quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

[0178] Mais um texto do nosso colaborador Adriano Miranda Lima

DE UM DOCE OLHAR DE MEL E CANELA

Adriano Miranda Lima
Tenho por hábito frequentar, num certo centro comercial de Lisboa, um desses quiosques/esplanadas onde se toma qualquer coisa para entreter o estômago quando se está em trânsito. A minha ementa dilecta é invariavelmente um café e um pastel de nata. Sucede que o café ali servido é o da minha marca preferida e o pastel de nata é de muito boa qualidade, nada ficando a dever aos celebérrimos de Belém, o que configura razão bastante para eu preferir sempre essa esplanada. Resta dizer que nunca me dispenso de regar o pastel com boas doses de canela, sobretudo depois de saber dos benefícios dessa especiaria para a saúde humana. Ainda mais quando acredito nas vantagens da ligação simbiótica entre a canela e o mel, preferindo pensar que seja este e não o açúcar vulgar o ingrediente da receita da dita cuja.

Há dias, numa dessas minhas incursões, vi que uma das empregadas que ali servem tem iniludivelmente o fenótipo cabo-verdiano, mais propriamente o da ilha de Santiago. O leitor tem o direito de duvidar da gabarolice do meu “olho antropológico” nestas lides de distinção classificativa, mas eu explico. Tenho realmente certa facilidade em identificar a ilha de origem da maior parte dos nossos conterrâneos, e raramente me engano. E se é patchê (1), badio (2), sueco (3), mindelense ou foguense, normalmente acerto. Independentemente da cor da pele, dos traços fisionómicos ou do tipo de sotaque crioulo que preside à expressão oral em português, há qualquer coisa no olhar, na postura, na expressão ou nos gestos que denuncia fatalmente a ilha de origem perante quem seja razoavelmente arguto na observação. No entanto, penso que qualquer patrício pode gabar-se do mesmo.

Quanto à empregada, que deve andar pelos vinte e poucos anos, tenho a quase a certeza de que é badia. Num primeiro impulso, estive para lhe perguntar, mas depois contive-me para não ser mal interpretado, ainda que eu pudesse acompanhar a pergunta com o cauteloso esclarecimento de que também sou filho das ilhas e me é sempre grato abordar e ter dois dedos de conversa com um patrício, seja macho ou fêmea. Claro  que, no último caso, pode correr-se  sempre o risco de provocar uma reacção silenciosa  do género: "Mas que quer o gajo?"

Tipos de mulheres de S. Vicente (retratando empregadas domésticas de cerca de 1920/30)

A cor da pele da moça é daquele castanho, a descambar para o escuro, típico da média da população da nossa terra, as feições são harmoniosas, podendo dizer-se que se trata de um rosto discretamente bonito e apelativo dentro do seu tipo étnico. Mas o que ressalta na fisionomia dessa jovem, iluminando-lhe todos os traços, é a expressão doce do olhar. Os olhos não são muito grandes mas possuem uma dessas características peculiares que são indescritíveis, como o é tudo o que transcende a visão empírica da realidade física. Em sintonia com o olhar calmo e meigo, mas discreto como tudo o que é natural, concorrem ainda em abono dela a simpatia, a correcção de maneiras e a presteza com que atende os clientes. Mas tudo isso sem poses artificiais ou atitudes preconcebidas para impressionar quem quer que seja. À falta de outra epítome classificativa, e incapaz de encontrar o termo comparativo mais condizente, direi que os olhos dela são uma síntese perfeita entre a doçura do mel e o aroma da canela, ingredientes do meio natural que misturados resultam em algo de encantatório para os sentidos e benéfico para a saúde.

Os olhos são, efectivamente,  emanação da sua alma limpa, bela e transparente. E se alguma dúvida pudesse ter, atente-se no que se segue. Ia eu, momentos depois, a subir uma escada rolante do centro comercial e ela seguia uns três lanços à frente. Foi simples coincidência, que isso fique claro para o leitor não me julgar um vulgar Don Juan ou patético galifão atrás de jovens raparigas, coisa que, aliás, nunca foi do meu estilo e nem se coadunaria agora com a idade que tenho. Ora, dizia eu, ia na escada rolante quando reparei que a moça estava a conversar ao telefone. Terminada a conversa, não sei se com os pais, se com o seu “cretcheu” ou até com um filho, ela beijou suavemente o aparelho e olhou para o lado mostrando uma ternura a transbordar-lhe o olhar de mel e canela.

Perguntará agora o leitor como posso afirmar de ginjeira que ela é mesmo badia. Por que não mindelense ou de outra ilha? Bem, é que acho que a badia tem uma natureza em si mesma mais contida do que, por exemplo, a mindelense, um misto de comedimento e timidez, o que não quer dizer que algo em latência não possa reagir efusivamente a um qualquer estímulo. Acho que a mindelense tem os sentidos mais expostos, mais atentos às solicitações exteriores. Avançaria, para fundamentar a minha avaliação,  com um juízo que pode estar errado ou não. Apesar da idiossincrasia cabo-verdiana ser transversal aos povos de todas as ilhas, na natureza humana da badia está ainda presente uma certa imanência da mãe África, ao passo que na natureza da mindelense  reside um sortido de influências  que podem ter esbatido um pouco o que a herança africana tem de mistério e sedução. Em suma, a miscigenação não se operou tanto na alma da badia como aconteceu na da mindelense, daí que possa residir naqueles olhos o que a África tem de mais puro e de mais sublime.

Adriano Miranda Lima
 Tomar, 4 de Janeiro de 2012


(1) Natural da ilha de S. Nicolau
(2) Natural da ilha de Santiago
(3) Natural da ilha de Santo Antão

5 comentários:

  1. Aqui está um bom ponto de partida para uma análise mais aprofundada da diversidade atropológica dos povos das ilhas e dos motivos que terão ditado tal diversidade. É uma área que, simplesmente, me desperta a maior das curiosidades. De resto, amigos, volta a "falar" o poeta na romantica análise da criola, badia ou não, africana, sim, cabo-verdana, talvez, bela, sem dúvida, de olhar de mel e canela que não se sabe se promete ou se esconde...Lindo!
    Zito Azevedo

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  2. Verdade, verdade, sem nenhuma dúvida quanto aqui dizes. E por mais que procuro não vejo nenhuma maldade porque preta pretinha na nôs é palavra de admiração, superlativo de bniteza. Quando têm a cor de canela quer dizer que é bela, quando sorri é para mostrar dentes lívidos que acompanham um sorriso de ouro. Pergunto se foste para o café e o pastel de nata ou se foste la para ver a beleza nata.
    Faço-te confiança, meu amigo. Ver é o comer dos olhos mas o que tens é ainda melhor.
    Parabéns pelo encontro e pela tua análise.
    Valdemar
    P.S. - Na próxima viagem, faz um desvio e procura se há outra... de passagem.

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  3. APROVEITO O ESPAÇO APENAS PARA ESTRANHAR O SILENCIO QUE TEM RESPONDIDO AOS MEUS MAILS...
    HAVERÁ, DE NOVO, PROBLEMAS NA CAIXA DO CORREIO?

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  4. Bom dia, Adriano!

    Passei ontem aqui para abraça-lo pelo esperado e acontecido dia para povos que a aguardam: a Independência. Aqui na Bahia, comemoramos um novo raiar de sol como canta o Hinho, no dia 2.
    Quero parabenizá-lo mais uma vez, por essa crônica, onde podemos sentir o cheiro do café e da canela, ver as cores do mar, tocar popa e proa dos botes. perceber os contornos. olhos e olhares,a sutilezas das mulheres, que, assim sendo, chamam atenção; O jeito competente, forte, sem deixar de ser singelo e amoroso , que carecteriza seus escritos, é mister também registrar. É tudo como se lá estivéssemos. Parabéns!

    Yara Lima Oliveira
    digitando de Feira de Santana -BA - Brasil

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  5. Por mero acaso, reli neste post a presente crónica escrita há quase 2 anos, e notei um erro no uso da palavra epítome. Está "à falta de outra epítome classificativa", quando devia ter sido "à falta de outro epítome classificativo", por a palavra epítome ser um substantivo masculino. Mea culpa.

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