quinta-feira, 1 de fevereiro de 2018

[3474] Comunicações do governador de Cabo Verde Barjona de Freitas à Sociedade de Geografia de Lisboa

Ver AQUI
Intitula-se o livrinho editado em 1905 pela Livraria Ferin (Rua Nova do Almada, 70-74, Lisboa), "Considerações Sobre a Província de Cabo Verde" e é da autoria do já então ex-Governador de Cabo Verde António Alfredo Barjona de Freitas, tenente-coronel do Serviço de Estado-Maior e sócio do Instituto de Coimbra e da Sociedade de Geografia de Lisboa. 

Formam-no 72 páginas e contém duas comunicações, uma de 5 de Dezembro de 1904 e a outra de 9 de Janeiro de 1905 (esta, muito mais longa que a primeira). A hesitação de que o militar fala logo no início da primeira comunicação deve-se, conta-o ele a seguir,  ao facto de não estar na posse de muita documentação pessoal, na altura ainda retida na Praia, por via de se ter demitido do seu cargo: "(...) Quero explicar que embarquei na intenção de voltar à província e que ali deixei os meus livros e papéis, as minhas notas e apontamentos, todo o material de estudo que me poderia permitir tornar menos insignificante a ligeira exposição que vou fazer a Vossas Excelências. Encontrando porém, em Lisboa, uma situação ministerial diversa, entendi do meu dever oferecer a minha demissão (que foi aceite), pela convicção em que estou de que sendo indispensável a quem governa no Ultramar a força e apoio que só lhe podem vir da comunhão de ideias com o ministro, deve este ter inteira liberdade na escolha dos governadores. (...)

Uma nota nossa sobre o segundo recorte: "Para que, porém, Cabo Verde possa alcançar a situação desafogada a que há pouco aludi, não basta um governo bem orientado nas suas necessidades, mas ainda que ao trabalho e esforços de lá [realizados em Cabo Verde] correspondam trabalhos e esforços de cá [da Metrópole]. Ou seja, Barjona de Freitas (nomeado governador de Cabo Verde a 10 de Agosto de 1903 pelo governo nacional de Hintze Ribeiro, esteve no cargo até 1904) tocava numa ferida antiga que se prolongou bastante, depois destas suas palavras. É que houve de facto governadores de Cabo Verde com imensa qualidade, que se preocuparam com a colónia e que sofreram com os sofrimentos dela e contudo não obtiveram do governo central as ajudas de que necessitavam. Mas isso já nós sabemos: que Cabo Verde foi colónia esquecida, mais que qualquer outra.



10 comentários:

  1. Este é daqueles “posts” que me enchem as medidas, porque revisita a memória dos graves e endémicos problemas de Cabo Verde (memória pungente mas que não pode ser ignorada) e põe em destaque o carácter, a honorabilidade e o espírito humanitário de um oficial que passou pelo governo da colónia.
    Só por uma questão de precisão no uso de terminologia castrense, não se diz Serviço de Estado-Maior, como está no texto, mas Corpo de Estado-Maior. Os Serviços do Exército Português eram e são basicamente: Serviço de Administração Militar, Serviço de Material, Serviço de Saúde e Serviço Geral do Exército.
    O Corpo de Estado-Maior era um corpo formado por oficiais das armas (Infantaria, Cavalaria, Artilharia, Engenharia e Transmissões) e que exigia a frequência de um curso de dois anos após o curso normal das armas. Era normalmente frequentado no posto de capitão. Esclarece-se que as Transmissões não existiam como arma no tempo do tenente-coronel Barjona de Freitas, pois só passaram a sê-lo a partir da década de 1950, salvo erro, e creio que já nos finais dessa década. Antes disso estavam na arma da Engenharia.
    Não é por acaso que os oficiais do Corpo de Estado-Maior eram os mais escolhidos para funções fora do âmbito militar, nomeadamente para cargos superiores de chefia na administração pública. Tinham maior preparação em determinadas áreas do conhecimento, em especial a geopolítica, a estratégia geral e especializada, a geografia física e humana, a liderança, a administração, etc., para além do que era específico do conhecimento militar. No entanto, dizia-se que os oficiais do Corpo de Estado-Maior não eram bem talhados para o comando directo de tropas, porque perdiam a “sensibilidade” própria para a condução de homens. O Spínola, por exemplo, que não tinha o curso de estado-maior, não apreciava estes oficiais. Basta ver que nas suas funções de governador e comandante-chefe da Guiné os oficias da sua confiança eram os das armas, com provas dadas em combate.
    Toda esta deriva serve para dizer que existe uma boa memória acerca do desempenho dos oficiais que governaram Cabo Verde (e outras colónias), fossem do Estado-Maior ou não. Poucos civis os equiparavam em espírito de missão e dedicação ao serviço público, em honradez e em verticalidade moral. Não aproveitavam os seus cargos para colher quaisquer vantagens e benefícios pessoais, no imediato ou visando o futuro. Basta ler as palavras do antigo governador para ver que não lhe interessava qualquer compromisso com clientelas políticas, mas apenas agir conforme os ditames da sua consciência. Terminados os seus cargos civis, regressavam às funções normais da sua condição militar. Não eram (nem são) ricos, a não ser que tivessem bens pessoais de origem familiar ou da esposa.
    E pronto, desculpem lá este arrazoado de um comentador que é militar e que não se arrepende de o ter sido.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. "Só por uma questão de precisão no uso de terminologia castrense, não se diz Serviço de Estado-Maior, como está no texto, mas Corpo de Estado-Maior." É assim que está na capa do livro, como podes verificar. Deve ter sido imprecisão de quem escreveu ou então era assim que se designava na altura.

      Braça com agradecimento pelo interessante (como sempre) comentário.
      Djack

      Eliminar
    2. Quanto ao "arrependeres-te" de teres sido militar, era o que faltava. Aliás, "és" militar, mesmo aposentado. Um militar, nunca deixa de o ser. Basta o pormenor do bilhete de identidade que o atesta.

      Braça com continência,
      Djack

      Eliminar
    3. Djack, não quis dizer que a responsabilidade pelo mau uso da terminologia foi do PdB. Nada disso. E a terminologia correcta foi desde sempre como expliquei. Tenho em meu poder uma lista de oficiais de princípios do século XX que o confirma.

      Eliminar
    4. E tens razão, Djack, um militar profissional é-o para sempre. É como um ferrete. Tu sabes bem que é assim por seres filho de militar.

      Eliminar
  2. Militar é uma profissão que sempre admirei.

    ResponderEliminar
  3. Ora aqui está um testemunho histórico importante relativo à administração colonial portuguesa que devia ser mais conhecida e estudada pelos académicos cabo-verdianos! Como aqui fica patente, a História é longa (não começa no Estado Novo nem no pré-1974) e nem sempre é unívoca (abriga, literalmente, várias vozes no seu seio). E que mais vozes como estas, mais Barjonas empenhados e sem papas na língua, houvesse!

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Hum, sim, acho que ainda há muitos complexos em tocar nestes homens que em geral foram uma tábua de salvação, em épocas diversas, para Cabo Verde. Eles é que lutavam pelos cabo-verdianos (aliás, com a ajuda de senadores e deputados originários das ilhas), enquanto aqui no rectângulo Europeu os governantes quase sempre sofriam de surdez e falta de vista...

      Os investigadores cabo-verdianos não têm absolutamente nenhuma razão para complexos e devem mas é meter mãos à obra. Este filão dos governadores dá para não sei quantas teses de mestrado e doutoramento. É só ir ao saco e escolher.

      Braça com lançamento de escada "governadoral" para a Carmo se abalançar a um pós-doutoramento centrado neste tema.
      Djack

      Eliminar
    2. Safaaaaaaaaaa, já me ia esquecendo... E quando essa tese for publicada em livro, eu faço o prefácio. Aqui, sou eu a lançar a escada, ahahahaha

      Braça com oportunismo,
      Djack

      Eliminar
    3. Apoiado cem por cento, Djack. Para muita gente a memória é de geometria variável.

      Eliminar

Torne este blogue mais vivo: coloque o seu comentário.