domingo, 2 de julho de 2017

[3039] Da Visita a Soncente

Depois do que dissemos no post 3022 sobre colocação no  Pd'B de textos a pedido, vamos abrir uma excepção excepcionalíssima e última, relativamente ao que hoje aqui se mostra. Solicitamos pois que não nos enviem mais textos até ao início do novo ano e que aqueles que o querem fazer se tornem DE FACTO colaboradores/comentadores do Pd'BVer post 3022, AQUI


Arsénio Fermino de Pina
Apraz-me reconhecer que a cidade do Mindelo está fisicamente muito melhor, desde a minha última visita, há dois anos: algumas ruas alcatroadas – interessante constatar que os buracos maiores no alcatrão estão sendo remendados com calçada, muito provavelmente por falta de alcatrão e de máquinas para o efeito, quando o bom senso recomendava calçada e não alcatrão, que não produzimos e temos de importar, nas ruas -, muitas com calçada chamada portuguesa a substituir as antigas, que até contemplam bairros periféricos, calcetamento que prossegue a bom ritmo, passeios em locais onde não existiam, outros restaurados, um passeio cimentado largo, do Campinho até Lazareto, permitindo, em segurança, a marcha de muitos residentes das zonas limítrofes, melhoria dos mercados agrícolas da Praça Estrela, número significativo de casas pintadas beneficiando de um empréstimo bancário para o efeito, fazendo desaparecer o aspecto cinzento de cimento de muitas construções mais ou menos recentes, sobretudo do bairro de Monte Sossego, três belíssimas esplanadas restaurante, duas com boite, na Lajinha, onde dá gosto estar com uma boa vista panorâmica do Porto Grande e da Nova Lajinha transformada em Lajona.

Há um empresário, largos anos emigrante, de regresso ao país, presidente da Unitel Tmais, que vem investindo em S. Vicente, e promete inauguração de cinema, restaurantes com gastronomia para todos os bolsos, desejando engrandecer o cosmopolitismo do Mindelo, o que é louvável e poderá ser imitado por outros argentários com experiência adquirida no exterior que desejem dar contributos à terra de nascença. Duas patrícias emigrantes que viveram na Holanda, de regresso ao país, também decidiram investir numa empresa que fornece empregadas domésticas e funcionárias – Agência de Prestação de Serviços – na qual as candidatas são sujeitas à formação em várias tarefas e no modo de lidar com clientes, que é uma garantia de seriedade e segurança para quem necessitar de empregadas de vários ramos. Outro bom exemplo de como utilizar conhecimentos e fundos em benefício pessoal e da sociedade, quando o poder central não atrapalha com burocracia as iniciativas produtivas e de serviço de nacionais e estrangeiros.

A Associação Amigos da Natureza (AAN), a Organização Nacional da Diáspora Solidária (ONDS) no Centro de Formação do Mestre Cunco e a Oficina de Formação do Padre Filipe Pereira, com o seu mestre Ti Nené, têm desenvolvido acções notórias louváveis em benefício das populações, na formação em artes, ofícios e outro ramos, na adução de água e construção de redes de esgoto nos bairros periféricos, além da arborização da ilha que já se vê até nos montes, e outras actividades dos respectivos pelouros, em colaboração e parceria com a CM, ADEI, ISCEE, MAA e a União Europeia em acções de Capacitação para Associações Rurais e Comunitárias, pelo que mereciam mais apoios por parte do Estado, dos sócios e da população. A Cabnave vai laborando e há um projecto em marcha para criação de camarões no Calhau. De promessas de projectos não falo, dado que a quase totalidade dos anteriores foi conversa fiada eleitoral do governo anterior.

Há que reconhecer o trabalho do actual Presidente da Câmara Municipal, Augusto Neves e sua equipa camarária, pessoa com quem tive excelente relacionamento quando desempenhou o cargo de director administrativo do Hospital Baptista de Sousa, onde fez uma administração reconhecidamente meritória. Apontam-lhe, no entanto, algumas falhas: é muito difícil obter uma audiência com ele, muito raramente aparece nos bairros periféricos de lata para ouvir os residentes, é de ideias fixas e não atende às opiniões dos outros. Acusam-no de ter passado, após a eleição para o cargo, a tratar amigos na terceira pessoa, arrogante com gente da arraia-miúda para manter a distância e diminuir a acessibilidade, ostentando ar de superioridade. Aceito não ser fácil receber toda a gente que pretenda falar com ele. Porém, para assuntos não confidenciais, nem urgentes, poderia (deveria) elaborar um calendário de visitas aos bairros periféricos e aldeias do interior para reuniões periódicas com a população onde assuntos gerais seriam discutidos com os moradores, respondendo e delegando nos vogais de vários pelouros e outros elementos da Câmara que o acompanham. Com esse procedimento esvaziaria a má impressão geral daqueles que não conseguem audiência com o Presidente da Câmara para lhe expor as suas queixas. O contacto com as populações e a simpatia não podem limitar-se às épocas eleitorais, em que os políticos são de uma simpatia hipócrita cativante e abertura total.

A Câmara Municipal da Praia detectou 6000 casas com riscos de derrocada, após a derrocada recente em que morreu um pedreiro, havendo cinco feridos. No Mindelo, a situação não deve ser muito melhor, embora não tão extensa, havendo pardieiros no centro da cidade que são focos de doenças e um perigo para a Saúde Pública, por serem vazadouros de lixo de toda a espécie e até retretes. Em tempos sugeri à CM legislar no sentido de estabelecer um prazo, cinco a dez anos após o abandono do prédio, para a resolução do problema de pardieiros no centro da cidade, geralmente motivado por questões de herança, findo o qual, o prédio iria à praça pública para venda, depositando-se o produto da venda no banco à ordem dos herdeiros definidos pelo tribunal. Presumo que isso, além de resolver o problema, facilitaria a celeridade na resolução das questões de herança. Intrigante o facto de alguns desses pardieiros serem do Estado ou da Autarquia que não abrem mãos de nenhum para sede de ONG como, por exemplo, a Adeco, ou a AECCOM, tendo perdido, com esta última, tudo quanto o Prof. João Manuel Varela queria legar à Academia e S. Vicente, um espólio soberbo que está a deteriorar-se numa garagem do irmão.

Causou-me grande tristeza ver o Eden Park entaipado com obras em curso de uma torre babélica em construção que fará desaparecer para sempre essa autêntica universidade popular que, juntamente com o Porto Grande e as companhias carvoeiras inglesas, deu uma característica cosmopolita sui generis à Ilha, a qual se vai esbatendo desde a independência, por o poder central ter posto a ilha de quarentena frenando o seu desenvolvimento, sabendo-se que, S. Vicente, segundo João Augusto Martins foi “o pulmão por onde respira e o cofre d´onde se alimenta a província inteira”.

Finalmente iniciaram-se as obras no velho e famoso Liceu Gil Eanes, permitindo-lhe festejar o centenário pelo menos com a cara lavada.

Sob o ponto de vista social, S. Vicente está muito pior, o que não é de admirar e se vai, seguramente, agravando com o rombo sofrido pelo orçamento destinado à ilha para 2017, quando muita população de ilhas vizinhas – S. Nicolau e Santo Antão – veio engrossar a da ilha: desemprego aumentado, mendigos pelas ruas à porta de mini-mercados, cafés, restaurantes e hotéis, sentados nas soleiras das portas de casas na Rua Lisboa, bancos e empresas, estendendo a mão à caridade, havendo um número significativo de crianças pedintes às portas dos mesmos locais pedinchando dinheiro, não obstante haver várias instituições dedicadas à protecção da criança e adolescentes – ICCA, Centro Juvenil Nhô Djunga, CEI, Irmãos Unidos, Aldeias SOS, CMS, etc. - que funcionam mal por falta coordenação de esforços, de pessoal qualificado, de orçamento diminuto e, por vezes, falta de matéria-prima para as oficinas trabalharem, falta de resposta do ministério de tutela a propostas pertinentes de solução. O número de alienados mentais também aumentou nas ruas, o que é intrigante por haver, na Ribeira de Vinha, serviço especializado com pessoal qualificado onde, em princípio, deveriam estar e seriam medicados, apoiados e controlados. Roubos frequentes, devido à falta de empregos, miséria, e os desempregados quererem também participar em festas e regabofes, o que leva alguns, incluindo crianças, algumas viciadas em jogos de video, a pedir dinheiro e a roubar, não obstante a maioria das casas ter grades nas janelas e portas reforçadas, não se impressionando alguns com a hipótese de cadeia por aí terem garantia de comida e dormida, tal o seu desânimo e miséria a substituir a pobreza anterior. Quem nada tem arrisca tudo, não se importando com as consequências. Não obstante a miséria visível, vemos mulheres-a-dias, vendedeiras de fruta e de drops manejando telemóveis sofisticados, pessoas com vencimentos baixos em carros de luxo e outras incongruências de difícil entendimento.

A poluição sonora tem aumentado, bem como o desrespeito das normas e leis referentes à utilização de automóveis e motos e à produção de barulho depois das dez horas da noite. A Avenida Prof. Alberto Leite, por exemplo, foi transformada em pista de corrida e para piruetas de motas, havendo um energúmeno que a percorre diariamente a alta velocidade, de dia, noite e madrugada, com um ruído infernal que acorda todos os moradores da avenida, passando, em velocidade, à frente do Comando Regional da Polícia sem nenhuma reacção deste. Bares e boîtes barulhentos funcionam a altas horas da noite e madrugada perturbando o sono dos moradores sem nenhuma consequência para os respectivos donos. Cadê as posturas camarárias e leis que regulamentam isso? Serão abusos de gente acima da lei ou é a Polícia que se desleixou ou perdeu autoridade?

É triste e condenável a existência de bairros de lata e cartão sem as mínimas condições de habitabilidade, sem água nem luz, sem esgoto nem evacuação de lixo, quando se propagandeou o Programa Casas para Todos, a custo zero, previstas 8500, construídas ou em construção avançada 4596 - construções de qualidade algumas ainda inacabadas por falta de fundos, somente ao alcance de uns poucos com meios para comprar ou pagar renda -, quando os miseráveis dos bairros de lata poderiam ter sido beneficiados com esse Programa, se as construções tivessem sido modestas e funcionais, como se esperava. Preferiu-se a demagogia eleitoral, e o dinheiro não chegou para o luxo, ficando as casas a deteriorarem-se, inacabadas e sujeitas a vandalismos, como aconteceu no Sal; chama-se a isso má governação e desperdício do erário público. Entre nós, os autores de tais asnidades, não são responsabilizados quando pertencem ao governo, o que não abona a favor da nossa justiça e confirma a existência de gente acima da lei.

Intrigou-me ver poucos cães vadios na cidade, afinal não por mérito de acção da CM e Delegacia de Saúde, mas por mimetismo, isto é, imitação da moda portuguesa de as mulheres, mesmo homens, andarem na rua com cães à trela. A moda, a princípio, é sempre um ridículo, mas com o tempo, banaliza-se e aceita-se o ridículo como normal, à semelhança das rachas nos joelhos de jeans, em mulheres, agora avançando para as coxas e prometendo seguir para o traseiro, não sendo de descartar a possibilidade de avançar para a frente, evoluindo, portanto para a pornografia. Em questão de moda as previsões são falíveis. É só ver os cortes de cabelo de rapazes a imitar algum jogador de futebol famoso com pouca massa cinzenta cerebral que teve a ideia de imitar o cocuruto do peru, que se tornaram moda naqueles com falta de personalidade.

S. Vicente, Junho de 2017
Arsénio Fermino de Pina

3 comentários:

  1. Mais uma vez um grande cidadão com uma análise da realidade que não nos alegra nem nos dá esperança de dias melhores, nem a curto nem a longo prazo.
    A falta de cidadania (não só pelos da ilha) fez com que deixássemos tudo com a governação, sem interferirmos, permitindo exageros, abusos e injustiças de pessoas nem sempre preparadas para o exercício de um mandato ou mesmo a execução de uma obra ou munidos de um desejo demoníaco de fazer desaparecer a raiz do que foi o começo da jovem nação.
    Ê hora de aparecer porque, se continuarmos a esperar pelos que nos governam e não fizermos nada para os contestar, podemos dizer que temos o que merecemos.
    Contestar quando se torna necessidade é um dever constitucional e não pode ser considerado rebeldia ou, como dizem vulgarmente, bairrismo. que, aliás, não é crime
    Por isso, e porque o copo transbordou-se, vamos sair à rua, ordeiramente mas com firmeza porque somos os responsáveis pelo que se faz dentro do nosso circulo.

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  2. Este é um relatório de situação feito com objectividade, rigor e isenção, nada deixando ao acaso.

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  3. Vamos aguardar o próximo relatório depois da Manif,os seus resultados

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