sábado, 16 de janeiro de 2016

[1809] Mais um afundamento nas águas de Cabo Verde, durante a II Guerra Mundial

Ocorrência 12 - O "Tapanoeli"

(ver onze anteriores ocorrências, em posts já lançados do Praia de Bote; clique na etiqueta Ocorrência, mesmo no final deste post)

Luís Filipe Morazzo
Desde o início deste meu trabalho, tenho vindo a falar continuamente sobre os perigosos U-Boats, temível arma na qual os alemães apostaram fortemente em ambos os conflitos mundiais, mas mais em particular durante a última contenda (1939-1945).

A principal diferença, é que na Primeira Guerra Mundial (1914-1918) a marinha alemã tinha uma esquadra naval de superfície muito mais poderosa, constituída por (couraçados, destroieres, cruzadores) do que ocorreu na Segunda Guerra Mundial, onde os U-boats tiveram de arcar com a luta praticamente sozinhos, sendo o maior trunfo do país na luta em alto-mar.

Para dar uma ideia da radical mudança de estratégia alemã nos dois conflitos, apenas 375 U-boats foram utilizados na primeira guerra, contra 1153 utilizados na segunda. Assim, é na segunda guerra que a ação dos submarinos alemães alcançarão um destaque enorme e por muito pouco, quase que conseguiam alterar o curso da guerra, caso não fosse o peso da máquina militar dos americanos, em particular, a partir de 1943, ter começado a ajudar a inverter os pratos da balança, despejando nos principais teatros da guerra, todo o tipo de armamento, juntamente com milhares de navios, aviões e homens, o desfecho final teria sido seguramente outro. 

Não foi em vão que o famoso primeiro ministro inglês Winston Churchill no final da guerra, nas suas memórias, descreveu os "U-Boats", como a maior de todas as ameaças à vitória final dos aliados, sobre o nazismo. Os relatórios mensais falavam por si, as médias dos afundamentos de navios mercantes até ao início de 43, rondava o incrível número das 50 unidades. Se quisermos comparar o incomparável, a marinha mercante portuguesa, em setembro de 1939, início da segunda guerra mundial, era composta por 61 navios de longo curso (navios com tonelagem bruta superior a 500 ton.)

A Inglaterra foi salva in extremis da tentativa de bloqueio naval pela Alemanha, mas não sem pagar um preço elevadíssimo: além do afundamento de 2426 navios mercantes e da perda de mais de 13,5 milhões de toneladas de carga, 55% de toda a sua marinha mercante existente no início da guerra, foi dizimada pelos submarinos do eixo (Alemanha, Itália e Japão) e cerca de 40.000 dos seus mais capazes marinheiros morreram enquanto serviam a pátria.

O "Tapanoeli"

Como vimos na descrição do ataque ao mercante inglês Andalusian, efetuado entre as 21h07 e 21h10, do dia 17 de março de 1941, Jurgen Oesten, comandante do U-106, disparou quatro torpedos individuais em direção aos navios do comboio SL-68, que navegava a cerca de 110 milhas a leste das ilhas de Cabo Verde, depois de ter ouvido quatro detonações, reivindicou três navios com 21.000 toneladas de arqueação bruta afundados e outro com 7000 toneladas de arqueação bruta danificado, embora apenas dois sucessos tivessem sido observados naquela noite muito escura.

Na verdade, foram apenas dois, os navios atingidos pelo U-106: o inglês Andalusian, que já vimos na última ocorrência e o holandês Tapanoeli, um grande cargueiro, propriedade do armador Rotterdamsche Lloyd NV (W. Ruys & Zonen), Rotterdam, com um deslocamento bruto da ordem das 7034 toneladas. Levava nos seus porões um carregamento completo de farinha de tapioca, chá, sementes e carga geral, estava armado com um canhão de 4.7 polegadas e uma metralhadora e foi atingido em cheio a estibordo no porão n.º 1.

A explosão destruiu o castelo de proa, arrancou as tampas das escotilhas e várias peças da carga foram espalhadas em todo o navio. Toda a tripulação composta por 65 homens abandonou o cargueiro em dois botes salva-vidas, depois de ter parado os motores e ter enviado um sinal de socorro no preciso momento em que o navio começou a afundar rapidamente pela proa, acabando por desaparecer por completo nas profundezas do oceano, cerca de 20 minutos depois de ter sido abandonado. 

Devido a um mal-entendido entre o imediato e o comandante, os documentos confidenciais foram deixados para trás na cabine do último. As duas baleeiras do Tapanoeli acabaram por fazer rumo à ilha da Boavista. Durante a derrota em direção a esta ilha, encontraram uma das baleeiras do Andalusian, com a qual navegaram em conserva, até arribarem à ilha, a 20 de março de 41.

Após uma estadia de três dias, durante os quais foram muito bem recebidos e acarinhados por todos os nativos da Boavista, conseguiram embarcar no navio português 28 de Maio, que os transportou até à cidade do Mindelo na ilha de S. Vicente, onde desembarcaram todos sãos e salvos, juntamente com 19 outros náufragos do Andalusian, a 23 de março de 41. Todos foram mais tarde repatriados a bordo de um mercante inglês de passagem pelo Mindelo.

2 comentários:

  1. Mais um excelente episódio. Aos poucos, vamos reunindo material importante para os nossos arquivos pessoais sobre a guerra do Atlântico. Apareçam mais comentadores para, em conjunto, trocarmos impressões e dialogarmos sobre este tema.

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  2. Pena os visitantes continuarem a portar-se como invisiveis pois o trabalho merece uma palavrinha de encorajamento aos homens de boa vontade que fazem funcionar esta PdB.
    Sabia das grandes perdas que os Alias sofriam pois os U-Boat's obrigaram alguns nàufragos a passar por CV mas estava longe do que sucedeu realmente.
    Podem estar certos que voltarei sempre à(s) Praia(s).

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