sexta-feira, 10 de julho de 2015

[1577] A vil "queda" de Camões

E foi assim que num dia de 1974 ou 1975 um bando de ignorantes (chamar-lhes "revolucionários" seria exagerado elogio; pelo contrário, apelidá-los de "seguidores" do pai da nação, teria teor de significativa ofensa a este - não foi ele quem disse “A língua portuguesa é uma das melhores coisas que os portugueses nos deixaram”?) fez cair Luís Vaz do pedestal onde de há muito via com o seu olho único os milhares (milhões) de passantes que "ta rudiá" Praça Nova lhe faziam companhia diária (sobretudo nocturna). 

Esses mesmos, ou outros por eles, logo depois, aperceberam-se da supina asneira e com todo o esmero repararam o mal feito. Luís Vaz lá voltou então ao pedestal onde, com duas orelhas atentas, ouve o povo do Mindelo falar tanto português como crioulo, ambas música celestial para os seus ouvidos de poeta máximo da lusitanidade. Resumindo: tudo está bem quando acaba em bem. 

Praia de Bote, que anda sempre à caça e já desesperava por não ter provas visuais do crime de "lesa Luís", deu finalmente com um postal ilustrado onde se vê o pedestal sem o vate. Ele aqui fica, como memória de uma tonteria dos tempos de chumbo, remediada pela inteligência dos mindelenses.

Pormenor do postal acima reproduzido
Nota: nem falamos de Sá da Bandeira, atirado ao chão por ser o horrendo patife que eliminou a escravatura, Adriano Duarte Silva o ignominioso vilão que fez tudo para haver um cais acostável moderno em São Vicente, José Lopes, irritante por ser um dos melhores poetas das ilhas e Diogo Afonso que só merecia derrube por ter cometido o crime de ter povoado ilhas desertas... Claro que também nestes casos os mindelenses de bom senso deram mais tarde significativa lição de grandeza, repondo as figuras nos mesmos locais ou até em melhores enquadramentos (caso de Diogo Afonso).


5 comentários:

  1. Segundo julgo saber, o busto foi retirado mas para colocarem um olho de vidro ao poeta coisa que, afinal, não existia no mercado e o meio-cegueta voltou ao poiso, a ver o mundo com um só olho...Coisas da "estória"...
    Braça, com catarata
    Zito

    ResponderEliminar
  2. Nem sequer sabiam distinguir os verdadeiros que fizeram Cabo Verde antes de Abril/74 e foi um vandalismo inadmissivel.
    A onda avassaladora era constituída essencialmente de ociosos e/ou candidatos a "Che's" e "Fidel's" que envergonharam o próprio partido que os motivou e não os ensinou o bom comportamento. Seja como for, isso demonstra que tudo foi feito depressa e a martelo, sem programa, sem ferramenta.

    ResponderEliminar
  3. Caro anónimo que começou a sua frase por "e se não houver cuidado da parte da gente de S.Vicente", como sabe (está ali escrito ao lado), o Praia de Bote não aceita comentários anónimos e suspeita de nomes desconhecidos... Neste sentido, convido-o a repetir o seu comentário com o seu nome.

    Braça de simpatia,
    Djack

    ResponderEliminar
  4. É sempre bom relembrar o desvario que subitamente tomou conta da nossa terra e que misturou alhos e bugalhos na hora em que as mentes tinham de estar serenas e lúcidas porque estava em causa o nosso destino colectivo. E a prova concreta de que houve excessos inaceitáveis e jamais justificáveis é o retorno posterior dos bustos e das estátuas aos seus devidos lugares.

    ResponderEliminar
  5. O PAI perduou-nos pois não sabísmos o que estávamos a fazer. Costuma-se dizer que a igonrância é atrevida, mas neste ano de 1974 cometeram-se sacrilégios e crimes perdoáveis ou imperdoáveis não sei qual das palavras é a mais exacta, mas acho que desde que haja arrependimento o perdão é a melhor solução. O problema é que há ainda gente que precisa de tomar mais distância com a história da 'humanidade'

    ResponderEliminar