quinta-feira, 28 de janeiro de 2016

[1837] O afundamento do "Memnon"

Ocorrência 13 - O "Memnon"

(ver doze anteriores ocorrências, em posts já lançados do Praia de Bote; clique na etiqueta Ocorrência, mesmo no final deste post)

Luís Filipe Morazzo
Auxiliados pela máquina codificadora Enigma, que transmitia informações sobre a localização dos navios militares e cargueiros inimigos, os U-boats, devido a esta ajuda suplementar, foram responsáveis pela maior parte das vitórias da Alemanha nazi no mar.

Já ficámos a saber que uma das estratégias envolvendo os submarinos alemães, era a chamada, “Alcateia de Lobos”. Com este estratagema os submarinos alemães faziam um cerco aos comboios que trafegavam no Atlântico Norte, atacando-os sempre que possível com a máxima força e de várias direcções, com o objectivo de provocar o maior número de baixas no inimigo.

Com este propósito, o primeiro submarino que detectasse a existência de qualquer concentração de navios hostis, logo de imediato deveria comunicar ao seu quartel-general em Berlim, as coordenadas da localização dos navios inimigos, o qual por sua vez, iria tentar concentrar o mais rapidamente possível, o maior número de submarinos existentes naquela área do oceano, em que o comboio naval acabou de ser detectado, 

O equipamento que utilizavam para enviar as tão importantes coordenadas da eventual posição dos navios inimigos, era precisamente o Enigma. 

Duas situações concorreram para que o Enigma pudesse finalmente ter sido decifrado: a primeira, a apreensão acidental de uma das máquinas que estava a bordo do U-110. Este submarino ao envolver-se numa feroz batalha, a 9 de Maio de 41, contra o comboio OB-318, quando este se encontrava a leste do cabo Farewell (Gronelândia), foi obrigado a emergir após ter sido alvo de fortes ataques da parte dos navios escoltadores HMS Aubretia e HMS Broadway. A rapidez com que a tripulação destes navios efectuou a apreensão do submarino U-110 impediu, não só, o afundamento deste, mas também, a captura de uma das famosas máquinas Enigma. 

Este acontecimento foi um dos segredos mais bem guardados de toda a guerra. De tal modo foi assim, que os alemães somente tiveram conhecimento da captura de uma das suas máquinas Enigma, vários anos após o termo da guerra. A segunda situação, a presença física do Enigma nas mãos dos aliados, veio facilitar e muito, o trabalho que o matemático inglês Alan Turing e a sua equipe do Bletchley Park andavam a desenvolver desde o início do conflito, na tentativa de decifrarem o código desta máquina.

O "Memnon"
Vamos de novo falar sobre um dos mais bem-sucedidos submarinos da II Guerra Mundial, o U-106. Já o vimos quando do ataque ao comboio SL-68. Desta vez vamos conhecer os detalhes do ataque efetuado ao Memnon, belíssimo cargueiro inglês, a navegar isoladamente, a cerca de 200 milhas a leste da ilha da Boavista, em 11 de Março de 1941. Este navio, propriedade de uma das maiores e conceituadas firmas inglesas, a famosíssima Blue Funel Line, apresentava um deslocamento bruto de 7500 toneladas. Construído em 1931, em Dundee (Escócia), transportava nos seus porões um carregamento maciço de 3000 toneladas de trigo, 3200 toneladas de concentrado de zinco e ainda 2000 toneladas de carga geral, tudo isto carregado em Port Pirie (Austrália) e em Freetown (Africa do Sul), com destino marcado para Liverpool e Avonmounth (Inglaterra).

O capitão do Memnon, John Williams, desconfiado da presença de U-boats naquela área do oceano, na tentativa de dificultar a vida a qualquer comandante de submarino, deu ordens ao seu timoneiro para navegar em ziguezague, mantendo a velocidade máxima nos 16 nós. Eram 15h46, de 11 de Março de 1941, quando o Memnon mesmo com todos estes cuidados foi atingido no lado estibordo debaixo do mastro à popa entre os porões n.º 5 e n.º 6 por um torpedo G7E lançado pelo U-106. O tempo estava claro e o mar moderado com um swell pesado, encontrando-se o navio, a cerca de 200 milhas a leste da ilha da Boavista. 

Os 62 membros da tripulação, dois artilheiros (o navio estava armado com um canhão de 4 polegadas, um outro de 12 e uma metralhadora) e seis passageiros (pessoal da RAF- Royal Air Force) abandonaram o navio em dois botes salva-vidas Os dois operadores de TSF, foram os últimos homens a deixar o navio. Após o envio de um sinal de socorro, foram apanhados pelos salva-vidas depois de terem saltado para o mar. O Memnon afundou pela popa cerca de 15 minutos depois de ter sido atingido no lado de estibordo, por um segundo torpedo G7E lançado como golpe de misericórdia, eram 15h47. 

Quatro membros da tripulação foram perdidos durante a operação de abandono do navio por afogamento. Os restantes 66 náufragos, repartidos em duas baleeiras, respetivamente 22 e 44, decidiram navegar com rumo a Dakar (Senegal). Após 6 dias a navegar com mar muito pesado, a baleeira com os 22 náufragos, chegou ao largo de Dakar, em 21 de Março, onde um pescador local os ajudou a desembarcar em Yoff (Norte do Senegal) onde todos os 22 sobreviventes foram rapidamente levados para um hospital devido ao seu estado debilitado. 

O outro barco salva-vidas a cargo do capitão chegou à costa na latitude da foz do rio Senegal, a 20 de Março. No mesmo dia um ocupante morreu de subnutrição e foi sepultado no mar. Um pescador local tentou guiá-los através da barra de areia. No entanto, como o mar provou ser muito perigoso, eles decidiram avançar para Dakar, onde chegaram à saída do porto durante a manhã de 23 de Março

Todos os sobreviventes em Dakar foram internados pelas autoridades francesas de Vichy, (regime aliado dos nazis). Após 25 dias, todos os sete sobreviventes chineses foram autorizados a atravessar a fronteira para Bathurst (Africa do Sul) juntamente com o mestre, chefe de máquinas, contramestre e um outro membro da tripulação. Apenas 14 homens em idade militar, incluindo um artilheiro e três passageiros, foram levados para um campo de internamento em Koulikoro no Sudão francês. Em 29 de Maio de 1941 todos os internados foram levados para Kaolack (Cidade a sul do Senegal) e obtiveram permissão para seguirem para Bathurst em troca de dois galões de gasolina e sete prisioneiros franceses por cada um dos britânicos.

4 comentários:

  1. O entusiasmo para visitar o Praia de Bote e as suas estôrias da Histôria é o mesmo.
    Venham mais epîsodios dessa grande catàstrofe de que me restam lembranças ainda. O seu interesse pela marinha parece predominante. Quanto a mim, empolga(va)-me mais o que se passava com os espîões e o trabalho dos MI's.
    Lembro-me ainda de dois funcionàrios que actuavam como membros de um dos MI's e de um "correspondente" (antigo comandante da marinha britânica) com as funções oficiais de Consul de S.M.
    Força !!!

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  2. Verdadeiramente empolgante. Apenas uma coisa fica por esclarecer. Os aliados apoderaram-se da máquina de cifra - "Enigma"- e o facto foi mantido em rigoroso segredo, como se impunha. Deduz-se assim que a tripulação do submarino, onde foi capturado aquele equipamento, deve ter sido mantida em prisão de alta segurança até terminar o conflito, sem o que provavelmente a notícia da apreensão do material teria chegado ao conhecimento dos alemães.

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    1. Caro Adriano Lima
      Agradeço mais uma vez o seu interesse, sobre este meu trabalho que relata acontecimentos da Segunda Guerra Mundial nos mares de Cabo Verde. A máquina Enigma parecia uma simples máquina de escrever robusta, mas podia gerar mais de dez trilhões de combinações. Não admira que os alemães considerassem o seu código indecifrável. Quando uma destas máquinas foi capturada, a bordo do U-110, transformou-se no segredo mais bem guardado de toda a guerra, como já foi dito na peça. Duas foram as razões que concorreram para que esse segredo se mantivesse durante vários anos: o primeiro, o juramento de honra que as tripulações dos navios ingleses envolvidos na captura do enigma e respetivos livros de códigos, tiveram de fazer, sob pena caso não o respeitassem, de serem condenados em tribunal de guerra, ao pelotão de fuzilamento. A outra razão deste sigilo, foi o cativeiro dos 32 sobreviventes do U-110, terem sido mantidos completamente incomunicáveis, numa das prisões mais bem seguras de Inglaterra, até cerca de 1950 (cinco anos após o termo da guerra)

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  3. Agradeço ao Luís Filipe Morazzo o precioso esclarecimento. Já esperava que tivessem tomado medidas deste rigor que nos é descrito. Que venha o próximo episódio.

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