quinta-feira, 9 de julho de 2015

[1576] Memórias de Cristal (2)

PELO 93º ANIVERSÁRIO DA MINHA MÃE

Adriano Miranda Lima
Mãe, por momentos, pensei que, hoje, dia 9 de Julho, não iria enviar-te um beijo, pelo teu aniversário natalício. Claro, sempre admiti, com insuportável mágoa, que alguma vez esse dia ia acontecer.

Mas não me conformei, montei uma cilada à Fatalidade, armando-me com a música do verbo e a veemência do sentimento. E, por estranho sortilégio, trocaram-se as voltas à Fatalidade: o rouxinol fechado numa gaiola de fogo continuou, indiferente, a entoar o seu lindo canto; escreveu-se na água a palavra memória e ela permaneceu legível e inalterável como se gravada com cinzel na pedra dura. Depois, dei comigo a voar, qual pomba pressurosa, entre os dias 1 e 9 de Julho, espalhando flores pelo caminho. Desliguei a voz das palavras e deixei que por um instante elas fossem simplesmente flores e, livres, escolhessem os seus vasos de cristal. E então percebi que a corola de uma rosa contém a graça genesíaca de acordar as vozes adormecidas na incerteza do amor ou na incontinência do esquecimento. Esquecimento…esse buraco negro que tragicamente suga o amor.

Por isso é que o meu beijo deste ano para ti, Beza, tem o coração de uma estrela, a sua luz radiosa e a força ígnea do seu núcleo. É uma estrela que construo sob o signo de Julho e ilumino com uma acendalha de fé. Ninguém será capaz de ofuscar a luz dessa estrela, porque ninguém conhece a incandescência do fogo como um filho de Julho. E nada consegue deter essa estrela porque a palavra nada não existe no vocabulário de um sonho. Coração de estrela, esse beijo é também a coroação de um desejo, o mais sentido.

Sim, Mãe, este ano será o de todos os teus aniversários, os do teu passado de menina e moça, os da tua maturidade, e os da tua eterna presença nas luzes que todas as noites acendemos. Antes de a noite chegar, já és luz; antes de as nossas luzes fenderem a escuridão, já és a maior e a mais brilhante luz no trânsito das nossas vidas.

Tomar, 9 de Julho de 2015
Adriano Miranda Lima

8 comentários:

  1. As boas palavras são raios de luz que penetram na alma de cada filho que reconhece o sacrifício de uma Mãe. E estas mais singelas que utiliza o Adriano são como o ouro que não sofre as agruras do espaço e do tempo e que não voam porque se transformaram em escrita sempre que fica para eternizar os sentimentos mais nobres que não desaparecem enquanto se viver.

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  2. Agradeço o teu gentil comentário, Val. Esclareço que sou efectivamente um "filho de Julho", como digo no texto. É que nasci no dia 1 de Julho, razão por que a "pomba pressurosa" viaja precisamente entre 1 e 9 de Julho.

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  3. Ana Cristina Mendes Lima9 de julho de 2015 às 13:31

    Não tenho palavras, o papá já as disse todas! Como filha e neta só posso dizer que me orgulho muito de descender de tão louvável família! Este sentimento intensificou-se, ainda mais, quando estive em São Vicente há três anos para comemorar os 90 anos da nossa Beza. Era como se já lá tivesse estado, toda a envolvência daquele lugar me era familiar. Certas coisas não se explicam, sentem-se!

    A ti, minha querida Beza, um beijo no teu coração!

    Ana Lima

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  4. Costumamos dizer em CV que o 'amor de mãe' é único. Esta frase traduz tudo a ligação umbilical que perdura até ao fim da vida. Bravo Adriano por exprimires este sentimento tão puro e os partilhares com os amigos

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  5. Bonita homenagem. Deixo uma rosa amarela. À sombra dessa saudade. Por saudade igual. 93 fez minha mãe também, em janeiro.

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  6. Quando minha mãe morreu, tinha eu 65 anos....Nessa idade, com pais vivos, a gente acaba por convencer-se de que eles são eternos e, quando se vão, a dor é mais profunda, mais dorida...Depois, lentamente, voltamos a acreditar que pai e mãe, não morrem, apenas se ausentam, físicamente!
    Como eu gostaria de ser o Adriano e fazer versos destes àquela a quem chamava "mãezinha"...
    Obrigado, amigo, pelos momentos de tão rara beleza...
    Braça
    Zito

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  7. Parabéns querida avó. Onde quer que estejas esta tua neta esteve contigo.
    Parabéns papá pelas palavras que tão bem expressam a beleza do sentimento, puríssimo, que é o de um filho pela sua mãe.

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  8. Que bela manifestação de amor maternal.

    " Amo como amo o amor... Não conheço nenhuma outra razão ara amar senão amar...
    que queres que te diga, além de que amo... Se o que quero dizer-te é que te amo?

    Fernando Pessoa

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