domingo, 16 de outubro de 2016

[2657] Feita a coisa... está pronta a 48.ª "Crónica do Norte Atlântico" que teve direito a frase do mais conhecido colaborador do Praia de Bote



Excerto sem notas de "Ainda os Clandestinos de Cabo Verde"

(...) Ainda nesse ano de 59, encontrámos um caso de clandestino ligado ao gosto pelo futebol. Trata-se do ajudante de estiva Vitorino da Silva Pinto, de 23 anos, da Ribeira Bote, São Vicente, que vindo desta ilha chegou a Lisboa no "Ganda". Descoberto, explicou que aproveitando-se da sua profissão e misturado com colegas se havia infiltrado no navio e escondido numa casa de banho onde conseguiu manter-se ignorado durante dois dias, tendo apenas consigo uma garrafa de água. É claro que o local escolhido para esconderijo não era nada conveniente, pelo que acabou por ser visto por um marinheiro que o entregou ao comandante do navio. Qual era então o sonho do nosso clandestino, jogador do F. C. Derby de São Vicente? O seu anseio era ser contratado pelo Futebol Clube do Porto, agremiação que tinha as mesmas cores daquela em que jogava na sua ilha…

Desculpa menos "desportiva" teve Alberto Resende Carneiro, de 21 anos, que viajou no "Cartaxo" em Junho de 1961 até Lisboa. Entregue pelo capitão à Polícia Marítima, alegou que estivera a trabalhar num porão do navio, enquanto este esteve no Porto Grande de São Vicente e que ali adormecera…

Por motivos que o leitor compreenderá, não revelamos o nome do interveniente nem a data exacta de mais um episódio de clandestinos que se passou algures em meados de 1961 com um jovem natural da ilha do Sal. Curiosa e elucidativa do pensar da época, é a prosa do "Diário de Lisboa", jornal que até era pouco conotado com o regime mas que utilizava por vezes a mesma linguagem dos seus colegas afectos à ditadura. Eis um excerto do texto, tal como o vespertino no-lo apresenta: "Assim que a unidade que escolheu para a sua aventura – o 'Manuel Alfredo' –, se afastou da costa, apresentou-se ao capitão do navio e declarou-lhe peremptoriamente: 'Sr. comandante, acabo de tomar esta decisão, e desejo ser apresentado às autoridades militares, pois quero servir em Angola e combater os terroristas que perturbam a paz naquela nossa província'. O capitão do 'Manuel Alfredo' participou isso mesmo à Polícia Marítima, depois de atracar o seu navio à Estação Marítima de Alcântara. Esta manhã, por sua vez, o capitão-de-fragata Malheiro do Vale decidiu participar o caso às autoridades militares. Resta agora conhecer-se a decisão dessas autoridades. O jovem, (indicava-se o nome do mesmo), um Português de cor, onde será alistado? Na Marinha de Guerra? Na Força Aérea? Ou no Exército?" Rematava o jornal, com o facto "animador" de o clandestino ter um familiar a trabalhar num hospital de Lisboa. (...)

3 comentários:

  1. Por estranho que possa parecer, eu conheci um fulano da Pide que ajudou alguns mindelenses a "migrarem" para Dakar...

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Tudo é possível. Em todas as instituições há gente boa e gente má. Ainda bem que esse agente estava entre a primeira.

      Braça a ir à vela para o Senegal,
      Djack

      Eliminar
  2. Boa e interessante crónica, Djack!!!
    Eu não conhecia estes casos de evasão clandestina.
    Quanto a essa odiosa PIDE, é evidente que nem todos os seus elementos eram maus. Conheci em Angola dois chefes de brigada (da zona em que eu estive no Leste), que primaram sempre por um comportamento dentro da decência e das normas humanitárias no exercício das suas funções.

    ResponderEliminar