segunda-feira, 26 de junho de 2017

[3021] Cravaram mais uma vez uma navalha de ponta e mola no dorso de São Vicente

COMUNICADO
A EXCLUSÃO DE S. VICENTE DO CAMPUS DA UNIVERSIDADE DE CABO VERDE É UMA AFRONTA À ILHA E AO SEU POVO

O Universo universitário numa ilha

Notícia veiculada no jornal Expresso das Ilhas de 24 de Junho dá conta do lançamento da primeira pedra para a construção na cidade da Praia do novo Campus da Universidade Pública de Cabo Verde, um projecto estimado em cerca de 45 milhões de contos e totalmente financiado pelo governo da China.

No entanto, e conforme declarações de um dirigente do PAICV, este Campus era para ser integralmente construído em S. Vicente, com intenção de beneficiar desta vez o norte do país, porquanto os seus financiadores entendiam que o sul já tinha sido objecto de um conjunto significativo de investimentos patrocinados pela China. Deduz-se assim que esta nação asiática não é insensível a que se observe uma lógica de equilíbrio territorial e de justiça distributiva na sua ajuda ao nosso país, ainda que, naturalmente, não queira imiscuir-se nos seus problemas internos. E foi nesse sentido que uma equipa de técnicos chegou, de facto, a deslocar-se a S. Vicente para estudo da localização da infra-estrutura. Porém, ao arrepio de tudo, o empreendimento viria a ser depois anunciado para a cidade da Praia, ainda no governo do PAICV, de nada tendo valido um protesto escrito apresentado ao primeiro-ministro pela estrutura daquele partido em S. Vicente.

O assunto foi habilidosamente silenciado até confirmar-se agora que a ilha de S. Vicente e o norte do país foram, efectivamente, e mais uma vez, marginalizados, espezinhados e espoliados em benefício da mesma ilha e cidade, persistindo os governos na sua injusta e inconcebível política centralizadora e concentradora.

Mas importante é sublinhar que o actual governo confirmou ipsis verbis essa decisão, quando natural seria que a revertesse, em coerência com as promessas eleitorais proferidas alto e bom som pelo seu líder no chão de S. Vicente e graças às quais obteve uma votação expressiva na ilha e venceu o pleito eleitoral com maioria absoluta. É que retinem ainda nos ouvidos do povo de S. Vicente, em particular, e dos cabo-verdianos, em geral, as promessas de Ulisses Correia e Silva de reabilitar o espírito de solidariedade nacional, promover a correcção dos desequilíbrios regionais e contribuir para a coesão entre os cabo-verdianos, mediante uma efectiva descentralização do poder e uma mais equânime distribuição dos recursos.

Sobram assim razões para acusar o actual primeiro-ministro de um comportamento político traiçoeiro, ardiloso e manobrista, ultrapassando o seu antecessor nas artes do ludíbrio e revelando-se afinal de contas um fiel executante das políticas que repudiamos, agindo contra o país integral e ameaçando perigosamente a coesão nacional. Na verdade, não surpreende esta sonegação de mais um investimento previsto para S. Vicente e o norte do território, porquanto desde a posse deste governo se vêm acumulando evidências a desmentir claramente a propaganda eleitoral com que o respectivo partido alcançou o poder. Se não vejamos:

− A primeira medida do governo foi firmar um acordo com o PAICV para a aprovação do Estatuto Especial para a Praia, como se isso fosse a mais gritante prioridade nacional;

− Na sua primeira visita a S. Vicente, a actual ministra do Ordenamento do Território e Habitação afirmou que “Cabo Verde não é só São Vicente e que se tem de partilhar os recursos para que todos tenham um pedaço justo”, causando espanto e indignação entre o povo da ilha, já que as suas palavras se ajustavam com geométrica precisão à ilha de Santiago e à capital do país e não à ilha visitada;

− Tem havido constante anúncio e concretização de investimentos na ilha de Santiago e seus inúmeros municípios criados com pouco critério, ignorando-se o resto do país;

− O Orçamento do Estado para o ano corrente foi altamente penalizador para S. Vicente, relegando-a para um plano secundário no arquipélago, não obstante tratar-se da segunda ilha do país em população e contribuição para o PIB;

− Surpreendentemente, e para repúdio dos cabo-verdianos, têm surgido movimentos de um doentio bairrismo ligados a Santiago − “pró Praia e pró ilha de Santiago”− como se a sociedade civil daquela ilha é que tivesse razões de agravo e não o resto da nação cabo-verdiana.

Com efeito, este Campus Universitário, arrebatado a S. Vicente e ao norte do país por um conglomerado de interesses centralistas constantemente em acção, inscreve-se numa agenda cujo propósito é consolidar cada vez mais a lógica de uma visão continental erradamente aplicada a um país arquipelágico, e ainda por cima eivada das práticas viciosas que são típicas dos regimes africanos menos recomendáveis. E é nesta óptica que se tem de olhar para a promessa de um aeroporto internacional para Porto Novo/S. Antão, o que, a realizar-se, será um verdadeiro case study para os economistas mundiais, dado que a distância entre as duas infra-estruturas seria apenas de poucos minutos de voo. Não escapa a ninguém que a construção desta obra insensata e contra-natura num país pobre mais não é que um expediente capcioso para cativar o eleitorado daquela ilha e liquidar qualquer possibilidade de união e sinergia entre as duas ilhas vizinhas, para que, dividindo para reinar, sobreviva o centro hegemónico e dominador.

Refira-se que S. Vicente até poderia encarar de ânimo contido a repartição do Campus Universitário com a capital ou outras partes do território nacional, desde que tal se justificasse, embora não fosse excessivo que o investimento a contemplasse por inteiro, porque nem assim se atenuaria o saldo ruinoso da marginalização a que vem sendo votada pelo poder central. Mas este não é o primeiro caso de um grande investimento sub-repticiamente desviado para Santiago, com argumentos falaciosos de capitalidade e massa crítica. O mesmo aconteceu com o Millenium Challenge Account, em que muitos milhões foram enterrados na ilha de Santiago sem resultados visíveis mas com óbvio prejuízo para o país como um todo, cuja dívida por PIB, neste momento uma das maiores do mundo, se deve em grande parte a projectos aplicados naquela ilha.

Perante mais este despudorado atentado contra os interesses da ilha de S. Vicente e do norte do país, apenas se manifestou até agora o ex-deputado e militante do PAICV Alexandre Novais, porque tudo o resto se refugia no seu habitual e cobarde silêncio, mesmo aqueles que exercem mandatos em nome do povo da ilha, a começar pelo presidente da câmara, que devia ser o primeiro a vir a terreiro para honrar as prerrogativas do seu cargo em vez da fidelidade canina ao seu partido.

Como há poucos meses fizemos sentir em outro Comunicado, a sociedade civil mindelense está mergulhada num limbo de alienação e apatia cívica sem precedentes, que só se explica pela preponderância de valores individualistas e egoístas e pelo eclipse dos líderes políticos locais. E é em grande parte por esta postura que S. Vicente tem sido alvo de tratos de polé, marginalizada pelo poder político, desviada do destino que lhe desenharam os homens bons que no passado foram os construtores de uma sociedade local fecunda e promissora. Importa, pois, empreender uma acção introspectiva para descortinar os motivos por que a ilha de S. Vicente se tem abdicado da postura honrosa que devia assentar-lhe de harmonia com o seu passado, deixando-se tratar de modo tão acintosamente vexatório. E é nesse sentido que, inconformados com semelhante situação, os cidadãos abaixo assinados lançam um veemente apelo aos políticos e à sociedade civil de S. Vicente, para que acordem da sua letargia e pressionem o poder central no sentido de uma urgente reforma que descentralize o poder e desconcentre as estruturas do Estado, exigindo desde já a revogação da decisão de desviar da ilha mais um investimento que lhe é tão precioso como é para a região norte do país. 

Junho de 2017 
Pelo Grupo de Reflexão da Diáspora e por ordem alfabética: 

Arsénio Fermino de Pina 
Adriano Miranda Lima 
José Fortes Lopes 
Fátima Ramos Lopes 
Filomena Araújo Vieira 
Luíz Andrade Silva 
Miguel Arcangelo Silva 
Valdemar Pereira

6 comentários:

  1. Note-se que o comunicado é assinado e corroborado por indivualidades que vivem fora de S. Vicente...

    A questão que se deve colocar com premência é: - Quantos mindelenses residentes e chamados de "importantes": - escritores renomados, advogados, comerciantes bem instalados, e DEPUTDOS por S. Vicente levantaram a voz, com a mesma indignação dos assinantes do comunicado?

    Eu subscrevo e se for preciso contem para luta!

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  2. Até agora 23H30) Pelo número de comentários... se vê a dimensão da indignação...

    Mindelense é como o tal: -- " Agarrem-me senão um bato-lhe ..."
    .....

    Lá em cima: leia-se DePUTAdos e "se for preciso contem comigo"

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  3. O Artur fez uma pergunta muito pertinente que estou farto de fazer também. Vá-se lá saber a razão, Artur!

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  4. Grato por ver aqui publicado o Comunicado.

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  5. O Artur tem razão. O mindelense está intepide de mede para assuntos políticos e de defesa da sua terra. Se fosse algum protesto sobre futebol, Praia de Bote não chegaria para os abaixo assinados

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  6. Caros amigos a questão do Campus é mais um. Desconecíamos este que também foi boicotado:
    Projecto “Pérola Negra” cancelado – promotor luxemburguês denuncia bloqueio e ameaça queixar-se do Governo de Cabo Verde em instâncias internacionais.........
    Depois vão dizer que há paranóia em S. Vicente.
    Aqui está mais uma prova de sabotagem da 2ª ilha pelo próprio governo de Cabo Verde, um projecto no montante de 95 milhões de euros que iria trazer 1.400 postos de trabalho, iria abrir outros tantos, mas inviabilizado, e com tentativa de o desviar para Praia. Em Cabo Verde o leitmotiv é hoje: Tudo para Praia Nada que Não seja Para Praia.
    O investidor denuncia corrupção “Tenho provas de que havia pessoas que queriam dinheiro por fora, e isso não admito. Por isso vou denunciar o Governo de Cabo Verde ao Governo luxemburguês, que tem disponibilizado avultados recursos dos contribuintes para apoiar o país”, ameaça."
    A ilha está em estado de quarentena, sitiada, a sua população mergulhada no desemprego crónico, situação aprofundada pelas migrações para a ilha, e não tem como recorrer, em 40 e tal anos conseguiu-se quebrar a sua coluna vertebral.
    Esta situação tem que ser denunciada internacionalmente, pois fundamentalismo ideológicos e hoje associado à corrupção inviabilizaram Cabo Verde. Daí que fez toda o sentido as denúncias dos defensores do Campus Universitário de S. Vicente.
    Luxemburgo, este pequeno país europeu, tem contribuído generosamente para o crescimento de Cabo Verde, tendo doado em 40 anos centenas de milhões de euros. Compreende-se a revolta do cidadão luxemburguês que quer agora investir, e é bloqueado pela tacanhez/estupidez, a burocracia e a corrupção.
    A Diáspora caboverdiana (alguma) tem sido fundamental na denúncia destas situações e na defesa de valores de ética e cidadania. Infelizmente podíamos ser mais numerosos mas..........................................................................

    Aspectos relevantes da notícia:

    "A paciência do promotor deste empreendimento turístico, que previa a criação de 1.400 postos de trabalho directos e outros tantos indirectos na ilha do Monte Cara, já se esgotou""

    "Para tentar desbloquear o processo, Claeys conta que viajou 14 vezes para Cabo Verde, sendo a última em Março de 2017, com o intuito de exigir uma decisão de􀂡nitiva da Cabo Verde Trade Invest e do Governo."
    “Todas as vezes que pedimos uma resposta, as autoridades alegaram que precisavam fazer mais estudosanalisar melhor o dossiê… O problema é que já lá vão três anos. Somos investidores e, se não conseguimoserguer o projecto em São Vicente, vamos para um outro local"

    “Decidi que nunca iria pagar luvas ou dinheiro extra para aprovarem o projecto que, do meu ponto de vista, é importante para São Vicente. O empreendimento seria uma referência na ilha, no país e na África em termos de qualidade e de impacto económico".

    " O mais caricato é que a CMSV , que deveria estar a lutar para trazer este projecto para S. Vicente, ᦸca apática a ver a ilha ser prejudicada”.
    "

    Viva a Regionalização e a Autonomia..
    http://mindelinsite.cv/projecto-perla-negra-cancelado-promotor-denuncia-bloqueio-e-ameca-queixar-se-do-governo/

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