quinta-feira, 26 de janeiro de 2017

[2825] Mais um texto de Arsénio de Pina

Para ilustrar este texto, Pd'B colocou duas imagens do livro citado por Arsénio de Pina: a capa da edição cabo-verdiana da Ilhéu (Germano Almeida faz questão de publicar os seus livros primeiro em Cabo Verde e só depois em Portugal ou noutros países) e o autógrafo do mesmo exemplar que o autor teve a gentileza de nos oferecer. Como curiosidade, digamos que este veio pelo correio de Cabo Verde, numa altura em que ele já só tinha escassos exemplares. Meses depois conhecemo-nos em Lisboa, no Teatro S. Luíz, onde foi lançada a colecção "Caminho de Abril", da Editorial Caminho, alusivos aos dias seguintes ao 25 de Abril de 1974, colecção essa onde saiu "Dona Pura e os Camaradas de Abril". No final do texto colocámos a capa da edição portuguesa de "O Dia das Calças Roladas".

CALÇAS ROLADAS

Arsénio de Pina
Parece incrível, mas só recentemente tive acesso ao livro do Germano Almeida, O Dia das Calças Roladas. Não me lembro do seu lançamento em Cabo Verde nem de o ter visto à venda, além da explicação para a omissão ser mais por ter passado a época de leitura de romances, na minha juventude e época universitária, em que devorei muitos romances da biblioteca do meu pai, e desconhecer o conteúdo da obra. Este livro é um bom documento das peripécias da reforma agrária em Cabo Verde que nos dá uma ideia dos malefícios do Partido Único e da impossibilidade de prática da democracia participativa neste contexto político. Livro que merece ser lido para se ter uma ideia dessa época e do malabarismo ideológico de certos dirigentes.

Como o amigo Saial só aceita no seu blog Praia de Bote assuntos mindelenses e aparentados, vou depenicar umas tiradas jocoso-irónicas do livro que nos dá uma ideia dessa reola da reforma agrária que se pretendia começar a aplicar em Santo Antão. Germano Almeida foi advogado de algumas vítimas dessa estória, pelo que é de crer no que nos relata, como diz, com isenção, alternando o chiste com a realidade nua e crua.

Sobre a ´liberdade de expressão do pensamento´ garantida pelo Presidente da República num discurso nessa ocasião e pelo Ministro do Interior da época: “Mas outras pessoas garantem que não, que a ´liberdade de expressão´ mais não significa que ´liberdade de expressão fisionómica´. Isto é, cada um tem o direito de fazer caretas que entender e sem perigo de intervenção da Segurança, desde que o faça em casa, no sossego do lar e com a condição suplementar de nenhum membro da família ser informador da polícia”.

Aquando do golpe de Estado de 14 de Novembro de 1980 na Guiné por “aquele cabeçudo Nino que, com um único sopro, deitou abaixo uma obra que, dizia-se, radicava em quinhentos anos de luta comum, a Rádio comunicava sem descanso. E insultava aquela rapaziada da Guiné”, utilizando expressões do nosso Djunga Fotógrafo numa das suas famosas cartas, “de curtas e compridas, e todos nós ficámos admirados que irmãos da véspera tivessem tanto mal a dizer uns dos outros. Porque logo se começou a ver claramente que não se gramavam, toda a estória da amizade era bluff”…

“Dias depois apenas restava o espírito irrespeitosamente daninho do mindelense, epigramando as instituições, comentando, não sem maldosa ironia, que o 5 de Julho tinha acabado a ´luta´ contra o colonialismo, no 14 de Novembro tinha ficado destruída a ´unidade´ Guiné-Cabo Verde, de modo que, da divisa do PAIGC ´unidade e luta´, agora só restava ´e´.

Também a condição apresentada pela turba alvoroçada de S. Antão para a aceitação de um armistício com a polícia e forças do PAIGC, “Dêem-nos o Franklin e o Ancelmo para a gente dar um pouco de pau e ficamos satisfeitos”, me faz recordar outra tirada do Djunga noutra carta, no tempo colonial, que “gente de Santanton ja nem tem liberdade para dar de pau”.

Como “rir é o melhor remédio”, é natural que, sendo médico, vos proponha essa terapêutica, embora essa reola da reforma agrária não tenha sido para brincadeira por se ter soldado em feridos, pelo menos um morto, muito sofrimento, alergia do santantonense ao PAIGC e comprometido irremediavelmente a possibilidade de reforma agrária em certas ilhas.

2 comentários:

  1. Amigos Arsénio e Djack, há muito que ando também à procura deste livro mas até agora...nada. Tens razão, Arsénio, quando pegar o livro de certeza que vou ter umas horas de boa disposição. Sempre que leio os romances do Germano, passo por um autêntico tirocínio de riso e boa disposição.

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  2. Mais um a comprar. E dizer que o livro não é de hoje e so agora, graças ao PdB e ao Arsénio fico a saber do livro; não do que fizeram os prepotentes, mentirosos, desivados.

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