sábado, 9 de janeiro de 2016

[1796] O fim do "Andalusian" nas águas de Cabo Verde

Ocorrência 11 - O "Andalusian"

(ver dez anteriores ocorrências, em posts já lançados do Praia de Bote; clique na etiqueta Ocorrência, mesmo no final deste post)

Luís Filipe Morazzo
Continuando na esteira dos navios que tragicamente durante o percurso da segunda guerra mundial, acabaram os seus dias em águas cabo-verdianas, vítimas na sua maioria de ataques desferidos por submarinos, vamos tentar perceber o que aconteceu a um outro comboio, o SL-68, que entre os dias 17 e 21 de Março de 1941, ao navegar nas mesmas águas do SL-67, a cerca de 110 milhas a N das ilhas de Cabo Verde, foi selecionado como mais um dos alvos destes temíveis predadores de navios.

Este comboio, que tinha zarpado de Freetown, Africa do Sul, a 13 de Março de 1941, com destino a Londres, era composto por 58 navios de várias nacionalidades (gregos, ingleses, franceses, holandeses, noruegueses, suecos, romenos). Quase todos os aliados estavam aqui representados e devido aos fortes ataques a que foi sujeito durante o percurso, foi obrigado a dispersar os seus navios, após ter perdido oito dos seus componentes, vítimas de ataques sucessivos executados pelos submarinos U-105 e U-106.

O Andalusian
A primeira vítima tratou-se do cargueiro inglês Andalusian, com um deslocamento bruto da ordem das 3636 toneladas, construído em 1918, propriedade de um dos mais famosos armadores ingleses, a Ellerman Lyne de Liverpool.

O submarino U-106 logo que avistou o comboio SL-68 lançou na direção dos seus navios quatro torpedos. Somente dois tiveram sucesso, após atingirem os cargueiros inglês Andalusian e o holandês Tapanoeli que de imediato começaram a adernar fortemente a bombordo e afundar lentamente.

O Andalusian foi atingido entre os porões 1 e 2, às 21h07, do dia 17 de Março de 1941. Trazia um carregamento completo de cerca de 4000 toneladas de cacau em grão nos seus porões. A sua tripulação era composta por 42 homens. Todos eles conseguiram abandonar o navio em segurança em duas baleeiras, tendo uma delas, ao fim de 21 horas de navegação à vela, com 23 dos náufragos a bordo, sido resgatada pelo paquete português Niassa, que os transportou de seguida até ao Funchal. A outra baleeira com os restantes 19 sobreviventes, ao navegar na direção oposta da primeira, veio a encontrar circunstancialmente as duas baleeiras do Tapanoeli, com as quais acabaram por fazer rumo à ilha da Boavista, onde arribaram a 20 de Março de 41. Após uma estadia de três dias, durante os quais foram muito bem recebidos e acarinhados por todos os nativos da ilha, conseguiram embarcar no navio português 28 de Maio que os transportou até ao Mindelo na ilha de S. Vicente, onde desembarcaram todos sãos e salvos a 23 de Março de 1941.

6 comentários:

  1. É entusiasmante seguir estes relatos do Luís Filipe Morazzo, como bastas vezes tenho dito.
    Desta vez, a história envolveu mais directamente as nossas ilhas, designadamente a da Boavista e a de S. Vicente, portos de salvação para as tripulações de dois dos navios afundados.
    O Andalusian, mostrado na fotografia, era um navio de linhas elegantes, apesar da sua idade. Imaginem, ia carregado de 4.000 toneladas de cacau em grão. Se os comandantes dos submarinos soubessem da natureza da carga, provavelmente não o teriam afundado, pois é sabido que os alemães são bons consumidores de chocolate.
    Mas estou aqui a falar sozinho, porquê? Tenho achado estranho que os mindelenses (estou a falar dos habituais) se ausentem de comentar os posts desta série. Nem o remador-mor aparece sempre... Uma que outra vez, já me senti como um náufrago de um desses navios torpedeados, único sobrevivente a remar solitariamente dentro de um bote. Espero que desta vez surjam por aí mais uns botes com sobreviventes, como aconteceu nesta história aqui contada.

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  2. Talvez se o Morazzo aparecer a comentar os restantes posts haja mais familiaridade por parte dos "habituais". Parece-me que como ele não tem escrito nada nos comentários, os restantes escribas se sentem pouco tentados a vir aqui falar destes importantes acontecimentos das nossas ilhas e sobretudo dos nossos mares. Afinal de contas, o Morazzo já faz parte da família praiabotística e será tão bem-vindo com comentários como é com os seus posts de naufrágios.

    Braça comentarista,
    Djack

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    1. Caro Joaquim Jack

      Se reparar melhor já fiz alguns comentários em posts anteriores, porque como é meu timbre, costumo sempre responder às perguntas que os leitores me colocam. Caso não haja questões colocadas pelos leitores, como tem sido infelizmente o hábito, vou comentar o quê?
      Se houver alguma dúvida, alguma questão que queira colocar, sobre o tema que tenho estado a postar, não hesite em perguntar o que quer que seja, terei muito prazer em tentar esclarecer a si, ou qualquer outro leitor do “Praia de Bote”.

      Com os melhores cumprimentos
      Luis Filipe Morazzo

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    2. O que eu queria dizer é que todos nós podemos comentar todos os posts (ou, pelo menos, uma parte deles), tal como eu faço no Arrozcatum, no Esquina do Tempo e no Café Margoso. Os blogues vivem sobretudo de duas coisas: de posts que queremos da melhor qualidade possível (e os seus são mais que interessantes) e de comentários de terceiros. É claro que não podemos comentar tudo mas aqui e além é bom.

      Sempre bem-vido,
      Djack

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    3. Caro Joaquim Djack

      Como sabe tão bem como eu, cada bloguista costuma colocar o seu cunho pessoal nos seus trabalhos. No meu caso, tenho o hábito de editar os meus posts com algum detalhe, a fim de proporcionar aos leitores algum material, no qual se possam basear para poderem eventualmente colocar alguma questão.

      Um abraço
      Luis Filipe Morazzo

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  3. Não deixa de ser de admirar a variedade e quantidade da colecção de ocorrências da história trágico-marítima da era moderna que o Morazzo nos relata com uma soma de pormenores que lhe emprestam uma autenticidade de pedaços da História que, em boa hora, ele decidiu preservar...Bela inikciativa, amigo!
    Braça nautico
    Zito

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