sexta-feira, 22 de agosto de 2014

[1062] Nem a propósito, repescamos um conto ainda incompleto, relacionado com o post anterior (IMPORTANTE VER!...)

Trata-se de conto de um grande amigo nosso, ainda incompleto, mas a ser continuado em breve, pois segundo ele parece que o texto não é nada despropositado, face às graves notícias que nos chegam do Mindelo - e logo do seu centro geográfico... e genético. Coisas de arquivos, de documentação "velha", de papéis que cheiram a papel e a pó, enfim, material que pobres ignorantes classificam como lixo. Do dito, ficam dois excertos...

UM DIÁRIO DO TEMPO DA GRANDE GUERRA 

CMSV - Foto Joaquim Saial
César Monteiro Fortes odiava aquela divisão do primeiro andar da Câmara Municipal de São Vicente, escura, cheia de papelada, alguma dela centenária, ressumando pó e cheiro a bafio, a qual, com razão, se chamava arquivo-morto. Incomodativa alergia fazia-o evitar o antro, onde uma vez por outra era obrigado a ir à procura de documentação necessária ao departamento em que trabalhava. Mas o presidente, um dos primeiros do pós-independência, mandara-o dar uma volta a tudo aquilo, deitar fora o que achasse que não tinha importância e arrumar o que fosse significativo. «O senhor César fica livre de todas as tarefas que tem tido até agora, mas compromete-se a pôr o buraco funcional em seis meses, tudo por ordem, fichas feitas, etc., para se poderem utilizar aqueles materiais com rapidez quando forem necessários. Em princípio, trata-se de produtos pouco aproveitáveis, mas nunca se sabe. E se virmos que há coisas que não nos servem mesmo para nada, vão para o Arquivo Nacional, na Praia. Vou mandar duas mulheres aspirarem o pó acumulado e quando o sítio estiver habitável, instala-se lá e inicia o trabalho. Você tem estaleca para aquilo e se acabar antes do prazo que lhe dou, será recompensado com férias suplementares.» O autarca sabia que César fora amanuense na tropa e reparara no religioso zelo com que ele se dedicava a arrumar tudo o que era documento, em pastas de atilhos e de arquivo, dossiers e caixas de cartão, sempre com as devidas etiquetas, escritas com a sua letra redonda, muito perfeita, aprendida na Escola Técnica. De tal modo, que já era avisado pelo dono da papelaria vizinha, quando lhe chegava material novo de arquivo. «Ó César, vieram hoje de Lisboa pastas de plástico, daquelas de que tu gostas, e umas etiquetas autocolantes que não precisam daquela coisa de goma-arábica mal cheirosa que te faz espirrar.» E lá era feita a requisição para se adquirirem as pastas e as etiquetas que vinham contribuir para o arrumo da estante que apanhava toda a parede traseira à secretária do escriturário. As prometidas limpezas foram feitas e na semana seguinte César Fortes mudou-se para a sala em que iria exercer a sua actividade arrumadora durante os tempos que se aproximavam. (...)

(...) Um mês após essa conversa, quando abriu a quarta de seis volumosas caixas com resmas de papel, umas vezes agrafado, outras agregado com argolas de metal e algumas cuidadosamente cosidas com fio de sapateiro, deu com uma pasta cinzenta, dos seus três centímetros de espessura, atada com um cordel, em cuja face superior se lia, numa tinta azul, esbatida pelo tempo: «Diário do período que passou entre 5 de Outubro de 1910 e Março de 1916, mês fatídico em que Portugal entrou na Grande Guerra – Memória articulada por Joaquim Torcato Oliveira, vereador desta Câmara Municipal de São Vicente, cuja finalidade é a realização de uma História de Cabo Verde do século XX». «Joaquim Torcato Oliveira? Esse é de certeza o avô de Manelzinho Oliveira, enfermeiro no Hospital. Ele está sempre a falar desse parente que andou lá por França e até ganhou medalha...», reflectia César, enquanto desatava os vários nós do cordel armado em cruz. Contrariando o que o título da capa indicava, o diário começava afinal em 4 de Maio de 1913 e terminava em 16 de Setembro de 1915. Compreendia realmente algum do tempo da Grande Guerra, mas iniciava-se apenas pouco antes do começo do conflito e findava antes da entrada de Portugal nele.


2 comentários:

  1. Pois é...às vezes acontecem coisas que nem ao Diabo lembraríam!
    Imagine-se quanta informação de valor histórico não haverá ali esquecido à espera de ser preservado!

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  2. Bem, vamos aguardar a continuação. A coisa promete e pressinto que algo de pedagógico vai sair do desfecho da história. Ou algo de anti-pedagógico?

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