sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

[1385] Um saboroso texto de Adriano Miranda Lima, de desembrulhar, lamber e deitar o celofane fora

Adriano Miranda Lima regressa hoje ao nosso convívio, com um texto inédito situado entre o doce e o saudoso, lembrado de "Mitchêl", uma das muitas características figuras que o Mindelo tem tido. O Praia de Bote não o conheceu - ou pelo menos não se lembra dele -, mas agora, pela pena do nosso colaborador, o divertido comerciante ambulante volta à vida e ao seu negóce de venda de drops e toffees, mais um tabaquinho mercóne de contrabando. Deixamos o inevitável agradecimento ao autor e amigo.

“MITCHÊL”, VENDEDOR DE DROPS

Adriano Miranda Lima
Desconheço qual era o seu nome de registo, pois sempre o vi ser tratado por “Mitchêl”, o que não admira porque em S. Vicente quase toda a gente tem um “nominho”.

Como qualquer mindelense da minha geração, conheci muito bem o “Mitchêl”, não porque tenha tido alguma intimidade com a sua pessoa, mas porque ele se dedicava a uma actividade que o tornava muito notado, mesmo que o não quisesse. Pois, para além da sua venda ambulante de drops, chocolates e cigarros, calcorreando os locais mais movimentados da cidade, distinguia-se pela sua postura histriónica e divertida, sem ser leviano ou inconveniente. Nas sessões de cinema, gostava de mandar as suas bocas em voz alta quando acontecia algum imprevisto, como o atraso no início da sessão ou a  interrupção acidental da projecção do filme. Certa vez, no Parque Mira Mar (cinema do Tuta), lembro-me de que isso aconteceu e ele manifestou o seu protesto em voz bem alta e sonora (tinha uma voz grave e forte), tanto que o Djone (filho do Tuta), que provavelmente estava na cabine de projecção, recorreu à instalação sonora e disse: “Mitchêl, un sabê que foi bô que dá ês bóca pois bô vôz ê cunchid”.  

O “Mitchêl” tinha um especial gosto pelo penteado à Tony Curtis (proeminência capilar a cair sobre a testa), actor americano então em voga, e dedicava também certo cuidado ao seu vestuário à base de jeans bem apertadas e camisa branca dobrada pelos pulsos. Sempre lhe conheci uma atitude correcta para com as pessoas, o que penso lhe granjeava a estima de todos os seus fregueses ambulantes, independentemente da idade ou condição social. Quantas vezes não lhe comprei drops e chocolates, principalmente quando o apanhava a jeito lá para os lados da Praça Nova e da Pracinha da Igreja! A partir de certa altura, no auge do negócio, passou a ter um ou dois “boizim” como auxiliares, cada um com a sua prateleira/expositor dos ditos produtos. Pelo menos, na Praça Nova tive ocasião de o ver com esses jovens ajudantes naquelas noites mais movimentadas que antecediam as sessões de cinema no Eden Park  ou quando a Banda Municipal actuava no Coreto.

Ele era realmente uma figura popular e muito comunicativa e divertida, e recordo-o com certa emoção e simpatia por me levar de volta à minha adolescência. Resta ainda dizer que o “Mitchêl” foi um grande praticante de ping-pong, e, se não estou em erro, era o habitual campeão dos torneios que se realizavam nas sedes dos clubes de futebol. Se não for rigorosamente assim, alguém que corrija. Tenho pena de não ter uma fotografia da pessoa para juntar a este texto.

Há já muitos anos, ouvi dizer que ele faleceu, não sei se na sua terra ou no estrangeiro. Se assim foi, deixou a vida ainda muito novo, ele que aparentava boa saúde e robustez física. Paz à alma do nosso “Mitchêl”!

Tomar, 20 de Fevereiro de 2015
Adriano Miranda Lima




13 comentários:

  1. Bela lembrança...

    Mitchel , aqui bem retratade pelo fotografe de caneta Sr Adriano, tinha um grande concorrente " cê nome Cirile, de bom olhe na negoce... o pioneiro "ambulante" a introduzir na mercade o celebre Chesterfield de coroa!
    Senhor fotogarfe Adriano, outra figura do ramo merecedora de "carinha" com carinho é Nha Tuda!

    Obrigado pelo começo do álbum!

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    1. Estou certo de que o Adriano seguirá estas sugestões, caso conheça as personagens em causa. Figuras como a de hoje são mais que muitas no Mindelo. Afinal, elas são grande parte da alma da cidade.

      Braça com memória,
      Djack

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  2. O Mitchall, graças ao seu humor caracteristico, vencia com facilidade os seus adversarios do ping pong, bilhar de três bolas e até tinha muito jeito para o futebol. Infelismente so' jogaca com os pés nus porque não se adaptava nem aos sapatos e nem às botas de futebol. Foi também um excelente dançarino de cha cha' desafiando com o seu humor o nosso Jovino Vira Boi na Praça Estrela.Era irmão do Orlando, avançado centro do Derby, um dos melhores que eu conheci no seu posto. Tinha um outro irmao chamado Mitchelim,, que tambem exercia a funçao de negociante ambulante, que emigrou para a Holanda onde possuia um bar-restaurante, ponto de encontro obrigatorio dos nossos emigrantes.

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  3. No meu texto, quis escrever "dedicava também certo cuidado ao seu vestuário" e saiu "dedicava também certo cuidado com o seu vestuário". Isto não suja nada a farpela do Mitchêl, mas é só para o ti Fefa Brito, meu antigo explicador na admissão, não me aplicar com a varinha de marmelo na canela.

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    1. Gralha emendada. O nosso comum explicador Ti Fefa já pode sossegar...

      Braça com Sindicato dos Marítimos e varinha de marmeleiro,
      Djack

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  4. Quem não Conheceu o Mitchell um imitador de Tony Curtis com a sua cabeleira toda laqueada e que se primava pela indumentária pop dos anos 50/60. Era vendedor de goluseimas, os famosos drops, na Praça Nova para a grande delícia das crianças da minha idade. Cheguei a jogar com ele ping pong no Derby e dado o meu profissionalismo nesta prática não me vencia com facilidade chegando eu a derrotá-lo algumas vezes. Mas reconheço que era um campeão de ping-pong. Ficou meu amigo e sempre me cumprimentava com muita estima, acenado os braços sempre que me via. Homem cordato, simpático, afável educado e polido. Era um típico mindelense.

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  5. Deliciosa crónica, Adriano...Um pormenor que terá a relevância que lhe quiserem conceder, é que creio recordar que Mitchel teria sido um óptimo jogador de ténis de mesa (ping-pong)...
    Já agora, e além do Ciril e de Nha Tuda, recordo o "Potatoes" que montava a tenda a esquina da Drogaria (sempre que o Ciril não aparecia, claro...)I
    raça sucarado,
    Zito

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  6. Recordo-me dele. Mas a minha memória fixou mais o Ciril que tinha mais ar de filósofo do que de vendedor ambulante, sempre de cigarro nos dedos e ar de pensador... também da Nha Tuda com a sua célebre "sucrinha de Tuda". Enfim, figuras castiças e marcaram uma época da cidade de Mindelo.
    O Adriano com a sua boa pena e através de uma crónica de leitura muito agradável, reconstituiu não só Mindelo de uma época em que boa parte da alegre vida social, mais colectiva e mais abrangente, se passava nos dois cinemas, aqui (no relato do Adriano) no Park Miramar, mas também no Éden Park; como também fez reviver uma figura castiça da bem humorada cidade que infelizmente está a perder este tesouro que possuía que era humor popular e transversal em termos de classes sociais e o gozo de "pregar partidas" entre amigos ou não, que só os mindelenses de uma época sabiam fazer com ...estilo claro!
    Abraços
    Ondina

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  7. Eu recordo do Mitchell, já perto dos seus 50 anos, e no trajecto para Ribeira Bote onde morava, andava quase sempre, segurando numa das mãos, uma folha de jornal dobrado em dois de forma a proteger do Sol um dos lados da cara. Conheço um famíliar que teve uma história um tanto caricato, ao ser condenado por um Juíz a uns anos de prisão, no preciso momento em estava a ser refomado na empresa onde trabalhava. É só ver o cumemtário das pessoas do quanto ele teria amealhado durante os anos em que esteve na prisão. É possivel que o Djibla tenha alguma foto nos seus arquivos

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  8. Este vosso Mitchel apareceu depois da minha saida (1954) mas houve outro Mitchel antes dele que era moço de recados de algumas pessoas, nomeadamente o grande organizador de eventos Jom Bintim, o homem que fez circular o pedido para a compra do iate para o Eng° Humano e montou a sua despedida do Mindelo.
    Não cità-lo, quanto a mim, é uma das injustiças que fazemos (talvez involuntàriamente) pois ele merece ser lembrado pelo ânimo que dava ao que fazia nesse tempo e nessa cidade do Mindelo.
    Mitchel deve ter tido vida melhor antes de ganhar a vida levando recados. Tinha lugar e era respeitado por todos; notava-se que um dia perdeu o seu pão mas não perdeu a sua dignidade de homem.. Ele foi um dos fundadores do Derby.

    Relativamente a famosa Tuda Sucrinha. rival na confecção desse dôce e de rebuçados e pirinhas de Nha Candinha, que tinha o seu comércio pelos lados da Igreja de N.S. da Luz, na Rua Suburbana (?), junto à casa de Nhô Jom Chalino, pai de - entre outros - Edy Moreno e Djuta.
    Muitos de nôs recebemos pps's do filho de Tuda, o famoso Rui Tuda, o maior traquinas da Praca Nova e de SonCente, residente hà algumas décadas em Roterdão. Rui, tem dois amores na sua vida, amores que ele não troca por nada deste mundo:
    - 1°) o Mindelense, embora o pai [Tuca] tivesse sido o Presidente-Fundador do Castilho;
    - 2°) o Paigc (mas deste ...no comment !!!!)
    Se o Adriano decidir (espero), para a sua galeria, saber de Tuda, é so contactar seu filho que imediatamente fornece material para que imortalizemos também essa figura mindelense, uma verdadeira Mãe cabo-verdiana que criou vàrios filhos e deixou um nome também como profissional.

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  9. Grandes comentários, que o Praia de Bote agradece. Pena que sejam exclusivamente dos comentadores habituais (que aliás muito prezamos). Mas, onde estão os mindelenses do Mindelo? Onde estão os são-vicentinos de São Vicente? Onde estão os cabo-verdianos de Cabo Verde? Os outros? Aqueles que aqui vêm ler? Tirando a Ondina e o Zeca, só haverá mudos nas ilhas? Que grande mistério, numa altura em que o Praia de Bote escavaca recordes sobre recordes de visitantes. Veremos os de hoje, para mostrarmos se ultrapassaremos os 700 (exactos) de ontem. Esperemos por logo à noite (24h00). Depois, daremos notícias sobre esse assunto.

    Braça espantada,
    Djack

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  10. MARCOS SOARES informou que É possivel que o Djibla tenha alguma foto nos seus arquivos. Quão Seria possível ter uma foto do Mitchel

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    1. Eu diria de outra maneira: "'E impossível que o Djibla não tenha uma foto do Mitchel!", talvez até mais que uma. Quem o contacta? Quem lha pede? Praia de Bote publica-la-á logo, tal como fizemos com a do Djosa d'Maderal que o Adriano nos enviou.

      Braça Mitchélica,
      Djack

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