública. Na parede, uma mancha de sangue marcava o impacto do corpo. Houve quem dissesse que ele se tinha atirado de propósito para a frente do carro; outros, afirmavam a pés juntos o contrário: que ia distraído e não vira a viatura que subia a Rua de Lisboa a toda a brida. 

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