quinta-feira, 12 de março de 2015

[1430] A saga continua... Os dois amigos continuam a discutir civilizadamente a questão da língua cabo-verdiana

IV Parte (ver partes I AQUI, II AQUI e III AQUI)

Adriano Miranda Lima
Elísio:  ̶  Hoje, ê mim  q’tá dá pontapé de saída. Ondê  q’nô fcá onte.

Filinto:  ̶  Ah, foi naquel queston de identidade nacional e sê relaçon c’nôs criol.

Elísio:  ̶  Ah, pois, foi isso mesmo. Olha, para começar, há uns anos, quando o Manuel Veiga publicitou as suas ideias sobre a oficialização do crioulo e deu à luz o ALUPEC, afirmou:  “Com o Crioulo é que Cabo Verde marca a sua diferença no mundo”.  Esta afirmação  entronca precisamente nas considerações que ontem fizemos acerca de identidade nacional, e se dúvidas houvesse acerca da questão político-ideológica que subjaz a esta problemática, aquela afirmação as desfaz por completo. Não achas?

Filinto:  ̶  Pois, com certeza. Para já,  é muito discutível aquela  afirmação, para não dizer que é pretensiosa e abusiva. Quem é esse senhor para sentenciar o que deve ser a imagem do povo cabo-verdiano no mundo? Essa imagem não se decreta nem pode ser forjada na oficina de um ou dois artífices, por mais imaginativos que se julguem. Ela  não pode cingir-se unicamente a uma língua, pois é muito mais do que isso, é um produto multifacetado que tem a sua raiz na idiossincrasia do povo, no seu temperamento, nos traços essenciais do seu carácter, nos seus sentimentos, nas suas inclinações naturais, etc., etc.

Elísio:  ̶  Ao exprimir-se assim, o Manuel Veiga não julgava suficiente a imagem intrínseca do seu povo, e por isso considerou que o crioulo  é o único ou o mais importante selo da sua autenticidade. Discordo veementemente desse ponto de vista, pois o povo cabo-verdiano pode ostentar ao mundo outras facetas marcantes  da sua identidade, porventura até mais gratificantes, como a sua imagem de povo pobre mas rico de sentimentos, de povo maltratado pelo destino mas esperançado no futuro, de povo prisioneiro da insularidade mas aberto à universalidade, enfim, de povo pacífico, convivente e comprometido com o humanismo.  Além disso, é um perfeito disparate considerar que uma língua restrita a um pequeno povo pode ser imagem de marca neste mundo globalizante e em que o domínio das línguas universais é cada vez mais uma ferramenta indispensável para o sucesso individual e para a competição.

Filinto:  ̶  Sabes uma coisa?,  tenho o pressentimento de que, com esta aventura do Governo, estamos a entrar num terreno ignoto e cheio de armadilhas, só para satisfazer os caprichos de algumas pessoas. Ainda por cima, de uma forma imprevidente, o que me faz lembrar aquela do gato escondido com o rabo de fora. Passo a explicar. No enunciado de intenções do Governo, e segundo aquilo que recentemente me chegou aos ouvidos, o crioulo vai ser consagrado e  dotado de um “estatuto social condigno”, em paridade com o português, mas ao mesmo tempo diz-se que “deverá ser equacionada a possibilidade de a língua portuguesa se manter como a língua de comunicação internacional, tanto na comunicação oral como na escrita, enquanto decorrer o processo de padronização do crioulo”. Repara que sublinhei a expressão “deverá ser equacionada”. O gato está, pois, escondido com o rabo de fora. É que tudo indica que a intenção é mesmo banir o português da nossa vida e que apenas o toleram enquanto não estiver concluído o processo de padronização dos crioulos.

Elísio:  ̶  E quanto tempo vai demorar esse processo de padronização, que eu entendo deve requerer um período razoável para a sua consolidação? O mesmo é perguntar por quanto tempo mais teremos a língua portuguesa nos nossos hábitos e práticas sociais e oficiais. Parto do princípio de que todo esse processo de transposição linguística subentende que o crioulo já estará enraizado em todo o nosso sistema de ensino. E sobre o ensino podemos fazer uns prolegómenos sobre os trâmites do processo?

Filinto:  ̶  Está bem, até porque considero a introdução do crioulo no sistema do ensino a fase mais crítica e desafiadora  do processo que se tenciona implementar. É preciso saber como   vai funcionar tudo isso, por onde começar, até onde ir, como superar eventuais situações de bloqueamento, que metodologias serão utilizadas para a aferição do processo, que instrumentos didácticos irão suportar cada fase de transição.  E, muito importante, saber com que meios  e quem vai custear todo um processo que não deixará de exigir uma fatia não despicienda do orçamento. Será que até nisto vamos ao peditório internacional, para a mera satisfação de um capricho?

Elísio:  ̶  Ora, aí estão elencadas algumas questões para discussão. Mas antes de metermos a foice nessa seara, convém trazer de novo à baila uma questão que terá sérios reflexos no processo de ensino. Segundo o que ouvi recentemente, e já foi ventilado nas nossas conversas, existe a promessa de que todas as variedades do crioulo serão consideradas, em pé de igualdade, no processo de padronização, normalização e instrumentalização, e isto desde logo a aplicar-se na publicação de gramáticas, dicionários, prontuários, terminologia científica e técnica, etc.  Foi o que me constou, e é assunto que acho devíamos abordar antes de tratar a questão do ensino e da formação com o uso do crioulo. Queres pegar na ponta?

Filinto:  ̶  Começo por dizer que aquela promessa do tratamento igualitário a todas as variedades do crioulo não convence nem ao mais ingénuo. Não é necessário ser um expert para perceber que tudo isso é expediente dilatório. É que basta imaginar o que será a complexidade e a inviabilidade prática desse  processo, para desconfiarmos  que o Governo vai entreter o pagode com promessas vãs e incumpríveis enquanto fermenta no seu bojo outro desígnio. E qual é ele?  Precisamente, a uniformização e padronização dos crioulos cabo-verdianos num único modelo, como objectivo a alcançar a prazo, convencido de que o tempo (e a paciência dos cabo-verdianos) se encarregará de esbater a memória dos crioulos da  “periferia” e de os diluir paulatinamente  no da ilha de Santiago.
Elísio:  ̶  Bem, deixa-me agora completar. Em suma,  por simples tacticismo político,  o Governo não defende ou não prescreve de uma forma clara a extinção das variedades dialectais exteriores à ilha de Santiago, por acreditar que serão absorvidos inapelavelmente pelo organismo do crioulo dessa ilha, no pressuposto de que o efeito de massa prevalecerá sobre as realidades sociolinguísticas tidas como menores. Não o dirá assertivamente, pois preferirá subterfúgios de linguagem  ambígua, de modo a  iludir os ingénuos.

Filinto:  ̶  Elísio, independentemente das nossas conjecturas e opiniões, achas  que, como fenómeno sociolinguístico, a absorção das variedades do crioulo num único modelo é coisa que poderá acontecer num futuro distante? A processar-se de uma forma sub-reptícia ou por coacção levada a cabo das formas mais subtis? Por exemplo, começar a exigir que todos os funcionários do Estado ou os que se candidatam a cargos públicos usem apenas o crioulo de Santiago tanto na fala como na escrita? Olha, estou a especular, mas não é destituída de sentido essa possibilidade. No entanto, duvido que haja sustentação científica em todo este processo, tal a pressa na sua implementação, pelas seguintes por estas duas razões essenciais:  não parece haver precedentes históricos que validem esta experiência; será difícil, se não impossível, interferir por via oficial nas variedades de crioulo faladas nas comunidades emigrantes, onde o de Santiago não é o mais representativo, uma vez que as mais importantes correntes emigratórias tiveram origem nas ilhas do Barlavento e no Fogo e na Brava. E não se esqueça da expressão demográfica da população emigrada ou radicada no estrangeiro.

Elísio:  ̶   O tempo passou depressa sem darmos por isso. Julgo que será melhor continuarmos a abordar o tema do ensino amanhã.

Filinto:  ̶  Por mim, tudo bem. Depois telefono-te.

Tomar, 12 de Março de 2015
Adriano Miranda Lima



6 comentários:

  1. Adriano mais uma vez parabéns por este excelente ensaio. Um dia CV te agradece

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  2. E continuamos à espera que os invisíveis se manifestem. Visitam os blogues (aqui e algures) mas poucos se dão ao trabalho de deixar um aceno ou mesmo "descompor" quando se sentem atingidos ou, simplesmente, quando discordam com o ponto de vista dos autores.
    No entanto ninguém ignora a violência verbal que abunda em certos sítios onde, na falta de face-à-face, alguns aproveitam para descarregar o bílis contra quem não compartilha as suas ideias, mesmo as mais extremistas ou "desenvergonhadas". Bem, isso é que não. Precisamos de presenças para que haja o que não existe entre nós - participação cidadã - porque, na sua falta, os malandros aproveitam da liberdade de expressão nos "jornais de borla" para nos enfiar o barret​e​, pensando que quem não participa capitulou


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  3. Conclui-se que nem com estes dois comparsas (o Filinto e o seu amigo Elísio) a dar o exemplo de interesse por um tema tão importante para a nossa terra, nem assim, dizia eu, os nossos patrícios aparecem a dar um ar da sua graça. Podiam perfeitamente arrastar uma cadeira e aproximar-se da mesa daqueles dois compadres que eles não se importariam. Cada um pagaria, claro, o seu puntchim, e a conversa poderia até ganhar mais animação. Não é preciso concordar, podem até dizer uns impropérios, pois que o importante é animar a malta. Com a abstenção é que não vamos a parte nenhuma. Depois, não venham dizer que não foram alertados. A não ser que a nossa gente goste de ser arrastada pela trela de um qualquer ditador ou déspota. Habituaram-se a isso com Salazar e depois com o partido único, e parece estar tudo anestesiado e pronto para a imolação. Se foi para isso que quiseram a independência, vou aí e venho já...

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  4. É meu entendimento que adoptar o crioulo no ensino seria um tremendo
    erro estratégico , com efeitos desastrosos no futuro.
    No quadro do processo, imparável, da globalização socioeconómica,
    países como a China ( com centenas de dialectos), Portugal, Angola,
    Moçambique, Timor, etc, e a UE no seu todo, (diversas línguas e
    dialectos) estão a lutar pelo ensino de línguas, como o inglês,
    chinês , alemão e francês, potenciando, assim, as suas
    capacidades de não só comunicarem entre si, mas, o mais importante, além de
    tais idiomas revelarem-se indispensáveis no âmbito da concorrência
    económico-financeira. Por exemplo, a China envia para diversos países,
    incluindo Portugal, milhares de estudantes para aprenderem a língua
    portuguesa, com olhos nos PALOP e na América do Sul.

    No que respeita ao crioulo, não é preciso ensiná-lo:nasce connosco e é com
    este instrumento que o cabo-verdiano exprime as suas emoções. É o seu
    padrão fundamental da nossa cultura.
    Dvo ter entre os meus papeis uma acta, de 1989, sobre uma reunião
    do PAIGC, numa "zona libertada" , onde consta uma recomentação do A.
    Cabral sobre a imperiosa necessidade do ensino do português, como
    meio fundamental de comunicação, não só na Guiné mas também noutras
    áreas do Globo.
    Não vejo como se poderá aprender outras línguas e matérias
    científicas, sabendo apenas o crioulo, ou não dominando o português.
    Isto aplica-se, ainda, à leitura dos clássicos gregos e romanos,
    indispensáveis para o enriquecimento da cultura humanista.

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  5. Acho extremamente criativa a forma que este blogue e o autor destes “diálogos” engendraram para abordar um tema que, tanto quanto me é permitido ver, é de magno interesse para os cabo-verdianos. Não intervenho neste assunto porque não sou cabo-verdiana e me inibo de meter o bedelho em problema alheio. No entanto, não posso deixar de dizer que são muito pertinentes as questões aqui afloradas e objecto de diálogo. É enorme o risco que se corre, é semeado de escolhos e imprevistos o caminho que se quer seguir. A opção por um gueto linguístico, ainda que muito caro à expressão cultural e sentimental de um povo, é qualquer coisa que não se coaduna bem com os actuais desafios da globalidade. Há momentos em que se tem de silenciar o apelo do coração para acudir ao ruído do estômago. E por aquilo que conheço de duas visitas turísticas a Cabo Verde, existem problemas naquele país que reclamam muito mais atenção do que o problema linguístico.
    Não sei porquê, mas adorei estes dois senhores, talvez por me invocarem o escritor Francisco Manuel do Nascimento, mais conhecido pelo pseudónimo de Filinto Elísio, um homem de origem humilde mas grande na sua visão do mundo em que viveu.
    Tiro-vos o meu chapéu pela inventiva e pelo empenho cívico.

    Margarida Lopes

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  6. Dizem que o doido se manifesta de qualquer maneira e eu digo que estupidez não tem limites.
    Quanto aos inventores de tamanho abacaxi nem aparecem para dialogar pois não têm argumentos e temem o confronto, preferindo. Como o doido, manifestam-se de forma invisível com esquivas que fazer lembrar o que diz o francês:

    - "La bétise est la réussite des ratés"

    Ema Rodrigues

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