sexta-feira, 24 de março de 2017

[2909] Um saboroso texto inédito de Adriano Miranda Lima (que agora deixa de o ser...)

UM CASO REAL QUE ENTROU NO ANEDOTÁRIO DO POVO DE S. VICENTE DE CABO VERDE

Adriano Miranda Lima
Nos meus tempos de menino e moço em S. Vicente de Cabo Verde, ouvia aos mais velhos contar este caso ocorrido com o mestre de falucho “Joquim de Nhô”. Para o dar agora à estampa, tive necessidade de confirmar e clarificar alguns dados, recorrendo à memória de um tio meu e do amigo Valdemar Pereira. Diga-se de passagem que este episódio ilustra bem o refinado espírito de humor do povo da ilha de S. Vicente.

JOQUIM DE NHÔ E O SUBMERSÍVEL ALEMÃO

Durante a II Guerra Mundial, submersíveis alemães pairavam nas águas cabo-verdianas e com frequência rondavam o litoral das ilhas do Noroeste do arquipélago, em especial a de Santo Antão, muitas vezes ancorando em algumas baías mais recônditas para se reabastecerem de produtos frescos.

Grande parte do transporte de mercadorias entre S. Vicente e Santo Antão era assegurado por pequenos veleiros de um mastro conhecidos por faluchos. Os seus mestres eram homens simples, sem grande instrução, mas calejados e experimentados na navegação de cabotagem. Essas embarcações pertenciam a comerciantes da praça de S. Vicente ou a proprietários rurais de Santo Antão ou outras ilhas mais próximas.

O Joquim de Nhô  era um desses mestres e o seu roteiro normal era entre o porto do Paul, Santo Antão, de onde era natural, e o Porto Grande, de S. Vicente. À data em que os factos se passaram, seria homem dos seus sessenta anos. Andava sempre de sandálias de couro e com um boné do mesmo material.

Certa noite, em 1942, ia ele ao leme do seu falucho, viajando de Santo Antão para S. Vicente, com o pequeno navio carregado de produtos agrícolas e galinhas acondicionadas dentro de cestas de verga, como era usual.

A dada altura, o andamento do falucho é interceptado por um submersível alemão. Um foco luminoso inunda o seu convés. Do monstro de aço, vem ordem, entre gestos e palavras gritadas em língua estrangeira, para o falucho baixar os panos e suster a marcha. Imobilizado o falucho, alguém no submersível quer saber quem é o seu capitão.

O Joquim Nhô não fala o inglês, mas percebeu a intenção da pergunta e, visivelmente nervoso e atrapalhado, leva os braços ao ar, em sinal de rendição, e diz em crioulo, sua língua materna:

− Mim ê Joquim de Nhô, capton dês navizim, fidje de Mari Jona e Nhô Grigor. Bocês ca fazê nôs mal porque ês navizim n’ê de combat.

Aos gestos e palavras que perguntavam sobre a finalidade da viagem, responde:

− Nôs traboi ê sô transportá carga e gente entre Soncent e Sintanton. Nôs n’tem nada c’guerra de bocês ma Inglaterra.

− What are you carrying? – Perguntaram os alemães. 

− Batating, mandioking, bananing,  galinhing… − Respondeu Joquim de Nhô, tentando dar um ar de inglês a essas palavras.

Então, alguns marinheiros alemães descem ao convés do falucho e transferem para o tombadilho do submersível o que mais lhes interessou, produtos agrícolas e as galinhas que viram dentro dos cestos arrumados no convés. Entregam ao “capton” uma importância em dinheiro que calcularam correspondia ao preço dos produtos, não se sabe se em marcos ou libras.

Boquiaberto e ainda não refeito do enorme susto que apanhou, Joquim de Nhô vê o submersível desparecer na escuridão da noite com a mesma rapidez com que surgira momentos antes. Manda içar de novo os panos e algumas horas depois o falucho largava ferro na baía do Porto Grande. Com os porões aliviados de muito do que fora carregado no Paul, mas com algum dinheiro estrangeiro nas mãos do “capton” para ser entregue a quem de direito.

O cônsul britânico, em S. Vicente, tendo tido conhecimento do ocorrido, mandou um recado ao Joquim de Nhô, dizendo-lhe para de futuro ir logo ao Consulado dar conta dos submersíveis alemães que avistar no canal. O “capton” respondeu ao portador do recado: 

− Bá e bô dzê pa nhô Cônsul que Joquim de Nhô n’é spion de ninguém”. 

Tomar, 18 de Março de 2017
Adriano Miranda Lima

10 comentários:

  1. A estória, ora contada pelo nosso grande Adriano, publicada pelo extraordinário Mnine d'Ponta d'Praia, faz parte de muitos acontecimentos "estranhos" que sucederam durante a Segunda Grande Guerra nas àguas de Cabo Verde ou mesmo ao largo do Porto Grande.
    Anedota ou realidade? O melhor é não fazerem a pergunta. Vamos saborear o conto que deve ter sucedido e mesmo... repetido (como era voz corrente), o que é plausivel na medida em que o submarino não tinha possibilidades de reabastecer-se de àgua e de frescos. Daí terem corrido boatos de que faziam um pequeno comércio - sigiloso - pelas bandas da Praia Formosa de Santo Antão com um santantonense "de confiança".
    Certo, certíssimo - e disso dou fé - é que o "senhor Cônsul" (Captain Sands de seu nome) conseguia saber das passagens que assinalava para que a Marinha Britânica seguisse o movimento do submercivel que causou ainda muitos danos.
    Desafio quem tenha ouvido mais contos similares a se dirigirem ao Praia de Bote pois os anos passam e ninguém vai poder consignà-los para as gerações futuras.
    Força !!!

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  2. Uma grande parte da nossa historia se desapareceu com a morte dos faluchos e palhabotes que faziam viagens entre as ilhas a costa d'Africa e dosportos da América. Conheci ainda criança o Juquim de Nhô, com a sua grande pasta e sempre de pé no bote que o levava e o trazia do navio. Lembro-me ainda duma regata de navios à volta do ilhéu dos Passaros e que foi ganha pelo falucho Liberal sob o comando do Juquim de Nhô. Na verdade pouco se tam escrito sobre a nossa historia tragica e maritima mas ha' a destacar do Teixeira de Sousa, filho do Capitão Sousa, o romance - Nas turvas vagas oh mar, no qual relata os problemas sociais da emigraçao e a viagem de regresso a Cabo Verde. Para mim a melhor obra do Teixeira de Sousa. Baltazar Lopes prestou uma grande homenagem a Nhô Fula, lutador contra tubarôes mas que também tinha um papel importante no arrasto dos barcos, que eram necessarios para ir buscar produtos alimenticios nas ilhas ou em Dakar para salvar o povo de São Vicente e das ilhas vizinhas.

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  3. Bonita história na História. Gostei da resposta do Joquim: Bá e bô dzê pa nhô Cônsul que Joquim de Nhô n’é spion de ninguém

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  4. Todos esses "captons" dos nossos palhabotes e faluchos desses tempos já recuados preenchem o meu imaginário de uma forma quase absorvente, com algo de fantástico. Em criança, diria que quando fosse adulto queria ser um homem do mar. De facto, o meu fascínio pelo mar e pelos navios é uma coisa inexplicável, tanto que por vezes me pergunto se noutra encarnação não terei sido um marinheiro. Mas o problema é que não tenho estômago de marinheiro, razão que pesou para não satisfazer o meu instinto. Raios o partam!

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    1. Sofremos do mesmo mal d'amour, da mesma frustração pela amada que não conseguimos ter. Raios, de facto! Mas por aqui não foi tanto o problema estomacal mas sim o matematical... da Escola Naval... Era necessário, isto é, determinante. E eu nunca fui dado a tais cerebrações. Fica para a próxima vida, na qual nos encontraremos no Alfeite, tu de almirante, eu de capitão-de-mar-e-guerra, com imensas viagens feitas ao Porto Grande.

      Braça com "Toda a força a vante!",
      Djack

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    2. Ah, e quanto ao texto em si, um divertimento de todo o tamanho. E maior ainda quando sem ter conhecido o meu homónimo consigo visualizar tudo que contas. Não há dúvida de que apesar das malfeitorias que lhe têm feito, aquele local (Santo Antão, o ilhéu, São Vicente, o Mindelo e o seu Porto Grande) é algo de incomum, de muito especial, de gosto inigualável e humor sem fim.

      Braça ta ri,
      Djack

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  5. Conto para contar aos netos e guardar no baú da "stória" marítima de Cabo Verde.

    Pena que o "patron" do blogue não tenha,á semelhança que fez com "basofo" U2,inserido uma imagem de um falucho... só para comparaçon!

    ...

    Dizem que: o capton Joaquin de Nhô atribui a culpa inteirinha ,desta e outras (des)aventuras iguais, ao Comando Militar --- " Ó tempo que andamos a pedir armamento na mesma proporção!!Nem um very-light se nô tinha na bordo pâ pedi socorro á tropa que tinha na Djeu!
    ...
    Ao Amigo Luiz Silva : - Já perdi a conta das vezes que propus Ao ICP -entidade que gere o museu do Mar de S. Vicente -- para editar um site, onde estas e outras histórias ficassem registadas para sempe: NADA! nem a delicadeza d'uma resposta!

    Mantenha

    Bom mar e melhor fim de semana.

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  6. Aguardo outras estorinhas desses heroicos patrões que navegavam à vista - sem qualquer instrumento - nomeadamente Nhô Tiginha, pequeno no tamanho mas grande de imaginação. Na sua velhice, quase cego, tinha de ir todos os dias "cheirar" o mar pelos lados da Pontinha. Para o capitão, isso era tão vital como uma refeição.
    Falando sobre material essencial à bordo des barcos de inter ilhas (v/ com de AMendes) e entre outras bastante contadas, figura a viagem que Nho Tiginha fazia de S.Vicente a S.Nicolau. Apanhou nevoeiro por muito tempo e perdeu a rota. Entretanto, aparece outro falucho na mesma situação, quer dizer também perdido, que se aproximou o mais possivel e pediu o Norte. Sem pestanejar o Capitão Tiginha respondeu: - Siga as minhas águas.
    Ô qu'afronta !!!

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  7. Muito interessante a história aqui narrada. Perpassa em toda a narração, aquele fino espírito de "gozo" e de bom humor que caracteriza o mindelense. Gostei!

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  8. Realmente, seria de muito interesse contar as estórias desses antigos mestres da nossa cabotagem.
    O Valdemar conta aqui uma que me faz lembrar outra. Isto é, um capton, que se tinha perdido na viagem a S. Nicolau, por causa do nevoeiro, às tantas vira-se para quem ia a bordo e diz: Vocês são testemunhas de que S. Nicolau não está onde devia estar.

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