terça-feira, 16 de fevereiro de 2016

[1895] Um documentário sobre as ilhas e sobre os filhos das ilhas na América

Já conhecíamos este filme que agora nos chegou de novo pela mão amiga da Ondina Ferreira, com texto acoplado, assinado por "Gilopes". Eis, pois, filme e texto, que ambos valem a pena. Como o primeiro é muitíssimo pesado, não conseguimos colocá-lo directamente mas deixamos um AQUI, onde se pode ir até ele...

"Abram o site abaixo para apreciarem filmagens preto-branco de Cabo Verde em 1937

Com efeito, não se trata de um documentário sobre Cabo Verde na sua globalidade mas antes de uma coleção de múltiplos documentários desgarrados.

Das duas horas de projecção anunciadas, só interessa ver sobre Cabo Verde os primeiros 3/4 de hora datada de 1937.

Aliás só se vêem três ilhas: Depois de 3 minutos iniciais com a viagem, repartem mais ou menos 9 minutos para S.Vicente, 6 minutos para S.Nicolau e os restantes 25 minutos são da Ilha Brava. 

Tudo acaba ao minuto 44' 05".

Ao minuto  44’19” regista-se o regresso aos Estados Unidos de uma família cabo-verdiana de férias na ilha Brava.

A partir daí e durante ½ hora, os documentários já nada têm a ver com as ilhas mas com o quotidiano da vida de emigrantes cabo-verdianos, à época praticamente todos da ilha Brava, nos Estados Unidos. Registam imagens dispersas, uma ‘seca’ de casamentos pelo meio de cenas díspares de piqueniques, desportos, desfiles, passeios, passagens de modelos, entre 1938-1939. A partir de o momento 1H 16 minutos começam as cenas a ser em colorido.

Terminados os documentários da diáspora, e despropositadamente repetem na integra o os documentários iniciais já vistos, sobre as ditas três ilhas.

Portanto, verdadeiramente, de mais interesse é o registo de 1937 daquelas três ilhas, que ocupa, como já disse, os primeiros 44 minutos. O resto é relativamente supérfluo !

Eu já conhecia esta filmagem mas de há longo tempo atrás e relembrei um dado verdadeiramente interessante e histórico sobre S.Vicente. 

Ao minuto 07’08”, vê-se durante um minuto os “Sokols” ou “Falcões” que era em S. Vicente, uma organização juvenil cívico-militar protonacionalista criada e treinada por um cidadão checo nos anos 30, muito antes de surgir a Mocidade Portuguesa em Portugal. Sokol quer dizer Falcão na língua checa. 

Esta organização estendeu-se a outras ilhas nomeadamente ao Fogo onde teve grande implantação. Era, à época, pode-se dizer como que a ‘Mocidade Cabo-verdiana’. 

Contaram-me os mais antigos em S.Vicente que aquando da visita do Presidente Carmona a Cabo Verde, em Junho de 1939, os ‘Sokols’ que não conseguiram mostrar uma atuação em S.Vicente por onde começou a visita presidencial, deslocaram-se com um pelotão à cidade da Praia. Lograram integrar a programação oficial, a título extra, depois dos normais desfiles militares no estádio de futebol em honra do Presidente.

A atuação dos “Falcões” deixou os portugueses simplesmente siderados de espanto pois nunca antes tinham visto um pelotão auto-comandado. Os “sokols “ de S. Vicente apresentaram em parada formações complexas, ora de movimentações cruzadas, ora desenhando figuras em movimento e terminando com formações de letras dizendo ‘Viva Presidente Carmona’ e depois ‘Viva Portugal’, tudo apenas ao som de música sem ninguém a assumir o comando das operações.

As publicações sobre a viagem e a imprensa da época não abordaram, compreensivelmente, aquela atuação dos “sokols”.

Embora já existisse na altura dessa viagem a “Mocidade Portuguesa”, organização criada em 1936 em Portugal, esta não se estendia aos jovens das colónias. Não é casual que venha a ser implantada nas colónias a começar por Cabo Verde nos finais de 1939. 

Escusado será dizer-se que a par da imposição da Mocidade Portuguesa em Cabo Verde, por decreto foi proibida a continuidade e existência dos “Sokols” em S. Vicente e outras ilhas.

Cumprimentos
Gilopes"

4 comentários:

  1. Creio que este trabalho, que já conhecia, merecia um tratamento especializado de montagem de, talvez, diversos filmes de acordo com a narrativa...Não deve ser tarefa fácil e será, decerto, onerosa, mas creio que um documento de tanta importancia histórica merece algum sacrificio, inclusivamente por parte do Estado...
    Braça cinéfilo
    Zito

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  2. Avé Júlio Bento Oliveira !

    No poste de hoje descubro duas coisas de que não tinha ideia: o filme de duas horas (conhecia extractos) e um "tchéco" que dirigia os Sokol's. Desde menino que ouvia falar dessa instituição pois o meu pai era oficial e tinha grande admiração pelo que tratou sempre de Comandante, o Sr. Júlio Bento Oliveira, o criador da instituição que reunia gente de todas as camadas sociais dentro harmonia e de disciplina.
    Falam dos Sokol's ou dos Falcões (a segunda designação) mas raramente de seu Comandante Julio Bento Oliveira e nunca dos dois Segundos que eram Adolfo Oliveira (Fodola, também professor de ginàstuca do liceu) e Malaquias Roberto, ambos conceituados na sociedade caboverdeana. Adolfo era funcionário do Consulado Americano e depois foi exercer as mesmas funções em Lisboa quando fecharam a Chancelaria. Malaquias foi transferido para o Fogo como oficial de Fazenda e ali faleceu anos depois.
    Ê verdade que no Fogo os Sokol's foram activos sob o comando do sr. Henriques, penso, pai da esposa do Dr. Teixeira de Sousa. Pouco sei efectivamente do que fizeram em S.Filipe.

    Era voz correntte que o Presidente da República ficou sem fala quando os viu e isso foi a causa do desaparecimento e a criação da Mocidade para onde não foram 75% dos falcõesinhos

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  3. O autor do texto que acompanhou o vídeo "Gilopes" trata-se de Gilberto Duarte Lopes, por sinal meu primo foi quem mo enviou. Obrigada PdB.
    Pensei exactamente o mesmo que o Zito, o documento merecia uma montagem mais elaborada de facto. Não temos tanta coisa assim memorativa, para desperdiçar o pouco,que ainda se guardou. Uma das coisas que achei de interessante no filme, foi ver como Mindelo já era uma cidade lidada, cheia da movimento, de comércio e...urbana. Bom, é certo que já estávamos em 1937,até já se tinham passados os bons tempos do Porto Grande, mas mesmo assim, é ilustrativo de como o burgo se movimentava muito.
    Abraços

    Ondina

    P.S. Desta vez assinei. Não causarei incómodo, espero. O meu, meu computador está de má maré.Daí a não identificação automática.
    Ondina

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  4. Eu já conhecia este filme, que é de facto recheado de interesse, por não haver algo semelhante. Concordo que se justifica repartir a fita em vários segmentos. É mesmo emocionante visitar a urbe mindelense naquele tempo, e não só, pois as imagens das outras ilhas são igualmente importantes.

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