sexta-feira, 7 de julho de 2017

[3052] "Claridade", nhô Balta, os sempre "corajosos heróis d'pli squina" e a censura

Ele, Baltasar Lopes, o diz em depoimento à edição fac-similada de "Claridade" de Março de 1986, por altura das comemorações do 50.º aniversário da saída do primeiro número da mítica revista de arte e letras de Cabo Verde:

 "(...) O curioso é que alguns censuraram Claridade, acusando-a de, durante a sua vigência, no regime colonial, não ter assumido uma atitude mais concretamente combativa, mais polemicamente expressa, no sentido da independência política do nosso arquipélago. (...) Que vistam a pele do lobo os opositores de Claridade, que imediatamente se veriam in mente a caminho, pelo menos, do presídio do Tarrafal... (...)

Praia de Bote mostra aqui os sinais evidentes de como era "fácil" publicar esta revista que hoje é um marco dos mais importantes da cabo-verdianidade e da sua cultura.

N.º 1 - Por algum motivo, o n.º 1, de Março de 1936, não apresenta sinal de ter passado pela censura. Por quase coincidência, a 14 de Maio desse mesmo ano regulava-se a fundação de jornais (também de revistas?) em Portugal.

N.º 2 - A negra e famosa frase vem no final da penúltima página (este número da revista teve 10), sob um trabalho de Manuel Lopes.


N.º 3 - A frase, de grafia idêntica, vem no final da última página, a 10, novamente sob texto de Manuel Lopes.


N.º 4 - A frase passou a estar enquadrada por linhas paralelas, duas em cima e outras tantas em baixo. Vem mais uma vez no final na última página, desta feita a 40, sob trabalho de recolha de conto popular, feita por Baltasar Lopes.


N.º 5 - Este número tem 44 páginas e a indicação vem, como antes, no final da última página, agora sob poema de Nuno de Miranda, separada deste por uma linha.


N.º 6 - Número com 42 páginas. Na última, a frase, sob poema de Pedro Corsino Azevedo. O tipo de letra deixou de ser bold, como sempre fora antes, mas o tamanho é maior. Há enquadramento de linhas, uma em cima e outra em baixo, tudo separado por uma terceira em relação ao nome de Nuno de Miranda.


N.º 7 - Não há sinal da passagem deste número da revista pelo crivo da censura. Isto, apesar de por exemplo em poema de Aguinaldo Brito Fonseca se ler: "O povo gritou de fome (...) O povo caiu na lama (...) O povo martirizado, etc."

N.º 8 - 76 páginas. A frase, que surge na última, é desta vez de tamanho mínimo, mal se dando por ela.


N.º 9  - 84 páginas, o número com mais páginas de sempre. A situação e dimensão da frase são idênticas às da do número anterior, aqui sob poema de Baltasar Lopes/Osvaldo Alcântara.


2 comentários:

  1. Naquele tempo os herois eram conhecidos pela forma como conseguiam passar no meio da chuva. Não precisavam mandar foguetes.
    Agora hà-os autoproclamados e proclamam-se herois.

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  2. Quando se apanha em contexto político favorável, em que não há risco de coisa nenhuma, ou porque se tem o conforto do poder ou porque a censura doravante imposta tem a chancela de quem tem precisamente esse conforto, é fácil fazer julgamentos gratuitos sobre a acção dos que agiram em situação completamente diferente, bem adversa. Foi o que aconteceu a intelectuais do PAIGC que se permitiram um julgamento tão hipócrita como injusto da acção dos Claridosos. Teve inteira razão o já lendário Baltasar Lopes quando teve estas palavras que o PdB agora reproduz: “Que vistam a pele do lobo os opositores de Claridade, que imediatamente se veriam in mente a caminho, pelo menos, do presídio do Tarrafal... (...)”
    Aliás, não se esqueça nunca de que entre os que fizeram ou interiorizaram semelhante juízo estava quem tivesse pensado em mandar prender Baltasar Lopes, certamente porque o sabiam um opositor ao novo regime opressor que se substituiu ao anterior em Cabo Verde.
    Sou um homem de paz e tolerância e esforço-me continuamente por ser justo e de boa consciência. Indigna-me a hipocrisia, a falsidade, a inverdade e o oportunismo. Tudo isto tem na sua matriz a cobardia moral, que é dos defeitos que mais me enojam.

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