segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

[1855] 16.000 mortos, duas linhas de jornal e a estátua de um Rei a cavalo

O Rei José ainda lá está, em bronze, no lisboeta Terreiro do Paço, virado ao Tejo. Monta o seu cavalinho, em aparato de armadura anacrónica que nunca usou, com cara que o escultor teve de idealizar, ajudado por gravuras e pela efígie da moeda de real..., por o monarca nunca lhe ter mostrado a face... de carne. Um dinheirão custou a obra, cuja longuíssima história aqui não contamos nem as desditas do escultor Machado de Castro, incluindo as do dia de inauguração, em 6 de Junho de 1775. O infindável depósito de informação da Internet esclarecerá o leitor mais interessado no assunto.

Ora, que terá a estátua a ver com a repescagem de uma notícia de duas linhas pelo jornal "The Mechanicville Mercury" desta pequena localidade do estado de Nova Iorque, datado de 16 de Novembro de 1888?

É que o periódico (como já referimos) lembrava a grande fome de 1775 em Cabo Verde, em que, segundo ele, haviam morrido 16.000 almas. 

Ou seja, enquanto em Lisboa se inaugurava uma estátua de luxo (aliás, a primeira pública no país), nas ilhas esquecidas morriam milhares de cabo-verdianos. Claro que o Rei se estava nas tintas para tal desdita. Queria ele lá saber da triste colónia, mais interessado que estava em paixonetas secretas. Quanto ao Pombal, o ministro que o servia, esse malandro/genial, esse sacana/empreendedor, esse assassino/inovador, também não se deixou emocionar. Outro que tinha mais que fazer...

Lembremo-nos então, quando por ali passarmos, que enquanto o povo de Lisboa dava vivas ao Rei que, receoso de atentados, assistia à inauguração escondido numa sala do andar superior do Terreiro, em Cabo Verde havia gente a morrer à fome. Exercício fácil de fazer...





5 comentários:

  1. Quero acreditar que, em 1775, a circulação das noticias seria coisa bem lenta...Afinal de contas, o periódico americano refere o facto 113 anos depois de acontecido e nem se trata de uma efeméride o que, não minimizando as culpas, espelhará a dificuldade que haveria em exercitar mecanismos de ajuda a populações à distância de meses de navegação o que, no entanto, nada tem a ver, claro, com a eventual falta de vontade e de interesse do Reino!

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  2. Saber isso, mesmo agora, causa-me constrangimento. Essas noticias deviam servir para acalmar a ganância de alguns e fazê-los compreender que não têm nenhum espirito de sacrificio nem consegue fazer um Plano. Quando falo de sacrificio não me refiro a doar o que ganham mas lembrar que todos têm estômago e direito ao minimo para a subsistência.
    Se o nosso sol brilha para todos, até estrangeiros, deviamos fazer com que os dividendos beneficiassem o maior nùmero possivel de concidadãos.

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  3. Quanto a cavaleiro, rezam as más línguas da história (ou as suas notas de rodapé) que D. José o era mais de outra espécie de animal, dito racional. Um fraco e irresponsável rei que teve a sorte de ter um grande governante, Pombal, que até se inspirou em certo iluminismo. Mas um iluminismo à medida da sua visão pessoal e ferido de morte pela sua falta de escrúpulos. Não dava para sequer ler as notícias que vinham de Cabo Verde, quanto mais para retribuir com mantenhas.

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  4. A tragédia da fome em CV espelha o abandono que Lisboa votou a colónia. 200 anos depois da tragédia CV tornou-se independente

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  5. Estou com o nosso querido Zito no seu entendimento que tudo isso, a que ele se referiu, tudo conjugado acaba por explicar a situação vivida; embora não retire o mal-estar que causa saber (ainda que a séculos de distância) o que de trágico se passava aqui nas ilhas, em simultâneo. E tão realisticamente descrito no texto.
    Abraços
    Ondina

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