segunda-feira, 26 de junho de 2017

[3020] Artigo de Novembro de 2016 de Arsénio de Pina sobre São Vicente

SERÁ QUE SONCENTE JÁ CABÁ NA NADA ?

Arsénio de Pina
Quem me conhece ou me lê sabe que não discuto pessoas; discuto ideias e venho fazendo críticas construtivas e apresentando propostas de alternativas à governação. Como diz o poeta sirio-libanês Adonis, o homem cria a sua identidade através da obra que produz, que não é fixa nem herdada. E a identidade é uma relação com o outro. O outro é um elemento constitutivo do eu. Como vou escrever particularmente sobre Soncente, o outro são os habitantes dessa ilha mártir, e mesmo das outras ilhas a que se retiraram direitos e meios para tchuntchar Santiago, mais propriamente Praia.

Lendo Brito Semedo, Jorge Fonseca, José Almada Dias, Rosário da Luz, Casimiro de Pina, Felisberto Vieira Lopes, José Fortes da Silva, Armindo Ferreira, Luíz Silva, Djopan (da Ribeira Grande), Adriano Miranda Lima, Alte Pinho, entre outros, patrícios que exprimem o que pensam com as suas cabeças, do que vêem, ouvem e lêem, portanto, não recadores de gente no poder, sem medo de gongons, nem de maus-olhados que os dêem na tamborona, não pertencendo, ademais, àqueles que se habituaram a obedecer, como se fossem animais domesticados, fico apreensivo com as informações e críticas que me fornecem, devido aos malefícios da obediência, um vício altamente pernicioso, referido recentemente pelo ex-Presidente da República Portuguesa, Ramalho Eanes, como causa dos problemas do seu país, referência que me fez recordar a caracterização que lhe deu, no século XIX, outro Ramalho, Ortigão, em As Farpas: “Toda a obediência é uma diminuição de valor e dignidade. Onde a liberdade existe não há nunca obediência, há acordo. A obediência é dos frutos do despotismo o mais venenoso; o homem que obedece avilta-se; o povo que o faz deprava-se e dissolve-se”.

Há largos anos, desde os meus tempos de estudante em Lisboa e Coimbra, que sou admirador do nosso filósofo do povo - como lhe chamou o Mestre Roque Gonçalves - João Cleofas Martins, vulgo Nhô Djunga Fotógrafo, que, em pleno regime fascista fez críticas contundentes ao regime e governantes, na Rádio Barlavento e através das suas famosas cartas, utilizando, como François Rabelais, um fabuloso vocabulário jocoso, por vezes escatológico, cujo significado escapou à PIDE, que até se ria com a faceta de paródia das mesmas. Quando a PIDE se apercebeu do alcance da crítica de Nhô Djunga, já era tarde e nada poude fazer porque se o prendessem, seguramente que toda a população mindelense sairia à rua em protesto, por ele já ser um ídolo do povo e ir-se-ia criar um mártir. Se Nhô Djunga tivesse vivido os anos que precederam e se seguiram à independência, tanto o PAIGC/CV como depois o MpD, teria muito provavelmente ido parar à choça no tempo da primeira república, porque não se teria coibido de criticar rudemente e ridicularizado os nossos líderes políticos que dedicaram muito mais tempo a pavonear-se, a vangloriar-se a si, à luta armada e aos respectivos partidos, do que a libertar o povo da canga que vinha suportando e o ajudasse a percorrer caminhos mais construtivos e participativos. Longe de mim a intenção de negar ou diminuir o valor as coisas positivas que se construíram, que não foram poucas, mas muito mais e melhor poderia ter sido feito se os líderes políticos se tivessem libertado da flatulência e perdido, ou não adquirido, a arrogância e intratabilidade que não lhes permitiram escutar as vozes de bom senso das pessoas das ilhas que conheciam melhor do que eles a realidade vivida no dia-a-dia, do meio ambiente, social e cultural. Nem quiseram ouvir os que se sacrificaram fora da luta armada na Guiné, como, por exemplo, um Jorge Querido, Lela Rodrigues, Felisberto V. Lopes, Jack Monteiro, para só citar os que conheci de perto e com quem lidei na clandestinidade. Faltou-lhes humildade e o sentido de solidariedade com os elementos não partidários da população, e incutiram nos seus militantes a pecha da obediência e do fundamentalismo partidário disfarçado em disciplina partidária, quando a disciplina só pode ser aceite quando consentida, implicando cumprimento de algo vindo de cima mas por consentimento ou acordo. Uma comunidade é democrática, como sabemos, quando o Estado, através do Governo, conta com a participação de todos os seus membros, o que não se fez.

Veja-se a sociedade mindelense, nos princípios do século passado, magistralmente retratada por Brito Semedo num excelente artigo sobre a Revista Claridade: “Tinha um operariado activo e consciente; uma burguesia esclarecida, ciente dos seus direitos e disposta a criar uma ampla frente para a defesa dos interesses da colónia; uma elite intelectual comprometida e politizada; uma sociedade civil de fácil mobilização à volta de causas.”

Em 1937, o Governo Central decidiu extinguir o Liceu Infante D. Henrique, porque para o Governo de Salazar era mais do que suficiente os pretos aprenderem a ler, escrever e contar. A reacção da população mindelense, e também das outras ilhas, foi de tal ordem que, doze dias depois, o Governo recuou e teve de reabrir o liceu com outro nome, Liceu Gil Eanes.

Não vou enumerar mais factos descritos pelo amigo Brito Semedo; recomendo vivamente a leitura desse artigo por ser um contributo importante para a avaliação da evolução social, política e cultural da Ilha do Porto Grande, que se degradou imenso após a independência por decisões incompreensíveis dos diferentes governantes que se instalaram na Praia, mais parecendo penação por crime horrendo.

Pergunto: cadê a gente activa, desaforada, briosa e empreendedora de Soncente? A sociedade mindelense vem aceitando passivamente todas as arbitrariedades cometidas, caladinha, ou segredando ao ouvido de amigos, olhando sempre em redor, intepide de mede, como dizia o imortal Djunga Fotógrafo, conformado e resignado com as várias promessas que nunca se cumprem e com os desvios de financiamentos destinados à ilha canalizados para Praia. Adeche!! Quem não chora não mama, lá diz o povo. Aqui, em vez de choro, deve haver é revolta, manifestação maciça da sociedade civil contra as arbitrariedades cometidas visando a reposição da vera justiça, justiça nossa que o desbocado Alcindo Amado, desesperado, classifica nos antípodas da lei. Obviamente, que  a gravidade do mal que atinge a ilha do Porto Grande já não se trata com paninhos mornos nem banhos de semicúpio. Os líderes políticos que teimam nas suas ideias só as modificam quando a população as contesta com força e se recusa a segui-las, vindo a adoptar novas de acordo com a vontade popular. Presumo não haver outra alternativa. 

Há sempre alternativas, quando as procuramos, e algumas têm sido propostas tanto por velhos como por jovens, que não são tão poucos, e querem participar, mas os líderes políticos não têm atendido a nenhuma, por mero fundamentalismo político: eles é que sabem, somente eles; eles é que são bons em tudo; muito raramente cometem asnidades, sem, no entanto, responsabilizarem ninguém do Governo por isso, remendando, aqui e acolá, com aumento de impostos pagos por nós-outros. 

Pelos artigos recentes, “Discurso Horripilante e sombrio”, de Jorge Fonseca, e do José Almada Dias, jovens da idade dos meus filhos, que poderiam estar a dar o seu contributo efectivo ao lado de outros da mesma geração, apercebe-se que não encontram espaço nem oportunidade para serem levados a sério, embora sejam jovens habilitados e capazes. Não são tidos em conta por, na opinião do Governo, pensarem com as suas cabeças e contestarem posições de que discordam.

Finalizo afirmando que não podemos permitir que Soncente cabá na nada. Há que exigir mudança imediata de política e isso faz-se com uma tomada colectiva firme de posição da sociedade civil e política da ilha dado que não se deve mendigar aquilo a que temos direito, exige-se com força e perseverança até ser ouvido.

Parede, Novembro de 2016                                                         
Arsénio Fermino de Pina
                                                                                                 

3 comentários:

  1. Hà uns anos que anunciaram subrepticiamente dois programas "tudo pa tchom" e "tude pa Praia".
    Tudo pa praia so se for praia de bote.
    Ninguém é obrigado a obedecer ineptos nem cumprir um programa nocivo. Se és homem, meu irmão, levanta-te e levanta os descrentes e os invàlidos "pa bo terra ca cabà na nada".
    Força !!!

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  2. Este artigo é de uma actualidade tremenda. Está tudo dito e a carapuça está a enfiar na cabeça da elite da nossa ilha e dos políticos que a representam. 'Soncente cabou na nada' longtime ago, está em agonia. Os carrascos estão em acção.
    Com o Campus todo instalado em Santiago vai ser o fim da ilha que se transformará na nova Cidade Velha. Agora sim, já não se justificará mais nenhum investimento na ilha, pois irá perder inexoravelmente a sua população jovem que será definitivamente atraída para capital onde se concentra tudo e obviamente concentrará as oportunidades criadas pela localização de tudo na Praia. Afinal Santiago foi quem tomou a Independência em 1974. Todas as ilações devem ser retiradas da situação socioeconómica e política em que vivemos!!

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  3. Que o Campus Universitário sirva de lição:

    S. Vicente só mudará através da reforma do seu Povo e não por decreto governamental...

    O que mais choca neste "crime de lesa Pátria" é o silencio e a apatia da forças vivas e a traição "calada" dos deputados eleitos pelo dito Norte..autênticos proxenetas do regime!

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