domingo, 31 de maio de 2015

[1540] Fazer a morna

"O Galo Cantou na Baía" (1.ª edição, 1959, ed. Orion, Lisboa) - Manuel Lopes


Guarda Toi [da Alfândega] não tinha sono essa madrugada. Porque não tinha sono o guarda Toi? Há neste mundo tanta coisa capaz de nos arrancar o sono dos olhos...

Nunca Toi se sentira tão bem disposto como nessa madrugada. Trazia uma espécie de euforia no coração. Isso também tira o sono. No dia seguinte, entre rapaziada amiga, no reservado da Salibânia, Toi diria ao camarada guarda Jack da Inácia: "Sorte, moço, dois job na boca de taco. Acabava precisamente de fazer uma morna". 

Toi não tinha sono, Quem ignora que a inspiração tira o sono como qualquer dor de cabeça ou barriga? Ou melhor, de acordo com a nomencltura do próprio Toi, como a dor de parto? Uma inquietação formigava-lhe no espírito, coisa parecida com a inspiração. Talvez fosse inspiração, porque Toi - todo o mundo sabia - era fazedor de mornas, e as mornas que ele fazia eram dançadas uma semana depois de nascidas (Toi afirmava que as paria) em todos os bailes da cidade. Toi tinha uma equipa de propaganda bem instruída. Morna nova de Toi era coisa boa, era o delírio.

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