terça-feira, 31 de julho de 2012

[0229] LIVRO "MORNAS - CANTIGAS CRIOULAS" DE EUGÉNIO TAVARES (3 - FORÇA DE CRECHEU)

Força de Crecheu

Ca tem nada na es bida
Más grande que amor.
Se Deus ca tem medida,
Amor inda é maior…
Amor inda é maior,
Maior que mar, que ceu:
Mas, entre otos crecheu,
De meu inda é maior.

Crecheu más sabe,
É quel que é de meu.
El é que é chabe
Que abrim nha ceu…
Crecheu mas sabe
É quel
Que q´rem…
Se ja´n perdel,
Morte ja bem…

Ó força de crecheu,
Abri ´n nha asa em flor!
Deixa ´n alcança ceu
Pa´n bá oja Nós Senhor
Pa´n bá pedil semente,
De amor coma es de meu
Pa´n bem da todo gente
Pa todo conché ceu!

4 comentários:

  1. Isto, sim, é letra para morna. Eugénio Tavares, B. Leza e, mais tarde, Manuel de Novas, são compositores que honraram e dignificaram a morna. Além de outros, claro.
    Todavia, há letras de morna que são um autêntico ultraje à beleza musical do género. Há mornas bonitas mas com letras de um incompreensível primarismo e a por vezes a roçar o ridículo (“Ai Cabo Verde, terra de alegria….”). Não percebo como as pessoas não dão por isso e como não existe uma crítica mais severa que estimule a criação de belos e sugestivos poemas para a morna, para mais numa terra em que não faltam poetas. Repare-se que sou capaz de ressalvar os casos de letras elementares e de versos repetidos ou estribilhos que fazem moda actualmente em toda a parte. São casos em que a letra funciona mais como o suporte da melodia e ou da voz do que como conteúdo poético. Incluo neste caso o Tito Paris, que é um compositor e cantor que aprecio.
    Trouxe de Cabo Verde um CD com uma selecção de belas mornas, que me foi oferecido. São 17 ou 18 e entre elas há uma ou outra que não são do meu agrado por pecarem exactamente pela vulgaridade pimba da letra. Mas há no conjunto belíssimas mornas nas vozes de Cesária (quando estava no auge das suas qualidades vocálicas), da Titina (ai, a “Noite do Mindelo”) e do Ildo Lobo, onde se pode apreciar tudo o que a morna tem de belo (voz, música e poema).
    Vou enviar uma cópia desse CD ao Djack.
    Mas para mim, o Eugénio Tavares continua a ser o maior de todos, mesmo que se diga que o Manuel de Novas enveredou por um estilo mais moderno e a entrar pelo terreno da sátira e da crítica social.
    Ah, a crítica que eu faço à elementaridade das letras de algumas mornas é tanto mais pertinente quando se verifica que as letras das coladeiras são na sua generalidade de boa qualidade e muito criativas na finalidade com que são concebidas. Dir-se então que o compositor se sente mais inspirado para a sátira e a brejeirice do que para a gravidade dramática da morna? Não sei responder, porque em boa verdade estou a falar de uma área que não domino.

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  2. Eugénio, B. Lèza, Novas e Teófilo Chantre são, cada um "à sê manera" alguns dos muito bons da morna - que há muitos mais, felizmente. Quanto a lixo musical, há em todo o lado, em Cabo Verde como em Portugal. Nada a fazer... ou pouco!... Mas pior, muito pior que haver lixo musical, é haver quem o compre.

    Cá aguardo a colectânea, com entusiasmo.
    Braça mornística,
    Djack

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  3. Adoro esta morna...Canto-a há "milhares de anos" e até a interpretei, imaginem, aos microfones da Emissora Nacional, acompanhado do conjunto de Marino Silva, em Agosto de 1969...Graças a Deus tenho cópia em CD..De resto, falar de mornas com "cabeça, tronco e membros" é falar de Eugénio e poucos mais...Talvez seja suspeito, por conhecer tão bem a Brava, berço da familia de minha mulher, mas não coloco, nesta - e noutras matérias - ninguém a par de Tatai...

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  4. Porque nunca cantei nem sequer dedilhei um ritmo num violão, viajo com as melodias do (Eu)génio pelos tempos passados da minha juventude, tempos em que se podia fazer serenatas e os pais não resmungavam porque foram acordados. Pelo contràrio, apareciam a sussurrar um sentido "obrigado".
    Mas cuidado! Também haviam zangas porque era impossivel contemplar todas as moças e arriscava-se a não as ter para o baile seguinte. Mas isto é outra estôria que teremos ocasião de falar aqui? Espero.
    Agora é dia de nos embalarmos com o romantismo "tavarenses"

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